Ebony Cross
3 Segundo Capítulo - Missão
Notas iniciais
“Senhorita Dawson, Senhor Smith, tenho uma notícia para dar a vocês.” Raffy e eu estávamos sentados na mesa do Diretor Prudence. Ele nos havia chamado assim que terminamos o café daquela manhã. “Porém, estou esperando o Senhor Somerville antes de dar-lhes o recado. Afinal, ele também está envolvido” Mais uma vez ninguém encontrava o Tobi. Ele tinha essa mania de sumir do mapa às vezes. Como o conhecia bem, só podia estar no meio das florestas, andando sozinho. Ele sempre fazia isso quando precisava pensar, e acho que pelo que aconteceu ontem conosco, ele devia estar querendo pensar, e muito.
“Você pensa que alguém com trinta e três anos nas costas têm um pouco de responsabilidade...” Ouvi o rapaz ao meu lado falar.
Eu sabia que o Rafael não estava realmente criticando o loiro, só estava pegando no pé dele, como sempre fazia. Mas algo dentro de mim me forçou a defendê-lo. “Perai Raffy. Até parece que nos chamaram com antecedência. Como que ele iria saber que seríamos chamados aqui para falar com o Diretor Prudence?” Respirei fundo. “Sem ofensas, Senhor.”
“Não, tudo bem Senhorita Dawson. Você tem razão, nem nós sabíamos que iríamos precisar de vocês tão cedo, muito menos o próprio Tobias Somerville.”
“Tudo bem, eu sei disso.” Defendeu-se o moreno. “Mas ele não deveria simplesmente desaparecer...”.
Fomos interrompidos pelo abrir a fechar da porta do escritório. “Desculpem, desculpem. Pela sua cara, Rafael, você devia estar falando mal de mim.” Um sorriso lindo e brincalhão brotou nos lábios de Tobias.
“Como você adivinhou? A Luce agora tem telepatia e te avisou? Tinha que ver ela aqui, parecia sua advogada!” Os olhos azuis do loiro encontraram os meus, curiosos. Eu sorri pra ele, mas com isso, seus olhos ficaram um tanto tristes e logo todo o humor neles sumiu. Ele rapidamente baixou o olhar.
O Diretor Prudence convidou Tobi a se sentar em uma das cadeiras vagas ao lado de mim e de Raffy. Assim que o homem obedeceu, nosso Diretor começou. “Agora que estão todos os presentes, vou esclarecer o porquê de termos os chamado.”
Ele pegou umas pastas de uma gaveta e tirou vários papéis grampeados uns nos outros. Ele então passou alguns desses papéis para mim e para os outros dois. Enorme, escrito bem em cima de cada folha estava: Sebastian.
“Já mandamos vários grupos atrás desse infeliz monstro.” Nunca ouvi o Senhor Prudence falar assim. Nunca em meus onze anos de Ebony Cross. Ele deveria ter muito ódio desse sujeito. “Vocês podem ler nas fichas que acabei de entregar que ele já aprontou o suficiente. Demais, até para uma peste.”
Comecei a ler os papéis que me dera. Entre muitos, estavam listadas coisas como seqüestros, tortura, homicídio (claro), consumismo de sangue compulsivo, e até estupros de algumas vítimas.
“Como vocês já devem ter visto, ele é um dos piores casos que já tivemos. Os métodos de tortura dele são, realmente, horríveis. Acho que nunca usei essa palavra tão bem quanto agora. Horríveis. Por alguns corpos que já conseguimos recuperar, analisamos que ele amordaça as vitimas, às vezes as pendura no teto, usa ferro queimando para ‘decorá-las’, corta partes do corpo como dedos, braços, língua, arranca dentes e, por mais incrível e repulsivo, ele corta as pálpebras de algumas vitimas para elas ‘não perderem’ nenhuma parte da cena. E, é claro, depois se alimenta da vítima e se livra do corpo.” Senti meu estômago se revirar, mas consegui segurar a vontade de vomitar todo meu café.
De canto de olho pude ver Tobi virando o rosto para mim, vendo como eu estava. Pelo jeito não estava com uma cara muito boa. Bom, nenhum de nós quatro na sala estávamos com uma expressão agradável.
