ENTRE DIAMANTES E DESTINOS
3 Capítulo 3 – Rasgos Invisíveis
Hana acordou antes do sol nascer, mesmo com o corpo pedindo mais descanso.
Na cadeira ao lado da cama, uma caixa forrada com papel dourado esperava por ela. Um laço lilás, simples e delicado, revelava a assinatura inconfundível da vovó Mya.
Com um sorriso emocionado, Hana abriu a tampa com cuidado. Lá dentro, havia um conjunto de roupas impecável: uma calça de alfaiataria cinza-claro, uma blusa de tecido acetinado cor vinho e um blazer branco perolado, moderno e elegante, com botões dourados em forma de flor. Tudo combinava perfeitamente com sua essência: delicada, mas cheia de força contida.
No fundo da caixa, um bilhete escrito com a caligrafia tremida da avó:
“Para a joia mais rara que já conheci. Que você brilhe — mesmo quando tentarem te apagar. Com amor, Sua vó que te ama mais que todos os diamantes do mundo.”Hana chorou. Mas dessa vez, foi de alegria.
Chegar à empresa vestida naquele conjunto foi como pisar num novo mundo. Os olhares dos colegas foram imediatos — alguns surpresos, outros carregados de inveja disfarçada.
Ela tentou sorrir, segura de si pela primeira vez desde que começou ali.
Mas a paz durou pouco.
Quando voltou do almoço, o blazer tinha desaparecido de onde o deixara pendurado.
— Alguém viu meu casaco? — perguntou, tentando manter a voz firme.
Silêncio. Alguns colegas desviaram o olhar. Outros fingiram não ouvir.
Minutos depois, ela encontrou o blazer. Jogado no chão de um depósito, sujo de café, com um dos ombros rasgado como se tivesse sido puxado com força.
Hana ficou imóvel. Por alguns segundos, não conseguia nem respirar.
Ela se ajoelhou e pegou o tecido, sentindo os dedos tremerem.
Aquele presente… aquele gesto da avó... tudo havia sido destruído como se não valesse nada.
As lágrimas vieram sem que pudesse impedir.
Caíram silenciosas, amargas, marcando o tecido branco com dor.
De longe, Lucca observava.
Encostado à parede de vidro de seu escritório, os braços cruzados e o olhar atento. Ele não se movia. Não dizia nada.
Mas dentro de si, uma pergunta martelava com mais força do que gostaria de admitir:
Até onde ela aguenta?
**
Horas depois, o silêncio da casa de Lucca foi quebrado pelo barulho do abridor de garrafas. Ele e Harry estavam sentados em sua varanda coberta, cada um com uma cerveja na mão.
O céu estava nublado, e a cidade parecia mais calma do que o normal.
— Eu fiz o que você pediu — disse Harry, depois de um gole. — Investiguei a vida dela.
Lucca permaneceu em silêncio, mas virou o rosto levemente.
— E?
— A mãe dela fugiu quando ela era criança. Largou tudo. O pai dela… é um lixo. Rejeitou a menina desde que a mulher foi embora. Os irmãos seguem o exemplo dele.
— E mesmo assim ela leva o sobrenome dele.
— Talvez seja a única coisa que sobrou. Hana passou por quatro empregos nos últimos dois anos. O pai ameaçou os donos das empresas pra não contratarem ela. Teve um lugar que faliu depois de não obedecer.
Lucca franziu o cenho, pensativo.
— Por isso ela trabalhava numa cafeteria.
— Isso. E sabe o que mais? — Harry deu outro gole. — Mesmo assim, ela não tem ficha suja. Nunca reclamou de nada. Nunca entrou com processo. Ela só… tenta continuar.
Lucca olhou para a garrafa em mãos.
— E hoje… ela chorou.
— Chorou? — Harry se endireitou.
— Sozinha. Num canto da sala de estoque. Com o blazer sujo nas mãos. — Lucca girou a garrafa devagar, como se estivesse voltando àquela cena. — E mesmo assim… voltou pro posto dela cinco minutos depois.
Harry ficou quieto por um instante.
— Ela é mais forte do que parece.
Lucca não respondeu. Mas seus olhos estavam fixos no escuro, como se já soubesse disso.
