Ebony Cross
24 Vigésimo Terceiro Capítulo - Esquecer
Notas iniciais
“Luce, eu quero corrigir o que eu falei para você antes...” Ele disse e eu segurei minha respiração em expectativa.
Corrigir o que falou antes? Com certeza estava se referindo àquela madrugada no Dungeon, antes de partirmos para a fábrica, atrás de Sebastian. Mas, se fosse isso mesmo, então quer dizer que ele ainda... Me queria?
Ele ainda segurava meu queixo gentilmente. Eu tinha como sair daquele lugar, em suas mãos, mas não queria. Era incrivelmente reconfortante. Seus olhos azuis, lindos, que eu já conhecia muito bem, estudavam cada milímetro do meu rosto.
“Eu preciso corrigir o que falei antes.”
Involuntariamente, minha mente voltou àquela noite terrível.
Eu – Olha Luce, eu não sou bom em várias coisas. Eu não sou bom em jogar futebol, eu não sou bom em palavras cruzadas, eu não sou bom em geometria e eu também não sou bom em esquecer.
As palavras, por mais que proferidas há um bom tempo, ainda doíam.
Eu sou péssimo em esquecer, mas não em perdoar. Eu perdoo você Luce, mas eu não quero mais ter nada além de uma amizade com você.
Sabe, eu me sentia incrivelmente idiota às vezes. Eu passo a vida inteira, treinando como um cachorro, uma máquina feita para matar, feita para não expôr seus sentimentos para o inimigo e... E, ainda assim, eu não conseguia, de jeito nenhum, segurar a droga do choro quando se tratava de Tobias. Traiçoeiras, as lágrimas invadiam, sem permissão, meus olhos. Manchavam meu rosto por, aparantemente, motivo algum.
“Luce?” Perguntou o loiro, assim que percebeu que eu estava chorando. “Luce, o que houve? Falei alguma coisa ou fiz alguma coisa que lhe machucou?” Estava preocupado, sentindo-se culpado novamente, igual eu fiz ele se sentir quando ele estava me dispensando. Ele tinha toda a razão e eu, estupidamente e involuntariamente, fi-lo se sentir uma merda depois.
“N-não, Tobi. Você não fez nada de errado.” Consegui falar, tentando fechar as malditas comportas que insistiam em me fazer chorar feito um bebê.
Soltou meu queixo e continuou me olhando, com uma cara de quem achava que eu estava mentindo, mas sem me pressionar para falar nada.
“Muito pelo contrário. Você só fez o que era certo, desdo o começo. Você sempre faz o que é certo, independente das circunstâncias. Isso é algo que eu admiro muito em você.” Falei impulsivamente. Eu já estava cheia de segurar as palavras porque tinha medo do que viria a seguir. Eu estava sozinha com o Tobias em seu quarto, já havia feito a minha cota de cagadas. Até morrer eu morri! Agora era a hora de falar tudo que eu tinha para falar, tudo que estava sufocado em meu peito.
“Tudo que você fez estava completamente certo.” Comecei. “Você estava certo em não nos aliarmos com Jullyan.” Falei, algumas lágrimas voltando a cair com a lembrança do meu querido amigo. “Ele era — é meu amigo, e ele nos ajudou imensamente, mas nós somos membros de uma instituição que os caça. Foi estúpido misturar as coisas como eu e Raffy insistimos em fazer. Você tinha razão.”
“Está errada, Luciane.” Ele falou, inesperadamente. “Eu estava errado. Sei que quebramos regras fazendo o que fizemos, mas foi necessário. Ele, como você acabou de dizer, nos ajudou imensamente. Sem ele, nós provavelmente não conseguiríamos ter completado essa missão. Nós nem acharíamos o esconderijo daquele monstro em primeiro lugar. E ele, bem, ele morreu por você, por nós, por nossa causa. Ele foi uma peça essencial no nosso quebra-cabeça, Luce.” Um pequeno sorriso surgiu em sua face. “Ele era nosso amigo. E não existem amizades erradas ou certas. Amizades são amizades, você não escolhe seus amigos. Eles apenas são. E estão sempre contigo para lhe ajudar, e você para ajudá-los.”
