Notas iniciais
Um agradecimento especial à Lethy que betou o capítulo e me salvou grandiosamente.

Chegar ao Parque Municipal foi bem fácil, passar pelos campistas que lá estavam era outra história. Aparentemente, a notícia do ataque havia se espalhado e muitos aguardavam notícias na entrada da praça dos fundadores, o que acabou em uma pequena confusão, já que os integrantes do time azul não poderiam estar ali.

— Precisamos levar a Leticia para a enfermaria do acampamento. – disse Paulo assim que avistou Ana Flávia, líder do chalé de Hades. – Ela foi envenenada e precisa ficar sob observação. No final do dia a liberamos se tudo der certo.

— Tudo bem. – respondeu, observando sua campista dentro do carrinho de golfe. – Precisam de ajuda para levá-la?

— Não há necessidade, estamos em três e a novata está em condições de andar. – respondeu descendo do carrinho e ajudando sua irmã, que havia acordado há pouco. – Qualquer coisa me chame, ok? Eu venho correndo.

— Não será necessário. Estou bem, de verdade. – respondeu Thyciane, pegando sua mochila. – Até a noite.

Paulo ajudou Yuri a carregar a maca de Letícia pela passagem enquanto Mari vinha atrás, amparando a garotinha que ainda se encontrava bastante assustada. Alguns campistas do time azul seguiram o exemplo deles, ajudando a carregar a mochila dos garotos e os suprimentos médicos que estavam no carrinho. Os restantes ainda enrolaram por ali, conversando com os amigos e informando que iriam logo mais.

Após três anos de Acampamento era de se esperar que Paulo tivesse se acostumado com a passagem, mas isso provavelmente jamais aconteceria. Era como passar por um véu muito frio, a sensação de pular no canto mais frio do Polo Norte e sair no segundo seguinte entre duas árvores do parque ecológico.

A vista do Acampamento, em compensação, fazia valer a péssima sensação de morte que a passagem trazia. Ao contrário do Acampamento Meio Sangue americano, o brasileiro não possuía chalés ou aquele acampamento típico dos filmes, era na realidade um conjunto de prédios pequenos localizados atrás do lago, em uma mata que os mortais diziam estar fechada por risco do que chamavam de carrapato estrela.

A realidade é que o tal carrapato não passava de uma engenhoca – criada pelos filhos de Hefesto, com auxílio dos filhos de Apolo – projetada para injetar uma pequena dose de uma substância no corpo dos mortais, fazendo com que se esquecessem do que viram ali dentro e adoecessem levemente. Era uma defesa simples para aqueles mais curiosos invadiam os limites estabelecidos por faixas e cercas entre o mundo mortal e o acampamento.

O acampamento também contava com uma proteção inspirada na da árvore de Thalia, colocada ali para impedir a invasão de monstros no território do acampamento – só não havia nenhum semideus enterrado em formato de árvore.

Os prédios, dispostos em formato da letra grega ômega, possuíam em seu círculo os chalés dos deuses chamados grandes, assim como na organização tradicional do acampamento americano. Na base da letra, ficavam o prédio de Zeus e um nada pequeno templo em homenagem à Hera, que não possuía filhos com mortais. A direita de Zeus, ainda na base, mas agora onde se localizavam os seus traços laterais, ficavam os edifícios filiados ao Hotel Valhalla e Acampamento Júpiter; e, a esquerda de Hera, dois prédios que os campistas chamavam de DMPT, destinados aos deuses menores, primordiais e titãs. A escolha de manter duas construções para reunir os filhos destes, assim como uma para os descendentes dos deuses em sua forma romana era única e exclusivamente em razão do número de membros, sendo destinada uma ala deste último a cada deus. Quanto ao destinado Hotel Valhalla, este era apenas uma filial, já que seus integrantes estavam mortos e residiam no Hotel original, ali se encontrava apenas uma saída para que os integrantes participassem dos eventos e festividades do acampamento sempre que quisessem.

Na parte redonda, ficavam os prédios destinados aos 12 deuses chamados de “Grandes”, com os de Zeus e Hera encabeçando com seus números 1 e 2, respectivamente, e servindo de ligação entre o círculo e a base. Os demais logo atrás, ficando aqueles de números ímpares ao lado esquerdo e os pares ao lado direito, cada um decorado de acordo com o gosto dos filhos dos deuses.

Uma curiosidade é Ártemis, mesmo sendo também uma deusa donzela, possuía um prédio e não um templo; isso devido à necessidade de abrigar suas caçadoras, que apareciam em todos os treinos para confraternizar com seus amigos e irmãos.

