EQUILÍBRIO (o Grand Finale)
4 Capítulo 4
Notas iniciais
— Ei, tá caladinha demais.
Vinícius me cutuca assim que estabilizamos em uma calçada qualquer.
Por todo o tempo do suposto passeio, tentei seguir o meu senso de direção, acompanhando os movimentos do carro, mas daí o Renato virou numa avenida diferente do esperado quando passou pela rotatória-chave e depois fez umas entradas bem distintas que logo bagunçaram total minhas referências. Então não tenho ideia de onde estou. Não acho que seja a pizzaria, porque sua entrada fica bem na avenida principal e tá tudo muito quieto em relação a barulhos de trânsito para esse horário.
Será que teve algum problema e a Iara teve que mudar tudo? Ela não mandou nenhuma foto mostrando como havia ficado o local no final das contas, só disse que deixou tudo encaminhado. Fora que peguei carona com ela duas vezes hoje, uma para o trabalho, uma para a terapia, e não houve nenhum papo sobre qualquer adversidade ou dificuldade.
Não teria dado tempo de acontecer um desastre enquanto fiquei em sessão, teria?
— Mãe?
— Oi, filho. Estou aqui, bem à frente de vocês.
— Tô achando a Milena muito calada. Acho que ela ficou chateada de verdade.
Logo sinto a presença de Djane, movendo-se para ficar frente a frente comigo. Ela segura a minha mão livre e me afaga os cabelos. Outro cuidado dela foi manter meus fones ao meu pescoço e disso não reclamo.
— Querida, foi só uma brincadeira. Tudo bem? Ficou chateada?
Não respondo, meio orgulhosa e acho que os três entendem isso pra esse lado que o Vinícius mencionou. Aproveito desse artifício, claro, e dessa vez sem dor no coração. Até o Renato sabe que posso ser bem vingativa também.
Assim, Djane me puxa para eu me soltar de seu filho, mas como ele resiste, sei que esse “patinho” também já caiu na minha rede.
— É rapidinho, Vini, fica aí, parado. Renato, é melhor fechar o carro.
Do que ela me leva, me guia uns passos para frente, para o que parecia ser uma porta estreita. Seguro a parede lisa, tateando devagar o espaço.
Distante do aniversariante, a sogrinha me revela umas coisinhas.
— A Iara me pediu pra ganhar tempo, tá? Foi isso. Tiveram um probleminha com os cabos e o telão e agora tá liberado. Eu só precisava rodar um pouquinho com vocês. Ai, Milena, ficou enjoada, foi? Fala comigo!
O seu filho mesmo disse: o que vai, volta!
Falo isso? Não. Deixo a professora cavar sua própria... vaga. Deixo que crie caraminholas, ué, enquanto eu tomo outra saída.
— Já posso tirar a venda?
— Ô, querida, se tá incomodando tanto, pode sim.
Djane mesmo puxa o pano e só assim eu respiro melhor, conferindo os lados e onde estamos. Só que não consigo reconhecer o local. É uma ruela iluminada e com alguns carros, porém, deserta.
Ao me ver observando demais, e provavelmente com uma interrogação no rosto, ela explica, outra vez baixinho.
— Estamos nos fundos da pizzaria, vamos entrar por aqui. E você, vai perdoar essa tua sogra que foi malvada?
Me estico na porta estreita, para um corredor um tanto escurecido, para checar melhor dessa entrada e continuo no meu personagem, sem dar vias de fato a ela.
— Eu vou pensar no teu caso, Djane.
Como Renato alguns minutinhos atrás, essa sogra se entrega.
— Tá bom. Mas digo logo que isso foi um dos comando da Iara. Eu só estou cumprindo o que me pediram. Além disso, ela não quis te deixar preocupada, já que o tempo estaria fechado.
Paro de espionar o corredor quando a professora coloca essa razão entre nós. Significa que pensaram em mim e que até funcionou. Me envolver nesse sequestro improvisado até que me tirou a atenção da chuva que falta cair.
