Notas iniciais
Eis que no outro dia tive que ligar pra Tim pra reclamar um problema no meu plano e adivinha quem me atendeu? A MILENA! Quer dizer, uma pessoa chamada MILENA. Quase nem consegui explicar minha situação SÓ DE EMOÇÃO HAHAHAHAHA ela nunca iria entender. Mas vocês me entendem! E me entendem quando passo um tempinho ausente, né? >.< Prometo que hoje VAMOS SER FELIZES ❤ Afinal, “a vingança nunca é plena, mata a alma e envenena”.

— O que seria um trote solidário?

Minha mãe pergunta, bem por fora dessa realidade.

— É tipo um trote do bem, sem ter situações de desconforto, humilhação ou abusos com os calouros, como é comum de acontecer.

— Hummmm. Eu bem lembro daquela matéria no ano passado, em que uns veteranos jogaram ovos nos alunos no meio da rua e tinha uma pessoa que era alérgica. Ela foi tentar fugir e foi atropelada. Nem posso imaginar o que seria estudar num lugar desses.

— É esse tipo de situação que queremos evitar. Instigar algo bom entre veteranos e calouros, fazer algo dinâmico, de boas-vindas mesmo e integrar eles à instituição.

— Acho uma boa iniciativa!

Essa é minha avó, chegando no meio da conversa de novo. Agora ela só trabalha meio período no jornal, à tarde, dando assistência aos novos jornalistas. Nas manhãs, pra não ficar sozinha em casa, perambula pela loja pra conversar com os clientes e atentar o juízo de vovô. Ela apareceu no começo da ligação e agora que voltou.

Vez que as escolas não começaram seu ano letivo, mamãe também está na loja, no escritório, e eu ligo geralmente de manhã pra papear enquanto dá. Como diria meu pai, “se o Vinícius faz, eu também posso fazer”.

— Vovó, tô precisando de ideias. Até então temos uma apresentação pro primeiro dia, umas entrevistas com professores no segundo dia, mas tô precisando de algo pra aprontar com os calouros. Um trote do bem.

Bato o lápis na minha agenda pra ver se a cabeça produz algo. Mas enquanto não vem nada decente, peço ajuda às mulheres da família.

— E se organizassem uma ação de doação? Poderia ser de roupas, artigos de higiene básica ou de alimentos não perecíveis.

É, isso seria possível.

— Tô anotando. Acho que seria uma boa, mas isso é algo que eles fariam por si mesmos, né, não exatamente uniria eles.

— Coloca eles pra organizar, ué, botar a mão na massa.

Rio com essa e ainda mais porque isso de repente brilha aos meus olhos.

— Caramba, isso muda totalmente o cenário! Porque eles podem experimentar a organização e ter separação de times! Uma ótima ideia, vovó!

Ao fundo, alguém se manifesta:

— Eu também contribuí, tá?

Nem preciso dizer que essa foi minha mãe, né?

Mas ela contribui mesmo.

— E se for um grupo muito grande de alunos, vocês poderiam dividir eles em outras atividades do prédio. Tem a biblioteca lá, né? E a sala da xérox, dentre outras coisas. Assim eles teriam experiências diversas.

— Mãe, a senhora merece um prêmio! A MELHOR ideia!

— De verdade? Otávio, vem cá, vem ouvir essa!

Com um barulho de porta abrindo e fechando, consigo capturar minha mãe animada indo atrás do meu pai. Acho que ela diz que sou eu no telefone e a primeira coisa que ouço de papai é ele cantando os versos de Roxette em espanhol. Desde a história de que ele cantava em passeios de família, ele atende o telefone assim.

— No se si es amoooor... Pero loooo parece...

E eu complemento, me juntando a ele.

- Y temo que yo, estoy loca por eeel.

Esses dias que fui aprender um pouco da letra. Não digo nada sobre a tradução.

— Oi, filhota. Já tá tudo nos trinques pro aniversário? Ainda não liguei pro muleque.

Acho que ele tá mexendo com algumas caixas, pois consigo ouvir uns barulhos meio secos e abafados.

— Ai, pai. Vê se não apronta demais com o coração dele, viu; hoje não.

Mamãe sendo mamãe, se coloca no meio.

— O niver é do Vini, mas o prêmio do dia é meu. Tive a melhor das ideias pra Milena.

— Pro aniversário? Mas o plano não era da Iara?