O hall de cada prédio ainda possuía uma temática e funcionalidade. O 7, destinado à Apolo, era também a enfermaria do acampamento e o local responsável por recepcionar os recém-chegados.

— Ainda ficarei cego por causa desse prédio. – resmungou Letícia em sua maca.

— Ih, Let! Deixa de ser fresca. – respondeu Nathy, brincando com sua irmã enquanto saía da enfermaria. – Soube que vai ficar comigo hoje.

— Está de plantão hoje, Nathy? – respondeu Paulo, colocando a maca em cima do suporte e ajudando Yuri a transferir a ferida para a cama.

— Sim! Eu e Mari aqui hoje. Fafá chegou há pouco tempo e já atualizou a ficha. Deu uma folga para o Lucão que fica aqui quase todo dia.

— Queria vir mais vezes para ajudar, mas o hospital está apertado. Tem acontecido algo muito estranho esse ano, muita coisa ruim.

— Apenas 2019 sendo 2019. Agora vão deixar as coisas no quarto vocês dois que o Fafá está esperando todos no coreto para começar o treino.

Apesar de não existirem chalés como antigamente, a nomenclatura continuou e o prédio do chalé de Apolo era o mais amarelo e brilhante do acampamento, ninguém sabia ao certo como conseguiram pintá-lo inteiro com purpurina, tanto por dentro, quanto por fora. As únicas partes não brilhantes eram os espelhos, que estavam em quase todas as paredes, e o número em laranja, que era padrão para todo o acampamento.

O prédio possuía quatro andares além do térreo, no primeiro ficava a área de convivência; no segundo e no terceiro, ficavam as camas dos campistas, com cortinas como as de hospitais de filmes dividindo os espaços e garantindo o mínimo de privacidade. O quarto e ultimo andar era destinado à Forja da Luz, nome dado à liderança do chalé, a qual auxiliava os conselheiros. Esse era o único andar que possuía quartos separados, sendo eles suítes. Os banheiros ficavam espalhados em todos os andares e eram unissex, possuindo boxes para banho e vasos sanitários protegidos por um sistema de segurança que impedia a entrada de mais de uma pessoa ao mesmo tempo.

Paulo e Yuri, por serem campistas há mais tempo, tinham suas camas no terceiro andar, o que nem sempre significava uma boa coisa, já que nenhum dos prédios do acampamento contava com elevadores para o público. O lado bom é que, por terem suas camas já definidas, podiam deixar suas coisas no acampamento, como armaduras e demais equipamentos e assim não precisavam transportá-los o tempo todo. Infelizmente, Paulo nunca deixava roupas, já que pouco conseguia aparecer no acampamento, o que significava gastar uma pequena fortuna em roupas novas para o final de semana na lojinha do acampamento.

Após deixarem suas coisas e colocarem suas armaduras, ouviram um grito vindo do térreo e correram para a janela descobrir o que estava acontecendo.

— Vocês acham que estão de férias? Todo mundo para o treino agora! Se eu vir um campista parado no prédio vai se ver pessoalmente comigo! — gritava Milord, o coordenador do acampamento, com seu megafone.

A verdade é que ninguém gostava de deixar Milord irritado, ele não tinha o apelido de Milorthanos à toa e podia ser bem cruel quando queria. Ouviram um barulho de passos na escada e encontraram Bruno saindo do quarto andar, ainda atrapalhado com sua lança, os cabelos totalmente bagunçados. Provavelmente tinha chegado tarde de alguma Rave e dormiu mais que o previsto. Rindo um pouco, Yuri pegou a lança do garoto e os três desceram até térreo, encontrando com San e Bianca ali.

Sequer olharam para o coordenador do acampamento, apenas seguiram caminho para o coreto, vendo os demais companheiros de time tomarem a mesma direção. Do outro lado do acampamento, Gus segurava sua lança, mantendo o portal para o parque municipal aberto e apressando os campistas do time vermelho para que atravessassem. O homem pertencia ao chalé de Hefesto e, consequentemente, ao time azul, mas passava muito tempo sendo vice-coordenador e ajudando Milord, ocupando parte de seu tempo com questões administrativas.

O coreto era um lugar mais afastado dos prédios e próximo ao refeitório e servia de ponto de encontro para treino e de espaço para os eventos festivos do acampamento. O evento acontecia na mata ao lado do acampamento, mas nenhum dos chalés sabia exatamente em qual local seria feito o caça a bandeira. No final, os times optavam por se encontrarem ali, fazerem um treino básico de luta e, após um tempo, se deslocarem para algum lugar da mata para treinar na vegetação típica. Era este o motivo pelo qual os times revezavam para terem a mata para si durante um final de semana, pois assim poderiam analisá-la e estudá-la com cuidado, sem risco de sua estratégia ser descoberta pelo time contrário.