Mas em um detalhe não me convence.
— Tá, e a parte de me vendar?
Djane amassa um lábio no outro para disfarçar o indisfarçável.
— Essa parte foi invenção minha mesmo. Só... aproveitei a ocasião. Que acho que não deu tão certo assim. Porque não era pra te chatear, de modo algum.
É melhor deixar ela acreditar que tá me devendo, não é, Brasil?
A vingança da vingança. Será que também mata a alma e envenena?
Agoniado, Vinícius nos procura ao ar.
— Ei, cadê vocês?
— Um segundinho, Vini... É, está na hora de entrar.
Depois de checar o relógio de pulso, a professora vai para onde deixou o Vinícius. Renato passa primeiro por nós, segurando a caixa do bolo e levanta os pés para atravessar o batente da portinhola. Assim que adentra, eu também salto o batente e recoloco a venda, que se mantinha à minha cabeça. Faço isso porque me compadeço deles, que não fizeram por mal, não tanto assim, e também pelo Vini, que quer a experiência toda. Fora que já tá na parte final. Seguro na mão dele e seguimos.
Do lado de dentro, passamos pelo corredor pouco iluminado. Sei que está um pouco escuro não só por ter espiado no começo, mas porque não firmei bem a venda ao rosto, assim consigo captar algumas coisas ao chão, como a luz que vem de certa saleta. Não consigo ver é no que bate no meu braço ou o que faz o Vinícius soltar um “ai minha testa”. Djane se desculpa e segue nos guiando. Logo nos diz para levantar os pés e saltar para frente, pois tinha umas fiações.
Segundos depois sinto que ela some e eu tento me localizar, chamando por ela. Eu e Vinícius. É assim que alguém surge por trás de nós, nos vira para dada direção e puxa de vez nossas vendas.
Tudo segue escuro e silencioso, apesar de eu ouvir umas risadinhas e respirações. Então uma luz surge ao que identifico ser uma parede a nossa frente. O telão. Que traz a imagem do Vinícius criança, bem pequeno. E uma música animadinha que identifico ser do Matchbox Twenty de fundo.
A imagem é de um porta-retratos com uma fotografia que costuma ficar na sala de sua casa, ele mais ou menos com uns dois ou três anos de idade, de camiseta bege com um calçãozinho verde escuro, até hoje sua cor favorita, escalando os degraus da varanda de casa. O ângulo é de quem encontrou de frente com ele, subindo.
— Ai. Meu. Deus. Eu vou matar a minha mãe.
Agora ele quer, né?
Nem dá tempo de rir vez que a voz de Djane surge no autofalante, sobrepondo-se ao Matchbox. Com ares de curiosidade, ela diz: “O Vinícius? Ele é travesso e esperto assim desde pequeno. Gostava de subir em tudo, queria até dirigir carro”. Daí aparece uma foto dele com o pai Gustavo dentro de um veículo antigo, Vinícius sentado entre as pernas do pai como uma criança já mais desenvolta, o Vini segurando o volante e seu pai segurando as mãozinhas dele. A porta do carro está aberta e eles rindo, felizes.
Sorrio com essa fotinha, no entanto, percebo quando o Vinícius leva uma mão ao rosto, emocionado com a imagem de seu pai. Apenas abraço-o pelos ombros, sentindo sua emoção. Ao trocarem a foto, para uma do porta-retratos que fica na casa do seu Júlio, bem junto de uma fotografia dos irmãos Gustavo e Filipe quando mais novos, surge a voz do sogrinho no áudio: “Meu garoto? Me orgulho do homem responsável e íntegro que ele se tornou. Bem mais do que eu nessa mesma idade”.
