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7 Capítulo 7: Comportamento estranho


Notas iniciais
"Não, não fuja não/ Finja que agora eu era o seu brinquedo/ Eu era o seu pião/ O seu bicho preferido/ Vem me dê a mão/ A gente agora já não tinha medo/ O tempo da maldade/ Acho que a gente nem tinha nascido." Chico Buarque ( João e Maria)

No dia seguinte os rapazes se encontraram na escola. Procuraram sentar-se juntos sem se tocarem. Temiam perder a cabeça e se agarrarem em público. Por isso ficaram perturbados e hipersensíveis. Lancharam juntos e estudaram juntos na biblioteca. Evitavam falar sobre o que estava acontecendo entre eles, mas por vezes, quando seus olhares se encontravam, não conseguiam disfarçar, e tinham longas conversas um com o outro, através dos olhares cheios de significado e paixão.


— Luís Henrique! — O professor falou asperamente no meio da biblioteca.


— Hã? — Com muita dificuldade Luís desviou os olhos de Gabriel e encarou seu professor de Ciências. — O que foi professor?


— Eu que pergunto. Você parece meio abobalhado e distraído, desde que passou a andar em companhia de certos alunos.


— O que? — Luís não entendia onde o professor queria chegar com aquele assunto. Olhou para Gabriel como se o outro pudesse lhe ajudar a entender.


— Pare de olhar para esse atleta. Está parecendo uma dessas meninas que vivem adorando pôsteres de atletas. — O professor falou irritado.


— Senhor... — Gabriel levantou-se e encarou o professor de Ciências. Ele não gostava de discussões, mas aquele professor estava indo longe demais.


— Gabriel, por favor, deixe que eu resolvo isso, está bem? — Luís levantou-se e passou a recolher os livros da mesa, e a mochila. — Mais tarde eu falo com você. Tchau!


— Tchau!


Luís Henrique saiu da biblioteca, acompanhando o professor de Ciências, deixando Gabriel sozinho com seus cadernos e livros. Gabriel resolveu voltar pra casa. Não veria Luís Henrique novamente naquele dia, sendo melhor ir pra casa e aguardar por um telefonema. Eles haviam resolvido voltar a serem amigos, mas a proximidade os fazia ficarem estranhos, como se... pertencessem um ao outro. Talvez aquilo fosse só uma fase, aí então ele voltaria a sentir desejo por meninas e não tão somente por Luís.


Quando Gabriel chegou em casa, Júlia já o estava esperando.


— Olá Gabriel! Vim te buscar para o ensaio.


— Júlia, será que já não estamos prontos? Quero dizer, nós já ensaiamos bastante, não tem como errarmos os passos.


— Tudo bem. Então hoje será nosso último ensaio.


— Certo.


Júlia e Gabriel foram para a Croco naquela tarde. Ela como sempre usava um collant de malha e meia-calça de lurex. Gabriel foi com seu velho agasalho esportivo. Iniciaram a coreografia da primeira música. Então após um passo em que eles dançaram com os corpos colados, Júlia agarrou-o e iniciou um beijo sexual. Gabriel esperou que ela acabasse o beijo. Ela se empolgou e abriu o zíper da blusa do agasalho. Parou de beijá-lo apenas para tirar a blusa dele. Depois segurou no cós da calça do agasalho para puxá-la para baixo. Gabriel agarrou as mãos dela.


— É melhor pararmos por aqui, Júlia.


— Por que?


— Porque eu não quero.


— Docinho, o que há de errado comigo? É o meu cabelo? São os meus dentes? É porque eu sou atirada? Você prefere uma moça pudica? Me diz. Eu estou completamente perdida nesse jogo. Eu não sei como agir com você. Me dá uma luz. Senão nenhum de nós dois vai se divertir.


— Júlia... eu sinto desejo por outro rapaz. _ Gabriel se calou e ficou esperando a reação dela.


— Você é bicha? — Ela falou o mais baixo que conseguiu, mais ainda num tom alto e indignado.


— Eu acho que sim. — Gabriel falou num fio de voz.


— Eu não acredito, não pode ser. Você... você se agarra com homens?