— Essa é pra outro evento, pai. Algo da faculdade. O diretor me chamou pessoalmente pra aprontar com os calouros.

Digo mesmo, descarada!

— Olha só ela! Pois apronte bem! Preciso voltar pro balcão agora. Um beijão, filhota!

— Tchau, pai. Preciso ir também, mãe. Tenho que passar pra galera essas ideias.

— Tá bom, mas diz que o crédito é meu.

— Parece certa criatura que eu conheço.

— E tu acha que foi de quem que teu irmão roubou essa?

— Eu ouvi e vou contar. Tchau, mãe. Dá um beijo na vovó!

Desligo e termino de anotar essa parada do trote na agenda. Vamos precisar de mais alguns monitores de apoio e isso vou passar pro Sávio, que tá responsável pelos bastidores. É seu jeitinho de fugir de um palco de tudo que é jeito e eu não reclamo conquanto que eu pegue a parte mais sussa do plano. Foi o meu acordo pra poder integrar essa bagaça.

Mas essa questão do Sávio não é apenas zoeira. No outro dia, em que fizemos o ensaio de aniversário, quando cheguei na pizzaria e meu irmão se distanciou numa mesa, fui cumprimentar a banda e o meu amigo já começou a se sair de fininho. Chegou a dizer que não combinava com palco e eu pedi encarecidamente para ele pelo menos só ficar lá com a gente, sem precisar cantar de fato, só “fazer número”. O Bruno, sacana, reclamou.

- Por que ele fica com a parte fácil?

- Porque a gente respeita a personalidade e a preferência das pessoas.

Sou muito da decente, né? O Bruno que não é. Atiçou meu gênio, esse pilantra.

- Desde quando?!

Foi assim que dei com o microfone na cabeça dele. Daí o Sávio viu que meu irmão tava quieto demais pros padrões murilísticos. Além de estar pra baixo, tava alongando o pescoço de tanta tensão em si.

- Aconteceu alguma coisa com o Murilo?

- Brigou feio com a namorada.

- Eita que essa semana não era dos Lins. Vão aquecendo aí que eu vou lá.

E aí o Bruno, outra vez sacana, acusou nosso amigo de fujão, como se ele mesmo não tivesse tentado fugir. E também tentou usar o Murilo, conforme fomos observando o Sávio conversar com o meu mano.

- Ele tá péssimo mesmo.

Nem levantei a cabeça da letra que conferia.

- Tu não vai se safar.

- Só tava constatando um fato, tá? Mas o Sávio... Ele tem um papo de suporte maneiro.

De volta à minha agenda, lembro que Fabiano disse que para a turma da noite teremos 25 calouros e 20 à tarde, o que dá 45 pessoas para gerenciar. Considerando cinco núcleos de atividades – a biblioteca, a sala de xérox, o almoxarifado, a secretaria e sala de segurança, dá pra encaixar a ação solidária como geral. É o Sávio que vai ficar com essa parte, pra coordenar junto da Dani, pois eles que têm disponibilidade à tarde e à noite no momento. Eu só estou de escudeira mesmo e, no que dá, assegurando meu amigo para ficar longe de um microfone. Ele que repassa as coisas pro diretor e coordena o todo. Nessa parte ele é dez!

A Iara tanto sabe desse seu lado que também tá explorando ele pro aniversário surpresa, sem eu precisar me envolver tanto. O que sei é que tá tudo nos trinques sim e tudo muito encaminhado. A sogrinha disse que vai buscar o bolo umas 18h e a Iara deve tá saindo agora da pizzaria, pois ficou de arrumar parte da decoração agora de manhã. Ela e o Sávio.

Meu dever hoje é basicamente distrair o aniversariante. Liguei pra ele desde meia-noite (poisé, virei esse tipo de pessoa) e também o acordei essa manhã, driblando-o mais uma vez. Vini até me perguntou se iria rolar uma fornada dos meus cupcakes, testando o território, e eu disse que não, mas que teria os cookies da dona Bia, pra não competir com o bolo encomendado por sua mãe. Na verdade, os cookies vão ser a lembrancinha de seu níver. Pra completar, também me saí de novo com aquela conversinha de “ser uma namorada ruim”.

- Desse jeito vai ser como o Bruno falou, vou ter que me virar nos 30 pra armar algo, só pra não parecer que sou uma péssima namorada, então parou com isso, tá?