Depois o que vemos é um vídeo e a trilha sonora pausa um momentinho. Pelo que consigo identificar, é a mesa de jantar do seu Júlio e a Iara está ajustando a câmera atrás de um pote de farinha. Dá pra ver parte do pote e, por um acaso de vida, EU PASSO do outro lado da mesa e a Iara fala: “Eu acho muito engraçado quando tu fala meu Vini”. E eu simplesmente lembro desse dia. Foi logo depois que ela e o Filipe fizeram a mudança para a casa do vô-sogro, e, num domingo qualquer, a gente papeando, eu soltei alguma pérola e a ruivinha fez essa observação. No vídeo, sem eu saber que estava sendo filmada, chego com um pratinho de pudim e respondo “E eu tô errada?” ao que muitas pessoas riem na pizzaria e a Iara replica, rindo besta, dizendo que “não”. Então adiciona um “É fofo, só isso”.
Daí o seu Júlio aparece e percebe a câmera! A imagem mostra ele se aproximando, pegando o que acho ser o celular da Iara e se manifesta na mesma hora sobre isso. “O que tu tá aprontando com essa câmera, hein?”, demanda ele, baixinho. “Nadinha, vovô”, diz ela. Seu Júlio ainda a observa, desconfiado, mas depois se senta, bem do meu lado, eu olhando para um ponto atrás da Iara (lembro que eu tava de olho no Vini e na criatura conversando um pouco mais longe). Sem eu perceber novamente, esse velhinho arteiro pisca pra lente. Depois fala: “Agora me contem dessa conversa”. E a Iara até que conta: “Só tava falando sobre o jeito que a Lena fala do Vini”. Seu Júlio faz um “hmmmmmm” e diz “aquele papo de meu Vini, né?”, que eu, lá na mesa, só me dou uma colherada de pudim e finjo que não é comigo. Mas aí ele acrescenta “E vivem grudados, né? Já tá aí, olhando pra ele!”. Eu, muito da sabichona, ainda respondo: “Que culpa tenho se ele me rouba toda a atenção? E ainda diz que quer mais atenção. Pode isso?”.
A pizzaria em peso simplesmente gargalha e eu me escondo no meu Vini, que me recebe aos seus braços com risos e beijos à minha cabeça enquanto lá no vídeo a Iara mexe na lente para focalizar ele conversando com o meu irmão do outro lado. Eu vou matar a irmã dele, só isso. Eu mato ela, o Vini mata a mãe, e depois comemos bolo. Pronto!
Será que a parte do karaokê ainda tá de pé?
O vídeo muda novamente, agora com os outros Oliveiras (Bruno, Daniela e Sávio), que identifico ser imagens recentes, pois estavam com as roupas de quando nos encontramos na segunda-feira. O Sávio, inclusive, vestindo uma das camisetas que o Vini deu pra ele, da série Smallville, que ele provou um pouco antes de a gente se despedir. Fora isso, ainda tinha pipoca no cabelo do Bruno. Eles bem que fugiram cedo naquele dia e foi pra gravar essa mensagem!
A Iara, equilibrando seu dispositivo, pergunta a eles: “O que vocês mais curtem no Vini?” e eles fingem pensar. Bruno começa, como se tivesse tido um grande estalo: “Grande parceiro!”. O Sávio, mais tímido, coloca as mãos no bolso da calça e sorri sem jeito: “É com certeza um cara que todo mundo quer ser amigo”. Já Dani, ela ri pro Sávio do lado dela, como se ele tivesse roubado a fala dela, mas também dá sua resposta: “É uma pessoa que você sabe que pode contar”.
A próxima pessoa que surge no telão é o meu mano e a sua roupa me diz que isso foi gravado no domingo, provavelmente em algum momento em que eu tava distraída com o ensaio. Nessa hora a criatura tava mais confiante e ele se permite dizer algo legal, com aquele seu sorriso bobo e impressionado: “É só o cara em que eu mais confio? Ele sabe conquistar as pessoas e sendo ele mesmo”.
