Ebony Cross
17 Décimo Sexto Capítulo - A Fábrica
Notas iniciais
Espero que vocês gostem de mais esse capítulo!
“Está pronta para ir agora, Luce?” O Raffy me perguntou quando fechei a porta de trás do Land Rover e sentei-me ao lado de Jullyan no banco traseiro. Fiz que sim com a cabeça em resposta.
Eu havia voltado para o quarto 535 para pegar a mochila e para chorar por dois minutos. Eles estavam me esperando; dois minutos eram só o que eu tinha. Depois de me dar o luxo de chorar eu lavei meu rosto, lavando todos os vestígios de tristeza que havia nele, peguei minha mochila de cima de cama e corri de volta para o estacionamento.
Agora que eu estava lá dentro com tudo pronto Tobias deu partida no carro. Por um momento me perguntei o porquê de Jullyan estar atrás e não no banco do passageiro. Seria mais fácil para ele dar as instruções para Tobi se ele estivesse lá. Mas no momento seguinte percebi que o loiro estava fazendo de tudo para se manter longe do vampiro. Não duvido nada de que, se Jullyan estivesse sentado ao seu lado, Tobias já teria dado algumas bordoadas no outro.
Jullyan já deveria ter percebido também, pois me olhou com uma cara preocupada assim que me sentei. Ele já havia adivinhado que eu confessara tudo ao caçador. Rafael, por outro lado, parecia não ter notado nada de mais. Deveria ser porque ele não sabia de absolutamente nada, ele realmente estava alheio a tudo. Mas ele percebeu que havia um clima tenso no ar, mas deve ter suposto que fosse apenas uma briga comum de casal.
Suspirei. Ele estava completamente errado.
Deixei esses pensamentos de lado e peguei minha mochila que eu jogara no chão do carro. Abri-a e tirei minha adaga que estava lá no fundo, fechando a mochila novamente e a jogando no chão onde estava. Prendi a arma em minha calçinha de uma maneira que ela estava escondida e que seria fácil e rápido de pegá-la caso precisasse, com a empunhadura por fora de minha calça, mas escondida pela minha blusa.
O silêncio no carro era incomum. Nós nunca ficávamos quietos nas viagens, mesmo quando estávamos prestes a enfrentar uma peste. As únicas vezes que havia um diálogo era quando o vampiro tinha que ajudar Tobias a seguir o cominho correto. Eu não achava que a falta de conversas fosse completamente culpa do que havia ocorrido entre o Tobias, o Jullyan e eu. A verdade era que ninguém sabia o que esperar, em relação ao Sebastian, quero dizer. Ele não era nosso primeiro, mas, como nós todos sabíamos muito bem, era o pior.
Não sei quanto aos outros, mas eu não estava nem um pouco confiante. Sei que isso poderia ser um erro fatal; você nunca deve entrar derrotado em uma batalha; e eu também sabia que os eventos anteriores não me ajudavam em nada, só pioravam, mas mesmo assim eu estava com um mau pressentimento. As chances de tudo dar errado eram grandes demais.
Finalmente percebi pela janela do carro que havíamos saído da cidade. Estávamos agora na estrada abandonada e todos olhávamos atentos para fora, procurando a fábrica.
Não foi difícil achá-la, pois estávamos em uma área deserta. Ela era a única construção à vista há quilômetros.
“Vamos descer aqui, assim ninguém escutará o barulho do motor.” Tobias falou como quem estava no comando. Ele sempre havia liderado nossas missões, não seria diferente agora. Ajeitei minha mochila no banco onde eu estava sentada e pulei para fora. Eu não poderia levá-la, pois estava muito pesada e poderia me atrasar e, pois ela poderia fazer algum barulho inesperado e isso nos poria em perigo.
A caminhada até a fábrica durou uns quinze minutos. Tivemos que parar muito longe para o nosso próprio bem. Por todo o percurso eu andei de mãos dadas com o Rafael. Era como se o moreno tivesse percebido que eu estava muito insegura e estava passando um pouco de sua coragem para mim através da corrente que fizemos com os membros.
Quando chegamos à porta da fábrica Jullyan decidiu espiar pelas janelas. Elas estavam cheias de poeira por dentro devido a anos de abandono, então não dava para se enxergar muita coisa. “Não adianta. Tem uma camada de poeira em todas as janelas.” Ele disse após tentar novamente. “É impossível. Vamos ter que entrar às cegas pessoal.”