Utilizar a chantagem de me nomear “uma namorada ruim” sempre o deixava mais quieto, então eu usava e abusava disso o quanto podia. Que me perdoe depois por essa estratégia emocional. Porque me dá dorzinha no core de verdade!

Isso porque ainda usei a história do tiroteio no encontro com a galera. No final, na hora de ir pro estacionamento, os outros foram embora primeiro e ficamos um tempinho perto do carro conversando. O namorado tava com uma carinha de dar dó! Quando me abraçou muito do calado, tive que intervir, no máximo de dinamismo que poderia fazer diante de uma situação séria.

— Tu quer me perguntar, né? Te concedo uma.

Eu falava sobre o ato de, de hora em hora, alguém querer saber do meu estado, algo que eu havia proibido entre a galera.

— Tá bem mesmo?

— Tô. Pra mim só foi estranho, sabe? Mas estar com meus amigos e com você sempre ajuda.

Passo a página da agenda e confiro a lista de músicas e de candidatos à cantoria, não acreditando que vou mesmo cantar Imagine Dragons pro Vinícius. É sua banda favorita do momento e só tô aguentando esses dribles todos pra ver a cara dele nessa hora. Mas a preciosidade mesmo vai ser ver os seus pais (e o seu avô!) subindo no palco e CANTANDO PRA ELE, de verdade verdadeira!

Djane até disse que estava insegura quanto às letras (ela e os outros, na verdade), mas lhe garanti de novo que a gente já se armou pra essa. Fizemos uma adaptação lá mesmo no ensaio de domingo, de arrumar um telão pra passar as letras na parede do fundo, pra ninguém passar vergonha mais do que o necessário.

Mesmo com isso, com esses dois eventos tão perto, não sei mais o que me anima ou o que me enche de ansiedade, se é esse aniversário ou as tramoias pro evento inaugural. De qualquer forma, preciso agilizar as coisas, pois tenho que me aprontar pro estágio e é a Iara quem vai me dar carona.

Na mesa de estudos, antes de enviar uma mensagem no grupo da abertura de aulas (já que a ruivinha não pode saber o que vamos aprontar), vejo de relance, numa página aberta de rede social, que a Daniela postou mesmo a foto que ela imitou de mim e do Vinícius. Uma que eu tirei na casa dele, com a almofada de Vilena. Na pose, estamos de frente um para o outro, os rostos juntos como que para nos beijar, mas a almofadinha cobre nossas faces malandras.

Agora que ela conseguiu a dela de DanBru, postou, e eu vou postar também.

Eita, que esse dia promete!

~;~

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15h30 Iara Muniz

Mi, tá chovendo e acho que ouvi uns trovões baixos

Melhor ficar no escritório até o fim do expediente

15h33 M. Lins

Valeu por avisar!

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Com uma golfada de ar e uma expirada rápida, volto pro arquivo na tela pra me concentrar no relatório da vez. Além de todo o movimento de aniversário, tem esse “agravante”. É, esse é um agravante, e o meu Vini, o meu atenuante. Pra todo caso, vim toda armada. Quer dizer, equipada. Desde o ocorrido do tiroteio, tô evitando expressões afins. Até quando nos sugeriram a barraca de tiro ao alvo, lá naquela festinha de bairro, eu, de boa mira, preferi dispensar. Acabei me dando bem no jogo de argolas. Ganhei ursinhos pro namorado, pro Murilo e pra Iara. Só assim acreditaram de vez na minha sorte.

E estou confiando na sorte e na benção do padre, porque o feito de hoje vem do coração. Para lidar com os trovões do dia, tenho também uma sessão com a Cris ao sair do serviço e conto com os meus fones e o mp4 para lidar com o caminho. Tenho evitado conferir toda hora o novo aplicativo do tempo, que foi lançado antes do esperado. É para ser uma ferramenta de apoio, não um vetor de surto, como disse a terapeuta um dia desses.

Vez que estamos no início do tratamento, ainda não foi traçado um grande plano de ação quanto aos meus enfrentamentos, estamos apenas desenvolvendo devagar umas atividades conforme as sessões que tenho feito. Às vezes fico muito insegura e aí me lembro daquela noite que dormi bem após a pior tempestade. Também me lembro do efeito da primeira sessão. Em paralelo, estamos trabalhando o meu próprio acolhimento dentro dessas situações. É preciso respeitar minha condição antes de tudo e até isso considerei para o plano de aniversário. Não preciso me expor sem necessidade e tenho escudeiros no ponto pra me ajudar em qualquer situação ou imprevisto. Eles estão disponíveis assim.