Acho bonito esse detalhe que Murilo destaca, pois é algo que o Vinícius às vezes queria controlar pra impressionar as pessoas da minha família, e, no final das contas, ele sendo ele se saiu ainda melhor.
Depois da resposta do meu irmão, dá de ouvir um “awn” da Iara, que logo volta a câmera pra si mesma e exclama: “Viu só, irmãozinho? Tá garantido com o cunhado!”.
A risada é geral outra vez e temos uma nova aparição. Quem, quem, quem? O Silveira. Ele está sentado no que parece ser uma mesa de escritório, porém, de algum lugar que eu não conheço. Deve estar na sua própria casa. Ele dá uma risadinha de leve de início e deixa o seu recado: “Esse garoto... Esse garoto tem muito pra descobrir nessa vida. Inclusive que tem uma risada muito parecida com a de sua mãe. Queria eu estar aí pra te ouvir!”. Nem eu aguento essa emoção, beijo meu Vini perto do coração, que badala forte e funga pra se manter de pé até o fim. Quase embalo ele em mim.
A foto seguinte é então de Djane com o filho no último Natal, e a voz dela se faz presente outra vez, junto com o clímax da música, que tem uma pequena pausa com palmas no seu curso: “É maravilhoso ver o carinho de todos por você, meu filho, e ver como faz parte de todos, como é querido!”.
E aí a carinha da nossa fadinha preferida aparece toda travessa e dá pra ver que ela tá na varanda da casa de seu avô. Ela finaliza: “É isso, pessoal. Meu irmãozinho é parceiro, é amigo, é responsável, é uuuuum pilantra, e paaaaaaara nooooooooosssa aleeegriiiiiiiiiia, é um pilantra que eu amo. Câmbio, desligo! Hora da pizza!”.
As luzes são acesas e vez que a gente tava no escuro faz tanto tempo, nós dois ficamos de olhos cerrados por uns segundos até ver quem estava por perto. Djane, Filipe e seu Júlio se aproximam, mas é a Iara quem nos arrebata num primeiro abraço. Ao fundo toca a mesma música do vídeo e eu fico perdida, sem saber se ainda vai ter karaokê, se vai ter apresentação, se aquele ensaio foi apenas um delírio, ou se... sei lá.
Mas aí sou puxada por alguém para me afastar do núcleo do aniversariante, que é engolido por amigos e conhecidos e seus familiares. Ainda de visão atrapalhada, demoro a ver quem é. Dani. E uma Dani muito da traquina que me arrasta mais pro lado do salão e demanda para eu a acompanhar:
— Bora logo que a segunda parte é com a gente!
— Bora logo o quê?
— Comer a nossa pizza, ué! Ou tu quer subir no palco com fome?
Acho que só pisco pra ela, assimilando o que diz.
— Teu serviço de distração acabou, agora é a vez da Iara.
— Eu não tô entendo é mais nada.
Daniela ri sentando-se numa cadeira numa mesa mais distante.
— E precisa? A Iara te explica depois.
— Isso se ela sobreviver. Porque é hoje que eu mato ela.
Sento-me e aceito a pizza que o garçom oferece. Ao menos o rodízio era verdade.
— Mata depois, tá? Comida primeiro, teu Vini depois.
Por que eu sinto que isso vai pegar?
~;~
— Às vezes as pessoas só querem te surpreender e tu tem que deixar, Lena.
Essa é a Daniela repetindo isso pra mim – e na primeira vez ela me chamou de “chata”. Às vezes as pessoas só querem te surpreender e tu tem que deixar, sua chata!
Basicamente, ela tava me repreendendo por pensar demais. Isso mesmo, a Daniela tava puxando a minha orelha por eu ter entrado em paranoia, vez que não deu pra me atualizarem de tudo e como o Vinícius tá no grupo dos Oliveiras e a Iara não tá no grupo do evento inaugural, não dava pra formar um terceiro grupo com basicamente as mesmas pessoas. Quer dizer, dar até dava, porém, era bem possível de alguém se enganar na divisão de conversas e alguma coisa vazar.
