ESBH - 7 anos com Apolo
1 Capítulo 1
O dia amanhecia novamente em Ipatinga, uma cidade no interior de Minas Gerais, e Paulo acordava com a luz do sol batendo sem seu rosto em um horário nada convencional. Os habitantes da cidade olhavam através de suas janelas espantados com aquele fenômeno estranho, mas Paulo sabia que era seu pai o avisando que estava mais que atrasado para o treino.
Não, vocês não leram errado, seu pai é Apolo, deus grego responsável por puxar o sol e muito irritado com o atraso do seu filho que dormiu mais do que deveria naquela manhã. O sol escaldante como se meio dia fosse apenas seu pai andando mais baixo que o comum e disposto a queimar seu filho se não levantasse da cama e fosse para a estação de trem.
Normalmente Apolo não se comportava assim. Na verdade os deuses gregos costumam ser bem ausentes, mas esse era um ano importante para o chalé. Era o ano em que seu chalé da Unidade Central do Brasil estaria à frente do encontro de aniversário.
Os deuses gregos sempre existiram, alguns dizem que perderam força frente às outras religiões. O que não sabem é que apenas se modificaram e se adaptaram, ganhando forças cada vez mais e, em consequência, gerando mais filhos. A quantidade de filhos resultou em uma lógica criação de novas unidades do famoso Acampamento Meio Sangue e do Acampamento Júpiter e os antigos rivais mostraram-se fortes aliados para a criação das novas unidades. A maioria dos países possuía uma unidade em seu território, outros se uniam e compartilhavam a mesma, mas o Brasil, mostrando um fato bem raro, possuia três unidades em decorrência de sua geografia. Os três grandes aproveitaram-se da feliz coincidência, ou talvez não tão coincidência assim, e cada um deles apadrinhou uma das unidades.
A primeira unidade era a Unidade Norte, acolhendo os semideuses das regiões norte, nordeste e seu patrono era Hades. A segunda era a Central, que englobava apenas a região sudeste e o distrito federal em razão da quantidade de membros e tendo como seu patrono Zeus. Como foi decidido que o distrito federal não estaria junto da região centro-oeste era uma incógnita, mas as línguas dizem que Zeus ganhou a capital em um jogo de pedra papel tesoura contra Poseidon. Por fim a unidade sul englobava as regiões centro-oeste e sul do país e Poseidon é seu patrono.
A união entre os Acampamentos Júpiter e Meio Sangue não trouxe como benefícios apenas a criação de novas unidades, mas melhorou de forma astronômica a qualidade de vida dos semideuses através da união de experiências. Agora os semideuses não tinham como únicas possibilidades ficarem confinados no acampamento ou morrer fora dele, agora eles envelheciam com qualidade de vida e apenas residiam no acampamento aqueles que assim escolhiam. Em decorrência disso, a Unidade Central do Brasil estabeleceu os Encontro de Semideuses de Belo Horizonte (cidade em que ficava a unidade) três vezes por ano, uma no mês de abril, outra no mês de agosto e a última, em celebração à criação do acampamento, em dezembro.
Esse ano o acampamento completava seus sete anos e o encontro de comemoração aconteceria dali a um mês. E isso significava que os treinos intensivos para o evento já estavam se iniciando, que os chalés já foram divididos entre os times vermelho e azul e que os chalés líderes dos times já haviam sido escolhidos. Nesse ano, Apolo estaria a frente do time Azul e Hades do time Vermelho e esse era o motivo do deus grego estar tão irritado com o atraso de seu filho.
Paulo pulou da cama e se apressou em pegar sua mochila na cadeira. Além de atrasado, não havia arrumado suas coisas no dia anterior. Chegou atrasado do plantão no hospital e apenas caiu exausto em sua cama. Não que seu pai se importasse, era um tanto quanto competitivo e esse ano o chalé de sua irmã estaria no time oposto, o que significava sangue nos olhos pela vitória e em muita pressão sobre seus filhos.
Passou correndo pela cozinha apenas puxando sua irmã Thyciane pelo braço e acenando para seus pais, deixando os demais familiares que ali estavam sem saber o que estava acontecendo. A verdade é que ninguém sabia que ele não era filho daquele pai mortal e sim de um deus grego. A maioria na verdade acharia loucura se soubessem e o mortal, que não lidou tão bem assim com a informação da traição, se vingou tendo uma filha com a deusa Afrodite, gerando assim sua irmã que só teve tempo de largar a colher do cereal e apanhar sua mochila enquanto era arrastada. Para seu irmão mortal e todo o restante da família eles apenas passavam os finais de semana na casa de amigos em Belo Horizonte.