Formatando as minhas anotações ao relatório preliminar de novas rotas, descanso a cabeça nisso. Na distração do trabalho e no fato de que ainda vou ver a Cris no final da tarde. Confiar que vou sair uma pluma de lá já me alivia um bocado.

Quando tô de boa na lagoa com isso, meu chefe entra na sala como se tivesse atrasado pra algo, meio esbaforido.

— Milena, vou lá no prédio ver a Hortênsia. O Filipe também vai estar lá. Parece que ele precisa sair cedo hoje e... Não quer ir também? Pra ver o novo sistema?

Por visão periférica, entendo que ele pega um guarda-chuva, um que fica logo atrás de sua porta. Apenas agradeço que eu não estou ouvindo nenhum pingo daqui, bem distante dos trovões. Continuo mexendo nos comandos do computador.

— Pode ser outro dia?

— Te ocupei assim? O que tá fazendo?

Hugo inclina a cabeça para averiguar a tela e eu me mantenho plana, concentrada no que tô desenvolvendo.

— Tô terminando o relatório e vou já pegar aquela planilha.

— Pode entregar amanhã. Até porque ainda tenho que pegar os outros dados por lá.

Ele parece animado e parece estar tentando me convencer de ir no outro prédio. Assim, desconverso, sem deixar de olhar para o documento.

— É, mas prefiro adiantar.

— Tem certeza?

Só assinto e continuo mostrando trabalho e ocupação. Hugo, no entanto, fica balançado. Ele dá a volta na minha mesa para me sondar.

— Tem algum problema que eu não tô sabendo?

Titubeio um pouco, dividindo a visão entre ele e a tela. Eu poderia dizer a verdade ou poderia mentir. Mentir, no entanto, não me faz bem, também porque para encobrir a mentira, tenho que inventar outras. Se fosse pra só omitir, até poderia, daria pra me sair por cima, mas essa é uma das situações que acho que preciso contar. Porque agora meu trabalho envolve sair do prédio algumas vezes e isso me deixa exposta a certas situações. Eu sei que eu não era muito de falar as coisas, mas agora eu falo. Estou exercitando isso e acho que já confio no meu chefe para contar essa.

— Vou ser sincera, Hugo. Tá chovendo e...

Gentil, ele demonstra que tá com um guarda-chuva e eu continuo.

— Tá chovendo e às vezes troveja. E eu tenho certa fobia com isso. Então se eu puder ficar aqui no escritório, eu prefiro. Posso ir no outro prédio em outro momento, se não se importar.

Ele se cala por um instante, assimilando. Se antes estava todo entusiasmado, agora seu porte é de pensativo. Talvez pensando no que me dizer. Por fim, ele veste uma expressão mais cordial.

— Tudo bem, Milena. Fico agradecido por contar e por confiar a mim essa informação. Sei que isso pode ser um tópico delicado e... A Daiana também tem algumas fobias. Então vou lá e volto logo. Te aviso se tiver ocorrência de trovões.

Solto o ar que nem notei estar segurando.

— Valeu, Hugo. Significa muito.

Nem eu poderia quantificar o tanto, mas só torno a me focar no trabalho e a desenvolver mais dele depois de uns minutinhos de quietude após sua saída. Porque foi meio estranho, sei lá, e ainda assim bom. Fiquei mesmo um tempo fora do ar, vez que lembrei da ocorrência da Dani na virada de ano e que ela resolveu falar para os caras da banda, que foram bem receptivos, apesar da expectativa dela ser bem baixa. Acho que algo válido também para discutir com a Cris.

Mas aí um barulhinho de notificação no meu celular me faz conferir o aparelho, me distraindo novamente do serviço. Excepcionalmente hoje deixei o som ligado e só respondia às mensagens emergenciais.

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16h02 Djane Garra

Uma pequena mudança de planos, Milena

Vou precisar que você vá buscar o bolo

16h03 M. Lins

Mas eu saio 18h30

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Ela não sabe da Cris. Acho.

