ENTRE DIAMANTES E DESTINOS
8 Capítulo 8 – Limite
Hana desceu as escadas com passos tímidos.
Estava usando um moletom enorme, cinza escuro, com o logo discreto de uma marca de grife que ela nem sabia pronunciar. Era claramente de Lucca — e por isso mesmo, parecia ainda mais... íntimo.
As mangas ultrapassavam suas mãos, e a barra batia no meio das coxas. O cabelo preso em um coque improvisado e a pele limpa, sem maquiagem, só deixavam a imagem mais… perigosa.
Para ela, era um simples moletom.
Para Lucca... era uma ameaça disfarçada de algodão.
Ele estava na cozinha, lendo e-mails no celular, quando ergueu os olhos e a viu.
Congelou.
Por dois segundos inteiros, ele esqueceu o conteúdo da tela. Do telefone. E talvez do próprio nome.
Hana se encolheu levemente ao perceber o olhar.
— Desculpa, Harry ainda não trouxe as roupas. Eu... achei isso no armário do quarto. Posso trocar, se quiser.
— Não. — ele respondeu, rápido demais. — Está... tudo bem.
Mentira.
Não estava nada bem.
Ela estava ali, em sua casa, com seu moletom, o cheiro dele misturado ao dela, os pés descalços tocando o chão como se pertencesse àquele espaço.
E ele estava muito, muito consciente disso.
— Bom dia. — ela murmurou, tentando agir com naturalidade enquanto pegava uma xícara.
Lucca a observava como se o simples ato de ela existir fosse um desafio pessoal.
Um ruído interrompeu a tensão: a porta se abriu.
— Bom dia, casal não declarado! — anunciou Harry, entrando com uma sacola de roupas e um sorriso sacana. — Ah, que visão matinal. Hana no moletom do chefe. Isso é o que eu chamo de fanfic virando realidade.
— Harry. — Lucca murmurou em aviso.
— Tudo bem, já entendi. Sem comentários. Só vou deixar as roupas aqui e fingir que não entrei no meio de um clima absurdo de tensão sexual reprimida.
— HARRY.
Hana estava vermelha até a raiz do cabelo.
— Eu... vou me trocar! — disse, pegando a sacola e quase tropeçando nos próprios pés enquanto fugia da cozinha.
Assim que ela sumiu pelas escadas, Harry se recostou no balcão, cruzando os braços com aquele ar de quem sabe mais do que devia.
— Você podia ter levado ela pra um hotel.
— Eu sei. — Lucca respondeu, ainda olhando para o lugar onde ela estivera.
— Mas você não levou.
— Porque ela já sofreu demais.
Harry deu um meio sorriso.
— Você não quer protegê-la só do mundo, Lucca. Quer protegê-la de você mesmo.
Lucca não respondeu. Passou a mão pelos cabelos e suspirou.
— Eu sei que ela é um perigo. Mas quando ela está aqui… — a voz falhou, quase imperceptível. — Eu me sinto em casa. E isso... é novo demais pra mim.
Harry sorriu, agora mais leve.
— Então trate de não ferrar com isso.
Lucca não respondeu.
Mas seu olhar dizia tudo.
Ele não sabia mais onde isso ia dar.
Só sabia que, de todas as perdas que já teve… essa ele não estava disposto a sofrer.
~*~
Os saltos de Hana soavam abafados contra o piso de mármore da empresa. Ao lado dela, Lucca caminhava com as mãos nos bolsos e a expressão impassível de sempre. Mas a diferença? Hoje, eles entraram juntos.
E isso bastou para incendiar os corredores.
Olhares cortantes. Sussurros mal disfarçados.
Colegas com papéis nas mãos que erraram o caminho só para espiar.
E, claro, aqueles sorrisos falsos e venenosos que apenas escondiam o desconforto de vê-la ali, ao lado dele.
Hana manteve o queixo erguido, apesar do coração apertado.
Mas foi Lucca quem cortou o clima.
Ele parou no meio do corredor e, sem olhar para os lados, disse alto o suficiente para ecoar:
— Quem tem tempo pra fofoca provavelmente não tem muito valor pra produção. Que fique claro.
E o corredor inteiro ficou em silêncio.
Mais tarde, Hana se aproximou da sala de Lucca com passos hesitantes. Bateu na porta.
— Entre. — a voz firme respondeu.
Ela entrou e o encontrou com Harry, ambos em frente a uma tela cheia de gráficos e relatórios.
— Desculpe incomodar, mas a delegacia ligou. Preciso prestar depoimento sobre o incêndio e resolver alguns documentos com a dona do imóvel… Posso tirar o restante do dia?
Lucca não tirou os olhos da tela.
Mas sua resposta foi simples.
— Harry, cancele a reunião com os investidores.
— Senhor?
— Cancele. E reagende pra sexta.
Harry ergueu uma sobrancelha com um sorriso maroto crescendo no canto da boca.
— Claro.
Hana piscou, confusa.
— Você… vai comigo?
— Você acha que eu deixaria você resolver tudo sozinha? — ele respondeu, agora finalmente a encarando. — Alguém tentou te matar, Hana. E isso me diz que onde você estiver… eu também preciso estar.
O peito dela se aqueceu com força.
Ela não sabia explicar o que era. Só sabia que nunca alguém havia feito isso por ela.
Na delegacia, o policial foi educado, mas direto. O caso ainda estava em investigação, mas tudo indicava que o incêndio havia sido proposital. Hana deu seu depoimento com calma, ainda que por dentro estivesse tremendo.
Lucca permaneceu ao lado dela o tempo todo. Braços cruzados, semblante fechado — mas seus olhos analisavam tudo. Cada detalhe. Cada expressão do policial.
Após saírem dali, foram até o antigo prédio de Hana, onde a dona do apartamento esperava com um semblante sério e uma lista de perdas na mão.
— Eu sinto muito pelo ocorrido, mas terei que cobrar pelos danos à estrutura, aos móveis, ao encanamento—
Lucca tirou a carteira.
Contou uma quantia em notas altas como quem conta troco.
E entregou, com a calma de quem estava pagando um café.
— Isso cobre tudo. E mais.
— Mas… senhor, isso é muito...
— Então use o extra para instalar um sistema de incêndio decente da próxima vez.
Ele pegou Hana pela mão com firmeza e a conduziu de volta ao carro.
— Você não precisava ter feito isso. — ela disse, baixinho.
— Precisava, sim. Você pode não perceber ainda, mas a sua vida tem um valor que nem todos merecem… mas eu reconheço.
Ela ficou em silêncio. O peito acelerado.
Hana estava se apaixonando.
E talvez… ele também estivesse.
Antes de deixá-la em casa, Lucca parou de surpresa no shopping.
Entraram juntos em uma das lojas mais luxuosas do andar.
— O que estamos fazendo aqui?
— Comprando tudo o que for necessário pra você continuar na minha casa.
— Lucca… isso é demais.
— Não. — ele respondeu, olhando diretamente nos olhos dela. — Demais seria te perder. E isso… eu não vou permitir.
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