“Mas não para por aí.” Continuou. “Dependendo da vítima, e se for mulher, ele a estupra repentinas vezes antes de torturá-la e se alimentar dela.” Depois de fazer uma pausa para nós nos recuperarmos de tantas informações, prosseguiu. “Dos incontáveis grupos que já mandamos atrás dessa peste, nenhum voltou. Então agora estamos recorrendo a vocês, nosso grupo mais bem sucedido. Vocês partem amanhã. Já arranjamos um automóvel para vocês utilizarem até o aeroporto.”
“Aeroporto? Então onde que esse bosta está?” Perguntou Raffy. Todos estavam se perguntando isso.
“Ele está, faz alguns meses, numa cidade chamada Clifton, no Arizona, Estados Unidos. Não é uma cidade muito conhecida, mas é perfeita para ele. Ela não é tão pequena assim e, apesar de ter cidadãos ‘normais’ lá também, existem muitos góticos naquela cidade. É um lugar onde ele consegue se camuflar.”
“Mas e chegando ao Arizona, como vamos chegar nessa cidade se nem sabemos onde fica?” Foi a vez do Tobi fazer perguntas.
“Quando estiverem no aeroporto de Arizona, falem com qualquer um na mesa de informações. Só digam que estão lá pela Ebony Cross e já darão a vocês as chaves de um Land Rover, com GPS incluído, já programado para levá-los a Clifton.” O Diretor pegou os papéis de volta. “A propósito, o voo de vocês sai de manhã, então sugiro que não demorem a se recolherem hoje. E daqui até Arizona, creio que levará umas seis, sete horas.”
Fez um sinal com a cabeça indicando que era para nos retirarmos. “Espero muitíssimo que tenham sucesso em mais essa missão. Sei que são muito competentes em seus trabalhos, mas essa poderá ser a mais difícil e mais perigosa missão que irão ter.” Olhei para Rafael e em seguida para Tobias. “Desculpem avisar tão em cima da hora. Realmente foi uma falha nossa, mas estamos desesperados para eliminar Sebastian. Boa sorte.”
Saímos em completo silêncio. Acho que todos estávamos muito surpresos. Fazia meses desde que nos mandaram para fora da academia e, do nada, nos mandam para uma missão extremamente perigosa. Mas, apesar de tudo, não tínhamos escolha. Não se diz ‘não’ à Ebony Cross. Aqui, você vive para servi-los.
Decidimos conversar num dos quartos, como sempre fazíamos quando precisávamos de uma “reunião”. Acabamos indo pro quarto do Tobi.
Chegando ao quarto do loiro, Raffy já se jogou na cama do mesmo e eu sentei na ponta dela. O dono do quarto se acomodou na única cadeira que cabia no cômodo.
“Vai ser foda dessa vez, hein gente.” Tobi falou.
“Vai. Só quero ver essa agora...” Murmurei. O rapaz de cabelos negros ficou ereto na cama e passou o braço pelos meus ombros.
“Eu sei que está assustada, Luce. Todos estamos. Mas pense bem, ele continua sendo um vampiro, uma peste. Quantos já não matamos? Conhecemos eles. Conhecemos como acabar com suas vidas infelizes. Fogo, luz do sol, veneno, alho. Temos como escolher como queremos que ele morra.” Nisso ele tinha razão. “Tudo bem que ele não é qualquer vampiro, é um vampiro-pscicopata, louco, pirado e compulsivo. Mas isso não tira nenhuma de suas fraquezas.”
“É, eu sei Raffy. Você tem razão. Tenho que engolir esse pavor. Até parece que é minha primeira vez numa missão.” Ri.
“Todos temos que engolir o pavor, Luce.” Era a primeira vez que Tobias estava falando diretamente comigo, desde ontem.
“Bom,” Falou Raffy, se levantando da cama. “ainda quero dar uma passada no quarto da Amanda... Sabe, só pra me despedir antes de partirmos. Ela vai ficar puta da cara quando souber que fomos escalados do nada.”