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16h03 M. Lins

E é o Vinícius que vai me levar

16h04 Djane Garra

Pode ir com ele, sem problema

É no Center mesmo. Naquele restaurante Dolce Gloria

Tá no meu nome

16h06 M. Lins

Posso ver com um dos meninos para ir pegar

16h06 Djane Garra

Não, Milena, tem que ser VOCÊS DOIS

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Tal qual o Chapolin Colorado, minhas anteninhas estão detectando coisas. Suspeito, é muito suspeito uma virada dessas. Arrisco pegar mais detalhes.

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16h07 M. Lins

Pq?

16h07 Djane Garra

Sem questionamentos

16h08 M. Lins

Djane, Djane

16h08 Djane Garra

Só me confirme, sim?

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Me cheira a planos de vingança, isso sim.

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16h09 Djane Garra

Não vai dizer NÃO pra sua sogra no dia do aniversário do filho dela, né?

16h09 M. Lins

Tava demorando a encarnar a minha mãe

16h12 Djane Garra

Vejo vocês lá

16h13 M. Lins

COMO ASSIM???????

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Ela não responde mais e nem me atende.

Ai, Brasil. O que essa mulher vai aprontar nessa altura do campeonato?

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No meu plano original, eu iria embromar pra sair da clínica e assim atrasar um pouco a nossa chegada à pizzaria, mas já que dona Djane inventou essa de buscar o bolo, nem precisei pedir pra Cristina me ajudar a enrolar o meu namorado. Apenas avisei a ele que teríamos que fazer essa parada e avisei antes de entrar em sessão, que me confirmou que iria estar na porta às 18h30.

Dito e feito, quando saio da saleta da Cris, aos risos bobos de plumas ao léu, porém animada pela saga do dia, já vejo sua mensagem dizendo que estava me esperando e que não chovia, nem trovejava. Pra todo caso, coloco os fones grandes às orelhas e vou para a portaria, do jeitinho que cheguei aqui com a Iara. Ainda bem que para este dia ela andava com o carro da empresa e não na sua moto.

Chegar à calçada é encontrar o Vinícius todo charmoso, encostado ao carro. Estava distraído, com alguém no telefone, mas ao me ver, ele se despede e desliga para me entregar o seu mais belo sorriso seduzente. Praticamente saltito para me aproximar, laçá-lo e dar o seu beijo de aniversário. Vini me abraça o dorso e até abaixa o meu fone para o pescoço, para a gente se curtir melhor.

Vestido em seu cinismo, ele tenta surrupiar informações outra vez, beijando-me perto da orelha.

— Pronta pra me... sur-pre-en-der?

Acarinho seu cabelo ao passo que o abraço mais.

— Hmmmm... Não acho que o teu bolo seja lá muito espalhafatoso, mas vindo da tua mãe, é possível.

Vinícius levanta a cabeça de mim só pra cerrar os olhos e me provocar.

— Sei, o bolo, né?

Bato no ombro dele de leve e nos afasto.

— Eu vou parar é de te responder. E se tentar de novo, eu vou parar de falar contigo.

O namorado faz o drama dele, com aquela carinha sacana dele e um gênio... Um gênio que acha que pode me driblar.

— No meu aniversário? Tu mesmo postou e ditou que o dia é meu.

É, eu escrevi aquela frase dele na legenda da foto.

Boatos que o dia é dele e que os outros 364 são meus.

Coloco a mão na cintura, igualmente geniosa.

— Tu juuuuuuuura que quer experimentar? Agora?

Ele aperta o botão da chave do carro para destravá-lo e faz cara de inocente.

— Eu não, conheço a namorada que tenho.

Assim que ele abre a porta dele de motorista, dou a volta para ir para o meu lugar. Nunca fomos o casal em que o garoto abre a porta para a garota porque esta garota tem força e independência o suficiente para abrir ela mesma. Até porque isso de abrir a porta pra outro sem necessidade não me impressiona em nada. Acho inconveniente, inclusive. E acho uma maravilha ele me conhecer assim, ao ponto de nem mais tentar.

Mas hoje é o seu dia e eu vou pentelhar ele com esse revés investigativo que tem aprontado pra cima de mim SIM. Já começo ao fechar a porta caladinha, caladinha, como se nem ali estivesse. Vinícius liga o carro e começa a manobrar para pegar a avenida principal.

— Onde é que tá esse bolo? É pra pegar onde?

Malvada que sou, digito no aplicativo do Google Tradutor uma resposta para a moça robótica. Só que na hora da tradução, o áudio sai “no centro” e não “no Center”.

