ENTRE DIAMANTES E DESTINOS
5 Capítulo 5 – Vozes e Presentes
A sala de reuniões estava cheia.
Os principais criadores da Palezo & Co. sentavam-se ao redor da grande mesa de vidro com seus tablets, pastas e egos inflados. Lucca entrou como sempre: pontual, sério, e com uma presença que fazia até o ar parecer mais denso.
— Temos um novo cliente internacional interessado em uma peça exclusiva para um evento de gala em Dubai. — disse ele, com a calma de quem sabia o peso da própria voz. — Quero ideias agora. Aqui. Nada de dias para pensar. Quero ver quem realmente merece o cargo que ocupa.
Um burburinho começou. Alguns funcionários trocaram olhares, outros pegaram papéis e começaram a rabiscar qualquer coisa.
Um sugeriu uma gargantilha com pérolas negras — comum.
Outro propôs um brinco inspirado em constelações — batido.
E assim, uma sequência de propostas mornas se sucedeu, até que a sala caiu em um silêncio constrangido.
Hana observava tudo em silêncio, com os dedos inquietos no colo. Aquela não era sua vez de falar… mas a ideia martelava em sua mente, clara, visual, quase pronta. Ela olhou ao redor. Ninguém tinha coragem de propor algo realmente novo.
Então ela levantou a mão.
— Com licença… eu… tive uma ideia. — disse, com a voz firme apesar do frio no estômago.
Alguns colegas suspiraram. Outros riram, abertamente.
— A “queridinha do chefe” resolveu dar palpite agora? — comentou um deles, sarcástico.
— Deve ser mais um desenho de livrinho infantil. — outro sussurrou.
Hana sentiu o rosto esquentar. A vergonha começou a tomar conta, mas algo dentro dela insistia. Você viu a peça. Você sabe que funciona.
— Eu pensei numa pulseira inspirada na arquitetura de Dubai. Com ângulos que lembrem a geometria islâmica, mas interligados com safiras e diamantes em forma de gota, representando a água no deserto. Seria leve, delicada e rica em detalhes simbólicos.
A sala silenciou por um segundo.
E então… risos abafados.
— Essa aí acha que entende de cultura árabe só porque pesquisou no Google ontem à noite. — murmurou alguém.
Hana murchou. As palavras cortavam como navalhas.
Ela se amaldiçoou por ter falado. Deveria ter ficado calada. Mas por mais que doesse, uma parte dela ainda sabia: aquela ideia era boa.
Foi então que a voz firme de Lucca ecoou:
— Chega.
Os risos cessaram de imediato.
Ele se levantou, cruzando os braços. Os olhos escuros varreram a sala com desprezo contido.
— Vocês, com anos de experiência, apresentaram propostas recicladas, dignas de vitrine de bairro. E quando alguém — com menos tempo e mais coragem — ousa pensar diferente, vocês riem como colegiais invejosos?
Silêncio absoluto.
— A proposta dela foi a única que fez sentido, a única com conceito, identidade e conexão cultural. É dela que o cliente vai ouvir.
Hana arregalou os olhos. O coração acelerado. O peito quente.
Era isso… ser vista. Ser defendida. Ser valorizada.
Talvez… não estivesse tão sozinha ali, afinal.
Horas depois, ao sair do trabalho, Hana ainda sentia as palavras dele ecoando na mente.
Enquanto caminhava pela rua, passou por uma vitrine com gravatas de seda. Uma delas chamou sua atenção imediatamente — preta com detalhes sutis em dourado e azul, elegante, sofisticada… e por algum motivo, a cara de Lucca.
Ela entrou na loja sem pensar muito e comprou o item, o coração batendo de forma estranha.
Era só um presente. Uma forma de agradecer.
Mas agora… como entregar?
No caminho de volta pra casa, ela encarava a pequena caixa com fita.
“Você não entrega uma gravata para o CEO mais temido da cidade assim… do nada.”
Será que deixava em cima da mesa dele quando ninguém estivesse por perto?
Escrevia um bilhete anônimo?
Entregava pessoalmente… e fingia que era algo sem importância?
Ela chegou em casa e colocou a caixa sobre a mesa.
Sentou-se diante dela e murmurou:
— Como se presenteia alguém que parece que vai congelar você com o olhar?
~*~
O prédio estava quase vazio quando Hana subiu para o último andar. Era tarde, e Lucca tinha saído para uma reunião externa. Era a chance perfeita.
Ela carregava nas mãos a pequena caixa embrulhada com fita azul escura. No topo, um bilhete simples, escrito à mão:
“Apenas um agradecimento… Por segurar o que quase caiu.”
Ela abriu lentamente a porta da sala dele, como se o próprio chão pudesse acordar. O ambiente estava na penumbra, apenas com a luz suave do pôr do sol filtrando pelas janelas de vidro.
Colocou a caixa sobre a mesa, respirou fundo… e se virou para sair em silêncio.
Mas antes que alcançasse a maçaneta…
— Entrando escondida na minha sala, Srta. Smith?
A voz grave e irônica de Lucca a fez congelar.
Ela se virou devagar, o rosto corando imediatamente.
— Eu… achei que você estivesse fora. — disse, encolhendo os ombros.
— Estava. Voltei. — Ele deu alguns passos lentos em direção à mesa, os olhos indo direto para a caixinha. — Isso é…?
— Não é nada! — ela se apressou. — É só um… gesto bobo. Pode jogar fora, se quiser.
Lucca arqueou uma sobrancelha, pegou a caixa com calma e a abriu.
Ao ver a gravata, elegante, discreta e impecavelmente a sua cara, ele não reagiu de imediato.
Mas algo brilhou em seus olhos.
— Bonita. — murmurou. — Mas você acha certo presentear o chefe fora do expediente?
— Foi só um agradecimento. — Hana respondeu, tentando manter a compostura.
Lucca deu um passo a mais. Estava perto agora. Perto demais.
— Isso não vai virar hábito, vai?
— Claro que não. Eu nem gosto de você. — ela disse num tom defensivo.
— Então por que está vermelha?
Hana arregalou os olhos, sem saber o que responder.
Lucca esboçou um sorriso... provocador. Mas logo sua expressão voltou ao normal — fria, fechada, blindada.
— Saia da minha sala, Srta. Smith.
Ela apertou os lábios e saiu com passos rápidos. No corredor, murmurou entre dentes:
— Bipolar.
No exato momento em que cruzava com Harry.
— Opa, isso foi um “bipolar”? — ele disse, arqueando a sobrancelha. — Ah, essa eu não perco.
Entrou na sala de Lucca com um ar de quem estava se divertindo demais para um final de expediente.
— Então… presente de funcionária? Uma gravatinha nova? Está até combinando com seu humor instável, chefe.
Lucca ignorou.
— Que foi? Vai usar amanhã? Já vai estrear no evento da Dubai? Posso escrever um bilhete também: “Com carinho, do seu secretário favorito.”
— Harry.
— Só tô dizendo que bipolar com coração secreto é meu novo subgênero literário preferido.
— Harry, sai da minha sala.
— A gravata tá linda, chefe. E você também, quando finge que não sente nada.
— Agora.
Harry saiu rindo, deixando a porta se fechando devagar atrás de si… e Lucca ali, com a gravata ainda nas mãos.
Ele olhou de novo o bilhete.
“Por segurar o que quase caiu.”
E pela primeira vez em muito tempo… sentiu que alguém estava falando com ele de verdade.
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