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5 Capítulo 5: Apaixonado.
Notas iniciais
— Veja, o país estava atravessando uma terrível crise econômica, agravada pelo declínio do poder da monarquia. O rei teve que ceder aos pouquinhos, para apaziguar os ânimos. A população não entendia, por que o rei oferecia banquetes, e sua esposa envolvia-se em rusgas amorosas, enquanto o povo passava fome. Quando a revolução aconteceu, as primeiras vítimas foram justamente o casal real, como símbolo do que não dava certo na França. Está acompanhando o meu raciocínio? — Luís perguntou para Gabriel, que não o olhava naquele momento, mas sim para as páginas do livro de História.
— Sim, estou. Eles tentaram resolver seus problemas de má gerência, cortando a cabeça do rei. Essa parte eu já entendi. — Gabriel respondeu, ainda com os olhos nas páginas cheias de letrinhas, sem figuras.
— Gabriel, quando alguém fala com você, é educado olhar no rosto da outra pessoa, a não ser que você não goste dele. — Luís reclamou o mais suavemente que pôde.
Na mesma hora, Gabriel enrubesceu e ergueu os olhos para o outro. Estivera evitando olhar no rosto de Luís, porque o outro era bonito demais, e Gabriel não conseguia deixar de desejá-lo, como se fosse uma moça. Luís percebeu que o amigo corara e sorriu. Ultimamente, ele vivia sorrindo a toa, bastando para isso, ficar próximo a Gabriel, seu novo melhor amigo.
— Você ficou vermelho. Sabia que quando a pressão do corpo sobe, ou estamos sob alta temperatura, ou uma emoção forte nos domina, o corpo reage aumentando a quantidade de sangue nas pequenas veias da pele? — Luís comentou, tentando não parecer muito enfadonho. — Eu posso tocar sua pele, para ver se a temperatura subiu? — Luís perguntou, já com a mão erguida, aproximando-se do rosto de Gabriel.
O outro ficou imóvel, com a boca entreaberta, sem acreditar que aquele rapazinho bonito, estava realmente tocando seu rosto, com aqueles dedos suaves de escrevinhador. Luís deslizou dois dedos pelo rosto do amigo. Achou-o muito macio. Sorriu novamente. Teve vontade de comentar que a pele do outro era suave, e que sentiu vontade de deslizar sua mão pelo corpo dele, mas achou melhor guardar para si este pensamento. Voltou sua atenção para a família real.
— Então, após a convenção de Versalhes, houve uma ruptura total entre o rei e seus súditos, levando-os a se insurgir contra a autoridade estabelecida. Você lembra o que eles fizeram, que se tornou um símbolo do início da revolução? — Luís perguntou com um ar professoral.
— A queda da Bastilha? — Gabriel arriscou, vermelho como pimenta, ainda sentindo o toque do outro em sua face.
Após três dias, andando e estudando juntos, Gabriel e Luís tornaram-se os melhores amigos, um do outro. No quarto dia, após terem se conhecido, Gabriel se dirigiu bem cedo para a casa de Luís, esperando que o outro não o mandasse embora, após o fim do castigo. Ao chegar na casa do amigo, ficou como sempre na calçada, mas quem foi recebê-lo foi o pai de Luís.
— Isso acaba aqui. Você não precisa mais vir atrás do meu filho. Tome. Esta é a conta dos novos óculos de Luís. Aquele que você quebrou. Eu lhe dou uma semana para me reembolsar. Após isso, procurarei seus pais, se não tiver me pagado. — O homem alto e magro, virou-se e entrou na casa novamente. Gabriel ficou envergonhado e foi embora.
Luís e Gabriel não tornaram a se encontrar. Gabriel ficou triste e calado. Tentou se dedicar à vida que levava antes de conhecer Luís, mas não era mais a mesma coisa. Luís fora proibido pelo pai de ser amigo de Gabriel. Ele sentia muita falta do atleta, chegando mesmo a chorar de saudade, mas não conseguia desobedecer ao pai. Resolveu se dedicar aos seus inúmeros afazeres como jovem cientista, mas mais e mais, via-se folheando "Romeu e Julieta", pensando em Gabriel.