Ao chegarem ao local, encontraram Fafá conversando mais afastado com Denis, primeiro conselheiro do chalé de Hefesto, acompanhados de Ana Raquel, também de Hefesto, e Bela, membro da forja da Luz. Os demais campistas estavam ao lado, alguns conversando, outros treinando em duplas. Aparentemente, o treino não havia começado ainda em razão dos atrasos.

Percebendo a chegada dos campistas, Bela saiu do grupo e veio em direção ao coreto. Queria começar o treino.

— Bom dia! Estão um pouco atrasado, hein? Algum novato? – Perguntou já no meio do coreto e aguardando enquanto algumas pessoas levantavam a mão. – Tudo bem, aos novatos, peço que sigam os sátiros ao final do alongamento para que sejam armados, eles irão passar para vocês o básico de luta antes de treinarmos. Aos já armados, armas no chão e vamos alongar um pouco antes de começar.

Assim todos fizeram, colocando-se em círculo ao redor da garota e iniciando os alongamentos sob comando dela. Denis chegou pouco depois e assumiu o início do treinamento, continuando o alongamento e coordenando o aquecimento dos campistas, treinando o básico de posicionamento e fortalecimento muscular, assim como passando algumas orientações quanto ao armamento utilizado durante o evento.

Para quem acha que é tranquilo por ser apenas o aquecimento, não sabe o que é ESBH. O evento é levado tão a sério por todos os campistas que qualquer um que faça corpo mole, mesmo no aquecimento, é punido com muitas flexões ou abdominais, isso sem contar as punições que os próprios campistas infligem aos preguiçosos, excluindo-os das conversas e festividades. A verdade é que os campistas se entendem e são muito inclusivos, mas também não são santos e não vão ajudar aqueles que não fazem o mínimo para serem incluídos.

Em meio a uma bateria de aquecimento em duplas, foi ouvida ao longe a sirene do acampamento, informando a todos que o horário do almoço começava e que os campistas deveriam ir ao refeitório caso não quisessem ficar sem comer até a noite. Denis, então, encerrou o aquecimento e todos se encaminharam para o refeitório.

O almoço do dia era o típico brasileiro – arroz, feijão, bife, batata frita e salada –preparado de forma perfeita pelas dríades do acampamento. Elas não gostavam muito quando tinha carne, tentaram diversas vezes estabelecer o veganismo como única alimentação no acampamento e até conseguiram por um tempo, mas os campistas acabaram por levar uma churrasqueira e fazerem por si mesmos um churrasco que culminou em um pequeno incêndio no prédio de Apolo.

Após o almoço, os times foram novamente separados e Fafá assumiu o treino, deixando os campistas livres por uma hora para fazerem a digestão enquanto se reunia com a forja da luz. Esse evento e o do ano seguinte teriam a ajuda de um novo membro em suas atividades. Augusto provou-se durante 2019 e se mostrou um excelente campista, comparecendo em todos os treinos que podia e ajudando o chalé nas questões administrativas. Seria apresentado como membro da forja naquele dia e, por tradição, pediria ajuda aos demais membros para que fizessem uma festa ao final do dia, onde todos seriam informados e celebrariam a ascensão dele ao cargo.

A forja era composta atualmente por seis membros: Fafá e Fábio por serem conselheiros; Bruno, Maia, Lucão e Bela, contando ainda com a ajuda de Ray, sátira responsável pelo chalé de Apolo. Eram pessoas que se destacaram e se empenharam em ajudar o chalé em todas as funções necessárias, pessoas da confiança dos conselheiros, com as quais eles sabiam poder contar.

A conversa foi rápida, mesmo não tendo por assunto unicamente a promoção de Augusto, mas também as funções de cada membro naquela semana e a necessidade de eles estarem mais atentos nesse evento para honrar o nome de seu pai.

A hora passou rapidamente e o treino reiniciou, dessa vez na mata onde ocorreria o caça oficial. Paulo pegou sua espada, seu escudo e foi se posicionar onde Fafá determinou. Começaria no time da defesa e sua função era impedir que o time atacante pegasse a bandeira e a levasse até o local determinado. No caça, o campo era dividido entre os dois times e a bandeira deveria ser levada até o território do time que capturou a bandeira, mas no treinamento era mais útil não colocar um território tão amplo e focar mais na defesa e ataque realmente, então assim fizeram, treinando e se revezando nas duas posições, buscando aproveitar ao máximo as habilidades individuais dos campistas.

