Ebony Cross
19 Décimo Oitavo Capítulo - Anjo da Guarda
Notas iniciais
Vocês verão o porquê.
Aqueles olhos azuis.
Cravados em mim.
O andar ficou num silêncio terrível. Até as mulheres se esforçavam para não soltar um som sequer. Era agora. A hora finalmente havia chegado para a nossa tão esperada luta contra o vampiro mais brutal, impiedoso e maníaco que a Ebony Cross enfrentara em décadas.
E, por algum motivo, ele estava perturbadoramente interessado em mim. Desde que ele saiu das trevas ele estava me observando exclusivamente, e eu não fui a única a notar. Cautelosamente, Jullyan deu alguns passos em minha direção, para me dar apoio. Eu não estava em condição nenhuma de lutar graças à queda, então estava completamente indefesa. Jullyan estava claramente mostrando que me protegeria caso fosse necessário.
Mas mesmo assim eu não me sentia completamente segura. Os olhos azuis claros do vampiro me aterrorizavam de um jeito que eu nunca senti antes. ‘Ele deve estar pensando em como ele iria se divertir comigo.’ Penso. ‘Igual ele fez com as três pobres moças. Bem que a outra me avisou. Ele está interessado em mim de uma maneira doentia e nojenta. Tenho que tomar cuidado.’
Sustento o olhar dele, mostrando que não tenho medo dele e que o desafio a tentar me matar, ou fazer o que quer que ele esteja planejando. Eu sei que estou completamente apavorada, mas a coisa mais importante que você aprende na Ebony Cross é não mostrar medo, e é essa mensagem que estou passando para ele. ‘Você não me assusta. Você não me assusta.’ Repito para mim mesma, tentando também me convencer disso.
“Sebastian.” Olho para o lado após escutar Tobias cuspir seu nome. Ele estava com um machado em mãos, pronto para usar aquela lâmina para rasgar a pele do pescoço do vampiro do resto de seu corpo.
Vejo que Raffy está com uma besta em mãos, uma flecha já posicionada. Já sei também que ele está com, no mínimo, duas adagas escondidas em suas roupas, como é de costume em suas técnicas de luta. Jullyan, por outro lado, está completamente desarmado. Ele provavelmente não trouxera nenhuma arma, e nenhum de nós o equipamos. Não que ele precise. Acho que não pelo menos. Ele estará lutando contra um vampiro, sim, mas ele é um também, então seria uma luta justa.
Aproveito e tiro minha querida adaga que estava presa em minha calcinha. Posso estar incapacitada para lutar, mas ele não precisa saber disso já no começo. Porém, quando a tiro, sem querer uma parte da minha calcinha de renda azul bebê aparece por uma fração de segundo, e os olhos de mesma cor de Sebastian a acompanha com gosto. Vejo-o lambendo os lábios e semicerrando os olhos, numa expressão de puro prazer. Estremeço. Ele volta seu olhar para meus olhos quando a peça íntima não está mais a vista e sorri maliciosamente, como que dizendo Espere só para ver o que eu farei com você, meu bem...
“Sebastian.” Tobi repete. Parecia irritado por ter sido ignorado da primeira vez, mas agora o vampiro vira para ele. “Chegou sua hora.”
Sebastian ri alto, assustando-me um pouco. “Vejo que a patética Ebony Cross mandou mais escravos. Que divertido.” Ele diz naquela voz grossa. “Vocês têm noção de quantos já foram enviados para me matar?”
“Você têm noção de quantos segundos você ainda tem de vida?” O loiro retruca em um tom áspero e ameaçador. Um tom que me deixava um tanto quanto excitada. Numa situação diferente dessa, claro.
Ele volta a rir. Tobias provavelmente parecia um labrador tentando se passar por pit bull para Sebastian. “Pelo menos dessa vez me mandaram algo que faça meu tempo valer a pena.” Olhos azuis claro voltam a me atormentar. “Normalmente eles mandam marmanjos ou umas mulheres passadas e sem sal. Agora isso daqui...” Ele aponta para mim com uma cara de satisfação. Tobias rosna. “Isso daqui não tem preço. Vamos começar por esse rostinho lindo, minha querida. Esses olhos verdes brilhantes, esse narizinho delicado, essa boca incrivelmente sensual... E esse cabelo negro ondulado que emoldura essa obra de arte que é o seu rosto perfeitamente.” Não consigo deixar de enrubescer, mesmo se as intenções dele estão longe de serem carinhosas. Ninguém nunca me descrevera dessa maneira. Nem Tobias.
“Cale a boca agora ou a flecha atravessará sua garganta.” Rafael o ameaça, uma expressão de raiva em seu rosto. Ele era muito protetor de mim.