— No centro? No... Center?

Balanço a cabeça em afirmativa, risonha.

— Nem inventa, Lena. Fala comigo.

Ele presta atenção no trânsito, checando os retrovisores de cima e do lado, para poder sair da via, mas me instiga.

— Não me enrola não, porque eu também sei fazer coisas.

Eu ajeito meu cabelo, checando-o pelo espelho retrovisor da minha porta, e ignoro meu namorado na cara dura. Também verifico como está a densidade das nuvens ao céu, já escuro, e aparentemente tem umas nuvens um pouco carregadas, meio acinzentadas. Isso me pega um pouco.

Interrompo a brincadeira pra perguntar:

— Choveu pro teu lado agora de tarde?

— Não. Choveu pro teu?

— Sim. A I até me falou que ouviu uns trovões baixos, mais ou menos umas 3h da tarde. Mas fiquei no escritório o tempo todo. No fim do expediente, o tempo tava só nublado mesmo. E agora tá carregado, ou carregando. Saca aquelas nuvens ali.

Não sei se ele olha, só sei que eu continuo as encarando.

— Eu não disse nada, mas, antes da virada de ano, eu pedi pra I verificar como era isso de bloqueio de som lá na pizzaria. Ela disse mal ter ouvido a chuva e os trovões. Também por conta do barulho da banda. Mas estamos bem seguros pra essa noite. Certo?

Demoro um pouco a admitir isso, acompanhando a formação de uma nuvem.

— Lena?

— Certo. Ok, vai dar certo.

Em um sinal de trânsito em que paramos, Vinícius pega minha mão ao colo para me voltar a ele e ao seu beijo simples e rápido aos meus dedos.

— Eu não te convidaria sem checar o tempo e eu chequei. Também o local e o teu espaço de tempo. Eu só quero uma noite divertida com você e é isso que vamos ter. Vamos ser felizes hoje.

Devolvo o carinho e ouso beijá-lo ao rosto antes do semáforo abrir.

— Vamos ser felizes hoje.

Depois bagunço a cabeleira dele porque sim.

~;~

Avançamos eu e Vinícius pelos corredores do Center, atravessando um mar de gente que brotou muito de repente. Mas estávamos dentro do horário e logo alcançamos o balcão do restaurante chique onde Djane encomendou o bolo, um estabelecimento bem ao fundo do shopping. Falo com o atendente sobre o pedido e fico de butuca, olhando ao redor, pra ver se encontro Djane por ali. Nesse meio tempo, ouço uma conversa de uns clientes passando por nós, que comentam de uma promoção de eletrodomésticos que rolava no supermercado ao lado e talvez isso explique o alto movimento. Não é um shopping que costuma lotar.

Vinícius se afasta um instante para atender uma ligação (aparentemente do meu pai) e eu continuo com o olhar de águia, caçando qualquer paradeiro da sogrinha, sem saber o que ela vai aprontar. Vini retorna ao balcão logo que o moço traz o bolo e, para facilitar uma fuga – isso mesmo, fuga! –, deixo a caixa com o namorado e guio ele, distraído, para a saída.

Não queria ter que repreender ele por tentar espiar o próprio bolo, mas me vejo fazendo isso na porta do restaurante.

— Vini! Sem espiar!

— Mas até isso é surpresa?

— Tu não disse que... queria... ser surpreendido?

Vou caminhando e vigiando com ele ao meu lado.

— O que tu tanto procura, Lena?

— Eu? Só... checando uma coisa.

Dobramos um corredor e acho que vislumbro Renato mais lá na frente.

— Uma coisa, sei. Ei!

Pego no braço do Vinícius e faço ele dobrar outro corredor de lojas comigo, pra cortar caminho e desviar do plano de Djane. Que sabe-se lá qual é.

— Pra onde a gente tá indo?

— Pro carro, ué.

— Mas o carro tá pro outro lado.

— Eu sei. É que tinha muita gente ali e a gente ainda vai pegar aquela rotatória que trava tudo, né? Pra ganhar tempo.

Vou enrolando e apertando o passo, fazendo ele andar mais rápido também.

— Por que eu sinto que tá acontecendo alguma coisa?

— Só firma esse bolo, tá? Djane me mata se...