Com a criação de Unidades para os países, o número crescente de filhos e da melhora da qualidade de vida dos semideuses trouxe outra necessidade à vista: o transporte de suas residências para as unidades e esse era o motivo pelo qual as unidades ficavam em capitais de fácil acesso. Nunca uma capital muito grande ou movimentada, pois isso dificultaria se esconderem na névoa, mas sempre capitais de fácil acesso por diversos meios de transporte e Belo Horizonte, Capital de Minas Gerais, se mostrou uma cidade perfeita para a Unidade Central.
Acesso fácil por ar e terra, extensa linha ferroviária e muita mata foram primordiais para essa escolha. Mas o ponto principal foram duas saídas do Labirinto de Dédalo localizadas em dois parques da cidade, o Parque Municipal, no centro da cidade e com fácil localização, e o Parque Ecológico da Pampulha, mais afastado e reservado, tornando-se a escolha óbvia como cede da Unidade Central.
Além das duas saídas do Labirinto, os parques ainda contavam com alguma magia desconhecia que os ligava. O Parque Municipal possuía uma escada que ia para a Praça dos Fundadores e, no meio da praça em formato de coliseu, existia uma placa em um pequeno pedestal dizendo guardar uma cápsula do tempo. A realidade é que nunca houve uma cápsula do tempo, mas sim um artefato mágico que fazia com que quem ali entrasse, fosse transportado para o centro do Parque Ecológico. O artefato ainda conseguia afastar todos os mortais da Praça dos Fundadores, já que carregava consigo uma névoa tão espessa que fazia com que os mortais sequer enxergassem a escada que levava a ela, tornando o local excelente para treinamento dos semideuses.
Para Paulo e Thyciane, o trem era o meio de transporte ideal. Saltariam na Estação Central da cidade de Belo Horizonte e caminhariam até o Parque Municipal para entrar pela passagem da cápsula e chegariam ao treino. Ou Paulo iria, já que o chalé de Afrodite pertencia ao time vermelho e seu treino seria na Praça dos Fundadores.
Outra inovação para o transporte foi a criação de linhas diretas. Existia uma linha de trem que ligava toda Minas Gerais até a Estação Central de Belo Horizonte e assim também foi feito com os demais estados, sendo todos ligados à cidade de Belo Horizonte em algum ponto. As linhas de trem na Estação Central, as linhas aéreas aterrissavam no Aeroporto da Pampulha e existiam semideuses residentes na Unidade que serviam de guias dentro do Labirinto de Dédalo e transportavam semideuses em pequenos carrinhos de golfe. Todos usavam a mesma tecnologia que a carruagem de Apolo e transportavam os semideuses de um ponto ao outro em tamanha velocidade que para alguns se mostra impossível a viagem sem um remédio para enjoo.
Esse era o caso de Paulo que, entrando na estação de trem de Ipatinga, já colocava o comprimido na boca e engolia com a própria saliva enquanto esperava o Expresso Semideus chegar. O nome do trem havia sido inspirado nos contos de Harry Potter, sendo ideia da deusa Atena, que projetou toda a malha ferroviária junto de seus filhos.
Torcendo para o remédio fazer efeito antes do trem passar, o que claramente não demoraria muito, já que chegaram exatos dois minutos antes do trem, Paulo jogou sua mochila no chão e a abriu para ver o que estava ali. Nada de mais, apenas sua escova de dente, um óculos escuros, uma muda de roupas usadas, coisas para banho e suas coisas para o hospital. Não daria tempo de voltar em casa para buscar mais roupas, então teria que se contentar com sua blusa do chalé e do acampamento que ficavam em seu armário na Unidade e em lavar o que tinha em sua mochila.
Como que sabendo no que ele pensava, o trem chegou em um piscar de olhos, sua velocidade assustando os semideuses novatos que aguardavam na estação.
— Expresso Semideus sentido Estação Central – gritou o maquinista de algum lugar. – Única chamada!
Agarrando a alça de sua mochila com uma mão e colocando o óculos escuros com a outra, Paulo ajudou os sátiros a embarcarem os novatos e entrou com sua irmã logo em seguida, encontrando dois assentos no final do último vagão e fechando seus olhos assim que sentiu o solavanco do trem, seguido dos gritos do novato que sentava pouco a sua frente.
Se minutos ou horas depois, Paulo não sabia, mas acordou com os mesmos gritos nos quais dormiu e com seu braço doendo muito. Assustado, abre seus olhos e se depara com uma cena que não via a tempos. O caos gerado por um monstro.