“Ah, mas para que tanta violência? Você já contemplou essa sua colega devidamente?” Ele pergunta, mas não espera respostas. “Braços fortes, porém finos. Pernas deliciosamente musculosas de tanto exercício.” Ele solta um leve gemido. “Isso sem nem falar das outras belezas mais perceptíveis, não é mesmo? Seios saudavelmente redondos e cheios, contidos contra a vontade em um sutiã de sustentação que pressuponho que seja azul bebê, para combinar com a calcinha. Cintura lisinha e atenuada, entrando em um forte contraste com as curvas deliciosas de seu quadril avantajado.” Ele fecha os olhos, saboreando a imagem. Imediatamente me arrependo de ter vindo vestida de regata e shorts. Ele abre os olhos. “Tudo isso mais esse olhar destemido e desafiador que ela carrega... Faz ela ser quase... Irresistível.”
Jullyan se posiciona em minha frente, cobrindo a visão que Sebastian tinha de mim.
“Você não encostará em um fio de cabelo dela.” Jullyan e Tobias falam simultaneamente, fazendo-os se olharem ameaçadoramente.
Sebastian assiste a isso e ri. “Parece que você dois já haviam percebido o tesouro que essa moça é, não é mesmo?” Ele ri mais. “Olhe que divertido garotas, a Ebony Cross nos mandou um triângulo amoroso.” Olho para onde elas haviam se escondido, mas continuavam imóveis. Eu havia me esquecido completamente da presença delas.
“Cale a boca.” Rafael ameaça novamente, dessa vez mirando a besta. “Eu não permitirei que você fale desse jeito sobre a Luce. Ela não é nenhuma mulher da vida para ser examinada como se estivesse em uma vitrine.”
“Mas em momento algum eu faltei com respeito para com ela!” O vampiro se defende, obviamente se divertindo. Ele gostava de brincar com a mente das pessoas, pelo que percebi. “Você por acaso não gostou de ouvir minhas palavras de admiração, Srta. Luce?”
“CALE A BOCA!” O moreno grita novamente, disparando a flecha que com certeza perfuraria a traquéia do sujeito. Mas, segundos antes de ele dispará-la, quando seu dedo iria puxar o gatilho, a moça que havia gostado tanto dele o empurrou, fazendo a flecha atingir uma das janelas e quebrá-la.
Todos nós olhamos assustados para ela, que não era mais a mesma. Seus olhos estavam completamente negros, deixando nenhuma parte branca à vista. Dentes afiados estavam à mostra agora.
“Recém criadas.” Jullyan disse incrédulo.
Nós caímos em uma armadilha.
“C-Como?” Eu pergunto, tão surpresa quanto os outros. “Como não percebemos?”
“Ilusão, querida.” A voz grossa me explica. “Com tanto tempo de sobra que um vampiro tem hoje em dia... Para passar o tempo decidi aprender o básico de feitiçaria.”
“Mas quase não existem feiticeiros na Terra. Foram praticamente extintos na Idade Média.” Eu digo, tentando entender como ele conseguiu achar um. A Ebony Cross tinha uma feiticeira exclusiva, mas a linhagem de feiticeiros de sua família trabalhava conosco há séculos. Não a achamos “vagando por aí”.
“Tenho amigos perigosos, minha doce Luce.” Ele responde simplesmente.
Rafael grunhiu e carrega a besta de volta. Tobias e Jullyan o imitam na posição de ataque. Eu também, só para ele não saber que eu estava inútil.
Olhamos para a mulher que atacou o moreno. Ela continua com aquele olhar louco nos olhos negros. Estava sedenta. Olho para as outras duas que logo correm na direção de Tobias, que não as vira, e o derrubam no chão. Assim que cai no chão ele rola de um lado para o outro agilmente, fugindo dos dentes e garras mortíferos das vampiresas.
Olho desesperada para Jullyan. Agora seria quatro contra três, pois eu não poderia fazer nada. Minhas costas já estavam doendo de tanto ficar em pé. Ele corre para mais perto de mim enquanto Raffy corre para ajudar Tobias.
“Eu não deixarei nada lhe acontecer. Eu juro.” Ele diz, seus lindos olhos díspares me fazendo essa promessa.
“Obrigada, Jullyan.” Eu respondo com um sorriso fraco.
Tobias já havia se levantado e ele e Rafael tentavam sem sucesso acertar as mulheres. Eram recém criadas, eram muito rápidas e ferozes. Jullyan e eu nos viramos rapidamente para Sebastian, mas ele não estava mais em seu lugar. Havia simplesmente sumido. A outra moça estava no canto atrás de nós, esperando uma brecha em nossa defesa para atacar.
“Isso não é nada bom.” Meu amigo vampiro resmunga para si mesmo, obviamente se referindo ao fato de Sebastian ter simplesmente evaporado no ar. Eu duvidava que ele tivesse fugido.
“Uueeeek!” Um grito estridente nos assustou. Era uma das moças lutando contra os outros dois. Tobias havia cortado seu braço direito fora com uma machadada e Raffy aproveitou para botar a besta em suas costas e tirar suas adagas, avançando na outra que havia se desconcentrado, mas ela era rápida demais e desviou facilmente.
“Luce! Cuidado!” Jullyan gritou, mas não a tempo de eu conseguir escapar do forte empurrão que a nossa vampiresa me dera. Fui parar do outro lado do andar, seu corpo pressionado contra o meu, como da outra vez quando ela me alertara sobre Sebastian. Senti minha coluna implorar por piedade e quase me ajoelhei e implorei para ela também, pois a dor era forte demais para agüentar.
