Ebony Cross
23 Vigésimo Segundo Capítulo - Retorno
Notas iniciais
Abri meus olhos.
A luz da lâmpada, forte demais, foi a primeira coisa que vi. Reconheci a sensação ruim, que depois evoluiria para uma dor de cabeca. Era essa maldita lâmpada no teto que estava incomodando meu sono no paraíso.
Mas espera.
Essa droga dessa lâmpada eu reconhecia; e as cortinas azuis-claras; e o quadrinho com o símbolo do deus grego Hermes na parede a minha esquerda. Eu estava na enfermeria da Ebony Cross!
Levantei com um pulo, arrancando de mim vários fios e outras coisas que deveriam estar grudados em meu corpo. As máquinas fizeram alguns ‘beeps’ em protesto e meu corpo doía onde os fios e tubos haviam estado, mas eu ignorei tudo. Demorou um pouco para a tontura passar, alguns minutos, mas assim que eu consegui me equilibrar e andar, saí, quase levando a porta comigo.
“Luciane!!!” Uma voz familiar e feminina me chamou. Virei para encarar a dona de tal voz. “Você acordou!” Era uma moça baixinha, de uns vinte e dois anos, loira de olhos azuis e gentis. Ela correu até mim e abraçou-me, tomando cuidado para não me apertar demais e acidentalmente me machucar.
“A-Amanda!” Falei, abraçando-a de volta. Minha voz estava rouca. Não sei quanto tempo fiquei morta e sem falar.
Amanda, namorada do Raffy, era enfermeira na Ebony Cross, então fazia total sentido ela estar ali.
“Luce! Nossa, que alívio! A Irina conseguiu afinal!” Ela dizia, apalpando meu rosto e cabelo como que para provar para si mesma que ela não estava tendo ilusões; eu realmente estava ali, de pé em sua frente, com uma camisola de hospital branca e o cabelo bagunçado e sem lavar desde Deus sabe lá quando.
“I-Irina?” Perguntei. “O quê?”
Irina Uvarov era uma das bruxas que a instituição tinha como ‘aliada’, direto da Rússia. Tínhamos uma feiticeira que fazia parte da instituição, mas ela não era nem de longe tão boa quanto Irina Uvarov. Irina era forte e antiga demais para querer trabalhar aqui como ‘funcionária’, e ela cobrava valores absurdos pelos seus serviços. Ah, e ela era uma bruxa das sombras, uma das mais poderosas. A loira me olhava com uma expressão de compreensão.
“Sente-se, Luce.” Ela me direcionou para um dos sofás da secretaria da enfermaria e sentou-se na poltrona à minha frente. “Vou lhe contar tudo que aconteceu.”
E ela assim o fez.
Aparentemente, eu tinha realmente morrido e ido para o paraíso. Então o tempo que passei com Joshua não fora apenas um sonho, como eu estava começando a desconfiar. Eles chamaram a bruxa Irina Uvarov, pagaram-na lógico, mas Amanda não sabia quanto custara para a instituição, para usar seus poderes e trazer minha alma de volta. Deve ter sido isso que o Josh quis dizer com ‘forças externas’ interferindo na minha morte. A técnica de trazer alguém de volta à vida era muito difícil, e so as melhores bruxas sabiam como fazer. Irina, sendo uma bruxa das sombras e sendo tão antiga como ela é, era uma das poucas que conhecia a ‘receita’.
Depois que ela fez seus feitiços em mim, eu ainda não acordava. Eu respirava e meu corpo funcionava, mas nada que eles tentavam me acordava. A Ebony Cross começou a achar que foram enganados pela Irina, que ela me trouxe de volta a vida, mas de uma maneira que eu passaria o resto da minha vida dormindo. Mas, pelo visto, todos os seres antigos cumprem sua palavra. Levou exatamente um mês para eu acordar. O Rafael e o Tobias não tinham sido chamados para nenhuma missão e ninguém fora chamado para ocupar a minha vaga no grupo deles, já que eu não estava realmente morta.
Ela me levou até meu quarto, que estava igualzinho como eu deixara antes de sair na Missão Sebastian, e me ajudou a tomar um banho. Eu ainda estava meio zonza (Eu acabara de acordar de um sono de um mês, quem não estaria?) e eu estava bem fraca e magra. Parece que o alimento que eles estavam me dando pelos tubos não eram suficientes para mim. Lavei meu cabelo, que precisava urgentemente de cuidados, e coloquei uma calça jeans preta e uma blusa branca comum. Esse era basicamente o uniforme da Ebony Cross. As roupas estavam folgadas, mas eu recuperaria meu peso logo logo. Isso não era problema.
