Ebony Cross
2 Primeiro Capítulo - Ebony Cross
Notas iniciais
Com esse capítulo vai dar pra entender tudo melhor. Vocês vão entender mais sobre a instituição Ebony Cross. x3
Espero que gostem!
A claridade pousou sobre minha face. Ah a claridade. Eu posso ter aprendido a viver sem ela, mas ainda a adorava. Ela me mantinha segura. Mantinha todos seguros.
Abri mais a fresta das cortinas em minha única janela. Como que algum ser conseguia viver sem o sol? Só podiam ser monstros mesmo. Passei meus olhos pelo meu minúsculo quartinho, procurando meu uniforme. Assim que o achei, o vesti, e desci para o café.
Dei bom dia a todos. Todos me conheciam. Todos se conheciam. Éramos uma família. Uma família especial, onde todos éramos perigosos, mas um perigoso bom.
Onze anos haviam se passado. Já. Nunca me esquecia deles, de meus pais. Nunca me esquecia dele, meu protetor, meu salvador, Joshua. Após o acontecido daquela terrível noite, depois de eu ter revidado aquela peste, encontrei os anciãos, e eles acabaram com ele, do jeito mais prático. Fogo. Questionaram o que havia acontecido, e contei, entre soluços e rios de lágrimas. Limparam minha casa, fizeram um funeral para meus pais e me mandaram para cá. Para Ebony Cross.
Ebony Cross. Como definir isso aqui? Esse era o inferno para onde pessoas interessadas em eliminar as pestes, competentes o suficiente para eliminar as pestes, ou forçadas, vinham para treinar, aprender, matar. Minha situação era um pouco das três. Eu estava interessada; era competente; e fui forçada.
Sempre vinha gente nova para cá. Não nova em idade, vinha gente de tudo quanto é idade pra nossa academia. Sempre me perguntavam minha história, do por quê de eu estar aqui. Eu chamava a atenção. Era uma das que estava aqui há mais tempo. Nem lembro quantas vezes repeti o acidente. Muitas pessoas tinham sofrido acidentes parecidos. Outras não haviam sofrido acidentes em maneira alguma, mas ficaram enojadas pelo que as criaturas faziam. Outras estavam aqui por uma tradição de família, o mais velho vinha primeiro para se tornar o que todos seríamos ou morreríamos tentando ser. Caçadores. Ou algo assim.
Não havia descanso algum na Ebony Cross. Era o dia inteiro estudando as criaturas, memorizando cada minúsculo aspecto sobre eles, treinando na arena contra outros alunos, e às vezes professores, fabricando suas próprias armas nas forjas... E assim por diante. À noite, ninguém ousava pensar em outra coisa além da segurança da academia. Eles sabiam da gente. Sabiam o que fazíamos aqui. Sabiam que estávamos contra eles, só esperando o momento certo para soltar uns dos nossos para destruir uns dos deles.
A partir do momento em que você se mostrava eficiente e sábio, você era escalado para uma das várias missões. Muitos ficavam radiantes, excitados quando sabiam que iam sair da academia e começar a realmente caçá-los. Eu os avisava que não era assim tão fácil, não era exatamente algo para comemorar, mas eles não pensavam em mais nada além do prazer em destruir a infeliz vida de uma peste. E era assim que muitos nunca voltavam. Cansei de ver fichas de alunos sendo queimadas. Eram muitos alunos, alunos demais, então quem não voltava era esquecido.
No meu sexto ano na Ebony Cross, quando já tinha adquirido idade suficiente para ir numa missão, fui escalada. Tinha quatorze anos. Quase ninguém era escalado sozinho. Sempre íamos a grupos de três ou quatro. Somente os realmente bons e mais velhos tinham permissão para irem sem acompanhantes. Nesses casos, acompanhantes atrapalhavam. Nessa minha primeira missão tive sucesso. E na próxima. E na próxima. Até hoje não falhei em uma missão. Mas também, se tivesse falhado, estaria morta. Por isso era considerada uma lenda aqui. Onze anos, viva e matando. Não era fácil.
“Bom dia Luce!” Duas bandejas do café da manhã apareceram em minha frente na mesa. Como ninguém dividia a mesa com outros além de seu “time de exploração”, eu já sabia quem eram.
“Bom dia Raffy.” Falei primeiro para o de cabelos negros. Ele tinha olhos chocolate, e, se você não o considerasse como um irmão, logo estaria hipnotizada pelos mesmos. “Bom dia Tobi.” Cumprimentei então o loiro. Era muito alto, e tinha olhos azuis, os olhos mais amigáveis e brincalhões que você encontraria. Mas, quando era preciso, eram determinados e perigosos.
“Já comeu Luce? Eu hein!” Tobi era o mais velho. Bem mais velho na verdade. Na minha primeira missão, ele tinha vinte e oito anos. O Raffy também estava conosco na primeira missão, mas ele não era tão mais velho assim. Tinha apenas dezessete na época.
“Bom, vocês demoraram em chegar.” Protestei.
“O Rafael é que não acordava.” Os dois não dividiam um quarto, os quartos eram pequenos demais para serem usados por duas pessoas, mas como eram dois homens e eram do mesmo grupo, a porta do quarto de um dava na porta do outro.
