Echoed
2 Era uma vez um Passado - Parte 2
Com os último anos que eu tive na minha rápida infância, eu vim a me acostumar com aquela sensação de saber que eu podia fazer algo que o Padre ou qualquer outra pessoa não poderia saber... E por alguma razão, eu vim a acreditar que pelo meu silêncio, mais e mais criaturas começaram a aparecer ao meu redor... Pequenas fadas vindas da floresta, próximo ao rio que cruzava as árvores ao norte...
Criaturas parecendo pequenas pessoas, sem um rosto definido ou vestes cobrindo seus pequenos e lisos corpos, que gostavam de me seguir com curiosidade, mas sem nunca deixar a região das árvores... Animais que pareciam espíritos, as vezes um pouco transparentes cruzando o campo, as vezes com um brilho ao redor deles que os destacava, parecendo querer se mostrar para mim, e sumindo agilmente para dentro da mata... Por mais diferente que fossem cada um deles, eu nunca tive razão para me assustar, nunca senti medo, ou ameaça... Eram todos amigos, amigos, para uma criança que nunca precisou temer a vida...
– "Frey, o poço está muito seco, você pode pegar água no rio?"
Eu ouvi o Padre a distância, balançando um balde com a metade do meu tamanho, enquanto segurava em uma outra mão, uma vassoura...
Podíamos ser só duas pessoas, e não bagunçávamos muito, mas o Padre sempre honrava aquele pequeno espaço em que pessoas de longe vinham pedir benção, ou renovar sua fé sem nada mais do que um banco para sentar, e um altar para admirar... E acho que até eu aprendi a honrar também... Não porque era um local sagrado, mas porque era minha casa, e era ali aonde minha única família sempre iria estar me esperando, ao cair de cada noite...
Eu lembro que corri até o Padre, estendendo minhas mãos e esperando que ele me entregasse aquele balde, com todo o ânimo que eu sempre tive para ajudá-lo! Eram aqueles poucos momentos, aonde eu tinha sua atenção, e onde eu podia deixá-lo contente por ter a minha companhia...
...Nossa, como eu sinto falta de casa...
Para uma criança, eu sempre gostei de ter um pai como o Padre... Ele nunca ia dormir sem ter certeza de que eu estava embaixo dos meus lençóis bem aquecido a noite... Ele me ensinava a ler, com aqueles enormes livros que contavam histórias incríveis sobre um deus, e pessoas que viveram sobre sua benção desafiando suas próprias infelicidades... Conversava comigo a cada instante sobre as coisas incríveis que havia visto durante toda sua vida, e me deixava triste por eu não poder contar também sobre as coisas incríveis que eu via todo dia... Ele era compreensivo com os forasteiros, e por mais que cada um tivesse seus problemas, ele os ouvia, e os aconselhava, as vezes com o silêncio, as vezes com uma frase, as vezes com um sorriso... E apenas para mim, ele jamais deixava de sorrir, não importa o que eu fizesse... Era assim que eu sabia que ele me amava muito, como seu próprio filho... Na verdade, chega a ser estranho para mim, falar sobre ele como sendo alguém diferente de meu próprio pai, porque é isso que ele sempre foi.
Até hoje eu guardo o pequeno crucifixo de madeira que ele me deu quando criança... Foi a única lembrança que nunca tentaram tirar de mim durante toda a minha vida, mesmo nos momentos em que eu mais estive cercado de pessoas que desejariam apagar minhas lembranças e desejos, para me transformarem naquilo que mais desejavam possuir...
Com aquele balde em mãos, eu corri colina abaixo, até aquela barreira de árvores que cortava minha visão do horizonte. Uma trilha, quase desaparecendo em meio as folhas no chão, me direcionava até o rio que de tão sutil, mal parecia estar em movimento... Sem depender daquela trilha para achar meu caminho, a memória de meus passos por aquela mesma estrada de sempre eram ofuscados pela presença das pequenas fadas que pareciam saber até onde eu estava indo, elas dançavam ao meu redor, parecendo apontar a direção, e eu como qualquer criança, me preocupava mais em olhar para elas e rir enquanto voavam ao meu redor, do que prestar atenção aonde eu pisava... Correndo cada vez mais para tentar alcançar as mais rápidas que se espalhavam a minha frente, eu mal pude notar aquela raiz de árvore que cruzava a trilha, e tropecei nela, caindo no chão com o balde quase indo parar embaixo de mim!
