ENTRE SOMBRAS E CÓDIGOS

9 Capítulo 09 – Chamas no Sangue


O ambiente era úmido, fétido, e cada minuto parecia uma eternidade. Clary estava acorrentada a uma cadeira metálica, os braços marcados por cortes e hematomas. O lado esquerdo do rosto inchado por um tapa seco. Ainda assim, ela mantinha o olhar fixo, desafiador.

O chefe caminhava de um lado para o outro, impaciente.

— Eu ofereci tudo. Poder. Dinheiro. Segurança. E o que recebo? Silêncio? Desprezo? — ele se virou bruscamente — Alex não vai te salvar. E se salvar, você já não será a mesma.

Clary respondeu com um fio de voz, rouca, mas firme:

— Você pode me quebrar... mas nunca vai me ter.

Um dos capangas entregou um notebook. O chefe o colocou na frente dela.

— Então você vai provar que ainda é útil. Invada essas contas. Tire o rastreamento. Esconda meu dinheiro. Você é boa nisso, não é?

Ela olhou para a tela com dificuldade. Seus dedos tremiam.

— Vai... — ele sussurrou no ouvido dela, pressionando sua cabeça contra o teclado — Antes que eu perca a paciência de verdade.

Clary respirou fundo. Sabia que aquilo era sua única chance.

Fingindo colaborar, começou a digitar.

Enquanto executava os comandos falsos, ativou uma sequência de emergência escondida: um código silencioso, criptografado, embutido nos metadados da conexão.

Era um grito.

Um pedido mudo para Alex.

E ele recebeu.

No carro, a poucos quilômetros dali, Alex parou de falar no meio de uma frase.

Seus olhos arregalaram. Pegou o tablet de rastreio e viu a notificação:

ALERTA: "COD-X114" – CLARY"

Billy e Nate perceberam na hora.

— É ela? — perguntou Nate.

Alex não respondeu. Apenas apertou os dedos sobre o volante.

E então veio a voz baixa, mortal:

— Montem a equipe. Agora.

No esconderijo, o chefe se irritava com a lentidão de Clary.

— Está me enrolando, não está?

Ela não respondeu. Estava pálida, tremendo de dor e medo.

Ele deu um soco na mesa, empurrou o notebook no chão e agarrou sua mão direita.

— Vamos ver como você digita agora.

CRAACK.

O som do osso quebrando ecoou como um trovão.

Clary gritou.

E naquele mesmo instante, as portas do inferno se abriram.

Explosões. Gritos. Tiros.

A equipe de elite invadiu com precisão letal.

Alex entrou por último — mas era o primeiro que todos sentiram.

Ele não gritou ordens. Não avisou. Apenas avançou.

Quando encontrou Clary caída, chorando silenciosamente com a mão quebrada, sangue escorrendo do lábio e os olhos ainda firmes, algo se apagou dentro dele.

E algo muito pior despertou.

Ele se virou lentamente para o chefe, que tentava fugir pelo corredor lateral.

Não houve aviso. Não houve piedade.

Alex avançou como uma sombra armada, rápida, letal, silenciosa.

O chefe tentou sacar uma arma.

Não teve tempo.

Dois tiros no joelho. Um no ombro. Depois, só dor. Fratura por fratura. Palavra por palavra, Alex foi desmantelando o homem com precisão cirúrgica — olhos frios, coração fechado.

— Isso... é por cada grito dela.

— Isso... é por cada lágrima que você tirou.

— E isso... — ele enfiou a faca na garganta do homem, firme — é por ousar tocá-la.

Silêncio.

Quando a equipe finalmente o alcançou, o corpo do chefe era irreconhecível.

Alex se ajoelhou ao lado de Clary. Seu rosto endurecido desfez-se ao vê-la encolhida, lutando para não desmaiar.

— Eu tô aqui. Acabou. — ele disse, pegando-a nos braços com cuidado — Eu te juro, Clary... nunca mais ninguém vai te machucar.

E dessa vez, ela não resistiu. Apenas se deixou ser carregada.

Porque mesmo ferida, mesmo destruída por dentro, ela sabia:

Alex veio.

E por ela… ele destruiria o mundo.


**


Fazia três dias desde o resgate.

Clary estava em repouso na ala médica especial dentro da base. Tinha o braço imobilizado, cortes costurados e o corpo repleto de hematomas. Mas o que mais doía... não se via.

O silêncio.

As lembranças.

A sensação de impotência.

Ela não chorava. Só olhava para o teto, fingindo dormir quando os médicos entravam.

Mas havia uma única exceção.

Alex.

Ele aparecia todos os dias, sentado em silêncio ao lado da cama. Não falava muito. Apenas ficava ali, com os olhos fixos nela como se estivesse pedindo desculpas por não ter chegado um minuto antes.

Naquela noite, o quarto estava escuro, exceto pela luz suave da luminária de cabeceira. Clary abriu os olhos lentamente e o viu, mais uma vez, ao seu lado.

— Você deveria estar dormindo — ela disse, a voz baixa, rouca.

Alex ergueu o olhar, aliviado por vê-la falando.

— Não consigo. Não desde que te encontrei lá.

Silêncio.

Ela desviou o olhar.

— Eles queriam quebrar minha cabeça... não só meu corpo. E quase conseguiram.

— Mas não conseguiram — ele disse, aproximando-se. — Porque você é mais forte do que todos eles juntos.

Clary respirou fundo.

— Eu achei que ia morrer. Sozinha.

Alex tocou com cuidado os dedos dela — os que não estavam enfaixados — e entrelaçou os seus.

— Se você morrer, Clary... eu também morro.

Ela fechou os olhos, e uma lágrima escapou.

— Por quê? Por que você arriscou tanto?

Alex se inclinou, a testa encostando na dela, os olhos fechados como se segurasse tudo que estava preso por dentro.

— Porque você é minha. Porque eu te amo. Porque... eu nunca mais vou permitir que alguém toque em você. Nem com o pensamento.

Ela engoliu em seco, os olhos cheios d’água agora.

— Eu também te amo, Alex.

Ele a puxou devagar para um abraço, com extremo cuidado, como se ela fosse feita de vidro.

E naquele momento, sem armas, sem missões, sem sangue...

Eles estavam exatamente onde deveriam estar: nos braços um do outro.

Na porta do quarto, Nate e Billy espiavam discretamente, em silêncio.

— Finalmente — murmurou Nate, sorrindo.

Billy cruzou os braços e disse baixinho:

— Agora ele vai matar quem tentar se meter no meio dos dois.

— Vai matar mesmo se alguém só olhar errado — Nate completou.

E os dois saíram, sabendo que o esquadrão não era mais só elite.

Era família.