Na hora que dobramos mais um corredor, para poder retomar o caminho, topamos justo com a sogrinha. Quer dizer, ela nos vê, eu a vejo e tem umas pessoas entre nós. E desvio o caminho de novo, pegando o Vinícius pelos ombros e guiando para uma travessia pelo entremeio de jardins. Poisé, o Center é desses shoppings abertos, com jardim e tudo. Mas a professora grita para chamar atenção quanto a sua presença.

— Filho!

Vinícius ouve essa e se interrompe, voltando-se para trás, para ver onde Djane está. E eu o puxo novamente, na direção contrária.

— Ué?!

— Vem, Vini!

— Mas a minha mãe tá...

Vinícius pausa de novo e eu entrego parte do jogo.

— Ela quer pegar a gente. Anda!

Recebo dele apenas uma expressão desentendida. De que isso não faz nenhum sentido. Nem eu sei o sentido, só sigo meu instinto de escapar.

— Vem, Vini. E segura esse bolo!

Djane tenta nos alcançar, chamando diretamente pelo filho.

— Vinícius, aqui! Espera!

Bom, não posso recriminá-lo por parar, né? Ele estanca simplesmente no novo corredor que alcançamos e eu tenho que retroceder para alcançá-lo. Djane chega junto ao mesmo tempo que eu e vem com um sorriso todo matreiro. Renato aparece logo atrás, depois de dar uma pequena corridinha para nós.

— Tava fugindo da sua mãe, Vinícius?

— Eu num sei, não sei de mais nada. Não era pra a gente pegar o bolo?

O namorado olha de mim pra mãe e estranha Renato estacionar ao nosso núcleo. Djane puxa o boy dela, para ele receber a caixa da encomenda, e eu seguro no braço do Vini, pronta pra dizer pra correr.

— É, era pra vocês virem pegar o bolo mesmo. Ai, filho, deixa eu te abraçar de novo. Feliz aniversário, meu amor.

— Ai, mãe!

Sem jeito, Vini se deixa ser abraçado e vejo que curte o mimo, porém, eu sigo totalmente desconfiada das intenções dela. Djane não me engana! Vejo que o olho dela brilha diferente quando cruza com o meu enquanto os dois permanecem abraçados.

Assim que eles se soltam, sem se afastar, Djane mira o filho, fazendo um carinho ao rosto dele.

— Preciso te pedir uma coisa, Vini.

Lá vem!

— Pedir o quê?

— Pode fechar os olhos por um momento?

— Fechar... os olhos?

Fico tão concentrada nos dois que nem noto Renato passar por mim, sei lá como sem o bolo, e também me fechar os olhos. Quer dizer, tampar! Ele coloca uma pequena venda ao meu rosto de repente e me diz baixinho para colaborar. E eu me rebelo!

— Não fecha, Vini, ela quer te pegar!

E a sogrinha ralha comigo, que tento me sair de Renato, quem me segura os braços num abraço improvisado pra eu não puxar a venda.

— Milena, por favor, colabora. A gente só vai dar um passeio rápido.

— É assim que muito SEQUESTRO começa, sabia?

Falo alto assim, mas acho que não tem seguranças pro nosso lado. Se bem que não sei se eu queria chamar esse tipo de atenção. Já Djane, muito da calma e da engenhosa, me segura as mãos para me guiar.

— Se pudesse enxergar, veria que o meu filho super deixou eu colocar a venda nele. Né, Vini?

O palhaço retruca divertido. Eu tava tentando salvar a pele dele!

— É, Lena, deixa ela ter o momento dela.

Inspiro e paro de lutar contra o Renato. Com uma condição.

— Só se a gente andar junto. Eu junto do Vini. Nada de separar a gente.

Renato me guia para encontrar o namorado por ali e a gente poder unir as mãos. Ele que vai nos dizendo para andar, onde virar, para ter cuidado em dadas partes. Vinícius ri quando às vezes topo nele. Na verdade, ele se diverte com essa maracutaia toda.

— A gente tá perto?

— Bem perto. Ouviu esse bip da trava do carro? Tua mãe já tá abrindo o carro.

— Não acredito que vocês tão me levando desse jeito.

É, eu reclamava ora e outra por pura implicância. E Djane segue no mesmo esquema.

— Vocês mudaram os planos, eu tive que mudar também. Agora cuidado com o degrau, que já estamos no estacionamento. Renato, atenção no pé da Milena, que ela não pode se machucar de novo.