Tobias concordou com a cabeça e girou a maçaneta de fora bem devagar, tentando ao máximo não fazer barulho com aquela enorme porta de metal velha. Para nossa sorte, ele conseguiu.
Entramos devagar no interior da fábrica. Havia alguns poucos móveis e algumas máquinas abandonadas aqui e ali, todas cobertas por pó e sujeira. Insetos andavam livremente por todo o lugar e aranhas faziam suas casas em todos os cantos. O piso de madeira estava coberto por uma camada de uns dois centímetros de poeira.
Tobi e Raffy foram andando devagar, explorando esse andar. Tudo indicava que a fábrica estava completamente abandonada, e não havia sinais de nenhum vampiro nem sequer ter passado por ali.
Comecei a avançar também, mas voltei ao perceber que Jullyan estava agachado no canto da porta da qual saímos. Ele estava com um pequeno frasco de vidro em mãos e olhava maravilhado alguns insetos passeando.
“Jullyan!” Sussurrei em tom bravo. “O que você está fazendo? Vamos logo!”
“Mas Luce!” Ele me chamou, pedindo com a mão livre para eu vir até ele. Com um suspiro me juntei onde ele estava. “Olha só quantos petiscos gostoso para a Pandora!” Assim que ele disse isso ele pegou uns quatro insetos de uma só vez e os colocou dentro do vidrinho.
Encarei-o com uma cara incrédula. “Jullyan!”
“Tá bom, tá bom. Desculpe. Eu sei que estamos em uma missão super importante, mas ela é minha filhinha, tenho que pensar nela também!” Ele protestou, quase me convencendo que ele fosse um pai de verdade. Balancei a cabeça indignada e soltei uma leve risada. Esse Jullyan não tinha jeito mesmo.
Quando atravessamos o grande salão da fábrica até as escadas, Raffy estava nos esperando, rindo silenciosamente também do vampiro, pois havia visto de longe a cena toda. O loiro estava descendo as escadas.
“Não há absolutamente nada nos andares lá cima também.” Ele contou. “Está igual aqui. Nenhum sinal de nenhum habitante nos últimos vinte anos. E acabaram os andares, só existem quatro andares nessa fábrica.” Ele encarou Jullyan com um olhar irritado e ao mesmo tempo vitorioso. “Parece-me que seus companheiros lhe enganaram, vampiro.” Ele praticamente cuspiu as palavras em cima do outro.
Balançando a cabeça negativamente eu saí de perto deles. Não podia ser! Se Sebastian não estava aqui, onde mais ele estaria? Olhei de volta para os três e vi que Rafael estava tentando acalmar os outros dois, que agora pareciam estar em um bate-boca em tom de voz baixo. Mesmo tendo visto que não havia ninguém aqui era melhor não arriscar.
Caminhei até um aglomerado de máquinas no canto oposto, onde ninguém havia investigado ainda. Não que faria alguma diferença, mas eu não queria ficar perto dos dois enquanto brigavam; eu ainda não estava nada bem em relação ao que acontecera com minha relação com os dois nos últimos dias; então decidi que, ao invés de ficar parada olhando para aranhas tecendo suas teias, eu iria me aventurar pela fábrica, fazendo o mínimo de barulho possível, claro.
Passei a mão em cima de uma das máquinas. Meu dedo ficou completamente cinza então o limpei em minha blusa. Vi que uma das máquinas onde eu estava era consideravelmente maior do que as outras e, curiosa, decidi ir até lá e tentar descobrir afinal o que esse lugar fabricava.
Foi um erro.
Quando fui me aproximar da máquina não percebi que algumas tábuas do piso estavam muito velhas e frágeis. Assim que pisei em uma delas eu as quebrei com o meu peso e caí.
Isso porque eu estava tentando não fazer barulho.
Por meio segundo achei que fosse morrer, até que minhas costas entraram em contato com o chão duro novamente, dessa vez com o piso em cimento vivo. Grunhi de dor. A parte de trás do meu corpo não estava nada feliz comigo. Abri os olhos e vi que meus amigos me olhavam horrorizados pelo buraco que eu fizera.
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