Retirando as malas que caíram sobre seu braço em algum momento, percebeu com alegria que não estava quebrado e pôs-se a procurar sua mochila. O caos se instalava na sua frente enquanto o sátiros conduziam os semideuses para o vagão da frente e os mais velhos tentavam dar conta do mantícore que atirava seus ferrões para todos os lados.
Encontrou sua mochila e, com isso, sua irmã inconsciente ao lado, fazendo com que se desesperasse um pouco e se apressasse a pegar sua escova de dente de dentro e pressionar sua ponta, vendo-a se transformar em sua tão amada espada. Rapidamente pegou sua irmã no colo e correu em direção ao monstro que estava concentrado em uma filha de Hades que lutava para mantê-lo longe da porta de acesso aos outros vagões e aproveitou o fato para deixar sua irmã com um sátiro que veio em seu socorro. O barulho, porém, pareceu despertar a atenção do animal que se virou para arremessar sua calda em sua direção.
Bendito seja o filho de Hefesto que forjou seu escudo e sua espada pois, assim que seus braços ficaram livres, o óculos escorregou de seu rosto automaticamente e se transformou em seu escudo, prendendo-se ao seu braço no exato momento em que a cauda do mantícore o atingia, impedindo que se machucasse e apenas fosse novamente arremessado para o fundo do vagão com o impacto.
Se antes seu braço não estava quebrado, agora definitivamente estava. Com um pouco de esforço se levantou e viu que a garota de Hades estava em apuros. Aparentemente não havia mais ninguém no vagão, apenas malas e, como que para confirmar o fato, o sátiro que pegara sua irmã de seu colo gritou da porta que só restavam os dois no vagão.
Em uma ideia um tanto quanto insana e sabendo que provavelmente estaria encrencado posteriormente, Paulo correu em direção ao monstro que, novamente, voltou sua atenção para ele e preparou o ataque com sua cauda. No momento exato em que se jogaria por baixo do animal e tentaria escorregar entre as patas do monstro, sua boca que estava aberta foi preenchida de um pó de gosto horrível. A garota que antes parecia em apuros agora estava ensanguentada e com o braço da lança estendido na direção em que antes estava a criatura. Aparentemente se aproveitou de um momento de desatenção para fincar sua lança exatamente entre a pata e o tronco, atingindo provavelmente em cheio o coração e o transformando em muito pó.
— O que você estava pensando? Ficou louco? – gritou a garota cambaleando para trás. – Sabia que aquele ferrão é venenoso?
— Nossa! Acredita que não sabia? Achei que saísse perfume de lá. – Respondeu Paulo com seu melhor tom de ironia, enquanto se levantava e tirava o máximo de pó que conseguia da boca. – Isso tem um gosto horrível. Deuses!
— Ela está certa Paulo. – comentou o sátiro que o ajudou vindo em sua direção com um pano e o estendendo a ele. – Sou Ivo, sátiro de Atena. Vamos Letícia, temos que te levar para a enfermaria.
— Eu ia quebrar o vagão e mandar esse mantícore para longe. Estamos no último mesmo. – respondeu analisando o local. – E possivelmente arrumar um baita problema. Olha quanta bagagem!
— Ah, baita problema seria pouco. – riu Ivo já na metade do corredor. – Vamos, precisaremos de sua ajuda na enfermaria, menino prodígio.
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Enquanto que em Ipatinga o sol nasceu cedo e fervente, em Belo Horizonte Zeus não permitiu que seu filho fizesse como queria e aquele dia 16 de novembro nasceu nublado na capital. O tempo ameno comemorado por muitos semideuses para aquele primeiro dia de treinamento não era assim bem visto pelos filhos de Apolo e menos ainda por Fabrício, líder do chalé de Apolo da Unidade Central do Brasil.
A verdade é que os filhos de Apolo quase sempre tiveram uma boa relação com o sol, mas para Fafá, como era conhecido, era uma relação mais próxima. Ele havia sido agraciado com um poder divino por seu pai e literalmente retirava suas forças da luz do sol. Isso não significava que era fraco em sua ausência, mas suas qualidades físicas eram elevadas ao montante de até 3 vezes a quantidade verificada sem sol quando exposto à luz solar.
Isso significava que, ao acordar naquela manhã, o rapaz não estava sequer minimamente feliz com a ausência de seu pai. Ainda em péssimo humor, se levantou e foi até a cozinha, comendo algo rápido antes de tomar um banho e pegar sua mochila. Já havia preparado tudo na noite anterior e pretendia chegar ao local de treino o mais cedo possível para recepcionar os novatos. Soube que chegaria uma nova leva no dia de hoje e o chalé de Hermes, que recepcionava os novatos, estava no mesmo time que seu chalé e não possuía liderança atual.
