Capítulo VII

Estávamos sentados em uma toalha. Eduardo observava a água cristalina do lago enquanto eu atacava a cesta de piquenique improvisada pela minha mãe. Eu não sei por que, mas tenho a impressão que ela está bancando a casamenteira. Ela ficou TÃO feliz quando avisamos que não iríamos almoçar em casa porque estávamos planejando ir até a cachoeira. Não sei o que ela pensou. Na verdade sei sim. Ela pensou que era um encontro.

Até parece, não é? Eduardo, 100% hetero, indo a um encontro comigo.

– Acho que agora você pode me contar... – Eduardo disse de repente, fazendo com que eu o encarasse com a boca cheia de uvas. Eu devia estar lindo daquele jeito. Suado, corado e de boca cheia.

– Contar o quê? – perguntei assim que consegui engolir.

– Sobre o tal Wagner.

– Você realmente tem que saber sobre isso? – suspirei.

– Se eu vou representar, preciso conhecer o meu “rival” – Eduardo balançou levemente os ombros.

– Ele não é um rival! – exclamei exasperado. – Eu o odeio!

– Você sabe que a linha entre o amor e ódio é tênue?

– Não venha com essa! Como eu ainda poderia amar aquele... aquele... aquela anta batizada! – exclamei revoltado.

– Então me conte o que ele fez para que eu possa te defender, caso ele tente de novoalgo contra você– Eduardo disse sério e eu meio que amoleci.

– Você está falando sério? – murmurei. – Você me defenderia?

– Eu vou ser seu namorado, não vou? – ele colocou a mão sobre a minha meio que me incentivando a falar.

Respirei fundo para tomar coragem.

– Você provavelmente vai achar que foi uma bobagem... – tentei começar. – Ele se aproximou de mim dizendo que sempre gostou do jeito que eu me vestia e que eu chamava a atenção dele. Isso foi nos últimos seis meses da escola. Nós começamos a ficar e, mesmo sendo alguém popular, ele enfrentou todo mundo para ficar comigo. Quando riam da gente, ele partia para cima do idiota. Uma vez ele quebrou o dente da frente de um desses imbecis. Eu me apaixonei. Ele era carinhoso, gentil... Começamos a namorar, apresentei ele aos meus pais... e então ele me convidou para ir ao baile de formatura. Aconteceu tudo muito rápido. Eu não queria ir ao baile, mas ele me convenceu. E lá...

Senti a voz falhar. Eduardo apertou a minha mão com mais força, mas eu me desvencilhei e levantei, ficando de pé perto da beira do lago.

– Ele estava apenas armando para mim. Todas as brigas das quais ele me defendeu foram apenas armações para ganhar a minha confiança, para que eu não desconfiasse que no baile a turminha dele iria me humilhar.

– Mas ele e você... Se beijavam e ele te tocava – Eduardo me interrompeu. – Alguma coisa ele devia sentir por você.

– Talvez – murmurei. – Atração, provavelmente. Ele gostou de me usar e eu não vou dizer que não gostei do tempo que passamos juntos. Seria hipocrisia dizer que não gostei, mesmo sabendo hoje que foi apenas fingimento. – passei os braços em torno da minha cintura em uma tentativa de me consolar. Eu odiava me sentir fraco e não queria que Eduardo me visse assim. – O fato foi que ele não fez nada para impedir que me humilhassem.

– O que eles fizeram?

Virei e sorri tristemente.

– Me coroaram a “rainha” do baile. Na faixa estava escrito “aquela que nunca realizará os seus sonhos” e a minha coroa... Foi um balde de tinta rosa na cabeça. Todos estavam rindo da minha cara e me enchendo de ofensas, até pessoas que eu considerava minhas amigas, na hora de me defenderem, viraram a cara para não irem contra o grupinho do Wagner...

Voltei a encarar o lago. Não tinha coragem de fitá-lo nos olhos.

– Eu sei que parece bobagem, mas...

Parei de falar ao sentir a mão dele sobre o meu ombro. Sério. Eduardo parece um gato andando. Não faz barulho e sempre me assusta! Quando percebo, ele já está do meu lado.

Virei lentamente e ergui a cabeça. Eduardo me observava com uma expressão bem difícil de ler. Ele não era um homem fácil de interpretar e talvez por isso às vezes me intimidasse tanto.

– Claro que não é bobagem... Foi muita crueldade – ele disse lentamente. Engoli em seco sentindo como se mariposas estivessem fazendo a festa no meu estômago. E não ria de mim! A situação é séria. Eu sei que isso é coisa daquelas mocinhas de romance açucarado, mas é o que eu estou sentido. E não estou gostando nada, nada disso.

