ENTRE DIAMANTES E DESTINOS

1 Capítulo 1 – A Joia Esquecida


A mesa era grande. Elegante. Impecavelmente posta com taças de cristal, pratos de porcelana e talheres de prata reluzente — um retrato perfeito da família Smith. Pelo menos, para quem olhava de fora.

— O contrato com a Empress Jewelry foi fechado hoje. — Kyle dizia com um sorriso orgulhoso, erguendo a taça de vinho como se brindasse a si mesmo. — Mais uma vitória para o setor jurídico da empresa.

— Impressionante, querido! — Madeline exclamou, sorrindo como uma perfeita anfitriã de revista. — E pensar que só essa semana foram três contratos importantes!

— E tem mais vindo por aí. — disse Michele, cruzando as pernas e exibindo um relógio caríssimo no pulso. — O próximo lançamento da coleção “Ouro Rosa” já tem pré-venda esgotada.

— E isso com a minha cara em todas as capas — completou Kim, lançando um sorrisinho convencido para Hana, como se dissesse “e você?”

Hana manteve-se calada, sentada discretamente na ponta da mesa. O vestido que usava era simples, mas elegante. O cabelo preso em um coque baixo. As mãos escondidas sob a toalha para que ninguém visse os calos de quem passava o dia equilibrando bandejas em uma cafeteria.

Ela apenas sorriu de canto quando a avó, Mya Smith, segurou sua mão com carinho.

— Você está muito magrinha, minha menina... — a senhora sussurrou, com preocupação genuína no olhar.

— Estou bem, vovó — Hana respondeu, forçando uma voz tranquila. — Só correria mesmo.

A verdade era outra. Mas Hana sabia que ninguém naquela casa estava interessado em ouvi-la.

Quando o jantar terminou, Mya se levantou com dificuldade, desejando boa noite a todos. Hana se preparava para ir embora logo em seguida, mas o pai, com seu olhar cortante, não deixaria isso ser tão fácil.

— E você, Hana... — Sr. Smith começou, encostando-se à cadeira. — Ainda servindo café? Ou já desistiu disso também?

— Pelo menos alguém da família está vivendo a realidade — murmurou Kim, soltando uma risada debochada.

— Você deveria sentir vergonha. Criamos um império e você joga tudo fora por causa da sua mãe.

— Nem parece uma Smith. — disse Michele, enquanto ajeitava o cabelo. — Não tem postura, não tem ambição. Só sabe se esconder atrás de desenhos inúteis.

Hana tentou engolir em seco.

Tentou se manter firme.

Mas as palavras cortavam mais do que ela deixava transparecer.

— Se não fosse por você, talvez sua mãe não tivesse feito o que fez — soltou o pai, a voz carregada de desprezo.

Foi o suficiente.

Ela se levantou, com o rosto em silêncio, mas os olhos marejados. Nem se despediu. Apenas pegou sua bolsa e saiu da mansão que nunca foi seu lar, caminhando pela noite fria com o coração sangrando.

Do outro lado da cidade, um escritório de vidro reluzia na cobertura de um prédio. Lucca Palezo estava recostado na poltrona de couro, os olhos presos na tela de seu notebook. Seus traços eram frios, perfeitos demais para parecerem reais. Os olhos escuros, severos, e os ombros largos ainda vestiam o terno de corte impecável.

— Jean... você tem certeza? — ele perguntou, após alguns segundos de silêncio.

Jean sorriu do outro lado da mesa. Uma mulher elegante, de expressão serena.

— Tenho, Lucca. Kyle me pediu em casamento. E... vou aceitar a proposta da empresa Smith. Vamos trabalhar juntos agora.

Lucca fechou o notebook com calma, mas seus olhos endureceram.

— Você sabe o quanto eu detesto perder.

— Eu sei. Mas essa perda vai te trazer algo que nunca teve. — Ela se levantou, pegando sua bolsa. — Confie em mim... você ainda vai encontrar a joia mais rara da sua vida.

— Já ouvi isso antes. — Lucca se recostou na cadeira, olhando pela janela. — E ela me destruiu.

Jean suspirou e caminhou até a porta. Antes de sair, virou-se uma última vez.

— Talvez ela tenha sido só um anel de latão pintado de ouro.

A verdadeira está mais perto do que você imagina.

E então, ela se foi.

Lucca permaneceu ali, imóvel, observando as luzes da cidade como quem encara o próprio passado. Ele não acreditava mais em sorte, destino ou amor. Mas... algo em suas palavras ficou preso dentro dele como uma fagulha.

Do outro lado da cidade, Hana chorava dentro de um ônibus vazio.

Nenhum dos dois sabia, mas o universo já havia decidido:

A dor deles seria lapidada juntos.

~*~

O cheiro de café recém-passado se misturava ao som abafado da chuva lá fora. A cafeteria La Belle Sabor, escondida numa rua calma do centro, era o tipo de lugar que passava despercebido — exceto por quem precisava de refúgio ou Wi-Fi.