– "Ahh!"
Com meu susto, algumas criaturas se aproximaram de mim de cima dos galhos das árvores, mas nenhuma ousou chegar perto... Eu pude sentir algo diferente do meu lado, como uma presença forte, e intimidadora...
– "Eu deveria alertá-lo para não correr em uma floresta... Mas foi minha intenção de qualquer modo, faze-lo parar um instante..."
A voz veio dentre os grossos troncos de árvore, e a raiz que antes se entrelaçava no meu pé, começou a retornar para em meio aos troncos, como se fosse um animal voltando para sua toca abaixo do solo...
Eu pulei no susto! Ok, eu via coisas estranhas todo dia, mas nunca vi uma árvore se mexer!! Eu lutei para tentar sentar, me empurrando com meus pés para trás, até encostar nos troncos do lado oposto à trilha.
– "Um garoto tão ingênuo... Para herdar uma capacidade tão grande... É uma piada de mal gosto, para alguém como eu que já vi tanto..."
Aquela voz... "Aquela era uma voz tão familiar, e ao mesmo tempo, tão diferente do que eu lembrava"... Sim, esse era meu pensamento naquele instante em que eu o vi pela primeira vez... Eldanoth.
Sem que ele desviasse seus passos até a minha direção, as árvores ao seu redor começavam a se abrir, como se dessem passagem para aquela enorme criatura... Seu corpo inteiro parecia ser feito de madeira, deformado como troncos e galhos de árvore, como uma pessoa magra, ossuda. Em seus ombros, começavam a surgir folhagens escuras, caindo sobre seu corpo como uma capa, e sua cabeça, mais parecia a de um réptil feita de madeira, do que de qualquer outra coisa que eu já havia visto. Ao redor de sua boca, vinhas se formavam como uma longa barba, assim como por trás de sua cabeça, e no lugar de sobrancelhas, folhagens contornavam seus olhos, como uma guirlanda que contornava seu rosto até atrás. Onde estariam seus olhos, mal se notava de tão pequenos, aqueles pontos pretos, não mais do que as marcas que pareciam esculpidas para adornar todo seu rosto.
Era um ser assustador, e confuso de se explicar... E sua voz, grave e severa, o deixava ainda mais intimidador.
Finalmente antes de me alcançar com suas compridas mãos que pareciam terminar em longas garras, Eldanoth parou, como uma estátua feita de madeira, me encarando como se fosse um filhote encurralado...
– "Não chegue mais perto dele!!"
Uma voz firme e desesperada passou cortando entre nós dois como uma lâmina, e entre nós dois, Ama surgiu, quase como uma labareda que havia acabado de acender com intensidade! Ela esticou seus braços, encarando Eldanoth com certa fúria. Eu não precisava ver seu rosto, mas eu sabia pela sua voz, e pela sutil expressão daquela criatura horrenda, que Ama não estava com seu precioso sorriso de sempre.
– "Não se intrometa Ama! A minha conversa com este garoto é inevitável!"
– "Não me importa sob qual destino você alegue que está servindo, não vê que o está assustando, seu velho rabugento!"
– "QUIETA!!"
Eldanoth urrou, como aquele mesmo som de trovão que eu antes ouvira a tempos atrás, ao que sua voz ecoou pelas árvores, novamente as sombras pareciam se fechar ali perto, e mais e mais, as criaturas ao nosso redor, se escondiam ou simplesmente desapareciam, como se sua voz fosse um comando para que a vida sumisse daquela floresta.
Ama se afastou lentamente, se colocando ao meu lado, e pondo sua mão em meu ombro, esperando que eu me sentisse mais seguro com ela ali... Por mais que eu não conseguisse tocá-la, ou aos outros, as vezes era como se eles conseguissem me tocar, de algum modo, e aquele também nunca passou a ser um assunto para ser pensado por mim, naquela idade.
Finalmente tomando minha atenção, novamente, sem nenhum obstáculo entre nós, Eldanoth prendeu meu olhar com seus olhos negros, e estendeu um de seus longos braços, demonstrando ainda mais seu porte comprido e desigual.
– "Criança, eu sou Eldanoth! O guardião desta floresta! É pela minha benção que vocês humanos entram aqui, e encontram seu caminho de volta, e é sob minha guarda que estão todos os espíritos aqui dentro!"
Novamente ele moveu seu braço, dessa vez apontando suas enormes garras (ou dedos) em minha direção, ao que todo o silêncio possivel precedeu suas palavras de enorme intensidade.