Antes que ele tivesse a chance de falar mais alguma coisa, me afastei rapidamente. Ele me olhou parecendo confuso.

– Eu sei a razão pela qual você não fica com uma garota mais do que uma semana!

Céus! Tanta coisa para dizer eu abro a boca para soltar essa estupidez?

Percebi que Eduardo ficou tenso. Ele sempre contrai o maxilar quando está nervoso.

– Você gosta da Jô – despejei.

– Quê?! – Eduardo exclamou parecendo incrédulo. É, ele devia pensar que disfarçava bem.

A expressão dele foi passando de perplexa para furiosa. Assustado, dei um passo para trás. Só me esqueci de um pequeno detalhe: estava do lado de um lago e atrás de mim só tinha água. Antes que eu pudesse me equilibrar, escorreguei e caí em cheio na água, com um grito abafado de susto.

E o pior era que a porcaria da água estava um gelo! Emergi colocando os bofes para fora, já que a queda repentina me fez engolir metade do lago. Tossindo muito, vi que Eduardo estava tirando os sapatos.

– O... O que vai fazer? – perguntei enquanto tentava parar de tossir.

Eu disse que a água estava gelada, né? Pois ficou subitamente quente! Eduardo resolveu tirar a blusa e eu senti o corpo todo pegar fogo ao ver aquele tórax bem trabalhado aparecendo.

– Eduardo?

Ele não me respondeu, simplesmente pulou na água. Assim que eu percebi que a intenção dele era me alcançar, comecei a nadar para mais fundo. Ele no mínimo estava querendo me afogar por ter descoberto o segredo dele!

O problema é que eu nunca fui um bom nadador e o Eduardo acabou me agarrando pelo pé. Engoli mais água quando ele me puxou. Estava fundo para caramba e eu mal conseguia tocar o chão.

– Seu idiota! Me larga! – exclamei revoltado antes de voltar a tossir como um louco.

Eduardo me segurou de uma forma que tornava impossível que eu me soltasse. Ele segurou o meu queixo e fixou aqueles olhos verdes nos meus. Engoli em seco, já recuperado da tosse. Tentei encontrar o que dizer, mas o Eduardo inesperadamente colou a boca dele na minha, impedindo-me de falar qualquer coisa.

Arregalei os olhos, imaginando que estava sonhando (um sonho muito pervertido, eu admito) e comecei a me debater, mas o Eduardo é infinitamente mais forte do que eu, e as minhas tentativas de fuga não deram muito certo. Ele passou a língua sobre os meus lábios, pedindo passagem... Resisti bravamente para não ceder, mas o desgraçado começou a deslizar uma das mãos pelo meu corpo, fazendo-me arfar de prazer e, aproveitando-se da minha fraqueza, ele introduziu a língua na minha boca.

Gemi atordoado, já sabendo que não conseguiria mais resistir, e passei um dos braços em torno do pescoço dele, trazendo-o para ainda mais perto, correspondendo ao beijo com o mesmo ardor com o qual era beijado.

Não vou mentir mais. Eu sempre me senti atraído por ele. Eduardo tem algo que me intriga, excita e me puxa mais e mais para ele.

Ele deslizou a mão até a liga que prendia o meu cabelo e os libertou. Depois afundou a mão no meu cabelo cor de fogo e os puxou de uma forma meio dolorida. Parecia que ele estava querendo me punir.

Mas eu não reclamei. Estava era ficando excitado com aquela pegada.

E eu precisava de mais. Por isso passei, de um jeito meio desajeitado já que a água limitava os meus movimentos, as pernas em volta da cintura dele e o agarrei com tanta força que o Eduardo se desequilibrou e eu quase matei nós dois afogados. Mas se você acha que eu me importei com isso se enganou redondamente. Eu nem percebi que estávamos afundando.

Eduardo conseguiu se firmar melhor no chão e segurou a minha nuca aprofundando ainda mais o contato entre nossas bocas.

Beijá-lo era absurdamente excitante. Muito mais do que eu poderia imaginar.

O sangue parecia circular mais rápidos em minhas veias. Eu gemia enquanto ele deslizava as mãos pelo meu corpo. Eu não me surpreenderia se a água entrasse em ebulição. Sério. Não ria. Eu estou tão quente que se o Eduardo não estivesse me agarrando, eu estaria escalando as pedras da cachoeira.

Nossos lábios se desencontraram por um momento, mas não abri os olhos. Eu não queria “acordar” ainda. Senti os lábios de Eduardo deslizando pelo meu maxilar, descendo para o meu pescoço onde ele começou a morder e chupar.