A academia era enorme, e no meio do nada. Construíram-na séculos atrás, talvez desde a época em que as pestes começaram a aparecer. Ela era situada no meio de uma vasta floresta, um rio passava entre o começinho da floresta e o começo da cidade. De qualquer maneira, eram incontáveis quilômetros até qualquer civilização. Esse era um dos fatores que faziam as missões tão cansativas, tínhamos que atravessar toda a floresta até chegar ao nosso “ferro velho” e voltar. Bem, pelo menos para humanos normais era um ferro velho. Para nós, era onde encontrávamos os carros potentes que precisaríamos para chegar aonde é que iríamos.
“O quê? Eu não posso dormir um pouquinho mais de vez em quando?” Ele reclamou.
“E deixar a Luce comendo sozinha aqui?” O mais velho fez uma cara de bravo pro Rafael. “Dormir é mais importante para você que ela? Hmpf.” Ele se virou pra mim. “Que sorte tivemos em pegar ele no nosso grupo naquele dia...” O moreno, fingindo estar irritado com o comentário do mais velho, deu um leve soco no braço dele.
“Cala a boca e come, Tobias.” Eles não se chamavam pelos apelidos. Não sei por quê. Coisa de homem.
“Sem pressa.” Eu ri. “Espero por vocês.” Não tinha como eu esconder. Amava aqueles dois. Eles viraram minha família. Ficar com eles sempre me fazia sentir como quando era pequena, com meus pais, com Joshua. Eu me sentia feliz.
Quando terminaram, fomos todos pro arsenal. Bom, na verdade passamos pelo arsenal. O Tobi queria pegar uma arma que ele estava fazendo. Pelo jeito ela já estava pronta.
“Olha que beleza...” Ele passava a arma de uma mão pra outra, examinando-a, contemplando-a. No começo achei que fosse uma adaga. Era do tamanho da minha, daquela que aquele vampiro usou para matar meu melhor amigo. Meu primeiro amor. Sempre a usei nas missões. Na verdade, nunca havia usado outra arma além dessa adaga que um dia pertencera à criatura que me causou tanta dor.
“Nossa, já ficou pronta!” Ouvi Raffy exclamar.
“Sim. Na verdade, só a deixei aqui até agora para darem um banho de veneno nela.” Ele deu uma risadinha, um tanto sinistra. “Não qualquer veneno, claro. Daquele que é fatal para as pestes.”
“É uma adaga bonita...” E era mesmo. Ao longo da lâmina havia traços de um material negro. Esse seguia do cabo até a ponta da lâmina. O desenho que o material fazia na arma lembrava galhos com algumas folhas. Era encantadora.
“Luce, Luce, Luce...” O loiro fez barulhos de desaprovação. “Não é uma adaga... Olhe.” Ele apertou um botão quase imperceptível entre o final da lâmina e o começo do cabo e, de repente, meu amigo não segurava mais uma adaga, e sim uma lança. Os traços em preto se alongaram, passando por toda a arma.
“Que linda...” Estava mesmo impressionada com o trabalho do meu amigo. Devia ter demorado muito pra ele conseguir terminá-la. Ele a passou pra mim, e percebi que ela não era pesada. Qualquer um pensaria que seria pesada, mas era surpreendentemente leve. Boa para movimentos ágeis.
Tobi me observava manusear a arma, sorrindo, como se estivesse orgulhoso. “Gostou bastante dela, hein Luce?” Eu sorri sem jeito.
“Ela e muito bonita e tenho certeza que será ótima em pratica.” Devolvi a lança para o dono e ele a diminui em adaga mais uma vez.
“Odeio admitir, mas esse cara é bom nas forjas.” Raffy riu e Tobi recebeu um tapinha nas costas, como se fosse mais novo que o outro. Mas, às vezes, o Tobias era mesmo mais novo que nós. Ele e o Raffy brincavam bastante um com o outro, e ele nunca perdeu o jovem dentro dele mesmo.
“Ei, Rafael, será que você pode parar de atormentar e dar um minutinho para nós dois?” Perguntou o mais velho, já meio que tocando o outro, mas sempre de bom humor. “Já te alcançamos.” Tobi riu enquanto o de cabelos negros se afastava, resmungando alto para nós ouvirmos.
Rindo, falei. “Pra que isso, Tobi?” Olhando pra ele, percebi que ele tinha perdido a aura brincalhona dele, aquela que ele acabara de usar para afastar Rafael.
O loiro olhou em meus olhos, bem lá no fundo. Senti que vinha algo importante. “Luciane, essa arma fiz pra você.” Respirei fundo. Essa lança, tão linda, tão perfeita, era pra mim? “Por isso fiquei tão contente por você ter gostado dela.”
“Gostado?” Ri baixinho. “Muito mais que isso. Imagine quanto carinho você não botou pra fazê-la? Toda a delicadeza para fazer os detalhes? Toda a genialidade para fazê-la se disfarçar em adaga?” Peguei suas mãos, uma delas segurava a tal arma. “Tobi, é o melhor presente que alguém podia me dar! Juro que a amei!”
Ele não respondeu. Ao invés disso, direcionou sua cabeça mais perto da minha. Seu nariz roçou no meu. Meus olhos se fecharam automaticamente, mas quando tinha certeza que ia sentir seus lábios nos meus, ele virou o rosto e beijou minha bochecha ao invés de minha boca.
Abri meus olhos confusos. Os olhos dele também estavam confusos. Nenhum de nós sabia o que nos tinha dado. “Seu, uhm, presente então, Luce.” Ele me deu a arma e saiu andando. Não o segui. Ao invés disso, segurei a arma em meu peito, perto do coração.
Ah, Tobi. O que deu na gente? Por que, de repente, quero fechar meus olhos pro mundo e só sentir seu toque em meu rosto? Só sentir sua boca na minha...
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