– "Eu estou aqui em meu dever, como arauto dos que regem nosso universo, para difundir o desejo do Destino, e ter certeza de que ele acontecerá como assim deseja... E seguindo esta minha missão, eu devo tomar seu crescimento como minha responsabilidade, até que você parta destas terras."
Eldanoth falava cada sentença, como uma mensagem sagrada que ele havia de pronunciar, em um ritual de iniciação. O que possivelmente era desnecessário, mas o único modo que ele sempre soube de fazer as coisas...
– "Pare de enrolar de vez, você e seus velhos métodos...!"
Ama novamente interrompeu-o, levantando-se e ficando em pé ao seu lado, me olhando com um sorriso em seu rosto...
– "Freyjah, Eldanoth é o guardião desta floresta, e ele, assim como eu, sempre o observou desde pequeno, esperando você crescer para desenvolver seu dom da maneira correta..."
– "É EXATAMENTE ISSO QUE ESTOU FALANDO!!..."
– "Quieto! Deixe-me continuar! Frey, existe uma razão para que tenhamos que conversar agora, especialmente porque Eldanoth resolveu finalmente surgir para você, e isso é o sinal de que você está se desenvolvendo, e por isso, precisa ser educado sobre ele... Esse dom que você possui nunca estará com você por opção, assim como também não haverá jamais uma explicação para ele existir, e você terá que aprender a aceitá-lo, mesmo que ele continue a se desenvolver e revelar coisas no mundo que talvez você jamais quisesse descobrir..."
A voz de Ama tornou a ser doce e compreensiva, mesmo que me olhasse com um olhar bem triste e compassivo... ela se agachou na minha frente, tentando falar de um modo que eu pudesse ao menos entender suas palavras, mesmo com Eldanoth presente, distraindo meus sentidos.
– "E futuramente você vai perceber que... tudo que você vê ao seu redor não possui mais voz ou palavras a serem ditas, do que as que eu posso estar tendo agora, ainda sim, tudo aquilo que você virá a ver, tem uma razão para existir... Não esqueça que quase sempre estas razões são puras e jamais movidas por interesses humanos. Nós somos almas, e na alma, a transparência e a verdade superam todas as outras intenções. Eu te digo isso, porque você viverá cercado de pessoas que não entendem esse mundo, e sempre tentarão deformá-lo como assim desejarem... Mas você, que enxerga tão claramente, não pode permitir também que com o tempo os outros deformem sua visão junto..."
Eu me ajeitei, finalmente me sentando direito, enquanto não tirava os olhos de Ama que se prendia em sua enorme explicação... percebendo que o que ela precisava que eu aprendesse, era importante... E mesmo que naquele instante, não estivesse fazendo o menor sentido para mim a razão de toda aquela conversa, eu tentei cooperar mostrando interesse, do melhor modo que eu, uma criança de 6 anos, poderia!
– "... Então... Vocês são... Fantasmas?"
Eu perguntei sem conseguir que minha voz saísse direito, sabendo que eu podia estar falando qualquer besteira, já que realmente não estava conseguindo acompanhar fielmente o assunto. Mas Ama apenas olhou para mim, surpresa por um instante, e segurou um riso abafado.
– "... Não, criança tola... Não somos meros fantasmas que ficam vagando em seus pesadelos a noite e preenchendo seu mundo com anseios mortais...! Somos vida, somos diferente dessas coisas que você andou aprendendo por aí naquelas confusas literaturas de seu povo! Somos a vida que alimenta e povoa este planeta, em sua forma mais sutil! E mais poderosa!"
Eldanoth parecia um pouco frustrado, mas ao menos tentou explicar para mim, dessa vez com uma voz bem mais calma, e uma postura mais reservada... Quase... Como se ele estivesse mostrando uma paciência que não parecia pertencer a ele...
– "Você pode nos chamar de espíritos, porque não existimos do mesmo modo que você existe, não somos tocados ou vistos do mesmo modo que você vê ou toca os outros... Nossa existência, não está relacionada a sua raça, mas apenas ao mundo em que ambos habitamos... E certamente não existimos ao mesmo tempo que você criança, e sua raça, existem... Porque o tempo nunca será uma força capaz de nos afetar ou mudar, do mesmo modo que sempre fez com vocês humanos..."