– Edu... Eduardo – gemi excitado. Se ele deixasse uma marca ali eu estava ferrado. Imagina a cara da minha mãe! Péssima hora para lembrar da minha mãe.

Meu membro rijo tocava na barriga do Eduardo, mas ele não parecia se importar com isso. Muito pelo contrário. Ele levou uma das mãos até lá e começou a me massagear lentamente. Soltei um gemido abafado antes de enterrar os dentes no ombro dele enquanto tentava ondular meu corpo para aumentar o atrito, mas a porcaria da água não permitia muito.

Eu sentia as minhas bochechas queimarem e, do jeito que eu sou branco, deveria estar com o rosto bem afogueado. Senti quando o Eduardo parou de chupar o meu pescoço. Abri os olhos, confuso, e vi que os olhos verdes dele brilhavam absurdamente ao me encarar.

Soltei um gemido de insatisfação quando ele tirou a mão do meu falo e deslizou até o meu rosto. Mas eu não queria sutilezas, então terminei com a distância entre as nossas bocas.

Fato um: aquilo era bom demais.

Fato dois: eu estou louco.

Fato três: meu chefe é muito gostoso.

Fato quatro: eu estou realmente louco.

Foi a minha vez de fazer um pequeno tour pelo corpo dele. E que corpo! Deveria ser pecado ser tão bonito. Meio que com medo de ser afastado, fui lento na minha exploração e, ao ouvir um grunhido meio exasperado, achei que estava no caminho certo. Comecei a apertar um dos mamilos dele e sorri internamente ao senti-lo estremecer. Talvez eu devesse começar a reconsiderar a minha certeza sobre o Eduardo ser 100% hetero. Talvez 99,9%...

Ah, por Deus, Fred Valentin! O homem está te devorando e você ainda fica em dúvida?

Isso é minha consciência gritando. Ou falta de consciência, porque só sendo louco para ter esperanças.

E, espera lá, quem disse que eu quero ter esperanças?

Eu estava para desfazer o laço das pernas e interromper o beijo para continuar com a minha exploração e descobrir se Eduardo estava tão excitado quanto eu. Isso seria uma prova irrefutável de que o 100% hétero era, no mínimo, 50% homo, quando...

– PAAAAAAAAI! TEM DUAS PESSOAS AGARRADAS NO MEIO DO LAGO!

Esse grito nada delicado me fez desgrudar do Eduardo imediatamente e afundar no lago.

Ai, merda! Aquele lugar era público e famílias vinham até ali para fazer piqueniques e eu ali, me pegando com o Eduardo para todo mundo ver!

Idiota, estúpido, imbecil!

Tudo bem que eu não tenho toda a culpa já que fui agarrado, mas mesmo assim! Que vergonha! Será que se eu ficar mais de cinco minutos na água, encontro uma bruxa má que nem a da pequena sereia para me transformar em um tritão? Porque eu não tenho a menor intenção de voltar para a superfície.

Eu acho que ando assistindo Once Upon a Time demais...

Eduardo afundou também, mas foi para me puxar para a superfície. Emergi tossindo.

– Está querendo se matar? – ele exclamou irritado.

Não respondi. Olhei outra vez para a margem e vi que o pai estava arrastando o menino para longe de nós. Pelo menos não parecia ser alguém que eu conheço. Nadei até a parte rasa e saí rapidamente. O Eduardo continuou parado lá no meio do lago, com aquela expressão que eu não conseguia interpretar. Não consegui sustentar o olhar, então me virei e comecei a catar as coisas do piquenique.

Nesse meio tempo, o Eduardo saiu da água e ficou aquele climão entre a gente. Nenhum dos dois conseguia olhar para o outro por mais de três segundos e muito menos dizer alguma coisa.

Quando chegamos em casa, desci do carro quase correndo e subi as escadas de dois em dois degraus, me trancando no quarto em seguida. E eu nem me lembrei que aquele quarto era temporariamente dele também, então não demorou para que ele começasse a bater na porta querendo entrar para tirar a roupa molhada.

Eu acabei tendo de abrir e lá ficamos nós com aquele olhar constrangedor outra vez. Engraçado que quando eu me atraquei com o Alexandre, não ficou esse clima estranho. Quero só ver como eu vou continuar trabalhando com o Eduardo desse jeito.

Eu ia dizer para ele que nós deveríamos ignorar o que havia acontecido, mas ao me virar dei de cara com o Eduardo enrolado só numa toalha. Entreabri os lábios e senti a boca ficar seca.