Então quando teve o problema com a fiação do telão, isso o Sávio avisou o Bruno, que comentou com a Dani. E que teria algum atraso. Daí a Iara disse pra Djane segurar o Vinícius comigo. A Iara sabe da Cris, logo tinha noção de onde eu estaria e porque não poderia aparecer tão cedo. Não que a Daniela saiba disso (no caso, da minha terapia), é que a Iara mencionou que eu tinha um compromisso e sairia logo no começo da noite. E quando a Daniela se deu conta de que eu não tava sabendo do vídeo, a I já emendou que seria uma surpresinha a mais.
O vídeo, inclusive, quase não aconteceu, porque nem Djane, nem Filipe queriam mostrar a cara. Foi bem em cima da hora, no domingo de manhã praticamente, que os dois toparam e só concordaram porque a Daniela tinha dado a ideia de colocar eles apenas em áudio. Deu tempo assim de a I conseguir um vídeo do Silveira (que veio pro aniversário!) e conseguir encaixar todo mundo. Quanto a mim, essa pilantra por acaso tinha esse vídeo meu do pudim com o seu Júlio faz tempo. Boatos que ela tem nos filmado ao aleatório para acervo pessoal.
Medo desse material! Ao mesmo tempo, preciso de acesso urgentemente.
Sobre Djane, como o plano anterior envolvia ela indo buscar o Vinícius na casa do seu Júlio e rodar um pouco com ele, a professora pôde encaixar isso de volta e articular aquela história do bolo. Ela poderia ter me dito em segredo, mas não, a vingancinha foi mais apetitosa para a sogrinha considerar. Não que eu revele a minha amiga que eu tentei burlar esse sistema, deixa eles descobrirem por si só. Não foi assim que descobri, ué?
Dani vai me revelando conforme a música de fundo, do Matchbox, segue tocando e a multidão segue engolindo o Vinícius. Havia muitas pessoas para revê-lo, abraçá-lo, parabenizá-lo, presenteá-lo, e a Iara separou esse momento para a gente comer antes de começar o karaokê – principalmente eu e a Dani, porque seremos as primeiras.
No final das contas, houve um engano de horários. O rodízio começou às 19h e o karaokê só vai estar aberto a partir das 20h30. Isso se tornou uma bagunça até para a nossa organização porque foi um desencontro de informações depois que o Vinícius ligou para reservar o espaço. O atendente sacou quem ele era porque tava acompanhando as atividades do ensaio de domingo junto com a gente, que foi bem a hora que o Vinícius ligou. Mas nos desencontramos e o recado, de que o aniversariante quase melou o esquema, não foi repassado. E aí eu que contei pra a galera e reajustamos o plano.
Só que outro atendente ouviu que o rodízio era 19h30 e o karaokê 20h durante a ligação do Vinícius e por um tempo achamos que seria meio corrido para comer e abrir as apresentações. Mas quando a Iara veio arrumar as coisas hoje cedo, descobriu os horários certos. Imaginei que eu teria chegado atrasada, e na real chegamos bem na hora. O atraso mesmo foi só do vídeo, porque em tese iríamos começar mais cedo pra poder dar tempo de tudo. Enfim, coisas que acontecem de última hora e que a I super deu conta. Eu que dei uma piradinha enquanto tava sem informações. A surpresa, no final, se estendeu a todos.
Estou terminando meu primeiro pedaço quando um vulto ruivo rouba uma calabresa da minha pizza e se põe com a mão na cintura do meu lado.
— Que história é essa que tu tá zangada comigo, bonitinha?
— Eu?!
Me faço de inocente na cara de pau.
— Djane que falou!
— Djane entendeu tudo errado.
— Sei.
Junto os talheres ao prato e lembro de certo fato.
