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6 Capítulo 6: Desejo
Notas iniciais
Após o beijo na boca, Gabriel se aprumou e tentou retomar o controle, fazendo de conta que aquilo não havia acontecido. Um bichinho no seu cérebro lhe dizia que não era assim que rapazes garanhões faziam, que ele deveria aproveitar a deixa e dar um amasso em Júlia, mas ele não estava interessado nela. Não sentia nenhum desejo por ela. Logo, não tinha como aquilo ir adiante. Júlia empertigou-se e colocou as mãos na cintura, e o encarou séria. Gabriel se sentiu pressionado, e achou melhor admitir seu problema.
— Sinto muito Júlia, eu não tenho cabeça para namoro agora. — Falou contrito, com os braços largados.
— Sei. Você tem namorada?
— Não.
— Então por que não?
— Ah... eu não... senti vontade. Vai ver que é por que eu sou meio retardado. Todo mundo me diz isso. — Gabriel brincou. Às vezes conseguia safar-se de enrascadas simplesmente brincando.
— Eu quero namorar você.
— Pra você não faz diferença, o fato de eu não querer?
— Não. A não ser que você me odeie, ou não me suporte, mas se você apenas me achar simpática, eu acho que posso te conquistar.
— Gostei de ver. Autoconfiança. Essa é a palavra-chave. — Gabriel bateu palmas para Júlia.
— Então? Aceita ser meu namorado?
Gabriel olhou-a incrédulo. Era a primeira vez que conhecia uma menina como aquela, que tomava as rédeas da situação como se fosse um homem.
— Aceito.
Júlia deu um passo em sua direção e o agarrou pelos ombros, beijando-o sem inibições. Gabriel ficou de olhos abertos sentindo que alguma coisa estava errada, mas um bichinho na sua cabeça lhe dizia para fechar os olhos e segurar na cintura daquela moça. O que ele fez sem nenhuma emoção.
Júlia tornou-se onipresente. Procurava Gabriel na saída da escola. Vivia telefonando para sua casa. Fazia questão que ensaiassem todas as tardes, e quando havia jogo de basquete na escola de Gabriel, ela fazia questão de prestigiar. Ela passou a levá-lo consigo em jogos de futebol, clubes aquáticos, ou simplesmente tomar um sorvete. Tentava tornar-se íntima, mas isso apenas fazia Gabriel retrair-se ainda mais. Uma noite, quando estavam no cinema, o clima esquentou.
— Júlia, eu realmente acho que este não é o lugar, nem a hora para isso.
— Ok! Vamos ao motel.
— Motel?
— Shii! Fala baixo! Ah, ah, ah, Não me diz que você nunca foi ao motel.
— Não! Por que eu iria?
Júlia deu um sorriso compreensivo.
— Baby, você ainda não aprendeu o melhor da vida.
— Ah, ah, ah, ah, Agora entendi. Não! Outra hora você me ensina tudo fessôra, não tou a fim.
Um engraçadinho intrometeu-se na conversa, gritando de longe: "Ele é frutinha, cocota".
— Vai ver se eu tou na esquina, paspalho, e cocota é sua avó. — Júlia gritou injuriada. Mas o clima havia se quebrado.
Júlia sentou-se reta e ficou olhando para a tela grande sem realmente prestar atenção ao filme.
Gabriel sabia que a culpa era dele. Se ele pelo menos estivesse com vontade de fazer alguma coisa com aquela garota... Mas ele estava frio como uma pedra de gelo. Um iceberg, melhor dizendo. Talvez fosse melhor acabar de vez com aquele namoro.
Júlia levou Gabriel para casa em silêncio, em seu carro. Ao estacionar para que ele descesse, resolveu ter uma conversa séria.
— Gabriel, acho melhor conversarmos.
— Tudo bem.
— Baby, você é virgem?
Gabriel ficou boquiaberto sem saber o que responder.