Não pude deixar de rir. Amanda era a namorada do Raffy, ela era muito divertida e nós adorávamos passar tempo com ela. Mas realmente, ia ficar furiosa... Mas também, quem não ficaria? “Boa sorte com ela Raffy!” Desejei.
“Sabe, acho que vou contar pra ela depois... Vou esperar pra avisá-la.” Ele olhou pro Tobi e os dois gargalharam. “Vou ver se consigo aproveitar uma última vez antes de deixá-la brava.”
Às vezes esses dois me decepcionavam... “Bom saber que você só está pensando nisso.” Falei.
“Não é que só esteja pensando nisso.” Protestou o moreno, já com a mão na maçaneta. “É que, porra, vai saber quanto tempo vou ficar longe dela? Tenho que aproveitar pelo menos.”
“É, ele tem razão nesse ponto.” Lá vai o ‘Super-Tobi’ a favor da masculinidade!
“Valeu irmão!” Eles tinham todo o direito de se considerarem irmãos. Era quase isso mesmo. Eles fizeram um daqueles toques de homens e o Rafael fugiu para fora do quarto.
Sozinhos no quarto, o clima ficou tenso. Parecia que estava tudo bem antes, mas no fundo não estava nem um pouco. Pra tentar quebrar o gelo, falei: “Vai levar uma mala só, né?”.
Meio que rindo, o homem respondeu: “Sim. Não podemos levar muita bagagem. Vamos ter que nos virarmos com uma mochila cada um.”.
Assenti e logo ficamos mudos de novo. Diga-me, quem que começa um assunto sobre malas com o cara que quase lhe beijou no dia anterior? Alguém me de uma arma de uma vez que já enfio uma bala em minha cabeça.
Porém, pro meu espanto, ele saiu da cadeira e se deitou, relaxado, ao meu lado na cama. “Luce... Olha...” Começou. “Ontem eu não sei o que deu em mim. Eu sei que, por causa daquilo, não estamos muito bem, né?”
Ele ia falar mais alguma coisa, mas o interrompi. “Tudo bem Tobias. Não precisa fazer esse discurso todo pra mim. Já sei o que vai dizer. Ontem foi só um ‘impulso’ que te deu. Vai dizer que não significou nada e que é para eu esquecer o que houve porque você o fará. Porque sempre fomos apenas amigos e sempre seremos, e fará mal para nós mesmos se isso for para frente.” Falei. A tristeza pesava em minha voz. E, é claro, ele percebeu. Qualquer idiota perceberia.
Mas, ao invés de protestar, ele agarrou minha blusa, me puxando para baixo, fazendo-me deitar e girou de um jeito que ele ficou em cima de mim. Em segundos, seus lábios acariciavam os meus.
Eu resisti no começo, não porque não queria beijá-lo, mas por ter sido pega de surpresa. Logo, retribui. Senti sua língua passar pelo meu lábio inferior, pedindo passagem, a qual eu cedi. Explorávamos a boca um do outro, mas o beijo continuava calmo. Mesmo calmo, nos fez perder ar, e logo tivemos que nos separar para respirar.
“Luce,” Dizia olhando em meus olhos verdes, ainda em cima de mim. “nunca iria te afastar assim. Eu só quero que você esteja ciente de onde estamos nos metendo. Não vou mentir, você sempre chamou minha atenção. Mas sempre teve uma coisa que me parava sempre que ficava pensando em você.” Eu não precisava pensar muito para adivinhar o que era.
“Sua idade...” Murmurei.
“Sim.” Seus olhos azuis estavam tristes agora, mas não pareciam querer desistir. “Tenho trinta e três, Luciane. Sou quatorze anos mais velho que você. Você entende isso?” Assenti silenciosa. “Você sente por mim o que sinto por você, Luciane?”
“Não sei Tobi.” Admiti. Sua expressão caiu imediatamente. “Não sei, porque não sei o que sente por mim. Mas sei que eu, pelo que meu coração e meu corpo mostraram para mim toda vez que você esta no mesmo cômodo que eu, toda vez que olho para você, toda vez que sinto sua presença, que amo você.” Ainda em cima de mim, seus olhos pareciam brilhar em contentamento.
Notas finais
Obrigada pela leitura e deixem comentários, por favor.
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