O treino da parte da tarde se estendeu até as 17 horas quando, já exaustos, foram liberados por Fafá e retornaram à região dos prédios. Fafá e Bela cuidaram de guardar as armas do chalé emprestadas aos campistas e aguardaram por um tempo no local, junto aos demais conselheiros do chalé. O treino havia acabado para os demais campistas, mas para eles, conselheiros e membros apoiadores, como Bela, Gus e alguns outros, ainda havia muita conversa e discussão sobre as estratégias de batalha.

Fafá foi eleito líder do time azul para esse evento e, como se a faculdade não fosse o suficiente para ocupar sua cabeça, a confiança de seu chalé e dos demais membros do time em seu trabalho trazia noites em claro estudando e pensando estratégias tanto para a defesa quanto para o ataque. Liderar era algo nato para o primeiro conselheiro do chalé de Apolo e o dom que recebera de seu pai ao nascer era um bônus grandioso, mas as responsabilidades que vieram com o cargo pesavam sobre seus ombros e sobre seu calcanhar que, quase como uma ironia do destino, era seu ponto fraco e vivia machucado.

A conversa durou horas, envolvendo muitas opiniões e muitas pessoas que pareciam estar ali apenas para atrapalhar. Além disso, havia alguns assuntos espinhosos a serem tratados. Benção ou maldição, uma parte dos conselheiros simplesmente não havia comparecido ao treino, na verdade, provavelmente sequer haviam informado seus campistas sobre o treino e, como se já não fosse problemático o suficiente, alguns chalés ainda estavam sem liderança alguma, como era o caso de Poseidon e Hermes.

Horas e muita exaustão depois, a reunião se encerrou com uma estratégia de defesa e de ataques elaboradas. Vanessa, segunda conselheira de Hefesto, fizera um trabalho surpreendente, liderando o ataque do dia, e acabou por ser responsável pelo treino do ataque da semana posterior. O treino do dia seguinte foi reservado especialmente para o treinamento das outras atividades do evento e Fafá já tinha dores de cabeça ao imaginar a frustração dos campistas que simplesmente amavam o caça.

Assim que chegaram ao prédio, Bela e Fábio subiram as escadas para o quarto andar enquanto Fafá caminhou para a enfermaria. Suas atividades como líder do chalé apenas começavam naquele dia, mesmo que o cansaço físico o acompanhasse.

A enfermaria estava vazia e apenas Mari e Nathy ali estavam, conversando e jogando algum jogo de cartas. Aparentemente poucos haviam se machucado naquele treino.

— Os machucados do trem já foram liberados? – perguntou, assustando as duas.

— Sim. Os do treino de hoje tiveram pequenos cortes superficiais e machucados leves, então também já liberamos. – respondeu Mari, juntando as cartas.

— Então subam as duas e tomem um banho. Já podem espalhar pelo chalé que teremos um luau à beira do lago assim que os guardinhas do parque saírem.

Mari sorriu bem contente com a notícia, guardou suas coisas no armário da enfermaria e subiu as escadas. Deu para ouvir sua voz do andar de cima avisando do luau e a comemoração dos campistas, arrancando assim um pequeno sorriso do conselheiro.

— Senta aí. Vamos olhar esse seu pé. – mandou Nathy com um olhar nada contente.

— Não precisa. Não me esforcei muito hoje. – respondeu à garota que costumava chamar de cunhada.

— Uhum. E eu tenho 1,90m de altura. Ande logo que talvez tenhamos que chamar o Paulo.

— Não será necessário. – comentou Paulo das escadas, assustando os dois. – Eu já sabia que esse teimoso aí estaria com o calcanhar ferrado só de ver no treino.

— Muito engraçados vocês dois. Só preciso de um pouco de néctar. – respondeu, tentando parecer autoritário.

— E o médico daqui sou eu, então senta logo que eu vou olhar esse pé. – disse Paulo no mesmo tom.

— Você é enfermeiro. – possuía um prédio e não um templo possuía um prédio e não um templo respondeu Fafá a contragosto já se sentando na cadeira e colocando seu pé para cima.

— Termos técnicos apenas. – comentou Paulo baixinho. — Vamos precisar enfaixar. Nada de ficar muito tempo em pé essa noite, sabemos que sua recuperação é mais lenta nesse horário.