— Apenas diga sim ou não. Eu não estou te julgando, nem vou rir na sua cara se você for virgem, mas você é o primeiro cara que não quer colocar as mãos em mim, nem fica todo aceso quando eu ponho a mão na sua ferramenta. Você não tem jeito de veado, então eu cheguei à conclusão de que você só pode ser virgem, sinceramente, eu não sei o que pensar.
— Talvez eu seja veado. — Gabriel resolveu ser brincalhão, e fez o possível para não se trair e cair na gargalhada.
— Sério? Você não desmunheca, nem fala fino, e anda como um macho viril. Realmente, se você é veado, não demonstra.
— Vai ver eu me esforço ao máximo para não desmunhecar. Fico segurando minhas mãos o tempo todo, pra ela não ficar bamba. — Gabriel falou fazendo trejeitos com as mãos, enquanto tentava manter a cara dura.
— Você está tirando o sarro da minha cara. — Júlia falou séria.
— Tou não, eu juro que sou frutinha.
— Então nesse caso, eu vou te levar de volta pro clube dos machões.
Júlia avançou sobre ele com sede. Deu-lhe um beijo sexual e ficou estimulando-o com a mão. Então, outro carro jogou luz alta sobre eles, fazendo Júlia desistir da empreitada. Ela se recompôs e Gabriel disse um simples "tchau" e saiu do carro, antes que as coisas pegassem fogo de novo. Júlia olhou-o desapontada e manobrou o carro para ir embora. Gabriel então foi andando em direção a sua casa. Quando o carro de Júlia desapareceu, alguém saiu das sombras e chamou-o com um "ei". Era Luís.
— Então esta é sua namorada? — Luís perguntou numa voz aguda.
— É. — Gabriel observou Luís. Ele estava transtornado. Gabriel já havia esquecido que seu ex-amigo era baixinho e magrinho. E que seu rosto era simétrico e tinha traços delicados, de boneca. Ele poderia facilmente se fazer passar por uma garota.
— Você parece que não sentiu minha falta. Depois de tudo que passamos juntos. Mas também, o que eu poderia esperar de um atleta? Vocês parecem que não tem cérebro, só estão interessados em sexo. Como se a vida fosse apenas hormônios em ebulição. Eu pensei que você fosse diferente. Que idiota que eu fui.
— Seu pai me proibiu de me aproximar de você. E você ficou o tempo todo se afastando de mim. Eu nem te vejo mais na escola.
— Pra que você queria me ver? Você não precisa de mim. Você tem essa garota. Eu vi como vocês se agarravam. Vocês quase fizeram sexo no carro. Eu tenho nojo de você.
Gabriel ao ouvir isso avançou para Luís. Este deu um passo para trás temeroso, mas já Gabriel o alcançou e o abraçou desajeitadamente, enquanto procurava os lábios do amigo. Luís pensou em protestar, mas já, ambos estavam abraçados e se beijando com paixão. Todo o desejo que Gabriel nunca sentiu por Júlia, explodiu de uma vez. Ele sentiu que queria mais e mais de Luís, e por muito pouco não despiu seu amigo para beijar-lhe todas as carnes. Separou-se do outro abruptamente, dando alguns passos para trás. Com muito esforço desviou os olhos do rapaz franzino, e obrigou-se a olhar em outra direção.
— Gabriel, eu não sei o que deu em mim... Eu só sei que não consigo tirar você da minha cabeça. — Luís andou até ele e tentou tocá-lo.
— Não me toque, ou não respondo por mim. Estou me controlando pra não... fazer sexo com você. Então não me toque.
— Você me ama? Eu preciso saber. Por favor. — Luís falou com os olhos brilhantes e com o rosto lívido.
— Eu te amo. Eu sou louco por você. Não se aproxime mais. Eu não quero te fazer nenhum mal.
— Está bem. Eu não quero mais ficar longe de você. Podemos voltar a ser amigos, por favor? — Luís perguntou num fio de voz. Ele também tentava se controlar, e não se jogar sobre Gabriel.
— Tudo bem. Amigos. — Gabriel apertou a mão oferecida por Luís. Ele poderia jurar que uma corrente elétrica percorreu seu corpo.
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