E se for amor?
5 Capítulo 5
Capítulo V
Na manhã seguinte, eu acordei com uma puta dor de cabeça. A claridade do quarto me incomodou e eu girei para o lado enquanto enfiava a cabeça embaixo dos travesseiros. Gemi. Estava um pouco excitado.
Ao virar, decidido a ir fechar a bendita janela, percebi que não estava no meu quarto. Franzi a testa, tentando lembrar como havia parado ali, mas minha mente estava em branco. A última coisa que eu conseguia lembrar, era de estar dançando como se o mundo fosse acabar.
– Bom dia, Frederico – dei um pulo da cama e percebi que estava só de cueca.
Mais do que rápido puxei o lençol. Não que o Eduardo tivesse algo de diferente de mim, afinal, nós somos homens... Mas... Primeiro e mais importante: O QUE RAIOS EU ESTOU FAZENDO NU EM UMA CAMA DA CASA DO EDUARDO?
– Dormiu bem? – ele perguntou.
– Eu... – gaguejei e olhei para a cama. Eu estava quase nu e o Eduardo só com um calção que deixava aquelas pernas longas à mostra. A cama estava uma zona e eu não me lembrava de NADA do que havia acontecido. – O que aconteceu? – perguntei ressabiado.
Por um instante fugaz, os lábios de Eduardo se comprimiram, mas quase no mesmo instante a expressão de indiferença voltou.
– Você bebeu demais. Tive que te rebocar da festa. Espero que isso não se repita. É uma péssima imagem para a empresa.
– E por que eu... Estou só de cueca? – eu não queria nem pensar no que eu havia feito bêbado. Eu era um bêbado terrível. Do tipo que fala demais.
– Você vomitou – Eduardo disse indiferente. – Emporcalhou o quarto de hóspedes e toda a sua roupa. Tive que trazê-lo para dormir aqui.
– Desculpe... – eu só imaginei a situação, mas não podia negar que estava aliviado por não ter acontecido nada. Se tivesse acontecido, o clima entre nós dois ficaria muito estranho. Mas do que eu estou falando? Eduardo é hétero! É óbvio que não aconteceu nada!
– Dá vontade de cancelar seus três dias de folga – ele disse em um tom seco. Mordi o lábio inferior e não falei nada. O que eu podia dizer? Eduardo tinha razão em estar irritado. Eu estava em meu horário de trabalho e não podia ter ficado bêbado. – Mas eu não sou um chefe tão ruim como você fez questão de gritar ontem.
– Eu estava bêbado... eu... – tentei me justificar, mas o Eduardo levantou fazendo um sinal de impaciência e deixou o quarto sem dizer mais nada.
Não entendi muito bem essa reação. Parecia que ele queria fugir de mim. Suspirei e fui até o banheiro. O estranho era que eu não estava com cheiro de vômito. Mas não pensei muito nisso. Eu tinha três dias de folga e ia aproveitar para relaxar! Esquecer Eduardo, desfile, porre...
Tomei um banho e afanei uma roupa do Eduardo do armário. Depois eu devolveria. As roupas dele ficaram enormes em mim, mas o que eu precisava era fugir o mais rápido possível da casa dele.
Eu só esqueci uma coisinha...
Uma coisinha que pesa 80 quilos e me adora.
Marilyn latiu toda feliz e veio correndo em minha direção assim que eu coloquei o pé pra fora de casa. Tentei escapar, mas ela pulou em cima de mim, fazendo com que eu caísse de bunda no chão, e começou a me lamber. Resultado: um Fred cheio de baba.
– Oi, Marilyn. Eu sei que você me ama. Agora me deixa ir... – Pedi, nervoso. Meu plano de sair daquela casa rapidinho indo para o espaço.
– Tentando fugir, Frederico? – Eduardo perguntou aparecendo de repente. O desgraçado não moveu uma palha para tirar a Marilyn de cima de mim.
– Eduardo... – choraminguei. – Ela tá pesada.
– É claro que está. Tem cinco filhotes aí – ele resmungou.
– Avô ciumento. – Resmunguei e, por sorte, ele não escutou. Devia estar mais ocupado se divertindo com a cena de um ruivo sendo brutalmente esmagado por um cachorro gigante.
Eduardo assobiou, mas a Marilyn continuou toda feliz me lambendo. Nem preciso dizer que eu precisaria de outro banho, não é?
– Marilyn! – Eduardo a chamou três vezes até que ela resolvesse atender.
Sentei e respirei aliviado por ter aquele monte de pelo e gostosura longe de mim. Marilyn é linda e fofa, mas ninguém merece ter uma cadela louca de amores! Se ao menos fosse o dono dela, com essas pernas maravilhosas que ele insiste em mostrar só pra me deixar subindo pelas paredes...
Foco, Fred Valentin, foco! Esqueça esse par de coxas que são uma tentação!
Mas o amiguinho que ele deve ter no meio das pernas...
FOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOCO!
Quando abri os olhos, vi uma cena incomum: o Eduardo estava sorrindo enquanto acarinhava a Marilyn. Não um sorriso sarcástico, irônico ou de canto de boca. Um sorriso daqueles... De tirar o ar de qualquer pessoa que respire.
