ENTRE DIAMANTES E DESTINOS
7 Capítulo 7 – O Brilho da Verdade
— Ela tem três carros à disposição. Três! E ainda assim insiste em chegar sozinha? — Lucca bufava, enquanto ajeitava os punhos da camisa no hall de entrada do evento.
Harry, ao lado, apenas observava a cena com aquele sorrisinho de quem sabia que aquilo não era sobre transporte. Era sobre controle. Sobre o medo irracional de Lucca de não vê-la chegar.
— Já disse, senhor Palezo — Harry respondeu por ela com tom teatral — Ela quer liberdade. Ela não é mais alguém que se curva.
Lucca revirou os olhos.
Mas no instante seguinte, os dois se calaram.
Porque ela chegou.
E por dois segundos… Lucca esqueceu como se respirava.
Hana desceu do carro com passos suaves. O vestido azul escuro envolvia seu corpo como um sussurro elegante. A máscara bordada realçava os olhos, e o cabelo preso com leveza revelava o pescoço onde, em breve, ele colocaria o colar.
Ela parecia uma pintura viva. Mas com uma força silenciosa que fazia qualquer um parar para olhar.
Harry assobiou baixinho.
— Quer um babador, chefe?
— Cala a boca. — Lucca respondeu automaticamente, sem tirar os olhos dela.
Hana parou diante deles, com um sorriso tímido, como se não soubesse que estava roubando a cena.
— Estou… aceitável?
— Você está… — Lucca pigarreou. — Vamos colocar isso.
Ele pegou o colar e se aproximou, afivelando-o com cuidado atrás do pescoço dela. Os dedos roçaram a pele, e um arrepio cruzou o corpo dela.
Ele ajustou também a máscara, e por um segundo, os olhos deles se encontraram de perto.
— Pronta? — ele perguntou, baixo.
Ela assentiu. E entraram juntos.
O salão do evento era um espetáculo de luzes e brilho. Peças raras expostas em vitrines iluminadas, artistas, investidores e empresários circulando em trajes impecáveis.
Lucca nunca tirava fotos em eventos.
Mas aquela noite… ele parou diante do painel principal, olhou para Hana e disse simplesmente:
— Fique ao meu lado.
A câmera disparou. E o mundo veria, pela primeira vez, a mulher ao lado do homem que nunca se deixava ver com ninguém.
Hana se encantou com as joias, com as vitrines... com tudo. Até que parou diante de uma peça.
Um colar com detalhes em pétalas de ametista.
Ela sabia cada traço. Cada curva. Porque havia desenhado aquele colar aos 17 anos. Era o primeiro desenho que ela criou em segredo, e que misteriosamente desapareceu do caderno anos atrás.
O nome no expositor: “Criação de Amélie D’Costa”.
Ela congelou.
Lucca percebeu na hora.
— O que houve?
— Essa peça… — Hana engoliu em seco. — É minha. Eu criei. Mas... está com outro nome. Eu não faço ideia de quem é essa mulher.
Os olhos de Lucca escureceram.
Ali, mais uma rachadura se abriu na máscara que ele mantinha: a da indiferença.
Mais um motivo para não só odiar a família dela… mas para destruir cada mentira que eles construíram.
— Vamos descobrir tudo. — ele disse.
O restante da noite foi silencioso em torno deles.
Lucca não saiu do lado de Hana.
Não sorriu para outros.
Não ofereceu explicações.
Mas ofereceu sua presença, sua proteção — e isso foi o bastante para os burburinhos começarem a se espalhar.
Quem era ela?
Por que o Palezo estava diferente?
Por que ele olhava pra ela como se ela fosse a única coisa que importava naquela sala?
E então… Kyle Smith se aproximou.
Ao lado de Jean.
— Lucca. — Kyle cumprimentou, forçado. — Boa noite.
— Kyle. Jean.
Hana sentiu a espinha gelar.
Kyle não a reconheceu. Os olhos passaram por ela como se ela fosse invisível — como sempre havia feito.
Mas Jean… sorriu.