Hana ajeitou o avental pela milésima vez e conferiu o bloquinho de anotações. As mãos estavam frias, como sempre acontecia quando a lembrança da noite anterior assombrava sua mente. As palavras de seu pai ainda ecoavam, como agulhas invisíveis espetando o coração.

Ela caminhou entre as mesas com o profissionalismo de sempre, mesmo com a alma remendada por dentro.

Na mesa do canto, um homem observava o relógio com impaciência. Trajava um terno escuro perfeitamente alinhado e exalava uma aura de autoridade que fazia os outros clientes parecerem figurantes. O tipo de homem que não esperava... era esperado.

Lucca Palezo.

Ele havia marcado ali com um potencial designer. O homem insistira que tinha ideias novas, revolucionárias, e pediu para encontrá-lo num local mais casual. Lucca aceitou por puro tédio — e talvez por curiosidade. Mas agora, com quinze minutos de atraso, a paciência do CEO começava a esgotar.

Ele abriu a pasta de couro sobre a mesa e espalhou os esboços que o tal “designer genial” havia mandado por e-mail. Rabiscos mal estruturados, proporções desalinhadas e zero originalidade.

— Ridículo. — murmurou, com frieza.

Hana se aproximou da mesa com um sorriso gentil, mas hesitante.

— Boa tarde. Posso te oferecer alguma coisa?

Ele não respondeu de imediato. Estava concentrado num dos desenhos. Frustrado.

Hana, com um leve olhar, notou os esboços. Algo dentro dela se acendeu. O pulso criativo, enterrado há tanto tempo, pulsou por um instante. Sem conseguir conter, ela apontou para um colar mal desenhado.

— Com licença… não é da minha conta, eu juro. Mas essa curva aqui… — ela apontou com o dedo, hesitante. — Ela não encaixa bem com o restante. O fecho ficaria pesado desse jeito. Se você puxasse essa linha e fizesse um equilíbrio com a pedra central, daria leveza e… perdão. Eu... me empolguei.

Lucca a encarou.

Demorou um segundo para falar.

— Sabe desenhar?

— Desde que me entendo por gente. Mas é só um hobby, eu—

Ele empurrou um dos papéis na direção dela.

— Corrija.

Hana arregalou os olhos.

— Aqui? Agora?

— Tenho tempo. E você claramente tem talento.

Sem pensar, ela tirou da bolsa um lápis velho que sempre levava — como se ainda acreditasse, no fundo, que um dia alguém veria quem ela era.

Em poucos minutos, Hana redesenhou a peça, ajustando os traços com precisão, repensando o encaixe da corrente, equilibrando o brilho da pedra com um toque de criatividade e sofisticação.

Quando terminou, estendeu o papel para ele com um sorriso tímido.

— Aqui. Eu… espero que goste.

Lucca pegou o esboço. Observou. Silêncio. Ele não elogiou. Não demonstrou surpresa. Mas seus olhos, por um breve instante, brilharam. Como se tivesse encontrado algo raro.

— Qual o seu nome?

— Hana. Hana Smith.

O nome o fez piscar. Ele conhecia esse sobrenome. Mas o que mais o intrigava era o contraste entre o talento dela… e o avental com manchas de café.

Nesse momento, o dono da cafeteria, um senhor baixo e carrancudo chamado Bruno, apareceu atrás do balcão, observando a cena com desconfiança.

— Hana! — chamou em tom ríspido. — O que você pensa que está fazendo?

— Eu só estava ajudando o cliente, senhor… ele me pediu para—

— Está dando em cima dele, é isso? — disparou, irritado. — Achei que você era séria, mas se veio aqui pra flertar com homem de terno, não preciso de você aqui!

As palavras cortaram como faca.

Hana ficou imóvel, os olhos marejando. Mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, Lucca se levantou.

— Com todo respeito… — disse com voz grave, o olhar firme no homem. — Ela é a única coisa de valor nesse lugar.

Bruno empalideceu.

— E-eu só… pensei que…

— Pensou errado. E a demissão dela? Cancelada. — Lucca deu um passo à frente. — Porque ela não trabalha mais aqui.

Ele virou-se para Hana, a pasta em uma mão, o desenho dela na outra.

— Pegue suas coisas. Você vem comigo. Tenho um contrato para você.

Hana ficou parada, surpresa, tentando entender o que estava acontecendo.

— Mas… eu nem sei onde você trabalha…

Ele apenas sorriu de canto.

— Vai descobrir. Bem-vinda ao mundo real das joias, Srta. Smith.

E com isso, virou-se e saiu. Hana o seguiu com o coração acelerado, como se desse o primeiro passo para fora da sombra em que viveu a vida toda.

Ela não sabia o que viria pela frente. Mas pela primeira vez… sentiu que poderia brilhar.