Ela prendeu minhas mãos no topo de minha cabeça com uma força inumana e, num piscar de olhos, a moça sem um braço se juntou a ela, não parecendo muito incomodada por ter perdido um membro. Mas acho que elas não estavam muito conscientes de qualquer forma. Essa sem braço pegou minha perna do chão, fazendo me ficar praticamente pendurada pela outra que segurava meus braços, e lambeu desde meu tornozelo até metade de minha coxa, que era até onde meus shorts iam. Meu corpo soltou um tremor involuntário.
Vi Jullyan correndo em minha direção e, de soslaio, vi que a outra moça que sobrara estava mantendo Tobias e Raffy ocupados, sem deixá-los vir me acudir. Então esse era o plano: uma distrair os outros enquanto as outras matavam um de cada vez.
Tentei chutá-la, mas o movimento apenas me fez gritar de dor por causa das minhas costas. Eu não estava em uma posição nada confortável, mesmo se não estivesse machucada teria sentido dor. Olho aterrorizada para a moça sem braço. Ela abre sua boca e faz um corte na minha perna com a ponta de seu canino afiado; uma linha reta de sangue pela minha perna. Isso a deixa e deixa a outra doidas por causa do cheiro. Ela lambe meu ferimento e parece se deliciar. Eu gemo de dor. Todos sabem que há uma substância na saliva dos vampiros que pode fazer a vítima sentir dor ao se alimentar dela ou não, mas eu nunca havia sentido a tão temível dor de servir de alimento para um vampiro.
Não tive muito tempo para senti-la, porém. Segundos antes da outra moça avançar para meu pescoço, Jullyan a derruba no chão e consegue puxar junto a sem braço pelos cabelos.
Conseqüentemente eu caio no chão, minhas costas já querendo o suicídio. Mas eu não reclamo, pois estou muito ocupada gritando, as lágrimas caindo como rios. Mas não por causa da dor física.
Por causa da sangueira que se seguiu.
Jullyan havia derrubado as duas com ele, me salvando no processo. Mas elas já haviam sentido meu cheiro perto demais e uma havia me provado, então estavam mais enlouquecidas do que um recém criado normal. Rapidamente pulam em cima de Jullyan, prendendo-o ao chão. Não tinha como ele ganhar aquela prova de força. Eram duas vampiresas contra um vampiro, e elas eram mais fortes por causa de suas idades.
Tobias conseguiu se livrar da outra mulher, deixando-a para Rafael tomar conta, e tenta chegar a tempo em Jullyan. Mas Tobias não é nenhum vampiro, e as vampiresas são infinitamente mais rápidas que ele.
Acho que consegui escutar o som de suas presas fincando na pele de meu amigo e o som de seu sangue sendo sugado sem dó de suas veias, mas logo esses sons foram abafados pelos gritos horríveis de Jullyan. Os gritos de agonia. Os gritos de um vampiro implorando pela vida.
Elas não se importaram com a bagunça. Morderam ele diversas vezes em menos de cinco segundos, fazendo o sangue dele respingar pelas paredes. Pareciam duas crianças de um ano tentando comer papinha sozinhas.
A única diferença é que elas estavam comendo o meu amigo.
Gritei, chorei e confesso que enlouqueci naquele período. Corri até elas, ignorando completamente a dor que estava há alguns minutos presente. Quando cheguei perto o suficiente, chutei a cabeça da primeira vampiresa, mas não consegui quebrar seu pescoço nem nada. Seu sangue contaminado sujou o rosto de Jullyan. O rosto imóvel e desfigurado de Jullyan.
Tobias já havia chegado e conseguiu tirar as duas dali, tentando acertá-las com seu machado. Ele e Raffy também estavam enlouquecidos agora, em modo berserker.
Joguei-me em cima do corpo do vampiro. Tentei achar uma pulsação, mas não havia nada. Seu rosto e seu corpo estavam desfigurados, estavam murchos. Gritei para ele, chacoalhei seu corpo, mas nada o acordava. E eu não queria acreditar que ele não iria mais acordar.
Seus olhos lindos, um azul da cor do oceano e um verde elétrico, estavam abertos até o limite de suas pálpebras. O horror estampado naquele rosto lindo.
Eu não deixarei nada lhe acontecer. Eu juro..
Abracei seu corpo completamente drenado de sangue o mais forte que eu pude, minhas lágrimas pareciam não acabar nunca mais.
“Você me salvou, Jullyan, deu sua vida por mim.” Disse em minha mente, mas eu sabia que ele estava me escutando. “Você é meu anjo da guarda, Jullyan Maxwell.”
Notas finais
Pensem pelo lado bom, ele sempre estará com ela agora, pois ele é o Anjo da Guarda dela. :')
Deixem reviews, por favor. E se pensarem em desistir da história, bem, continuem a ler, por ele.
Obrigada!
PS: Modo Berserker é uma referência aos guerreiros nórdicos conhecidos por entrarem em uma fúria assassina durante as batalhas, matando qualquer um pela frente, mesmo sendo mulheres ou crianças.
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