— Então… a joia rara finalmente apareceu. — disse ela, olhando diretamente para Hana com um brilho quase orgulhoso. — Agora tudo faz sentido.
Kyle franziu o cenho.
— Quem é ela?
Lucca sorriu de canto.
— Alguém muito mais importante do que você pode compreender.
E Hana… pela primeira vez em muito tempo… sentiu que não estava mais sozinha na sala.
~*~
O baile estava chegando ao fim, mas Hana ainda parecia flutuar — não pelo luxo, nem pelos olhares alheios. Mas pela maneira como Lucca ficara ao seu lado o tempo inteiro. Como se ela fosse... dele.
Mas bastou ela começar a procurar um táxi para a realidade voltar.
— Onde pensa que vai? — a voz dele soou atrás dela.
— Pra casa. Já é tarde.
— Não. — foi a resposta curta, direta, sem margem.
— Não? Como assim não?
— Você chegou comigo. Vai embora comigo. — ele disse, já abrindo a porta do carro para ela.
Ela hesitou, mas entrou.
O silêncio no carro era carregado de tudo o que não havia sido dito naquela noite. Até que Lucca, ainda olhando para frente, murmurou:
— Sobre o colar… você tem certeza de que foi o seu primeiro desenho?
— Absoluta. Eu desenhei escondida. E alguém deve ter pegado sem que eu percebesse. Eu era ingênua demais pra desconfiar de quem vivia ao meu redor.
— Vamos descobrir quem está por trás disso. — ele disse, a voz firme.
Hana se virou ligeiramente para ele, os olhos descansando sobre a gravata.
— Ficou bem em você, sabia?
Lucca não respondeu imediatamente. Mas então, virou o rosto, e pela primeira vez naquela noite, deixou a máscara cair por completo.
— E você… — ele disse com a voz mais baixa. — Você ficou linda essa noite.
Hana sentiu o rosto esquentar, o coração descompassado. Mas antes que pudesse responder, o carro desacelerou.
Luzes vermelhas e azuis piscavam na rua de seu prédio.
— O que é isso? — ela sussurrou, assustada.
— Fique no carro. — Lucca ordenou, já saindo.
Mas Hana o seguiu. O cheiro de fumaça ainda pairava no ar.
Um bombeiro se aproximou com um semblante grave.
— Boa noite. A senhorita mora neste prédio?
— Sim… no terceiro andar.
— Infelizmente, o fogo começou justamente ali. Ainda estamos investigando a causa, mas tudo indica que foi um incêndio proposital. O apartamento… foi totalmente comprometido.
Hana sentiu o chão sumir sob os pés.
O lar. Suas roupas. Seus desenhos. Tudo que havia conquistado sozinha…
Ela apertou os braços em volta do próprio corpo, tentando não desabar.
Lucca se aproximou, colocando uma mão firme em suas costas.
— Ela está abalada. Vocês já coletaram o que precisavam?
— Sim, senhor. Já temos os dados. Vamos continuar com a perícia amanhã.
Lucca assentiu, e então, com um gesto suave, virou-se para Hana.
— Vamos.
— Mas eu…
— Não há “mas”, Hana. Você vai comigo.
Ela não resistiu. Apenas deixou que ele a conduzisse até o carro novamente, a adrenalina transformando sua mente num redemoinho.
A cobertura de Lucca era silenciosa, luxuosa… e solitária.
Ele a guiou até o quarto de hóspedes e, em seguida, saiu por alguns minutos. Quando voltou, ela estava sentada na beirada da cama, ainda em choque.
— Harry vai providenciar roupas pra você amanhã. Amanhã cedo também vamos resolver um lugar seguro. Até lá, fique aqui. — disse ele.
— Lucca… — ela murmurou. — Obrigada.
Ele hesitou na porta.
Virou o rosto apenas o suficiente para que ela visse parte de sua expressão.
— Boa noite, Srta. Smith.
E saiu, deixando a porta encostada. Mas não trancada.
Porque agora… ele já não conseguia se manter longe.
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