Olhou para sua lança de duas pontas escorada atrás da porta pensando se deveria carregá-la assim ou desmontá-la em duas espadas para transportá-las na mochila. Sabia que a névoa cuidaria de fazer a lança transformar-se em um simples cano PVC na visão dos mortais, mas pegaria transporte público e carregar aquela lança daquele tamanho não parecia uma ideia das mais geniais. Acabou por optar em desmontá-la e acoplá-las à mochila, despedindo-se de sua mãe com um beijo antes de sair de casa.
Olhando em seu celular percebeu que sua ideia de chegar antes de todos seria impossível já que sua namorada, que sempre estava atrasada para tudo, havia se confundido com o horário em que deveria sair de casa e já estava no ponto de encontro marcado para o treino. Rindo, caminhou para o ponto de ônibus que, como que o esperando, passou exatamente quanto chegou ao local.
O caminho até o parque foi consideravelmente tranquilo e chegou rapidamente ao local, sendo o segundo a chegar por poucos minutos.
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O restante do caminho, Paulo ajudou a cuidar de todos os feridos no incidente, não eram muitos os que estavam no trem, então Paulo era o único no local que sabia mais do que os cuidados de primeiros socorros, tendo que cuidar de todos que ali estavam quase que ao mesmo tempo. Sorte que se tratavam apenas de pequenos arranhões e algumas fraturas. Os mais graves ali eram sua irmã que havia batido a cabeça e Letícia que acabou por levar um dos ferrões venenosos na perna.
Concentrado em preparar o antídoto, Paulo ainda suturava o corte de uma garotinha que estava muito assustada com tudo que via. Era sua primeira vez no evento e já encontrou um mantícore em sua primeira viagem. Era previsível que estivesse assustada. A sorte era que Paulo estava ali. Ele havia recebido um dom de seu pai quando nasceu, ou uma maldição, não dá para saber exatamente. A realidade era que apenas de encostar em alguém ele poderia apontar exatamente o que havia de errado com o corpo da pessoa e aquela garotinha não tinha qualquer problema de saúde, apenas o susto e o corte que já se curava com a ajuda de ambrosias e com seu dom que também acelerava os efeitos dos medicamentos.
Sentiu o trem desacelerar e ouviu a voz do condutor avisando que a estação Central de Belo Horizonte estava próxima. Acelerou o preparo do antídoto e estava terminando de aplicar a injeção na veia de Letícia quando o trem freou bruscamente fazendo com que perdesse o equilíbrio.
Levantou-se o mais rápido que pôde e retirou a seringa do braço da garota, verificando que sua queda não causou qualquer lesão ao braço ou à sua veia. Liberou as garotas que, com a ajuda de Ivo, pegaram suas coisas e saltaram do trem, sendo seguidos por Paulo que veio carregando sua irmã. Olharam para trás e aguardaram o sinal do sátiro Levi, informando que não havia mais ninguém no trem e seguiram caminho entre os mortais.
Ficou curioso para saber o que os mortais viam naquele grupo que os faziam apontarem e rirem, mas considerando o histórico após três anos de acampamento apostava que seriam fantasias ou algo próximo disso.
— Aposto que acham que vocês dois são recém-casados.
A resposta de sua pergunta mental o assustou de tal modo que Thyciane quase caiu de seus braços. Olhou espantado para Yuri que apareceu literalmente do nada ao seu lado. O garoto estava sem camisa, com uma mochila pendurada em um ombro e a camiseta do chalé jogada sobre o outro. Sua coroa de louros enfeitava seus cachos e o conjunto das vestes com o corpo do garoto o fazia parecer um elfo de contos de fadas.
— Vai assustar outro, Yuri! – reclamou ajeitando sua irmã em seus braços.
— Desculpe. – respondeu risonho. – Vamos, me dá ela aqui que sabemos que seu braço ainda não está bom.
— Como soube que estaríamos aqui?
— Levi mandou uma mensagem de Íris para a Unidade. Eu e Mari estávamos chegando no acampamento na hora, só pegamos um dos carrinhos e viemos resgatar os feridos que não podem andar.
— Isso significa que preciso ir andando? – Resmungou já pensando no caminho até o Parque Municipal na chuva que começava a cair sobre Belo Horizonte.
— Não dessa vez. Precisamos de você acompanhando a trevosa lá. – respondeu Yuri aos sussurros por estar próximo ao carrinho de golfe que foi buscá-los. – Ah! Descobri que hoje o carrinho é uma ambulância para os mortais. Bem propício né?
Paulo arqueou as sobrancelhas em surpresa, mas sua cara logo fechou ao sentir os primeiros pingos de chuva molharem seu rosto.
Definitivamente não seria um treino fácil.
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