Ebony Cross
15 Décimo Quarto Capítulo - A Verdade
Notas iniciais
“Luce…” Eu corria em um lindo campo, grama verde e molhada segurava meus pés, borboletas voavam ao meu redor, brincando comigo. “Vamos Luce, vamos!”
Eu obedeci a essa voz. Eu amava essa voz. Eu corri em sua direção, seguindo uma pequena silhueta que corria em minha frente.
Acabei tropeçando em uma pedra e foi nesse momento que percebi. Olhei para minhas mãos sujas de terra da grama úmida. Minhas mãos estavam bem menores do que eu me lembrava, mas não parecia tão estranho assim para mim. Pareciam proporcionais, apesar de eu saber que estavam menores.
Olhei para meus pés e pernas. Eu estava usando um sapatinho de boneca e um vestido lilás, cheio de babados. Meus cabelos negros agora estavam cacheados e estavam presos por uma fita da mesma cor de meu vestido.
Levantei-me e continuei a correr atrás da figura, dona da voz. Nós corremos para perto de uns pinheiros, onde havia um pequeno laguinho. A pessoa parou, mas continuava de costas para mim. Inclinei-me e olhei meu reflexo na água. O que vi era uma menininha, não tinha mais do que uns sete anos. Seus grandes olhos verdes expressavam uma alegria da qual eu tinha saudades.
“Você está tão linda, Luce.” Ele disse, vindo para meu lado e olhando nosso reflexo.
Dei as costas para o lago e virei para ele, encarando-o feliz.
“Joshua...”
“Estou lhe esperando para brincar Luce. Por favor não demore...”
-x-
“Josh... Joshua...” Abri meus olhos. Estava em uma cama em um quarto pouco iluminado que reconheci momentos depois sendo o quarto 535. Eu me mexi na cama e senti que tinha curativos nas costas e nas pernas, o gosto de sangue já não estava mais em minha boca e minha língua já estava melhorando.
“Ah, você acordou.” Disse Tobias que levantara de uma cadeira e veio ao meu lado. Consegui sorrir para ele. “Será que você poderia me dizer quem é Joshua? Estive ouvindo o nome dele durante as últimas quatro horas.” Ele disse rindo.
“Era um amigo muito querido que eu tinha.” Respondi, feliz em ver que já conseguia falar direito de novo. “Acho que ele veio me fazer uma visita.” Tobias sorriu, mas se manteve calado. “Então, o que aconteceu? Não lembro direito. Lembro de algumas partes, do Raffy me trazendo para cá, lembro vagamente do médico...”
“Ah sim. Quando o médico chegou, Doutor Sanders se não me engano, ele pediu para levarmos você até um quarto, então Raffy lhe pegou nos braços e lhe trouxe. Você estava quase desmaiando e reclamava muito de dor, então, ao invés de lhe dar um remédio para dor, que é muito forte, ele lhe deu algo para lhe fazer dormir e lhe tratou.” Ele explicou, sorrindo. Feliz por eu estar melhor.
“Ah tá. Mas é, eu tinha dito que não foi nada tão grave assim.”
Ele suspirou antes de sentar na cama. “Sério, me desculpe. Por favor. Eu sei que foi acidental, mas eu não deveria ter lhe afastado daquele jeito. Eu não precisava ter usado tanta força... Não precisava ter sido tão bruto...” Ele parou e acariciou meu rosto. “Acho que um pouco foi por causa do jeito como você o defendia...”
“Como assim?” Perguntei.
“Eu... Eu senti ciúmes, Luciane.” Ele segurou a cabeça em uma das mãos. “Sei que é uma desculpa ridícula, mas eu não gostei nem um pouco de como você se atirou em mim para salvá-lo, como você implorou, mesmo depois de ferida, pela vida dele.” Eu fiquei quieta. Eu não tinha pensado em como minhas atitudes naquela hora poderia ser vistas pelos outros. Eu só queria que o Jullyan continuasse vivo. “Sei que é algo muito idiota, e eu sei que eu não deveria ter me sentido daquele jeito.” Ele segurou uma das minhas mãos e fez carinhos nela. “Eu sei que você jamais me trairia, Luciane. E eu te amo.”
Fiquei encarando seus olhos azuis por uns minutos, me sentindo pior do que o verme mais sujo se arrastando no meio da terra molhada.
“Também amo você, Tobi.” Eu não estava mentindo, mas algo dentro de mim me dizia que não estava certo eu dizer isso para ele. Algo me dizia que, essas palavras saindo de minha boca estavam erradas. Eu não deveria dizer mais aquilo para Tobias.
Continuamos em silêncio por mais um tempo. Não era desconfortável, era até agradável, mas eu estava ficando nervosa. Parecia-me que, quanto mais eu ficava calada, mais culpada eu parecia e que logo Tobias iria perceber e descobrir tudo que eu fizera.
“Mas, então, cadê os outros?” Perguntei, tentando quebrar o silêncio.
“O médico já foi embora faz horas.” Ele explicava. “O Rafael ficou um tempo aqui, mas saiu a pouco com Jullyan. Eles foram conversar.”
“Conversar?” Estava preocupada e Tobi conseguiu ver isso claramente.
“Calma, Luce. Dessa vez é mesmo apenas uma conversa.” Ele riu baixinho. “Antes de nós, erm, atacarmos seu amigo, ele havia dito que poderia nos ajudar. Ou seja, ele sabe de alguma coisa.”