Estava no horário do almoço, então ela achou que meus amigos estariam no refeitório. Fomos ate lá.
Quando abrimos a porta do refeitório, ninguém pareceu notar. Estava lotado. Quase todo o pessoal da Ebony Cross almoçava a essa hora. Algumas pessoas próximas à porta viraram e me viram. Alguns começaram a cochichar. Outros me cumprimentaram: “Oi Luciane!” “Bem-vinda de volta!” e outros comentários assim.
“LUCE!”
Eu já sabia quem era.
Raffy veio correndo até mim, e logo atrás dele veio o Tobi. Raffy me envolveu pela cintura e me levantou no ar, rodopiando comigo. Doeu um pouco, mas eu jamais reclamaria. Eu o abraçei e senti que lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto. “Eu amo você. Pelo amor de Deus, nunca morra de novo, sua doida. Você nao tem noção de como eu e o Tobias ficamos sem você.” O moreno murmurou em meu ouvido. Assim que nos soltamos ele foi até Amanda e ficou ao seu lado, dando espaço para o Tobi.
Eu não sei o que eu esperava que ele fizesse. Ele tinha deixado bem claro que não queria nada além de uma amizade comigo, mas ele ainda era ‘família’. Talvez um abraço? Uma bronca? Mas também tinham as coisas que ele falara antes de eu perder consciência na fábrica.
Eu tenho tanta coisa para lhe falar ainda, Luciane. Você não pode ir. Não ainda.
Tobias andou até mim devagar, os olhos marejados e as mãos estendidas, querendo tocar-me. O que será que ele tinha para me falar? Ele já não tinha dito tudo que tinha para me dizer no Dungeon, antes de partirmos para a fábrica? O loiro pegou meu rosto em suas mãos, acariciando minhas bochechas. Seus olhos examinavam cada milímetro do meu rosto e corpo, conferindo se eu estava realmente bem.
“L-Luce...” Sussurrou tão baixo que eu quase não escutei. Coloquei minha mão em cima da sua em meu rosto e fechei meus olhos, apreciando a senação. De repente, ele me puxou para um abraço, mais apertado ainda do que o do Raffy. Passei meus braços por suas costas, mesmo com a dor, tentando trazê–lo mais para perto. “Luce. Eu estou tão, tão feliz que você esteja bem.” Ele falou em meu ouvido. Apertei-o mais ainda, mas ele se afastou. “Você vai se machucar assim.” Falou com um sorriso e limpou suas lágrimas com a manga da blusa.
Olhei para frente e vi todos no refeitório olhando para nós. Agora todos haviam percebido que eu chegara. Assim que o loiro saiu de minha frente e se posicionou ao meu lado, o cômodo inteiro ganhou vida. Em um piscar de olhos todos estavam de pé e começaram a aplaudir. Olhei para Tobi, mas ele apenas sorriu e juntou se aos aplausos. Virei para trás para olhar para Rafael e Amanda, mas eles também sorriam e aplaudiam.
“Viva a Luciane Dawson!” O moreno gritou e todos gritaram de volta ‘Viva a Luciane Dawson!’. Eu achei que nao tinha mais lágrimas em mim, mas obviamente estava errada. Eu jamais imaginaria que tanta gente assim estava torçendo para eu acordar, para eu sobreviver. A Ebony Cross podia ser uma instituição que praticamente escravizava seus membros, mas nós éramos uma família; A Família Ebony Cross. Os aplausos continuaram por mais uns minutos e depois foram morrendo aos poucos.
“O-obrigada pessoal. Eu, eu não tenho palavras.” Eu disse com minha voz rouca e com um sorriso de orelha a orelha, as lágrimas de saudade, alívio e felicidade escorrendo pelas minhas bochechas.
“Venha, você está super magra. Sente-se na nossa mesa que eu pego comida para você.” Tobias me disse e me puxou gentilmente pelo braço até a mesa onde eu, ele e Raffy comíamos todas as nossas refeições desde o nosso primeiro dia como grupo, há anos.
Sentei e o loiro saiu para pegar um prato com comida para mim. O casal apaixonado sentou na minha frente.
“Sentimos sua falta.” Raffy disse, extendendo sua mão pela mesa e pegando a minha, dando uma apertadinha de leve nela. “Eu e o Tobias... Depois de tanto tempo desacordada... Nós temíamos o pior...”
