ERRO

1 PRÓLOGO — MAR ABERTO


Notas iniciais
ERRO não é uma aventura tradicional. É uma história sobre fracassos, perdas e tentativas. Cada capítulo é centrado em um personagem diferente, todos conectados por um mesmo deserto e por um homem que carrega a morte em uma carroça. Não existe linha do tempo exata. Se você espera uma história com ginásios, capturas e evoluções, não vai acontecer. Aqui é ORRE. E em ORRE, a única coisa que evolui, é o desespero. Há temas fortes aqui: → Doença, abandono, luto, pobreza, corrupção, vício, sacrifício, morte. → Nada disso é gratuito. Mas está presente. → E pode ser gatilho. Então leia com cuidado. A fanfic foi pensada como uma série fechada de cinco capítulos, cada um com um núcleo, um protagonista e um pedaço de mundo quebrado. Há elementos originais, claro, como habilidades corrompidas, Shadow Pokémon como infecção viral, e não apenas um estado de “ódio” como é tratado na franquia. O papel simbólico do Mercador que distorcem o mundo Pokémon para algo mais cru, melancólico e sujo. Não é cânon. Mas é verdadeiro no que quer dizer. Escrevi ERRO como alguém que cresceu com Pokémon, mas cresceu demais. Como alguém que ainda acredita que há beleza no fim do mundo, mesmo que seja só por alguns minutos antes de desaparecer. Se você chegou até aqui: obrigado! Mesmo que seja só você e essa história. Nos vemos na estrada.

O mar de Orre era estranho ao amanhecer. Suas águas não cantavam como em outras regiões. Não havia Magikarp saltando, nem Wingulls rindo ao longe. O que se ouvia era o arrastar do vento cortando a superfície, e o som seco das ondas batendo no casco de um barco velho demais para ainda flutuar.

O Pescador lançava sua rede pela terceira vez naquela manhã. O ombro doía. As juntas também. O sol tímido mal tocava o horizonte, e mesmo assim, o suor escorria por sua nuca queimada.

— Nada de novo, hein, Marujo?

Ao seu lado, um Totodile observava as águas com os braços cruzados. Seu olhar, atento, seguia as bolhas que subiam lentamente do fundo. Quando uma rede voltava vazia, ele apenas grunhia. Mas não em frustração, mas em resignação.

O barco balançava suavemente sobre a vastidão azul. E à distância, como um corte no mundo, surgia a silhueta escura de uma ilha esquecida.

Citadark.

O Pescador olhou por um instante, os olhos semicerrados.

— Era diferente, sabia? Quando eu era garoto, a gente passava perto e dava pra ver luzes... dava pra ouvir música. Agora...

Ele não terminou a frase. A ilha à frente era só sombra e rocha. Nenhum farol, nenhuma cor, nenhuma vida. Parecia um cadáver flutuando no mar, e ainda assim, tinha presença. Uma presença que empurrava o mundo pra longe.

O Totodile grunhiu novamente, dessa vez mais baixo. Como se sentisse algo.

— Relaxa, parceiro. A gente já vai — disse o Pescador, começando a recolher a rede mais uma vez.

Foi então que o vento parou.

Não diminuiu. Não mudou. Parou.

Como se o próprio mar prendesse a respiração.

O Pescador ergueu os olhos e sentiu o ar mudar, mais espesso, mais pesado. O cheiro de sal deu lugar a algo metálico, ácido, como ferrugem fervida. Uma névoa roxa começou a se formar sobre as ondas, rastejando como dedos finos sobre a água.

— Marujo… segura no mastro. Agora!

O Totodile obedeceu no mesmo instante, os olhos arregalados.

O mar, antes calmo, começou a rugir. Ondas subiam e tombavam, sem razão, como se agitadas por algo lá embaixo. A névoa tomava o horizonte, engolindo tudo entre o barco e a ilha.

E então, eles ouviram.

Um rugido.

Não como o de um Gyarados ou de um Pokémon comum. Era algo mais profundo. Mais antigo. O som de algo quebrado gritando para o mundo que ainda existia.

Um trovão triste, sufocado em raiva.

O Pescador tentou ver através da névoa. Pensou ter visto algo se movendo na costa da ilha. Mas era impossível distinguir formas.

Silêncio.

Por um segundo, tudo parou.

E então veio a explosão.

Luz. Fogo. Chamas subindo em forma de cogumelo no centro de Citadark. O som demorou a chegar, mas quando chegou, foi como um golpe no peito. O mar se ergueu, o barco quase virou, e o pescador foi lançado contra o convés.

— Marujo! — gritou, com os olhos ardendo, ofuscado pela névoa púrpura.

Lá estava ele.

Parado. Bem à sua frente.

— Me ajuda a levantar, parceiro...

Mas o Totodile não se mexeu.

Os olhos do Pescador focaram no rosto do Pokémon. Havia algo errado.

A pele tremia, como se algo pulsasse sob ela. O corpo inteiro do Totodile começou a estremecer e brilhar de forma intensa. Seus olhos ficaram vermelhos, como poços de tinta viva, e seu rosto, antes firme e leal, agora era um retrato de dor… e ódio.

— Marujo...? — a voz do velho quase não saiu.

Era tarde demais.

O rugido seguinte não veio do mar. Veio de dentro do barco.

Veio dele.

O Pokémon gritou, e avançou.

O mar seguiu rugindo, como se comemorasse.

Notas finais
Obrigado por acompanhar até aqui! :D