ENTRE DIAMANTES E DESTINOS
4 Capítulo 4 – A Força Que Falta
Na manhã de segunda-feira, os corredores da Palezo & Co. estavam mais silenciosos que o normal. O e-mail de Lucca havia sacudido a estrutura da equipe, mas o efeito colateral caiu pesado sobre Hana.
Ninguém falava com ela.
As risadinhas e provocações sumiram. Mas em vez disso, veio o desprezo velado, o tipo de silêncio que grita.
Hana entrou no refeitório segurando a bandeja com uma pequena porção de arroz e legumes. Avistou uma mesa com três colegas conhecidos — todos riram dela na primeira semana, mas agora pareciam menos hostis. Respirou fundo e se aproximou.
— Posso…?
Mas antes que ela completasse a frase, todos se levantaram, levando suas bandejas e indo para outra mesa, sem olhar para trás.
Hana ficou parada. Sozinha. A comida tremendo em suas mãos.
Sentou-se em silêncio.
Mas não comeu.
A garganta estava apertada demais.
Lucca passou pelo corredor central e viu Hana voltar do almoço antes do horário. O olhar dela estava baixo, os ombros encolhidos. Mas ele tinha uma reunião importante e deixou para depois a sensação incômoda que aquilo causou.
O fim do dia chegou.
Hana estava cansada, fraca. O estômago roncava discretamente, mas ela havia ignorado.
Subia as escadas com um envelope de documentos nas mãos — era para Harry, mas ele estava no andar de cima.
O mundo girou de repente.
Sua visão ficou turva. O corpo cedeu por um segundo, e seus pés falharam no terceiro degrau.
Ela sentiu o vazio puxar.
Mas não caiu.
Braços fortes a seguraram pela cintura no exato instante em que seu corpo tombava.
— Hana! — a voz de Lucca soou firme e próxima, quase desesperada.
Ela piscou, tentando se equilibrar, mas as pernas pareciam de algodão.
— Eu… tô bem. — murmurou, fraca.
— Você está pálida. — ele afirmou, segurando-a firme.
Sem permitir protestos, a levou até sua sala, ignorando os olhares surpresos pelo caminho.
Hana foi acomodada no sofá macio de couro preto. Lucca chamou Harry por interfone, e em menos de dois minutos o amigo entrou com um aparelho de pressão portátil.
— A pressão tá baixa. Muito baixa. — disse Harry, preocupado.
— Hana? — Lucca se ajoelhou à sua frente. — O que aconteceu?
Ela fechou os olhos por um momento, a voz saindo em um sussurro quebrado.
— Eu só… preciso comer.
Silêncio.
O tipo de silêncio que dói mais do que qualquer acusação.
Lucca olhou para Harry. O olhar dele dizia tudo.
— Vai. — disse Lucca, firme.
Harry nem respondeu. Saiu da sala como um foguete.
Lucca pegou uma garrafa de água e ajoelhou-se novamente ao lado dela.
Ele nunca havia se sentido assim. Tão... impotente. Tão incomodado.
— Você devia ter dito algo. — murmurou.
— Já basta o que dizem por eu existir aqui. Não quero dar mais motivos pra me odiarem. — respondeu Hana com os olhos ainda fechados, em voz fraca.
Lucca sentiu o estômago revirar. Ela não fazia ideia, mas aquilo o atingiu como um soco.
Ela não era uma espiã.
Ela era uma sobrevivente.
E ele… talvez estivesse começando a se importar.
~*~
Os dias seguintes se arrastaram como se o tempo tivesse decidido brincar com a paciência de Hana.
O ambiente estava ainda mais hostil.
Ninguém falava com ela, nem mesmo para instruções básicas. Sempre que entrava numa sala, as conversas cessavam. Sempre que tentava ajudar em algo, era ignorada ou encarada como se fosse um fardo. Ela virou um fantasma — um fantasma que ainda entregava tudo com excelência.
Mas ninguém parecia se importar com o talento. Só com o sobrenome.
Na manhã de quinta, enquanto organizava rascunhos em sua mesa, ouviu passos firmes ecoando pela recepção.
— Estou aqui pra ver a minha neta. Hana Smith. — uma voz forte e conhecida anunciou.
Hana levantou a cabeça num sobressalto.
— Vó?!
Mya Smith entrou como quem comanda um império — elegante, decidida, com uma bolsa de couro e um batom discreto. Os olhos sábios varreram o ambiente.
— Que lugar mais gelado, meu Deus. — comentou, olhando ao redor. — Nem nos corredores do hospital onde pari seu pai era assim.
Alguns funcionários olharam com curiosidade. Outros, com deboche mal disfarçado.
Lucca, do andar de cima, viu a movimentação e se aproximou da sacada de vidro. Ao notar a mulher ao lado de Hana, estreitou os olhos, curioso.
— Aquela é...?
— Mya Smith. — disse Harry ao seu lado. — A única pessoa decente da família dela, segundo os registros. Fundadora de várias ONGs, conhecida por ajudar crianças em situação de risco. E, pelo visto, também especialista em quebrar gelos corporativos.
— Interessante. — murmurou Lucca.
— Eu vim te buscar pra almoçar. — Mya disse, segurando a mão da neta com carinho. — Já faz dias que sinto que você está triste, e vó que é vó sente essas coisas.
— Vó, não precisa... estou no meio do expediente...
— Não estou pedindo permissão, minha flor. Estou afirmando. Agora levanta essa cabecinha linda e vem comigo. Você já passou dias demais sendo tratada como nada.
Hana tentou sorrir, mas os olhos marejados diziam tudo. Ela pegou sua bolsa, e juntas saíram da empresa sob os olhares murmurantes dos colegas.
Lucca continuou observando do alto. Sem expressão. Mas por dentro... algo apertava.
Talvez fosse raiva dos funcionários.
Talvez fosse culpa.
Ou talvez fosse a constatação:
Ninguém a defendia ali dentro. Exceto uma senhora de cabelos grisalhos.
No restaurante escolhido por Mya, a conversa era leve e cheia de amor.
— Aqueles idiotas que te tratam mal só fazem isso porque sentem medo. — disse Mya, pegando a mão da neta. — Medo do seu brilho, da sua verdade. E porque são covardes demais pra encarar as próprias mediocridades.
— Vó… às vezes eu penso em desistir.
— E perder a chance de provar que você é a joia mais rara da vitrine? Não, minha menina. Você não vai desistir. Porque eu não deixo. E porque eu sei que há alguém ali dentro que já começou a te enxergar.
— Quem?
Mya deu um sorrisinho.
— O moço do terno escuro que fica te observando pelas paredes de vidro. Aquele que finge que não liga… mas liga sim. Vó tem olho afiado, minha flor.
Hana riu baixinho. Mas por dentro, uma esperança acendeu.
Talvez... só talvez... alguém realmente estivesse vendo além do nome que ela carrega.
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