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8 Capítulo 8: Jogo de basquetebol


Notas iniciais
"Só uma coisa me entristece/O beijo de amor que não roubei/A jura secreta que não fiz/A briga de amor que não causei" Simone (Jura Secreta)

Os rapazes correram agilmente até o campo oponente. Ficaram passando a bola de um para outro, até que ela chegou às mãos de João Evangelista. Ele parou alguns segundos, quicando a bola no mesmo local, enquanto avaliava o jogador adversário a sua frente. Seu marcador veio sedento, com os braços afastados do corpo, mas suas mãos estavam ambicionando a bola laranjada. João Evangelista rodou o tronco e com o braço direito protegeu sua bola do ataque do inimigo. Ele percebeu Gabriel um pouco mais adiante, foi o suficiente para passar-lhe a bola rapidamente num volteio, com os braços esticados graciosamente, como quem compartilha algo precioso e frágil. O time oponente avançou com tudo, mas não conseguiram interceptar a bola a tempo. Gabriel a apanhou no ar, com sua envergadura de Popeye, fazendo-a quicar no chão a sua maneira. Fintou o primeiro ala, enquanto dava dois passos para o garrafão.

No segundo passo deu impulso para o alto, arremessando a bola a pouca distância da tabela que prendia a cesta. A redondinha laranjada bateu na tabela e quicou para longe da cesta. O pivô da outra equipe deu um salto em um ato condicionado devido a inúmeros treinos, com a mão em garra para pegar o rebote. João Evangelista foi mais rápido e deu um tapinha na bola, fazendo-a descer pela cesta, enquanto ele ficava dependurado no aro. O time inteiro deu um grito de alívio, raiva e energia represada, pelos longos minutos de correria e tentativa de armar jogadas e estratégias. Assim mesmo eles continuaram jogando, voltando correndo para seu próprio campo, enquanto a equipe adversária tinha a posse de bola. Os jogadores do outro time tentaram passar por Gabriel, mas este fez bom uso de seu corpo avantajado, tornando-se uma verdadeira parede para o armador da equipe oponente. Ele não se fez de rogado e deu um empurrão com o ombro em Gabriel, fazendo-o cair no chão estatelado.

O apito do juiz soou na quadra coberta da escola. A plateia levantou-se ao mesmo tempo, e o grito de "falta" ecoou como um trovão, reverberando pelo local. O juiz apanhou a bola do jogo e fez com que todos os jogadores o rodeassem. João Evangelista reivindicou os dois lances livres de direito, além da anotação da falta contra o armador adversário. O time inimigo manifestava-se em uníssono, reclamando que Gabriel havia provocado a falta. Após alguns minutos de tensão, nos quais pareceu que uma luta livre iria estragar o espetáculo, o juiz decidiu marcar a falta a favor de Gabriel. Marcos, um magrelão de ossos longos e rosto grande, com louros cabelos cacheados e oleosos, grudados na cabeça devido ao suor do esforço físico, foi o escolhido para os arremessos livres de cobrança de falta. Ele segurou a bola enrugada na altura do estômago, inspirou profundamente e elevou ambas as mãos na altura da cabeça, liberando sinuosamente a bola em direção à cesta do outro time.

A redondinha quicou no aro e foi golpeada pelo pivô inimigo, que se empolgou com a oportunidade vislumbrada. João Evangelista e Gabriel avançaram sobre o pivô, gerando uma onda de reclamações entre os jogadores que estavam nas laterais da quadra, esperando que terminasse a cobrança da falta. O apito do juiz soou no ginásio, fazendo com que todos parassem e olhassem para ele, que já estava com o braço esticado exigindo a bola do jogo. A plateia começou a urrar "invasão", e os jogadores reservas já estavam de pé, pensando em invadir a quadra também. O juiz resolveu conceder mais dois lances para Marcos, que dessa vez teve mais sorte e converteu as duas bolas. O time oponente cercou o juiz gerando uma acalorada discussão. A única coisa que conseguiram foi a anotação de falta para o armador da equipe deles, com isso decidiram parar de reclamar e voltaram a jogar. Após três minutos de muita correria, sem que nenhum dos times conseguisse uma grande vantagem sobre o outro, Gabriel fez um arremesso do meio do campo, que coincidiu com o apito final de encerramento do jogo, mas seu arremesso foi bem sucedido, valendo três pontos para o escore da equipe. Eles ganharam a partida.