— Não! Eu nunca fiz isso, eu juro.


— Então como pode saber?


— Eu estou apaixonado por um colega da escola. Nós já nos beijamos.


Júlia colocou a mão tapando a boca, enquanto o olhava alucinada.


— Gabriel, você já esteve com uma mulher?


— Não.


— Então querido, como pode dizer que gosta mais de uma fruta sem provar a outra?


— Mas eu não sinto vontade.


— Querido, depois de nos conhecermos bem, você vai ficar inteiramente viciado em mulher.

Luís Henrique dedicava-se ao máximo ao seu projeto de ciências, para que seu professor não se enfurecesse novamente, mas era inegável que ele já não tinha mais a mesma paixão de antigamente, por aquele projeto. Sua nova paixão jogava basquetebol e tinha os músculos definidos, além de um olhar doce e uma boca tentadora. O compasso caiu de sua mão. Ele se assustou e sem perceber se apoiou na maquete do modelo de ligações trivalentes. A pequena escultura de isopor se espatifou.


— Droga! Onde é que eu estou com a cabeça?


— É o que eu também me pergunto. — Seu professor observou o estrago. — Já sabe que vai ter que refazer tudo, não é?


— Sim professor, não se preocupe.


— Luís, eu observei que você tem andado o tempo todo com aquele jogador de basquete. Eu acho que você não tem noção do que isso parece, mas é melhor modificar seu comportamento.


— Como assim? O que quer dizer?


— As pessoas podem achar que vocês dois... bem as pessoas sempre fazem piada de mau gosto quando veem dois rapazes juntos. — O professor parou de falar para observar Luís, que segurava seu olhar com uma expressão cândida. — Bem, as pessoas podem achar que você é maricas.


— Ninguém nunca me falou isso.


— Pois então modifique seu comportamento e procure se afastar daquele atleta. É o melhor que você faz.


Luís ficou pensando sobre o assunto. Ele nunca fizera nenhuma análise racional daquilo que estava acontecendo com ele. Então ele era um maricas? Achava tudo muito estranho. A única certeza que tinha era que necessitava estar perto de Gabriel. O outro era lindo, nobre, forte, perfeito... Pláft! Outro objeto foi ao chão.


— Droga, droga, droga! — Luís se lamentava irritado.



Na manhã seguinte, Luís Henrique procurou Gabriel. Seu amigo estava sentado embaixo de uma árvore. Parecia triste. Luís aproximou-se e sentou ao lado dele.


— Oi Gabriel! — Disse suavemente.


— Oi Luís!


— Ontem eu passei a tarde com o professor de Ciências. Eu quase não consigo terminar meu projeto, mas graças aos céus está pronto. — Luís ficou esperando que Gabriel se pronunciasse, mas o outro ficou calado. — Eu sei que Ciências parece chato, mas qualquer dia eu consigo te explicar como eu me sinto bem entre pesquisas científicas e cálculos matemáticos. — Luís disse com um sorriso inocente. Ele então percebeu um machucado no colarinho do amigo. — O que foi isso no seu pescoço, Gabriel? Você sofreu um acidente?


— Meu pescoço tá machucado? Onde? — Gabriel passou a mão pelo local, sem saber ao que o outro se referia.


Luís tocou em pequenas manchas violáceas.


— Isso não dói Gabriel? Está roxo.


— Não, não dói. — Gabriel voltou a ficar triste, ensimesmado, olhando para os outros estudantes que chegavam na escola.


— Você se meteu em briga?


— Não.


— Talvez tenha sido um morcego. Você sabia que morcegos transmitem a raiva?


— Foi uma garota, tá legal?


— Uma garota?


— O nome dela é Júlia. Ela me disse que eu tinha que... provar da fruta... antes de dizer que não gostava de mulher.


— Você quis fazer isso?


— Não!


Gabriel olhou para Luís intensamente. Esqueceram-se de que estavam em público. Esqueceram-se do resto do mundo. Esqueceram-se de que as pessoas os chamariam de bicha e maricas. Simplesmente se abraçaram e apoiaram a cabeça nos ombros um do outro.