Concordei com a cabeça e desisti de segurar o choro. As palavras de Tobias eram tão lindas e sinceras... Ele odiava o Jullyan, e mesmo assim, conseguiu deixar de lado tudo que tecnicamente o impedia de ser nosso amigo e aceitá-lo. Tobi era mesmo um homem nobre.
“Tem razão. Mesmo assim, está novamente certo. Pode ter errado no começo, mas já percebeu e consertou seus erros.” Sorri. “Mas teve outra situação em que você estava completamente certo e eu absurdamente errada.” Meu sorriso sumiu e ele me encarava sério. “Eu lhe traí.”
“Ah, Luciane!” Falou em agonia. “Eu já disse que lhe perdoei, não precisa ficar se chutando por causa disso.”
“Sim, você realmente disse que me perdoou, e eu acredito. Entretanto, você também disse que não iria — não conseguiria — esquecer. E com toda razão.”
“Luce-”
“Não, Tobias. Deixe-me terminar.” Pedi e continuei. “Eu quebrei sua confiança. Foi apenas alguns beijos e alguns toques e, logo em seguida, percebi a tamanha cagada que havia feito. Mesmo assim, eu lhe machuquei muito e isso é algo que nem eu mesma conseguirei esquecer ou perdoar. Eu amava você, ainda...” Engoli em seco. “Ainda amo, e mesmo assim tive a capacidade de lhe machucar dessa forma. Você se distanciou de mim. Não quebrou nossos laços de amizade, mas tomou uma decisão onde eu e você percorreríamos o mesmo caminho, só que não juntos, não como um casal.”
“Luce, por favor-”
“Eu é que peço por favor, Tobi. Por favor.” Segurei sua mão, apertando-a. “Preciso tirar isso de dentro de mim.” Fiquei em silêncio por uns segundos, apenas olhando-o nos olhos, e depois prossegui. “Eu também faria isso, se estivesse em seu lugar, pois é a coisa certa a se fazer. Eu não mereço que você esqueça o que houve, não mereço que você esqueça meu pecado. Na verdade, eu não mereço nem que você me perdoe, porque, se fosse ao contrário, tenho certeza que eu não perdoaria. Isso evidencia o tipo de pessoa que você é, como você é infinitamente melhor do que eu.”
Acariciei sua bochecha, a minha ainda ensopada de lágrimas. “Por isso eu não lhe mereço, e entenderei perfeitamente quando você escolher outra para passar os dias ao seu lado, para percorrer o mesmo caminho junto de você, de mãos dadas.”
Por alguns minutos, Tobias ficou apenas no seu lugar, sem se mexer. O único som que se ouvia no quarto era o som de nossas respirações. Ele me olhava, mas não tinha ódio, nem raiva, nem dor no olhar. O brilho em seus olhos azuis até parecia... Amor.
Com um sorriso que conseguiu aquecer meu coração, trouxe som de volta ao quarto.
“Você está errada de novo.” Falou e deu uma risada curta e baixa. “Eu estava errado nisso também. Eu achei que eu não conseguiria esquecer. Você está profundamente arrependida, estava desde aquela noite quando falei aquelas coisas horríveis para você.”
“Não eram horríveis. Eram verdades.”
“Na época, sim, eram verdades. Mas verdades mudam às vezes, Luciane.” Agora foi ele quem apertou minha mão, que ainda segurava. “Você errou, mas errar é humano. O problema não é errar, é errar e não se arrepender. Errar e crer que seu erro é, na verdade, algo certo a se fazer. Não é o seu caso. Na mesma noite em que você me traiu, você percebeu seu erro e tentou concertá-lo quando veio confessá-lo para mim. Infelizmente, eu fiquei cego de fúria, de inveja, de raiva de Jullyan, por ele ter algo que eu não tinha, algo que fez você se atrair por ele quase que automaticamente.” Respirou fundo. “Eu enxergo agora que — sinto-me horrível falando isso, principalmente agora que ele não está mais entre nós — ele não tinha nada. Eu tinha tudo. Tudo que eu poderia querer, eu tinha. Eu tinha você, Luciane. Mesmo se você foi até ele, você voltou, arrependida, para meus braços.”
“Ah, Tobias... Eu — Me desculpe...”