Como se, pela primeira vez, estivesse enxergando além dos esboços.
Além do sobrenome.
Além da dor.
~*~
Na manhã de sexta-feira, o clima na Palezo & Co. era mais tenso do que o normal.
Todos os funcionários foram convocados para a sala de reuniões. Lucca entrou, com sua postura imponente, terno escuro e olhar indecifrável. Carregava uma pasta fina nas mãos e uma expressão que não prometia facilidade.
— Aqui está o novo projeto — disse, colocando sobre a mesa um único envelope fechado. — Quem conseguir decifrar e apresentar uma proposta satisfatória até o final do dia… lidera a execução.
Olhares curiosos se cruzaram. Quando abriram o conteúdo, se depararam com folhas escritas com códigos alfanuméricos, diagramas desconexos e símbolos de pedras preciosas dispostos em padrões confusos.
— Isso é um quebra-cabeça. — murmurou um dos designers.
— Isso é loucura. — corrigiu outro.
Hana recebeu uma cópia como os demais. Observou em silêncio, os olhos analisando cada linha.
As instruções eram estranhas… mas não para ela.
Hana se lembrava de algo semelhante — seu antigo professor de design usava códigos assim para ensinar criatividade além do óbvio. Pedras preciosas representavam valores. Os números indicavam proporção, os símbolos... conceitos.
Ela pegou lápis e papel, sem perder tempo.
Enquanto os outros debatíamos entre si, ela trabalhava sozinha.
O dia passou rápido, envolto em frustração e discussões. Alguns tentaram decifrar com lógica. Outros chutaram. Mas ninguém parecia chegar perto de algo concreto.
Quando o relógio marcou 17h45, Hana subiu até o andar de Lucca.
Bateu na porta com leveza.
— Com licença. Eu terminei.
Lucca a encarou com aquele olhar firme de quem não esperava resultado — muito menos tão cedo.
— Já?
Ela apenas assentiu, entregando as folhas com o esboço.
Ele analisou em silêncio. Os olhos percorreram o design: um colar inspirado na mitologia grega, com pedras representando força, sacrifício e renascimento. A peça conversava com os códigos... como se tivesse saído da mente de alguém que falava aquela linguagem fluente.
Lucca fechou a pasta devagar.
— Pode ir.
Hana hesitou por um instante, esperando um comentário. Um elogio. Qualquer reação.
Mas ele não disse mais nada.
Ao sair da sala, cruzou com Harry, que subia com uma caixa de papelão nas mãos.
— E aí, senhorita Smith — disse ele com um sorriso leve. — Sobreviveu à primeira semana no paraíso do gelo?
Hana deu um sorrisinho tímido, escondendo o cansaço nos ombros.
— Está tudo bem.
Harry a encarou por um segundo a mais do que o normal, como se quisesse dizer: eu sei que não está.
Mas respeitou o silêncio dela.
— Bom final de semana, Hana.
— Obrigada, Harry.
Ela se foi.
Quando a porta do elevador fechou, Harry se virou para Lucca, que ainda encarava o esboço.
— Impressionado?
— Ela leu os códigos como se fossem poesia. — murmurou Lucca, e então pigarreou. — Mas é cedo demais pra elogios.
Harry bufou, jogando-se no sofá da sala.
— Vai continuar fingindo que nada está acontecendo?
Lucca não respondeu. Apenas se levantou e foi até o computador.
Digitou alguns comandos e, em segundos, uma lista de nomes surgiu na tela — todos os funcionários da ala de design.
— O que vai fazer? — Harry perguntou, arqueando a sobrancelha.
— Colocar ordem. — disse Lucca, os olhos gelados. — Quem acha que trabalha em uma escola de ensino médio vai descobrir o que é disciplina corporativa. A partir de segunda-feira, qualquer desrespeito, sabotagem ou má conduta… será motivo de demissão. E eu mesmo vou supervisionar o ambiente da sala de criação.
Harry deu um sorriso de lado.
— Acho que o gelo começou a derreter…
Lucca ignorou. Mas por dentro, uma voz murmurava:
Se até uma pedra preciosa sofre pressão pra brilhar… talvez seja hora de proteger a única que realmente vale algo aqui dentro.
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