– Então...? – Eduardo perguntou, voltando a ficar sério ao perceber que eu estava de boquiaberto, quase babando feito a Marilyn para a perfeição daquele homem.
– Então o quê? – perguntei, meio zonzo, percebendo que havia parado de respirar por alguns segundos.
– Ia fugir sem se despedir? – Ele perguntou irônico.
– Já te dei dor de cabeça demais. Além disso, quero aproveitar os meus três dias de folga. Tu é bipolar. Vai que resolve me jogar um monte de trabalho? É melhor não arriscar...
– Eu não sou bipolar! – Eduardo exclamou enquanto estreitava os olhos.
Deu vontade de dizer: “Sim, tu é bipolar! Deve ser mal de geminiano!”. É, eu meio que gosto de saber o signo das pessoas. Você pode achar bobagem, mas eu acredito um pouco nessas coisas. Se bem que... Eu sou virginiano e não combino em nada com as características do meu signo. Sou bem o oposto. Não sou tímido, nem organizado e muito menos penso antes de agir. Eu devo ter um ascendente em leão, ou algo do gênero. Ou eu sou mesmo uma aberração, como as pestes dos meus irmãos caçula gostam de afirmar.
Marilyn voltou para perto de mim e enfiou aquele focinho gelado no meu pescoço. Pelo menos ela não me lambeu, ainda que, no meu estado, isso não fosse fazer muita diferença.
– Uou! Barriguinha tá grande, moça! – exclamei. – Se você não se cuidar vai ficar obesa!
– O veterinário disse que está tudo bem com ela e com os filhotes – Eduardo disse em um tom ausente. – Você vai querer um dos filhotes?
– Quê?! Uma Marilyn na minha casa pulando em cima de mim o tempo todo? – bati três vezes no chão que era de madeira.
– É, não daria certo...
Nos olhamos por alguns segundos até eu levantar. Eu estava sentindo um comichão embaixo da barriga. Eram aquelas pernas me tentando! O melhor era correr de lá, me trancar em casa e só sair quando estivesse com os pensamentos no lugar.
Murmurei um ‘estou indo’ e saí apressado, sem olhar para trás.
[...]
O pior foi que meus três dias de folga foram péssimos. Meu cubículo (não dá para chamar aquilo de apartamento) estava uma zona, então eu passei minha folga colocando as coisas em ordem. Foi com um lenço amarrado na cabeça, descalço e sem camisa que o Alexandre me encontrou.
Ele teve a ousadia de bater lá em casa!
Quando eu abri a porta, ele me olhou com nítido interesse, mas só recebeu uma cara fechada como resposta.
– O que está fazendo aqui? – perguntei em um tom seco. Eu evitei olhar todos os sites e revistas de moda. Não queria saber o que acharam daquela idiotice que o Alexandre praticamente me obrigou a fazer. Era uma sorte que o Eduardo não tivesse me demitido.
– Queria conversar com você... – ele entrou sem convite. Estreitei os olhos no melhor estilo “Eduardo”.
– Não temos nada para conversar – retruquei ainda ríspido.
– Fred... Me desculpa. Eu não queria te prejudicar. O Eduardo não te demitiu e as revistas comentaram de maneira muito positiva a sua participação no desfile. Não entendo por que você está tão zangado.
– Não entende?! – exclamei exasperado. – Você queria me empurrar lá na passarela vestido de homem! Com uma roupa que o Eduardo nem tinha aprovado! Você só pensou no teu desfile! O Fred aqui que se ferrasse!
– Talvez eu quisesse sim que você fosse demitido! – Alexandre retorquiu, segurando meus pulsos e me puxando para perto dele.
– E você ainda tem a cara de pau de admitir isso assim, seu idiota? – gritei furioso enquanto tentava me soltar.
– Eu quero você trabalhando comigo, Fred! – Alexandre disse sério, ainda que um pouco nervoso. – Largue a Seventh Heaven! Eu te ofereço um emprego comigo, ganhando o dobro do que você ganha para ser meu assessor.
Travei completamente. Ele queria que eu o assessorasse? Isso queria dizer que eu ajudaria a compor alguns modelos. Seria um salto e tanto para a minha carreira.
Mas...
Eu não podia aceitar. Não sei dizer exatamente o porquê, mas na hora, a ideia me pareceu absurda. Era como desistir de algo que eu vinha lutando há meses simplesmente porque uma oportunidade mais fácil e cômoda havia batido em minha porta. Literalmente.
– O Eduardo precisa de mim – murmurei enquanto me afastava dele. – Não posso simplesmente virar pra ele e dizer ‘Olha, eu estou saindo’.
– Pode sim! – Alexandre insistiu. É, eu podia. O Eduardo conseguiria encontrar outro assistente num piscar de olhos! A vaga era bastante concorrida, muitos adorariam a chance de trabalhar de perto com o grande Eduardo Barelli. E pensar nisso apenas me deixou com menos paciência para as insistências do Alexandre.