João Evangelista estava feliz da vida, por poder novamente entrar em quadra com seu time. Ele procurou pelo mais próximo e passou a bola. Guto saiu batendo a bola no chão até chegar ao garrafão do adversário, fez uma finta e quase perdeu a bola. O tempo estava passando, e ele não conseguiria fazer um arremesso que prestasse. Tinha que passar a bola. Gabriel estava próximo. O problema era que Gabriel andava avoado, ultimamente. Ia mal nos treinos e perdia cestas fáceis. Mas Guto não tinha opção. Passou a bola para Gabriel. Por sorte o amigo recebeu a bola, quicou-a no chão, enquanto dava dois passos em direção ao garrafão. Ele deu impulso e... cesta. "Valeu Gabriel." Pensou Guto, enquanto batia com o punho no punho de Gabriel, quando passou por ele.
—"O silêncio está cantando uma canção de amor e paz. O silêncio está cantando uma canção por seu irmão. Muita gente vive sem amor e tem solidão. Mas aqui nessa casa do Senhor. Solidão não existe não. Solidão não existe não." — Gabriel cantava o mais afinado que conseguia, mas seu coração não estava naquela música. Ele até sentiu um aperto na garganta, quando falou a palavra amor. Tentava não pensar no assunto, não perguntar ao seu coração o que estava acontecendo, pois qualquer que fosse a resposta, ela não iria diminuir a dor que estava sentindo. Uma mistura de saudade e mágoa, com sensação de abandono e perda. Ainda uma vontade de estar perto, de querer bem, e fazer o outro feliz.
— Muito bem pessoal! Está ótimo, mas alguém está cantando mal. Gabriel, venha cá. — A professora de canto chamou Gabriel para uma conversa, um pouco distante dos outros. — Querido, qual é o seu problema? As coisas não andam bem na sua casa? — Ela perguntou com o braço em volta da cintura de Gabriel.
— As coisas andam bem na minha casa, sim, professora. Eu sinto muito pela minha deficiência. Vai ver são os hormônios da adolescência, de que todo mundo vive falando. — Gabriel tentou ser blasé.
— Humm. Hormônios. Eu devia ter desconfiado. Está apaixonado. — Gabriel corou violentamente. A professora riu abertamente, mas se arrependeu em seguida, tentando recuperar a compostura. — Desculpe-me. Querido, não fique tão... preocupado com isso. Tente entrar em sintonia com o coral, sim?
— Está bem.
O telefone de mesa tocou. Glória correu para atender, imaginando ser sua amiga Márcia, para falar da festa que fora com a família, no final de semana. Não era ela.
— Gabrieeel! Telefone para você! Uma tal de Júlia. — Glória se esgoelou no fim da escada, para Gabriel no andar de cima.
Gabriel desceu as escadas lentamente. Andava entediado.
— Alô! — Falou com a voz pastosa e desanimada.
— Alô! É a Júlia falando. Ainda lembra-se de mim? — Uma voz sensual falou do outro lado da linha.
— Sim. A moça da discoteque. O concurso de dança de casais. Você ligou para marcar o ensaio, não é? — Gabriel falou desinteressado.
— É. Você tá doente? Tá falando com uma voz esquisita. Bem, eu estou livre hoje às 4 horas. Estive pensando em ensaiarmos na Croco mesmo. O que acha?
— Está bem. Te vejo às 4 na Croco. Tchau! — Gabriel bateu o telefone sem esperar resposta.
Gabriel foi para a discoteque naquela tarde, e achou tudo muito estranho, sem o breu, a bola de pastilhas de espelhos, os efeitos de luz, e todo aquele barulhão dos infernos, ao qual já estava tão acostumado. Um zelador estava tomando conta da casa noturna, e o cumprimentou, pois já havia visto Gabriel dançando por lá, à noite. Logo depois, Júlia chegou. Cumprimentaram-se com beijinhos nas bochechas, e Júlia desfez-se da saia tipo envelope, que estava usando. Usava um collant de bailarina por baixo. Gabriel viera com um agasalho e não se importou em ensaiar com ele.
Em qualquer outro dia, ele poderia ficar excitado com a possibilidade de ficar dançando agarrado, com uma moça tão insinuante quanto aquela, mas não hoje. Ele limitou-se a seguir friamente a técnica de dança. Júlia ficou um pouco magoada, pela falta de interesse e entusiasmo da parte dele, mas sua técnica era perfeita. Ela poderia jurar que ele era um dançarino profissional, mas naqueles dias, achavam-se mais e mais dançarinos amadores e autodidatas em pistas de dança, que o fato não chegava a impressionar.
Misturaram dança flamenca, balé clássico e tango. No último movimento, quando Júlia arqueou-se nos braços de Gabriel, e ele debruçou-se sobre ela, numa simulação de beijo, ela não deixou passar a oportunidade e o beijou na boca.
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