— Se bem que aquela parte de vídeo não autorizado... Não é tu que diz que tem que pedir o consentimento das pessoas?
Os olhos dessa bonitinha crescem de repente, de quem foi pega com a boca na botija, e tenta se sair.
— Eu pedi. Do vovô.
— Pelo que me lembre, tinha outra pessoa com o pudim lá também.
A marra da minha amiga cai por terra junto com seus ombros.
— Ai, Lena, eu não tive tempo, só isso. Foi tudo tão corrido e eu sabia que tu não iria querer gravar. Tive que contar com a sorte, só isso.
Deito os braços sobre a mesa, complacente, sem perder a pose.
— Sorte de eu não te matar, só isso.
— Mas fez o teu Vini feliz. Isso não conta?
Apenas olho enviesado pra ela. Até porque meu irmão surge de repente e interrompe.
— I, cadê a...? Bora que ele tá perguntando demais!
Só entendo que se trata de mim que ele tava à procura quando a Iara me pega pela mão e grita pra Dani que depois me devolve.
Pelo caminho, ainda vejo um amontoado de pessoas ao redor do Vinícius (como Wellington, Wanessa, a mãe deles, Djane, Renato e Filipe) e o quanto ele seguia embasbacado conversando com um e outro. O Silveira fura a bolha nesse momento pra lhe dar um embrulho e eu me lembro que o meu ficou a Iara.
— Onde tu colocou meu presente?
— Tá tudo com vovô, ele que ficou de vigia.
Mas antes que eu possa ir lá pegar, meu irmão me coloca do lado do Vinícius como se eu tivesse sumido por muito tempo.
— Encontrei ela!
— Onde tu te meteu, hein, namorada?
Poderia eu acusar a irmã dele como culpada, mas sou bondosa. Cumprimento logo o Wellington e família, pra disfarçar melhor. Quando a Iara indica a eles as mesas, como a boa anfitriã que é, o namorado se volta para mim e me abraça animado. Tava feliz mesmo. Naquele estado de felicidade que mal cabe nele e ele não sabe nem o que dizer.
Ou seja, meta cumprida. Boa parte dela, na verdade.
E pra complementar a experiência, provoco:
— E aí, já matou Djane?
Vinícius ri e me solta, encantado, até porque ainda tocava Matchbox Twenty ao fundo, não tão alto. Pelo que identifico, era Feel, bem pesadinha e agitada para os padrões da banda.
— Acho melhor só amanhã. Tem muita testemunha aqui. E tu, já matou minha irmã?
— Eu até tentei, mas sabe como é difícil lidar com aquela carinha dela... Isso porque, no outro dia, ela que ficou no meu pé reclamando sobre uns tais direitos de imagem e de consentimento só porque eu tirei uma foto tua dormindo no sofá.
Faço cara de indignada porque sim. O namorado fica é mais sorridente.
— Então tem uma foto minha dormindo? Eu tô bonito?
— É claro que tá bonito! Um charme. Por isso eu tirei a foto, ué. Pra acervo pessoal sim, sem colocar num telão pra toda a família, amigos, conhecidos e desconhecidos.
Ele mexe em mim, nos meus braços, levado pelo ritmo da música.
— Não é como se fosse o Youtube, né?
— Indireta pra tua excelentíssima namorada? A essa altura do campeonato?
Mas ele me dribla, o bonito, dando de ombros e puxando meus braços para seu pescoço.
— Eu amo quando tu fala meu Vini.
Por um acaso de vida, começa a música Bright Lights, que é uma que ele me fez gamar faz um tempinho e afasta nossa bolha do mundo.
— E eu falo isso?
— Fala e muitas vezes fala sem perceber. Como no vídeo.
Acho que sigo encabulada com isso, pois quero tirar a atenção desse detalhe.
— A tua irmãzinha tá me chantageando justo com esse argumento, de te fazer feliz. O preço dessa vez que foi salgado, viu. Masssss... Pelo menos já sei de um corredor escuro pra sumir com o corpo dela. Distrai o Sávio pra mim?