Eu olhei para os lados ainda confuso... Até hoje eu não sei dizer se Eldanoth estava em seu juízo perfeito, pois nunca que me pareceu ser aquele, o modo ideal para se explicar qualquer coisa para uma criança de 6 anos especialmente porque eu só tinha 6 anos!!... Mas tudo bem porque, com o tempo, e por conta própria, eu consegui finalmente compreender o medo deles, e suas razões para terem tido aquela conversa comigo o quanto antes, mas... Como explicar para uma criança naquela época, que as coisas que seriam enfrentadas por ela durante sua vida, dependeriam dela entender seu próprio mundo desde cedo...?
– "Freyjah?"
Ama se levantou, movendo sua mão em um gesto para eu também me levantar.
– "Não se preocupe se não entender algo agora, o entendimento que precisamos que você tenha, deverá vir no tempo certo, você apenas nunca deve permitir que outras informações diferentes, se tornem mais importantes do que isso que dissemos, entendido?"
Eu balancei minha cabeça bem devagar, sem parar de encarar Ama, receoso de estar concordando com algo que eu não iria saber fazer na prática, já que na teoria já estava confuso...
– "Você tem um dom criança, um dom proibido de ser compreendido por aqueles que não veem o mundo da mesma forma que você... Seu propósito por isso, será sempre confiar primeiro em si mesmo, e apenas depois, naqueles ao seu redor... Você ao menos entende isso?"
Eu novamente balancei minha cabeça, só que mais firmemente, concordando com Eldanoth.
– "Ótimo, e cumpra com seu dever em silêncio, ou poderá acabar como todos aqueles tolos que não deram ouvidos ao bom senso de ficarem quietos...! Me entendeu!"
Novamente, sua tempestuosa voz se ergueu por entre todas as árvores, me deixando não menos do que apenas a capacidade de balançar minha cabeça, esperando que ele pudesse me deixar em paz finalmente!
Vendo minha reação, Eldanoth, com um abafado murmúrio se virou irritado, e em um único movimento, deixando o rastro de seu manto de folhas arrastarem no chão e sem falar mais nada, retornou pelo mesmo caminho de que saíra entre as árvores, claramente irritado, mas sem nenhuma palavra a mais que desejasse trocar naquele dia... Finalmente sumindo da minha vista, e da de Ama...
– "Não se incomode tanto com Eldanoth... Os anos nesta floresta o tornaram rude, mas ele faz tudo com um bom coração, meu pequeno Frey..."
Finalmente reparando o bom estado de espírito de Ama, ao que a luz parecia novamente retornar para a floresta, eu me virei para ela e perguntei, bem mais calmo...
– "...Eu não entendi oque ele queria..."
Ouvindo isso, Ama deixou escapar uma expressão de choque, e logo em seguida começou a rir, sem conseguir se controlar!
– "Hahahaha! Frey, você é tão adorável! Nunca mude, entendido? Hahahaha!"
Mesmo confuso com a reação de Ama (Que pelo visto até então estava confiando que eu não estava tendo problemas em acompanhar a conversa inteira), eu ainda me mantive alí ao seu lado, ouvindo por mais tempo suas opiniões e explicações sobre Eldanoth e sobre as outras criaturas que viviam alí, até a tarde daquele dia... Imagino que desde o início, Ama só queria me proteger de em algum momento, eu acabar temendo e rejeitando aquilo que aos olhos dela e Eldanoth, era um dom. Uma benção. Assim como nos livros.
E acho que não tenho que mencionar que o Padre ficou muito preocupado por eu ter chegado tarde...
Depois daquele dia em diante, eu comecei a perceber Eldanoth entre as árvores, sempre me observando, permitindo que eu soubesse que ele estava lá... Assim como cada vez mais, eu conseguia ver novas criaturas nos arredores, raramente humanas, e quase sempre, animais, espíritos daquela floresta, rondando e acompanhando ao que meu “dom” amadurecia junto de mim sem nenhum tipo de treino ou estímulo necessário... E enquanto para mim aquilo tudo se habituava e perdia seu encanto ou importância, tornando-se cotidiano... Para Eldanoth, aquele espírito poderoso que estava preso eternamente dentro daquela floresta, era eu, sua chance de relembrar que ele sempre foi muito mais do que um mero observador do mundo, esquecido pelo tempo... E foi neste ritmo, que ele e Ama, me ensinaram a entender as almas que eu enxergava, os espíritos, que eram tão puros em suas existências, que não existiam por bondade ou maldade, apenas, existiam porque eram vida.
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