Ebony Cross

21 Vigésimo Capítulo - Trevas e Luz


Notas iniciais
Ainda não acredito que já está acabando! Aqui está o vigésimo capítulo de Ebony Cross, espero que vocês gostem! *-*

As lágrimas de Tobi não paravam de cair, e escorriam cada vez mais. Eu continuava a acariciar seu rosto, mas logo meu braço começou a pesar e a ficar mais cansado, e tive que soltá-lo. Quando tentei levantá-lo novamente eu não tinha forças. Estava imóvel.



Raffy veio correndo até mim, suas roupas também manchadas de seu sangue e o das vampiresas. Ele se ajoelhou ao lado de Tobi e acariciou meu rosto sujo.



“Luce... Eu não acredito... Não acredito que deixamos isso acontecer...” Vi seus meigos olhos cor de chocolate encherem-se de lágrimas também e ele virou o rosto, não aguentando mais ver sua amiga nesse estado.



“Rafael. Cuide dos corpos.” Ouvi o loiro falar, a voz estranha por causa do choro. Eu nunca tinha visto Tobias assim, em todos os meus anos como sua colega.



Consegui virar a cabeça lentamente para assistir ao Raffy. Ele levantou e foi pegar os corpos. Arrastou os corpos das vampiresas e depois pegou o de Sebastian. Usando suas adagas ele começou a desmembrar as moças e, por último, desmembrou o vampiro.



Reconheci o que ele estava fazendo. Estava dando um fim definitivo aos quatro.



Fez uma pequena fogueira com uns pedaços de madeira e uns tecidos que tinham jogados por ali e foi jogando os pedaços dos corpos, um por um, no fogo, esperando até o pedaço que ele jogara ser completamente reduzido a cinzas antes de colocar outro.



Fiquei assistindo àquilo e pude sentir que Tobias ainda chorava ao meu lado. Virei meu rosto para ele, mas pude perceber que eu estava tão fraca que não conseguiria mover nem meu rosto mais.



Iria morrer vendo o homem que eu amava chorar por mim.



Minha visão começou a ficar cada vez mais embaçada, até chegar a um ponto onde eu não conseguia enxergar nada. Mas ainda podia ouvir.



“Luce, Luce fale comigo. Luce! Luce você está me vendo, está me ouvindo? Luce!!!” Tobias gritava para mim, e me sacudia, mas era tarde demais. Eu não conseguia me mexer, não conseguia falar e não conseguia enxergar. “Luciane, por favor, não faça isso. Você tem que lutar. Você é uma mulher forte, eu sei muito bem disso. Não se deixe ser levada, pelo amor de Deus Luciane!!” Ele estava berrando agora, mas não ia adiantar em nada. Eu sabia disso, e ele também.



De repente senti que alguém me levantara. “Vamos levá-la.” Raffy disse, a voz também triste, mas não tão desesperada quanto à do loiro. “Eles devem saber alguma maneira de salvá-la.”



“Ela não vai morrer. Eu não vou deixar.” O outro disse determinado. “Ouviu isso Luce? Você não vai embora, então continue lutando.” E assim começou a andar, comigo no colo.



“Espere!” Rafael gritou, agora de longe.



“O quê? Não podemos esperar nem mais um segundo!”



“Tobias. Eu – Eu vou levar o corpo de Jullyan.” O moreno falou simplesmente, e eu já esperava algo como ‘Queime ele junto com os outros’ ou ‘Deixe o corpo dele aí para apodrecer. Ele é uma peste, afinal’. Mas, para minha surpresa e provavelmente para a de Rafael também, ele não falou nada. Continuou a andar. Pude ouvir Raffy pegando o corpo de Jullyan do chão e o carregando também, alcançando nós dois.



“Aguente firme Luce. Por favor.” O moreno me disse, encorajando-me.



Mas eu já não estava mais conseguindo manter a escuridão longe. Estava fraca e cansada, e todo o meu ser pedia para eu me entregar.



“Eu tenho tanta coisa para lhe falar ainda, Luciane. Você não pode ir. Não ainda.” Tobi suplicou, mas foi em vão.



Aos poucos, o único sentido que me restara, a audição, começou a falhar e eu já não ouvia quase os outros dois. Eu sabia muito bem o que estava acontecendo comigo, e eu estava feliz com isso. Conformada.



“...Luce... um pouco... bem...”



“...seja forte...não... desista... vamos conseguir...”



“... sem você... pesadelo...”



“...não morra...”



A escuridão havia chegado, e, desligando-me desse mundo, entreguei-me à sua imensidão.



– x –



Abri meus olhos. Estava deitada em um lindo gramado. A grama úmida pinicava minha pele. Borboletas brincavam ao meu redor, pousando em mim, querendo que eu acordasse.



Levantei e percebi que eu estava usando um sapatinho de boneca e um vestido lilás, cheio de babados. Tudo isso me parecia estranhamente familiar.



O campo parecia não acabar nunca. Não havia uma casa à vista e nenhum som humano. Era um lugar tão cheio de paz! Imediatamente me apaixonei por esse lugar.



Continuei andando até um aglomerado de pinheiros, onde havia um pequeno lago. A estranha sensação de que eu já estivera nesse local não saía da minha cabeça, mas o lugar era tão lindo e cativante que eu nem dei muita importância a essa sensação de déjà vu.



