ENTRE DIAMANTES E DESTINOS

2 Capítulo 2 – Olhos Sobre a Joia


O carro preto parou em frente a um prédio de vidro e aço, tão alto que parecia cortar o céu. Hana desceu com as pernas trêmulas e os olhos arregalados. O símbolo dourado da empresa Palezo & Co. brilhava acima da entrada como um selo de prestígio — ou de ameaça.

Ela apertou a alça da bolsa e respirou fundo.

Quando entrou, foi recebida por um saguão silencioso e sofisticado. Mármore no chão, lustres modernos, recepcionistas vestidas de preto como se fossem parte da decoração. Todos os olhares se voltaram para ela — não por sua beleza, mas pela simplicidade em contraste com o ambiente.

Antes que pudesse dizer qualquer coisa, um homem loiro de terno azul-marinho apareceu sorrindo.

— Você deve ser a Hana. — ele disse com um brilho malicioso no olhar. — Eu sou Harry. Secretário, assistente pessoal, melhor amigo e salvador das manhãs mal-humoradas do senhor Palezo.

— Oi… — ela disse, tímida. — É um prazer.

— Ainda não é. Mas vai ser. Vem comigo. — ele piscou e virou nos calcanhares.

Hana o seguiu até um andar alto, onde uma sala enorme se abria com janelas panorâmicas, mesas com computadores de última geração e funcionários com cara de quem dorme em ternos. No centro, uma bancada com joias em processo de criação.

— O chefe quer que você faça um teste. Um design original, funcional, elegante, e com sua assinatura. Nada de copiar ou se inspirar demais. Ele odeia “mais do mesmo”. — Harry explicou.

— Claro. — Hana respondeu, já tirando seu caderno de anotações.

Ela se sentou na bancada e, com calma, começou a desenhar. O silêncio ao redor era intenso, mas Hana se refugiava no papel como quem voltava pra casa. Cada linha que surgia era mais segura que a anterior. Sua expressão mudou de tensa para concentrada, os olhos vivos, os dedos leves. Estava em seu mundo.

Do alto da escada de vidro, Lucca observava tudo.

— Ela tem talento. — murmurou.

Harry surgiu ao lado dele, com o celular em mãos e uma expressão diferente da habitual.

— Achei o que você pediu.

— E?

— O nome completo dela é Hana Elaine Smith. Filha de Antony Smith. A mesma Smith que você tenta derrubar faz cinco anos.

Lucca encarou o vidro com mais atenção. Lá embaixo, Hana continuava desenhando, alheia aos olhos que a julgavam.

Um sorriso surgiu no canto da boca dele. Mas não era gentil. Era afiado, quase cruel.

— Interessante…

Minutos depois, Hana entregou o desenho finalizado, respirando fundo.

— Está aqui. Eu... espero que seja o que você esperava.

Lucca pegou o papel com calma. Mas não olhou o desenho de imediato.

— Por que estava trabalhando numa cafeteria?

Ela hesitou, surpresa com a pergunta.

— Porque… era o único lugar que me aceitou.

— Tem diploma?

— Sim. Design de Criação, pela Marquez University.

— Por que não trabalha na empresa do seu pai?

Hana empalideceu.

— Como…?

— Smith. O nome não é exatamente comum no ramo das joias. E agora eu confirmei. — Ele cruzou os braços. — Você é filha do meu maior concorrente.

Ela engoliu em seco.

— Eu não tenho contato com ele. Estou aqui porque amo criar. Não por espionagem, se é o que está pensando.

Lucca se aproximou, os olhos nos dela, perigosamente perto.

— E por que eu deveria acreditar?

— Porque se eu fosse uma espiã, teria escolhido um disfarce melhor do que “garçonete demitida”.

Por um segundo, o olhar dele vacilou. Um sorrisinho involuntário escapou. Ela era afiada.

Ele finalmente olhou para o desenho.

Silêncio.

Harry, do canto da sala, ergueu uma sobrancelha.

Lucca não disse nada. Mas colocou o papel sobre a mesa com cuidado — o cuidado de quem não admite em voz alta que viu algo brilhante.

— Vamos ver se esse talento vale mais do que o sobrenome que carrega.

Ele se virou, encerrando o assunto.

