Easy
9 Capítulo 9: Errado e proibido
Notas iniciais
— Sério, Júlia. Você não precisava me trazer em casa. Eu posso muito bem vir pra casa com meus amigos.
— Que é isso, docinho? Não me custa nada. Além disso, que estória é essa de preferir seus amigos a sua namorada, hein? Quem o ouve falar assim pode pensar que você não gosta de ficar comigo, e nós sabemos que isso não é verdade, né amor? – Júlia falou isso massageando Gabriel.
Este se arrepiou todo e praticamente teve que segurar a mão de Júlia para ela parar de tentar excitá-lo. Júlia teve que retirar a mão para passar a marcha do carro, com um sorrisinho malicioso, enquanto checava o retrovisor.
Júlia achava que a ereção de um homem nunca mentia. Isso era uma prova incontestável do interesse dele por ela, não significando nada qualquer coisa que ele dissesse a ela, coisas como “não me interesso por mulheres”, ou “não quero fazer sexo com você”. Ela se considerava uma mulher esperta, que domava seu homem por seu impulso mais primário, que era a luxúria.
Ao chegar em casa, Gabriel tratou de sair rapidamente do carro de Júlia, para correr ao banheiro, pois ele estava muito excitado, mas seu pai estava em casa, lavando o carro da família com a mangueira do jardim.
— Não vai apresentar a moça, filho? – O pai de Gabriel perguntou, desligando a torneira da mangueira.
Júlia aproveitou a deixa.
— Prazer em conhecê-lo, senhor. Meu nome é Júlia. Eu sou a namorada de seu filho.
— Espere aí... Você não pode fazer isso. Não pode dizer isso a meu pai. – Gabriel protestou embaraçado.
— Por que não, filho? Uma moça tão bonita. Você deveria ter orgulho em apresentá-la à família. – O pai de Gabriel abriu um largo sorriso, satisfeito com a escolha de seu filho.
Gabriel ficou envergonhado e calado. Júlia aproveitou para abraçá-lo e beijá-lo na frente de seu pai. Então ela se foi.
No dia seguinte, na escola, Luís ainda estava muito abalado e deprimido. Ele não fugiu ao contato com Gabriel, mas não sorriu para o outro, quando o viu.
— Bom dia! – Luís disse numa voz gelada.
— Bom dia, Luís! O que houve? Você parece chateado... – Gabriel falou baixinho, com medo de perturbar o outro rapaz de compleição mais delicada.
— Você não se lembra do que aconteceu no jogo de basquetebol? Sua namorada o fez se esquecer de mim?
— Ela não é minha namorada... Escute, vamos conversar ali naquela sala que está vazia.
— Por quê? Tem vergonha de que os outros te vejam conversando comigo? – Luís falou magoado.
— Não, Luís... É que tudo é tão complicado. Ok! Você quer conversar aqui, tudo bem.
— Ótimo!
— Olhe, Eu... Não gosto daquela garota...
— Não foi o que pareceu. – Luís falou amargo.
— Eu sei, mas não consigo controlá-la, ela é meio doida. Acho que ela se sente meio minha dona.
— E é isso que ela é? Sua dona? – Luís sabia que estava sendo irracional e ridículo, mas Gabriel o fazia simplesmente perder a cabeça. Ele estava com ciúmes e não conseguia parar de reclamar, mesmo sabendo que não tinha direito a esse comportamento ou a essa cobrança.
— Ela não é minha dona, tá legal. Ninguém é meu dono, e eu falo e saio com quem eu quiser. – Gabriel respondeu agitado, já um pouco magoado com o outro.
— Ótimo!
— Ótimo!
— Eu não sei por que eu ainda falo com você. – Luís falou de cara fechada.
— Não faz assim, Luís. Você tem todo o direito de reclamar. Eu que agi errado.
— Não, você não agiu errado. Ela é sua namorada. Eu não sou nada seu.
— Você está enganado cara. Você é tudo pra mim, por quê... Porquê eu amo você. – Gabriel falou o mais suave e calmo possível. Estava expondo o coração para seu amigo querido, o objeto de seus desejos, e esperava nada menos do que ser correspondido, nos mesmos termos.
— Gabriel... – Luís se limitou a dar um sorriso bobo e ficar olhando candidamente para o outro rapaz, abraçado a seus livros, enquanto o mundo a seu redor parecia ter parado de existir.
Gabriel sentiu uma urgência de abraçar aquele rapazinho, beijar seus lábios pálidos e cheios, afagar seu rosto sardento. Tudo naquele moço o enternecia, como se fora uma dádiva dos céus, ou um tesouro perdido, há muito tempo procurado. Ele ergueu a mão para tocar o pescoço de Luís, acariciando a pele quente por baixo do colarinho da blusa. Luís meneou a cabeça em direção à mão do outro, como se quisesse mais carinhos, até que Gabriel deslizou a mão até o rosto do colega, e Luís a beijou. Gabriel se aproximou e foi lentamente inclinando a cabeça para saciar seus lábios sedentos pelos do outro. Inconscientemente, Luís angulou o rosto, fechando os olhos, enquanto entreabria a boca, esperando o beijo.
Um couro de chacota os fez despertar para a realidade. Alguns alunos se reuniram para fazer mangoça dos dois, e o grito de “veado” rapidamente se alastrou. Gabriel empurrou Luís pelo corredor até chegarem à sala da direção, onde entraram para se ocultarem da turma. Estavam ambos transtornados e temerosos. O sino da escola tocou, avisando o início das aulas. Eles continuaram na sala, sem coragem de sair. O diretor estranhou quando os viu.
— Algum problema, rapazes?
— Não, senhor. Nenhum problema. Apenas estamos... Evitando um bando... Que estava fazendo bagunça, mas... Nós já vamos... Né, Luís?
— É, já vamos. Até logo, diretor! – Luís falou com um sorriso forçado, e os dois se atreveram a ir para suas salas de aula.
O diretor os observou por instantes e uma suspeita o perturbou, mas ele achou que estava imaginando coisas, e logo voltou a seus afazeres.
No fim da aula, os dois amigos marcaram um encontro em território neutro, um cinema no centro da cidade. Escolheram um filme melodramático, sem apelo popular, “Nashville”, por que sabiam que não haveria muitas pessoas na plateia. Escolheram as últimas poltronas para terem mais intimidade, tocando, abraçando, beijando e demonstrando todo o carinho que sentiam um pelo outro. Aproveitaram todo o tempo do filme para extravasarem o desejo represado, o amor proibido, protegidos pelas sombras, escondidos de todos, pois aquele tipo de relacionamento não era bem visto, sendo mesmo condenado pelas outras pessoas.
Ao se despedirem evitaram se beijar em público, bem como tocar as mãos. Amavam-se e se desejavam, mas infelizmente, expressar seu amor era visto como algo antinatural e pecaminoso.
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