– Não é assim que as coisas funcionam, Alexandre! – me irritei. – E agora vai saindo. Eu estou atolado de coisas para fazer. Vou viajar para Porto Alegre com o Eduardo amanhã.
– Fred, pelo menos pensa um pouco... – ele tentou falar, mas eu praticamente o enxotei.
E eu não pensei no assunto. Não queria pensar. A proposta do Alexandre era muito boa, maravilhosa, na verdade, mas havia esse algo que me impedia de deixar o Eduardo de uma forma tão abrupta. Claro que eu poderia virar para ele e dizer “Você tem 30 dias para encontrar outro faz tudo!”, mas eu também duvidava que ele fosse aceitar assim tão fácil perder um empregado tão bom e eficiente como eu.
No dia seguinte, eu tive que cair da cama às três da manhã. O avião saía às quatro e meia. Quem em sã consciência marca um voo para esse horário? Ah... É, fui eu. Mas o Eduardo que mandou! Ele disse que teríamos de estar na loja do desfile às 7 horas para conversar com o dono e os outros jurados antes do evento e tal.
Cheguei ao aeroporto parecendo um zumbi. E o Eduardo lá, lindo, com aquela pose de dono do mundo.
– Está atrasado – ele já foi dizendo, irritado. Resmunguei um “não enche” efeito da falta de sono e fui despachar as minhas malas. – Para que três malas? Nós só vamos passar dois dias lá!
– Não viajo com menos de três pares de sapato – respondi indiferente. Eduardo girou os olhos e foi sentar em uma das cadeiras de espera.
A viagem foi tranquila. Confesso que não sou muito fã de avião, então dei um jeito de capotar de sono antes mesmo que o avião decolasse. E não é muito difícil para mim dormir. Eu encosto em qualquer canto e já estou no décimo quinto sono.
Acordei com o Eduardo me sacudindo. Só então percebi que, em algum momento, eu acabei me mexendo e transformando o ombro do Eduardo em almofada. Sentindo o rosto arder, me endireitei na cadeira.
–É incrível como você dorme! – ele exclamou. – E baba também. Estragou a minha camisa.
– Ora seu... – comecei a xingá-lo, mas o Eduardo simplesmente levantou e me deixou falando sozinho. Peguei minha valise no compartimento de bagagens de mão e fui atrás daquele imbecil.
Nós passamos a manhã toda no tal concurso. Nem deu tempo de ir ao hotel deixar as malas. Elas ficaram lá na sala do dono.
Os concorrentes à vaga de estilista eram bem fraquinhos. Eu desenhava infinitamente melhor do que eles. Devia era ter me inscrito nesse concurso! Com certeza ganharia.
Sim, eu mandei a modéstia para o espaço há tempos.
No primeiro dia do concurso foram apresentadas as criações para outono-inverno. No dia seguinte seria realizado o desfile com roupas de festa. Depois disso nós iríamos embora.
O desfile deixou o Eduardo de SUPER mal humor.
– Despencar de São Paulo até Porto Alegre para ver um bando de fedelhos sem criatividade alguma! – ele reclamou o caminho inteiro até o hotel.
Quando chegamos, uma mocinha toda simpática e cheia de segundas intenções sorriu para o Eduardo. Girei os olhos.
– Dois quartos reservados no nome de Eduardo Barelli – ele disse rapidamente. Pela cara dele, estava louco para se trancar no quarto e só sair de lá no ano que vem.
A mocinha olhou, olhou e olhou de novo e... nada.
– Como assim? – perguntei exasperado. – Eu fiz as reservas!
– Sinto muito, senhor, mas o nome não consta – ela disse rapidamente.
– Frederico Silva Weiss... – Eduardo disse por entre os dentes.
Eita porra! Agora FERROU! Ele falou o meu nome completo. Será que é tarde para eu correr para as montanhas?
– Como não tem reserva? Eu mandei fazer com um mês de antecedência! – Eduardo trovejou e eu me encolhi.
– Eu achei que tivesse feito... – murmurei sentindo o rosto arder. Todos estavam prestando atenção na bronca. – Você me fez trabalhar que nem um louco! A culpa é tua! – retruquei em um tom impetuoso, mas sabendo que havia soado como uma criança birrenta. Eduardo estreitou os olhos e minha vida passou como um flash na minha cabeça.
Adeus, mundo cruel!
Mas, para a minha surpresa, o Eduardo apenas suspirou e virou outra vez para o balcão.
– Há algum quarto vago?
– Infelizmente não. Por causa do fórum social mundial, estamos completamente lotados.
– E outros hotéis?
– Dificilmente o senhor encontrará vagas.
Eduardo voltou a olhar para mim com aquela cara de ‘eu vou te matar, verme!’ e eu quase saí correndo para as montanhas de novo.
– E agora, Frederico? Como você vai resolver isso?
Ele disse isso naquele tom irritante. Bem, só havia uma solução que não me agradava em nada... Mas era a única solução. Nós teríamos que subir as ‘montanhas’ e ir passar a noite na minha cidade natal. A cidade em que todos zombavam de mim e que jurei só voltar depois que fosse um estilista famoso.
Fale com o autor