“Espero que o Raffy esteja mesmo conversando com ele, não ameaçando em troca de informações.” Disse ao mesmo tempo séria e rindo um pouco. O Rafael era um cara que conseguia o que queria graças ao seu carisma, não dava para imaginá-lo torturando alguém. Isso já era trabalho de Tobias.
Ele riu junto comigo. “Pode deixar. O cara até que gostou do seu amigo. Não que eu goste muito disso, mas... Quem sou eu para escolher os amigos do Rafael?” Eu sorri ao ouvir isso. Pelo menos o Raffy não tinha tanto preconceito com vampiros. “Mas o Jullyan parece realmente querer nos ajudar, pelo que nós três conversamos enquanto você esteve apagada. Pelo visto ele conhece o cara, o Sebastian, e não gosta muito dele não.”
Concordei com a cabeça, dizendo que entendi tudo. O Jullyan com certeza era bem conhecido nessa cidade, sendo o dono do melhor clube noturno e tudo o mais, e ele também deveria conhecer muita gente, sejam eles vampiros ou não. É bem capaz de ele ter inimigos por aí também e, talvez, para nossa sorte, o Sebastian pode ser um deles.
Continuamos a conversar sobre coisas fúteis, assuntos bobos, como se nada tivesse acontecido, nem o acidente, nem a traição. Horas foram se passando e o loiro resolveu se deitar ao meu lado. Era uma das camas de solteiro do quarto deles, então tivemos que nos espremer um pouco. Seu corpo grande e quente em contato com o meu me deu uma sensação ótima. Seus olhos azuis me olhando carinhosamente também me faziam sentir bem. Eu não queria perder aquele afeto por nada nesse mundo, eu queria poder ter o Tobias só para mim para sempre. Mas, bem lá no fundo, eu sabia que eu não merecia mais tudo isso, e eu sabia que a culpa nunca me deixaria em paz.
“Tobi... Eu preciso lhe contar uma coisa...” Comecei. Era melhor fazer isso agora que eu tinha coragem do que passar o resto de minha vida com medo. E eu nem sabia por quanto tempo mais eu iria viver, ele precisava saber disso, não ia agüentar morrer e vê-lo continuar sua vida sem nunca saber a verdade.
“Que foi, meu anjo?”
“Por favor, não me chame disso.”
“Mas por que não?” Ele perguntou, um pouco assustado pela minha mudança repentina de atitudes. “Há algo de errado?”
Suspirei e me levantei, para ficar sentada na cama ao invés de deitada. “Sim. Há algo muito errado. Mas não é com você, é comigo.”
“Eu não acredito nisso Luciane.” Ele disse, também se sentando na cama. “Você está terminando comigo, é isso? E ainda por cima usando uma das frases mais clichês na história dos términos de namoro! Pelo amor de Deus Luciane, não faz isso. Se for por causa do acidente eu peço desculpas, não, eu imploro desculpas. Você sabe que eu jamais queria ferir você, em nenhuma maneira! Desculpe-me, por favor, por favor, mas não faça isso!”
“Não Tobi, não estou terminando com você.” Acariciei seu braço. “Mas logo quem vai querer fazer isso é você.”
“Do que você está falando?” Perguntou preocupado.
“Você está errado em pensar que eu jamais lhe trairia...”
“Luce – ”
“Deixe-me falar, por favor.” Ele concordou e eu prossegui. “Quando nós estávamos procurando por Sebastian eu acabei encontrando o Jullyan. Sinto-me envergonhada em dizer que estive atraída por ele desde aquela vez que o vi sentado na outra cadeira do bar.” Pude ver a expressão do loiro mudando de preocupação para raiva pouco a pouco. “Nós conversamos e acabei contando tudo para ele, sobre quem nós somos e o que viemos fazer. Rolou um clima...”
“Luciane!” Ele levantou da cama, furioso.
“Pare Tobi! Por favor, deixe-me terminar... Por favor.” Ele estava andando pelo quarto, obviamente inquieto. “Nós nos abraçamos e ia ficar por isso mesmo, mas, como eu disse, eu já estava atraída por ele e... Eu acabei o beijando. Nós nos beijamos várias vezes na verdade e eu cheguei a ir para seu apartamento.”
“Pare Luciane, não quero mais saber de nada...”
“Não, Tobi. Eu preciso contar, a culpa está me corroendo!” Implorei.
“Você deveria ter pensado nisso antes de fazer essas coisas!”
“Eu sei! Eu sei Tobi, eu sei. Mas por favor, não estou pedindo para que me perdoe, apenas para que escute!” Ele resolveu sentar-se na única poltrona do quarto, mas não me olhava, segurava a cabeça nas mãos e fitava o chão. “Quando eu cheguei lá eu percebi o que estava fazendo. Eu parei e fui embora. Não aconteceu nada mais do que isso.”
“Você diz isso como se não fosse nada de mais.”
“Não, eu sei que o que fiz foi imperdoável, mas eu precisava lhe contar. Eu não espero que você me perdoe, Tobias, mas quero que você saiba que não significou nada para mim, foi apenas momentâneo, jamais vou poder comparar esses momentos com os quais nós dois tivemos.” O loiro permaneceu quieto, provavelmente lembrando daquela tarde em que fizemos amor. “Sei que as coisas não serão como eram antes e sei que as chances de nós dois voltarmos a sermos um casal é mínima, mas saiba que você é quem eu amo.”
Ele olhou para mim e ficou me encarando por alguns minutos. Depois desse tempo, levantou-se e dirigiu-se à porta, saindo do quarto e me deixando sozinha em total silêncio.
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