Luís Henrique estava na arquibancada, espremido entre garotas maquiadas e cheias de adereços de plástico colorido. Elas estavam tão enfeitadas que não paravam de sorrir uma para a outra, não prestando muita atenção em um rapazinho inexpressivo, que conseguia se esconder atrás de óculos de grau com grossos aros marrons. Ele assistiu à partida sem mostrar qualquer emoção ou empolgação, mas suas unhas estavam em carne viva, de tanto que as roía quando Gabriel tinha a posse de bola. Ele não gostava de chamar a atenção, muito menos de revelar ao mundo todo, ou pelo menos ao mundo estudantil, que ele estava ali por causa de um atleta exuberante, másculo e encantador, que por acaso era também o ídolo daquelas garotas cocotas. Quando o jogo acabou, espetacularmente na opinião de Luís, com a cesta de três pontos de Gabriel, ele esperou pacientemente que todos se levantassem e abandonassem o ginásio. Tinha esperança que Gabriel permanecesse em quadra, dando tempo para ambos comemorarem a vitória discretamente, sem serem alvo da curiosidade e fofoca alheia.

Antes que seus anseios se concretizassem, uma garota de bastos cabelos louros, e um vestido de Jersey vermelho colado ao corpo, revelando que entre outras coisas, ela não usava roupa de baixo, praticamente jogou-se sobre seu herói. Ela o abraçou pelo pescoço, encaixando um cinematográfico beijo despudorado na boca sensual e cobiçada de Gabriel. Luís Henrique enterrou os dedos nas palmas das mãos. Sorte dele não haver mais unhas, pois senão elas estariam cravadas na carne, fazendo escorrer seu sangue pelos pulsos e dedos. Luís sentia mesmo que a visão daquele beijo era uma adaga rasgando seu coração. Ele ficou gelado, preso naquele canto da arquibancada, esperando que a lua saísse de sua órbita, o sol esfriasse, e o núcleo da terra mudasse sua polaridade magnética, gerando alterações climáticas que levariam a extinção da raça humana, e daquilo que chamamos vida. Qualquer uma dessas coisas que acontecesse primeiro.

Gabriel finalmente foi libertado daquele beijo possessivo e invasivo. Ele segurou nos ombros de Júlia, sua namorada, e a afastou de si. Ficou pensando em como dizer uma coisa dura e triste, sem humilhar ou ferir aquela moça, que era tudo que um rapaz poderia pedir ao papai do céu, mas não ele. Júlia o olhou atônita, sorriu como se ele estivesse lhe pregando uma peça, tentou enlaçá-lo pela cintura, mas ele retirou as mãos dela de si. Dessa vez o sorriso morreu nos lábios dela, fazendo com que uma sombra turvasse o seu rosto. Ela mordeu os lábios e desviou por uns minutos seus olhos dos dele. Gabriel chegou a pensar que ela aceitaria calmamente o fim de seu namoro, mas ele sabia que ela era uma moça determinada. Não desistiria dele sem lutar, ou sem fazer um escândalo por causa disso. Ele sabia que Luís estava ali na arquibancada, esperando por ele. Nunca esperara que Júlia fosse irromper na quadra, de uma hora para outra. Não se lembrava de tê-la visto nenhuma vez na plateia.

— Júlia, acho que precisamos ter uma conversa séria. — Gabriel falou gravemente.

— O que foi meu amor? O que aconteceu com você? Por que está tão frio? Não está feliz em me ver? — Júlia perguntou com a voz esganiçada, de alguém que faz força para não chorar.

— Eu pensei melhor Júlia, e decidi que não quero mais continuar namorando você.

— Por que isso agora? Nós estávamos tão bem. O que foi baby? Você está com medo, é isso? Tem medo de se prender a mim? Será que eu estou indo rápido demais com você, coração? Não se preocupe, eu tenho a mente aberta. Eu entendo os homens. Eu sei que vocês gostam de experimentar todas, antes de se decidir pela única e verdadeira. Eu te dou toda a liberdade que você precisar, antes de firmarmos compromisso sério. Está bem assim? Hã?

Dizendo isso, Júlia o enlaçou novamente e já esfregava os lábios macios na boca de Gabriel, numa provocação impossível de resistir. Beijaram-se novamente, dessa vez mais demorada. Luís Henrique desviou o olhar e decidiu sair também, junto com os outros alunos. Ele estava passado. Não sentia o chão, parecendo andar em nuvens. A cabeça e o peito estavam vazios, como se ele fosse uma carcaça ambulante. Via e revia mentalmente Gabriel e Júlia, abraçando-se sexualmente, em plena quadra de esportes, em plena luz do dia, como se isso fosse de direito, autorizado, concedido como prêmio ao vencedor, como se o casalzinho pornográfico fosse casado. Teve vontade de vomitar. Parou de andar a esmo e escorou-se em uma parede. Isso tudo era tão injusto. Ele amava sinceramente e verdadeiramente Gabriel. Ele era o seu príncipe encantado. Eram almas gêmeas, feitos um para o outro. Por que ninguém via isso? Por que ninguém lhes autorizava o namoro, e a exibição pública de seu amor? Só por que eram do mesmo gênero? Só por que era antinatural? Só por que ia contra todas as leis dos homens e de Deus? Luís Henrique começou a chorar silenciosamente. Iniciou a caminhar e só parou quando chegou em frente a sua casa. Chorou durante todo o percurso.