Amanda deu uma pequena risadinha e sorriu. “Estamos falando da Luce, Rafael. Ela não desiste. Ela luta até contra a morte.”
Sorri pros dois. Por mais que eu amava o Joshua e adorava morar com ele no paraíso, eu estava muito contente em estar de volta, com meus irmãos, amigos e com a Ebony Cross. Um dia eu voltaria para o paraíso e encontraria o Josh de novo, mas, até lá, eu iria aproveitar meu tempo aqui.
Logo Tobi voltou com um prato de macarrão com molho vermelho para mim, era a comida do dia, a Ebony Cross não era famosa por sua variedade de cardápio. Sentou-se ao meu lado e ele e Raffy terminaram de comer suas comidas. Comi meu macarrão sem nem parar para respirar quase. Estava com uma fome do leão.
“Bem, tenho que voltar. Tenho outros pacientes para atender e a Regina não vai gostar nada que eu deixei ela lá sozinha até agora.” Amanda disse, levantando-se. Deu um selinho no Raffy e me abraçou mais uma vez. “Nós duas temos que passar mais tempo juntas. Eu sei que você quase sempre está em missões com os dois, mas sempre que você tiver um tempo livre, passe no meu quarto e me chame para nós fazermos alguma coisa.” Pediu-me e eu concordei. Eu gostava muito da Amanda. De todas as mulheres da instituição, ela era a que eu mais gostava, com certeza. E não era só porque ela ajudou a me salvar e cuidou de mim. Ela era a moça mais meiga e uma das pessoas mais boas que eu conhecia. O par perfeito pro Raffy, em outras palavras.
Os dois já haviam terminado de comer e estavam me observando devorar o prato de macarrão. Lançei-lhes um olhar de ameaça e puxei o prato mais para perto de mim.
“Calma Luce!” Raffy disse rindo. “Não vamos roubar seu macarrão.”
Mostrei-lhe a língua depois de engolir mais uma garfada.
“Ei, Luce,” O loiro me chamou e eu virei para ele. “quando você terminar, eu gostaria de conversar com você.” Ele disse e olhou para o moreno, que concordou com a cabeça, captando a mensgem.
“Eu ainda vou ficar pra sobremesa, mas ainda faltam uns vinte minutos até ficar pronta.” Desviou o olhar de mim e olhou para o Tobi.
“Tudo bem.” Tobias acariciou minha mão enquanto eu arrumava meus talheres no prato, já havia terminado de comer. “Tudo bem se nós formos para o meu quarto, Luce, para conversar?” Perguntou, cauteloso. Fiz que sim com a cabeça e limpei minha boca com o guardanapo. Tobi pegou meu prato e o dele e pôs os dois em cima da bancada onde as cozinheiras os pegariam para lavar. Pegou minha mão, entrelaçando nossos dedos, e me levou até seu quarto.
Lembrei da última vez que estive nesse quarto. Lembrei daquela tarde...
Eu tenho tanta coisa para lhe falar ainda, Luciane.
Será que ele iria me contar agora?
Tobias sentou na ponta de sua cama e me puxou para sentar ao seu lado.
“Eu...” Começou hesitante, segurando minha mão com sua mão esquerda e usando a direita para colocar uma mecha de meu cabelo atrás de minha orelha.
“Tobi...”
“Luce...”
Virei minha cabeça para escapar daqueles olhos azuis. Ele havia deixado bem claro como ele se sentia em relação à mim, e essa situação estava me dando esperanças... Esperanças que seriam destruídas, com certeza.
“Ah, Luce.” Soltou um suspiro e abaixou a cabeça, seus cabelos loiros cobrindo seus olhos e me impedindo de ler sua expressão quando voltei a encará–lo.
“Tobi, o que foi?” Perguntei.
Ele levantou seu rosto e encontrou meus olhos verdes com os seus azuis. Dessa vez não consegui fugir de seu olhar. Ele queria me dizer alguma coisa, mas não conseguia, e seus olhos tentavam desesperadamente me dar uma dica.
“Tobias...”
Pegou meu queixo entre seus dedos e levantou meu rosto um pouco, estudando-me. Passou a língua pelos seus lábios em um claro sinal de nervosismo.
“Luce, eu quero corrigir o que eu falei para você antes...” Ele disse e eu segurei minha respiração em expectativa.
Notas finais
Muito obrigada por ainda acompanharem! Deixem comentários por favor. ♥
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