“Você voltou, mas eu ainda não conseguia enxergar que ainda tinha você, você ainda era minha e eu nunca seria feliz sem você. Eu achava que você iria voltar para ele. Eu via como ele olhava para você, seus sentimentos estavam expostos naqueles olhos díspares dele. O sentimento dele era, como o meu, verdadeiro. Mas o seu sentimento também era verdadeiro. Você sempre me amou, Luce. E eu, eu lhe machuquei também.”
“Tobi, você não tem que fazer isso... Falar essas coisas -”
“Tenho sim. Eu errei também. Eu preciso de você. Quando eu vi você lutando contra a morte, eu entrei em pânico. Eu quis salvá-la, mas não havia nada que eu pudesse fazer. E o pior era a dor de saber que você iria partir para sempre, sem saber o quanto eu realmente lhe amava. Amava ao ponto de esquecer. Perdoar é fácil, Luciane, agora, para esquecer, é preciso muito amor.” Ele sorriu novamente e colocou uma mecha de meu cabelo atrás de minha orelha. “Você iria sumir, pra sempre, e nós terminaríamos daquele jeito idiota.”
Eu podia sentir que tudo que ele falava era a mais pura verdade. Aquele brilho em seus olhos, o sentimento e o tom de sinceridade em sua voz não deixavam nem um rastro de dúvidas. Tobias Somerville ainda me amava.
“Eu nunca mais quero sentir aquele sentimento de novo, aquele desespero. Eu não suportaria a dor de não lhe ter em meus braços mais, Luce. Eu preciso de você, e tudo que passou, passou. Erros do passado que foram perdoados e precisam ser esquecidos, se não, não conseguiremos seguir em frente.”
“Tobias...” Falei, aproximando-me mais dele.
“Eu amo você, Luciane.”
“Tobias...” Falei, as lágrimas continuando a todo vapor. A única diferença era que agora eu não tinha mais vergonha de soltá-las.
“Você aceita a voltar a namorar comigo?” Perguntou, com o sorriso experiente e convencido que eu sempre amei, desde a primeira vez que o vi estampado em seu rosto.
“Eu lhe amo.” Foi minha resposta.
Enrosquei minhas mãos em seu delicioso cabelo e entrelacei minhas pernas em torno de sua cintura. Eu havia sentido tanta saudades dessa nossa proximidade...
Beijou meus lábios devagar, a princípio um beijo casto. Não tínhamos pressa e precisávamos matar a saudade um do outro. Ficar longe de Tobias daquela forma foi a coisa mais dolorosa que eu já passei. Mais dolorosa do que levar um tiro no braço, do que perder minha família e meu melhor amigo, do que levar facadas nas costas, do que ter seu sangue sugado ao ponto de morrer, e mais doloroso ainda do que a própria morte. Todas essas foram coisas que aconteceram comigo e, se eu tivesse que escolher por qual não passar de novo, eu escolheria nunca ficar separada de Tobias. Com certeza.
Suas mãos exploravam meu corpo enquanto as minhas continuavam em seus cabelos. Eu adorava mexer neles. Minha língua pediu passagem, que ele cedeu logo em seguida. Sorriu contra meus lábios.
“O que foi?” Perguntei, curiosa.
“Menina impaciente.” Falou rindo.
Ignorei e puxei sua cabeça de volta em minha direção, tomando seus lábios nos meus novamente. Sua mão esquerda levantou de leve minha blusa e pegou no meu seio, massageando-o por cima do sutiã enquanto sua mão direita subiu para minha nuca, segurando-me carinhosamente ali.
Devagar, ele me deitou na cama, ficando por cima de mim. Seus olhos sorriam para mim e eu sorri de volta. Era isso que eu queria, era isso que eu precisava, para a vida toda.
Tirou minha roupa devagar e lentamente, torturando-me. Eu precisava dele urgentemente. Tirei as roupas de Tobias dez vezes mais rapidamente do que ele tirou as minhas, o que o fez rir novamente de mim.
Voltamos a nos tocar, a nos explorar, a nos amar. Porém, apenas seus beijos e seus toques íntimos não me satisfaziam. Ele estava adorando me ver implorar, mas, após muitos pedidos, ele, finalmente, me tomou como sua.
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