Ele balança a cabeça em negativa.
— Não no meu aniversário.
— Ah, poxa! Deixa então chegar amanhã, que lá na empresa também tem certos corredores que...
Vejo por acaso meu irmão babando numa caixa mais atrás, conversando com Filipe e Djane, um presente de um dos dois e me lembro de novo do meu presente.
— Caramba, o teu presente!
Me inclino apenas dando a entender que ia pegar e o Vini não deixa eu sair. Faz é me segurar mais a cintura.
— Isso tudo já não é meu presente?
— E eu lá ia te deixar sem um pr...
Do mesmo modo que eu olhava por trás dele, ele olha alguém por trás de mim e exclama:
— Ih, o Tuco chegou!
Vinícius levanta o braço pra acenar e eu me viro para receber mais um de seus amigos. Tuco se aproxima com a esposa, Ohana, e Vini nos apresenta oficialmente.
— Que chique esse nome! Parece até que desliza da gente. O-rraaaan-na.
— Ah, minha mãe pegou daquela atriz Cláudia Ohana. Noveleira de plantão.
Ela entrega o presente pro Vinícius, que a leva para a mesa do vô-sogro. Acho que ele só abriu aquele que o Murilo segue babando. Algum jogo, suspeito. Como fico com o Tuco, ele é gentil de puxar papo. Não é nada como o aniversário do ano passado. A ansiedade que me pega é só pela programação.
— Milena, parece que te conheço faz três vidas e tu nem me conhece.
— Ué, te conheço do tanto que o Vini fala de ti.
Sua mulher surge por trás dele e acrescenta:
— E eu do tanto que o Tuco fala do Vini. Tive que vir ver esses dois juntos.
— Ah, Milena, a Iara... Iara, não é? Ela nos falou da lista ali na porta. Entrei no esquema. Vou subir!
Coloco as mãos ao rosto surpresa.
— Mentira. Vai mesmo? Que música?
— Uma do The Killers. Isso se eu aguentar a espera.
Pelo que Dani me explicou, a Iara reservou as cinco primeiras músicas para o aniversariante (pediu muito encarecidamente) e depois vão abrir ao público da pizzaria, para sermos justos.
— Olha, se eu não fosse a primeira, te dava a minha vez.
Ohana abraça o marido e o cutuca no rosto.
— Pode deixar que eu distraio esse bonitinho aqui.
Não é que essa expressão dos Oliveiras pegou?
— Aliás, a gente viu o teu show cover da Avril. Mandou super bem, garota!
Quando ela levanta a palma para eu bater e então darmos um soquinho, minha mente só repete a fala dos pinguins de Madagascar numa mescla com os conselhos de meu pai. Sorria e acene, Milena, sorria e acene e agradeça.
— Valeu, gente. Naquele dia eu tava brincando real e a Dani que super me ajudou a me soltar. Porque de geral eu sou bem tímida.
— Que nem esse aqui. Diz que é tímido, mas tá aí dizendo que vai subir.
— E tu, não vai também?
— Tô pensaaaaaaaaando no caso.
— A Dani decide isso rapidinho. Já conheceram ela?
Vinícius ressurge nesse momento da conversa.
— Teremos tempo pra isso. Gente, podem ir se servir. Aliás, vou comer com vocês que eu tô morrendo de fome.
Vamos para a mesa onde o Wellington tava com a Wanessa (a mãe deles ficou costurando histórias com Djane na mesa dos familiares) e assim que o Vinícius é servido, aparecem novas figuras para integrar o time. Vinha Suzana com mais uma garota e o Namir, que, pelas expressões, parecem também estar dentro do esquema.
Assim aproveito pra comer mais um pedaço pra forrar bem minha ansiedade quanto a essa apresentação.
Ele ainda não sabe que estamos só na metade!
Fale com o autor