– O que... O que... O QUE VOCÊ ‘TÁ FAZENDO? – é, eu sei que não deveria gritar. Corria o risco de a minha mãe correr até o quarto para ver o que estava acontecendo e pegar eu e o Eduardo naquela situação um tanto íntima demais. E ela já estava fantasiando sem cenas daquele tipo. Imagina se ela vê isso. Soltaria foguetes pensando que eu realmente desencalhei.

– Tirando a roupa molhada... – Eduardo disse indiferente. Trinquei os dentes com vontade de soltar uns desaforos. – Chefes terríveis também ficam doentes, sabia?

Peguei minha carteira que estava em cima da cama e me virei para deixar o quarto.

– Você também deveria tirar essa roupa molhada... – Eduardo começou a dizer, mas eu bati a porta com força.

Naquela noite eu iria era dormir no sofá. Bem longe do Eduardo! Sério. Aquele homem é um atentado ambulante e se eu ficasse mais dez segundos perto dele, pularia em cima e o obrigaria a terminar o que começamos no lago.

O pior é que ao mesmo tempo em que eu quero agarrá-lo, quero gritar e xingá-lo! Eu não estou me entendendo. Obviamente não estou apaixonado por ele. Ainda o odeio!

– Você sabe que a linha entre o amor e o ódio é tênue?

A voz do Eduardo invadiu meus pensamentos. Aquele desgraçado além de me deixar duro e não resolver o problema, agora também me irritava em pensamentos!

Sinceramente, eu não sei o que sinto por ele. E nem quero tentar entender. Só sei que, a partir de segunda, quando voltarmos para São Paulo, vou fingir que ele é tão feio quanto o Gullum do Senhor dos Anéis. Esse final de semana eu vou admirar... Não tira pedaço, né? E aquele peitoral... Merda. Tô ficando duro de novo. Não pense no peitoral, Fred, não pense!

E de todo jeito o Eduardo gosta da Jô! Eu não sei o que raios se passou pela cabeça dele para que ele me agarrasse daquela maneira, mas ele gosta dela! Eu tenho certeza disso e eu jamais “roubaria” o “namorado” de uma amiga.

– Onde você está indo todo molhado desse jeito, Fred? – minha mãe apareceu quando eu estava quase saindo.

– Comprar uma roupa para a festa – respondi em um tom meio ausente. Fazer compras com certeza era o melhor remédio do mundo. Seria melhor ainda se eu tivesse afanado no cartão de crédito do Eduardo para torrar o dinheiro dele, mas saí tão perturbado do quarto que nem pensei nisso. Tá, eu sou um profissional, não faria isso, mas que seria ótimo fazer um rombo no cartão dele, isso seria.

Minha mãe ainda tentou me dizer para trocar de roupa, mas eu fui ensopado mesmo. As garotas da loja me olharam como se eu fosse louco, mas logo mudaram de ideia quando eu comecei a pegar vestidos e mais vestidos para experimentar. E eu acabei me divertindo fazendo desfiles para as atendentes que ficavam dando pitacos de qual vestido eu deveria usar. Pena que só tinha aquela loja de vestidos naquele fim de mundo da minha cidade.

Acabei escolhendo um vestido de cetim curto, preto e com detalhes de rendas na ponta. Era de alcinhas e atrás fechava em um laço. Eu tinha uma sandália preta de salto super alto que combinaria perfeitamente. Parecia que eu estava adivinhando que iria usá-la!

E eu não estou nem aí se vou chocar ao aparecer na festa com um ‘look menina’. É o que eu sou, então eles que me suportem enquanto eu quiser ficar por lá. Seria ridículo se eu me importasse com que um bando de idiotas que só me humilharam no passado vão pensar sobre mim. Não vou agir diferente e perder minha identidade pelos outros. Além disso, o Eduardo disse que prefere que eu use ‘look menino’, então provavelmente não vai tentar me agarrar. Pelo menos eu espero que não tente.

A quem estou querendo enganar? Eu não quero é ficar na expectativa que aquele beijo se repita e depois quebrar a cara. Seria uma queda feia e eu não estou a fim de me machucar. Por isso é melhor me enganar, fingir que eu não quero nada dele.

Quando saí da loja, fui até o salão. Outra coisa que eu adoro fazer quando estou estressado. Me larguei por lá pelo resto da tarde e fiz um tratamento completo. Cabelo, unhas, massagem, maquiagem... E azar das madames que estavam fazendo cara feia para cima de mim. Estou pagando tanto quanto elas para estar ali! Eu meio que estourei o meu cartão, mas estava merecendo um ‘dia de princesa’.