E assim fez. Enfaixou o pé do conselheiro enquanto Nathy pegava um pouco de ambrosia no armário e o fazia comer. O alívio foi sentido automaticamente em consequência do toque curativo de Paulo, mas Fafá jamais daria o braço a torcer e admitiria quanta dor estava realmente sentindo.

O atendimento foi rápido, o efeito da ambrosia e do que chamavam de toque de Rapunzel, em referência ao filme Enrolados, fez com que o líder estivesse em pé em poucos minutos e fosse para seu quarto no quarto andar, já liberando os dois outros campistas para se arrumarem para o luau.

O caminho pelas escadas nunca era torturante para o líder. Ele gostava de passar pelos andares e observar os campistas do chalé. O prédio continha atualmente mais de 60 camas, mas nem todas eram ocupadas diariamente, a maioria dos campistas apenas estava vivendo sua vida fora do acampamento e seus lugares ali permaneciam, reservados para o caso de quererem retornar. Normalmente tinham mais de 20 campistas em épocas como essa, e ver os campistas animados sempre renovava suas energias. Morar em Belo Horizonte e ser líder e conselheiro obrigava-o a ir muitas vezes ao acampamento e definitivamente não gostava quando dava o azar de isso acontecer em um dia com menos membros. Ficava triste com o silêncio do local.

O chalé de Apolo sempre foi muito animado e barulhento. Músicas e conversas rolavam em todos os locais, sobre assuntos mais diversos, e aquilo se tornara uma família para todos. Alguns diziam que o laço sanguíneo que os ligava aos deuses não significava muito na vida real, mas que aquele chalé estava lá para provar que mesmo geneticamente não conectados, seus pais os uniram ali para ser uma família. Ou seus tios, já que o chalé também abrigava filhos de outros deuses que escolheram fazer parte daquele chalé.

— Fafá! – gritou Mari ao ver o conselheiro passar. – Tenho uma música nova! Estava treinando nas aulas da faculdade.

— Então já temos uma apresentação para o luau de hoje. Converse com os meninos e arrume a galera para tocar. – respondeu sorrindo para a campista que desceu feliz para o segundo andar.

O quarto e último andar, ao contrário dos demais, era um local calmo e silencioso na maior parte do tempo. Logo que se encerravam as escadas, aparecia a forja, onde eram feitos e armazenados o armamento do chalé. Em seguida ficavam os seis quartos do andar que eram iguais em disposição espacial e tamanho, sendo ocupados por ordem de colocação na forja. O último era ocupado por Lucão, antigo conselheiro do chalé, o segundo por Fafá e por Bela, que passou a dormir em seu quarto alguns meses após o início do namoro. O terceiro quarto, antigamente ocupado por Bela, agora era de Fábio, segundo conselheiro do chalé, seguido por Maia, no quarto e Bruno, no quinto. O sexto e ultimo quarto estava com as portas abertas e totalmente vago, pronto e limpo para ser ocupado por Augusto já naquela noite.

Entrando em seu quarto, encontrou Bela em frente ao espelho, já terminando sua maquiagem. Isso significava que estava muito atrasado.

— Você tem 10 minutos. – Comentou a garota terminando de passar o batom.

— Você está linda. – respondeu, procurando suas coisas para tomar banho.

— Eu sei. – riu a garota, colocando-se de pé. – Vou descer para ajeitar as coisas com o pessoal da forja, não se atrase mais.

Observou a namorada pegar uma sacola de papel ao lado da porta e sair do quarto, ouvindo-a dar “oi” para Maia e, depois, a altura voz de ambas diminuir gradativamente.

Bela sempre estava atrasada, se até ela já estava pronta, isso significava que ele estava definitivamente atrasado. Tomou um banho rápido, vestiu uma blusa branca simples, calça jeans e um all star vinho. Apanhou sua bandana vermelha, amarrando em seu pescoço e saiu do quarto apressado, parando no espelho da escada para arrumar o cabelo.

A verdade é que filhos de Apolo, assim como seu pai, eram amantes de espelhos e de seu visual, alguns podem ter autoestima baixa, mas jamais deixam de gostar de espelhos e de se orgulhar de algo em si.

Saiu rapidamente do prédio e caminhou para o lago junto dos demais campistas. As festas do chalé eram muito conhecidas e todos se animavam para ir. Era garantia de música boa, comida e muita diversão. Essa noite, a primeira dos treinos para o evento de sete anos, era um marco grande e merecia uma comemoração para unir os chalés. O intuito era não só anunciar o cargo de Augusto, mas também mostrar que o evento é feito de amizades, não apenas de competição.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.