Aproximei-me do lago e olhei meu reflexo. Lá estava eu, com o vestido e os sapatos. Meus cabelos negros como a noite estavam cacheados lindamente, presos por uma fitinha lilás, combinando com o vestido. Meu reflexo me mostrava uma moça de dezenove anos vestida como uma menininha. Mas mesmo assim eu me achei linda, e não trocaria de roupa de jeito nenhum.



Meus olhos verdes olhavam para mim. Estavam diferentes. Estavam... tranquilos, e isso me fez sorrir.



Sentei-me na beira do lago e fiquei me admirando. Eu não conseguia lembrar muita coisa, mas eu sabia que tinha algo muito importante que havia acontecido. Eu sabia quem eu era; eu sabia que eu havia perdido meus pais e meu melhor amigo ainda muito cedo; sabia que eu havia sido treinada e trabalhava para uma instituição chamada Ebony Cross por onze anos da minha vida. Mas era só. Não lembrava mais nada, e, no fundo, sabia que tinham peças faltando nesse quebra cabeça.



Ouvi passos leves contra a grama. À medida que foram se aproximando, pude ver o reflexo da pessoa que havia andado até mim. Um homem, vestido com uma simples calça jeans e blusa branca. Deveria ter mais ou menos a minha idade, talvez um ou dois anos mais velho. Tinha cabelos castanhos claros e curtos.



“Luciane...” Ele falou, a voz terna.



Virei para encará-lo de frente. Quando meus olhos encontraram os dele, tudo fez sentido. Seus olhos cor de mel eram inesquecíveis, mesmo após tantos anos que eu não os via de perto.



“Eu disse que eu ia estar lhe esperando. Você não demorou, obrigado.”



Num piscar de olhos eu pulei em cima dele, dando-lhe um abraço de urso. Meus braços esmagando-o sem dó. Após se recuperar do susto ele também passou seus braços por mim, e assim, com esse abraço, matamos a saudade que havia se acumulado por todos esses anos.



“Josh!” Gritei e comecei a rir que nem uma boba. Eu achava que nunca mais iria vê-lo e, no entanto, aqui ele estava, em minha frente, crescido e palpável. Meus olhos se encheram de lágrimas. “Eu senti tanto sua falta...”



“Eu também, Luce. Estive vendo você crescer e se tornar a mulher maravilhosa que você é. Você me encheu de orgulho, Srta. Dawson.”



Não consegui conter a risada. “Você esteve me espionando, Joshua?” Acuso-o.



“Eu não usaria o termo espionar.” Ele riu comigo. “Eu estava apenas observando minha melhor amiga, e esperando até ela poder se juntar a mim.”



E, nesse momento, lembrei do sonho que eu tive, logo após o acidente que sofri. Era igual a esse lugar, mas nós estávamos com a idade de quando ele havia morrido.



“Joshua, eu tive um sonho, com você. Não lembro direito da situação, mas era nesse mesmo lugar, mas éramos crianças...”



“Não foi apenas um sonho, Luce. Você realmente veio para cá, eu lhe chamei. Eu sabia que sua hora estava chegando, e quis lhe mostrar que você nunca estaria sozinha, que eu estava aqui, só esperando você chegar.” Ele explicou com um sorriso.



Tentei lembrar mais sobre o acidente, mas não consegui. Eu sabia que eu havia levado uma batida muito forte na mandíbula, mas não lembrava por que nem onde.



“Você quer dizer que... Que eu estou morta?” Perguntei, relutante.



“Sim.” Ele disse apenas.



Não me incomodei muito com o fato, afinal, todos nós morremos em algum momento. O que mais estava me deixando inquieta era o fato de que eu não lembrava nem de como havia sido minha morte. Será que estava doente? Será que sofri algum tipo de acidente? Será que fui assassinada?



“Você – Você sabe como aconteceu?” Ele não respondeu, apenas me fitou com seus olhos cor de mel. “Eu não lembro quase nada da minha vida, Josh. Você esteve me observando, você deve saber!” Implorei.



Ele suspirou. “Sim, Luce, eu sei. Mas, às vezes, as pessoas perdem algumas partes da memória quando chegam aqui, e eu não tenho o poder de mudar isso. Não posso lhe contar.” Pegou minha mão. “É melhor assim.”



Confiei nele. Era Joshua, meu querido e há tanto tempo perdido, Joshua. Deixei ele me guiar de volta para o campo sem árvores.



“Agora que você está, finalmente, aqui, vamos aproveitar.” Ele disse com um sorriso e não pude deixar de sorrir também.



“Obrigada.” Eu disse, mas seu rosto mostrava confusão. “Obrigada por ter me salvado, naquela noite, há tanto tempo. Você morreu, por mim.”



Com um aperto em minha mão ele disse simplesmente: “Valeu à pena.”



Deitamo-nos na grama, minha mão na dele e minha cabeça apoiada em seu peito, olhando as nuvens perfeitamente branquinhas passearem pelo céu azul do paraíso.

Notas finais
Como sempre, peço que deixem reviews com suas opiniões, principalmente agora no final.
Ah, e não, a fic ainda não acabou. :)
Muito obrigada pela leitura!