Hana respirou aliviada — ou tentou.

Ela sabia que a prova ainda não tinha acabado. E que trabalhar ali... seria como andar sobre vidro.

Mas havia uma faísca nos olhos dele.

Uma que dizia que, pela primeira vez, alguém via nela mais do que o rótulo de filha esquecida.

~*~

O relógio mal marcava oito da manhã quando Hana entrou pela porta lateral da Palezo & Co. Ela segurava a bolsa com força, o coração disparado e uma mistura de ansiedade e medo estampada nos olhos. Vestia uma camisa clara e calça social simples — impecável, mas discreta.

Assim que cruzou o corredor principal, todos os olhares se voltaram para ela. Mas não com gentileza. Havia ali julgamento, curiosidade… e desprezo velado.

— Essa é a nova? — sussurrou uma funcionária de salto agulha e blazer rosa claro.

— Parece uma estagiária perdida. — disse outra, com um risinho abafado.

Hana tentou sorrir, mas ninguém retribuiu. Ela seguiu adiante com a cabeça erguida, mesmo sentindo o peso invisível da exclusão.

As horas seguintes foram um teste de resistência.

Cada pergunta que fazia era ignorada. Cada pedido de ajuda era respondido com um “pergunta pro chefe” ou, pior, um simples virar de costas. As instruções deixadas para ela eram vagas, incompletas ou, em alguns casos, erradas de propósito.

Mesmo assim, Hana não reclamou.

Ela buscou tutoriais no computador, revirou catálogos antigos e usou sua intuição para seguir adiante. À medida que o dia avançava, o rosto dela ganhava manchas de grafite, e as mãos tremiam pelo esforço. Mas o traço firme continuava ali — ela não desistiria.

Do andar de cima, Lucca observava.

Sentado em sua sala de vidro, ele assistia ao vai e vem da equipe, mas os olhos sempre acabavam nela.

— Já se arrependeu? — provocou Harry, entrando com uma pasta em mãos.

— Ainda não — respondeu Lucca, com a voz baixa. — Ela está fazendo o trabalho de três pessoas e com mais precisão do que qualquer um deles. E não reclamou uma única vez.

Harry sorriu.

— Vai acabar gostando dela.

— Já gostei de uma mulher antes — murmurou Lucca, sombrio. — Quase me matou.

Harry apenas balançou a cabeça e saiu, deixando o silêncio voltar.

Quando o relógio finalmente marcou seis da tarde, Hana ajeitou sua mesa. O projeto que lhe deram estava finalizado, revisado e salvo. Nenhum erro. Nenhuma falha.

Ela queria cair de cansaço, mas o peito carregava algo mais forte: orgulho. Pela primeira vez em muito tempo, ela sentia que havia valido a pena.

Ao sair da empresa, caminhou até uma praça próxima e se sentou num banco sob uma árvore. Tirou o celular do bolso e, com dedos trêmulos, discou o número mais seguro do mundo.

— Alô? — atendeu uma voz doce do outro lado.

— Vó? — Hana sussurrou, e a emoção escapou sem permissão. — Eu… eu consegui.

— Conseguiu o quê, minha menina?

— Trabalhar com o que eu amo. Vó, eu tô criando de verdade. Desenhando. Sendo ouvida… Mesmo que seja só por mim mesma.

Do outro lado, o silêncio foi breve… e então, a voz da senhora veio embargada.

— Minha joia... Você não sabe o quanto eu esperei pra ouvir isso.

Hana sorriu, os olhos se enchendo de lágrimas.

— Eu ainda tenho muito o que aprender… mas só queria que a senhora soubesse que… que eu tô começando.

— Então eu vou preparar algo especial. — Mya disse, com aquele tom que só avós sabem usar. — Uma surpresa pra minha menina mais preciosa. Porque quem nasce pra brilhar… nunca fica nas sombras pra sempre.

Hana fechou os olhos. A brisa da noite bateu leve em seu rosto, levando embora parte do cansaço.

Ela desligou o telefone e olhou para o céu que começava a escurecer.

Talvez ainda levasse tempo para se firmar. Talvez as dores ainda viessem.

Mas pela primeira vez em muito tempo… ela não se sentia invisível.

Ela era uma joia.

E, aos poucos, estava encontrando sua luz.