Sinto o limite do chão e o professor me dá um suporte pra pisar melhor. É, ao menos estão sendo bem zelosos, apesar de aprontar gostoso comigo. Logo comigo!

Ao alcançar o carro, vou me segurando no veículo e o Vinícius vem logo atrás. Renato abre a porta traseira e eu entro primeiro, me sentando um pouco depois do meio. Ao tatear o banco, Vini pergunta:

— Mãe, cadê o bolo?

— Tá no banco da frente. Eu que vou segurando.

— E pra onde a gente vai?

Sentimos Djane se ajeitando na frente e depois bater a porta do carro.

— Logo logo os dois vão ver, logo logo.

Vinícius se une a mim e ficamos os dois vendados e abraçados. Conforme Renato fecha sua porta e liga o motor, o aniversariante, animado demais com essa empreitada, se pronuncia baixinho pra mim:

— Então... tu não tava sabendo disso?

— Eu só tava desconfiando que ela ia aprontar alguma, não sabia o quê.

O namorado ri perto do meu ouvido e me aconchega mais a ele.

— Não acredito que a gente tava fugindo da minha mãe.

— Não acredito eu que ela me pegou de pata com essa venda também.

É que fico muito agoniada quando me tapam a visão e mais ainda quando não me contam os planos. Que foi bem a intenção dela! Eu sabia que ia ter vingança, porém, não sabia que eu estaria no meio disso como igual vítima.

— Fomos pegos juntos e juntos ficaremos, amor. Deixa que eu te protejo.

Djane ouve essa, pois replica:

— Vou dizer pra Helena que tu anda muito da reclamona, Milena. E dramática!

— Vou denunciar a senhora que me sequestrou em pleno shopping!

— Pra vocês verem como foi bom quando me tiraram do meu serviço.

Acho que se não fosse o bolo que ela levava consigo, acho que poderia ver a sogrinha cruzando os braços. O Vinícius? Praticamente gargalha! E eu ralho de novo, ardilosa na mesma medida de sua mãe.

— Mas a gente não te vendou, Djane!

— Mas tiraram o meu celular e o meu carro. O que é quase a mesma coisa.

Meto a cara no espaço entre os assentos do motorista e do carona e replico.

— Eu só vou dizer uma coisa: “a vingança nunca é plena, mata a alma e envenena”.

Vinícius, por outro lado, provoca, me puxando para trás.

— Eu jurava que tu ia dizer aquela “o que vai, volta”.

Renato que se pronuncia dessa vez:

— Eu não duvido não, já posso pressentir que a Milena já tá armando essa volta. Digo logo que fui chantageado.

Faço bico e ainda passo a mão à boca como se estivesse passando um zíper. Nem sei se alguém olha isso, porque continuo vendada e é noite, deve tá tudo escuro dentro do veículo. Às vezes só bate uma luminosidade quando a gente passa perto de um lugar com muitas luminárias ou postes. Eu até poderia burlar, mas o próprio Vinícius me segura as mãos para não tentar espiar. Se ele não vai olhar, então não é pra eu ver também. Pode isso, Brasil?

Não sei dizer o que vai ser esse aniversário surpresa que já começou me pegando no pulo, só sei que ainda bem que eu lanchei no caminho depois do expediente, porque, desse jeito, sabe-se lá que horas que vamos chegar nessa festa ou como vai estar a minha ansiedade daqui pra lá!

Notas finais
NÃO AGUENTEI DONA DJANE SEQUESTRADORA COM DIREITO A VENDAS NOS OLHOS E ATÉ O RENATO CONDUZINDO A COISA TODA - e praticamente tirando o dele da reta P.S.: Acabou a novela Vale Tudo e o Hugo, meu querido Hugo, que era da novela das 9 anterior (Mania de Você), ainda nem deu as caras direito por aqui. Reflexo também de um ano MALUCO que quase não me deixou escrever. Mas vocês não perdem por esperar, isso eu posso afirmar :) TrechinhoS do próximo? "- Ai. Meu. Deus. Eu vou matar a minha mãe. Agora ele quer, né?" e "Seu Júlio faz um 'hmmmmmm' e diz 'aquele papo de meu Vini, né?', que eu, lá na mesa, só me dou uma colherada de pudim e finjo que não é comigo." e "- Às vezes as pessoas só querem te surpreender e tu tem que deixar, Lena." VEM AÍ