– Fred! – minha mãe exclamou assim que me viu entrar. Meu pai e meus irmãos também estavam na sala assistindo a um jogo de futebol (pobre da minha mãe que tem que aguentar isso. Todos os homens da casa são torcedores do Grêmio e ela tem que aguentar os gritos de ‘gol!’, ‘burro!’, ‘juiz ladrão’ e variantes). – Que roupa é essa, menino?

– Minha roupa para a festa, ora! – dei uma rodadinha e sorri. Meu pai estava com aquela cara de ‘vou ter um colapso!’. E olha que o vestido era comportado! Meus irmãos deram risinhos, mas logo voltaram a atenção para o jogo. Sinceramente, eles já deveriam ter se acostumado com o meu jeito.

– Você não pode ir assim, Frederico! – minha mãe esbravejou. – Você não vê os seus amigos há anos e vai chocá-los!

– Essa é a intenção – dei um sorriso meio malvado.

Eduardo apareceu no alto da escada naquele momento e fez meu ar sumir todinho. Sério. Devia ser pecado ser tão lindo. Ele estava em uma roupa casual, mas nem por isso deixava de ser sexy. Uma calça jeans meio surrada, uma blusa azul e um blazer meio acinzentado.

– Fred... Você ‘tá ficando roxo, meu filho! Respire!!! – minha mãe gritou enquanto me sacudia. Ela é tão delicada e discreta quanto um elefante.

– Eu... Vou... Vou pegar as minhas sandálias – murmurei e tive vontade de pular pela janela por gaguejar tanto.

Minha mãe subiu atrás de mim e tentou me persuadir a mudar de roupa, mas não teve jeito.

– Você vai assustar o Eduardo assim! – ela tentava argumentar.

– Mãe... Eu trabalho com ele há tempos. Acha que ele nunca me viu com ‘look menina’? – balancei levemente a cabeça. – E pare de ficar fantasiando. Ele só vai fingir ser meu namorado hoje. Não vamos nos tornar namorados de verdade. Além disso, se acontecesse dele vir a gostar de mim, teria de me aceitar e gostar de mim assim. É o que eu sou. Não mudaria meu jeito de ser por causa de namorado nenhum.

– Tem razão, filho. Por mais que você saiba que é difícil entender isso, eu tenho orgulho da tua autenticidade. – Ela disse com uma fungada orgulhosa.

Eu sorri e a beijei na testa. Era bom ter ao menos uma pessoa no mundo inteiro que me apoiasse acima de tudo.

– Manchei de batom – sorri enquanto tentava limpar o vermelhão que ficou na testa dela.

Ela me acompanhou até a porta e me desejou uma boa festa.

Entrei no carro e imaginei que eu e o Eduardo fôssemos mudos e quietos até a festa, mas ele resolveu quebrar o gelo.

– Você está bonito. Não é toa que os jornalistas o elegeram como ‘a modelo mais bonita do desfile’.

Corei e olhei para a paisagem da janela.

– Pensei que você preferisse o ‘look menino’.

– Prefiro, mas isso não significa que eu não admire o ‘look menina’ também – ele disse naquele tom reservado que não transparecia grandes emoções.

O Eduardo ainda vai me deixar louco. Escreva o que eu estou dizendo.

– Tem que ter muita coragem para se vestir assim. Eu admiro a sua coragem.

Olhei para ele com aquela expressão de ‘quem é você o que você fez com o meu chefe?’. Nunca, ninguém, além da minha mãe (e convenhamos que isso não conta muito) havia me dito algo assim. Um calor indecifrável percorreu todo meu corpo.

– Eu sei que não te elogio muito, Frederico – ele disse ao sentir o meu olhar. – Às vezes eu desconto as minhas frustrações em você e, em outros momentos, eu apenas vejo que você parece trabalhar melhor quando está furioso.

– Isso não justifica... – resmunguei.

– Sei que não.

Eu esperei um pedido de desculpas ou algo do tipo, mas o Eduardo ficou mudo o resto do caminho. Suspirei irritado e passei a dar as coordenadas do local onde seria a festa.

Quando chegamos, eu comecei a tremer. Minha determinação de chocar começou a se esvair. Talvez tivesse sido melhor passar despercebido. Ou pelo menos tentar, já que com aquele cabelo eu raramente conseguia tal feito.

Seria a primeira vez que eu reveria todos eles depois da formatura...

O Eduardo percebeu a minha hesitação e segurou a minha mão.

– A partir de agora... – ele se inclinou e sussurrou perto da minha orelha, fazendo com que eu sentisse um arrepio por toda a espinha. – Você é meu.