E se for amor?
15 Capítulo 15
Capítulo XV
Nem parecia que já fazia sete meses que eu havia aceitado aquela proposta maluca de me tornar modelo e deixado o Brasil. Todos os dias antes de dormir, eu ligava para a minha mãe. Já era um ritual. Mesmo que eu não tivesse nada para falar, eu ligava. É muito ridículo admitir que mesmo após esse tempo eu ainda preciso do colo e do carinho dela por causa do término do meu relacionamento com o Eduardo?
Eu não vou dizer que sou infeliz. Mas também não posso dizer que sou feliz. É um meio termo. Eu queria ser estilista. Virei modelo. Eu não queria ter me apaixonado pelo Eduardo. E acabei caindo de quatro por ele. Eu nem consigo me divertir quando os modelos com mais cara de hétero do mundo passam a mão em mim para tirar uma casquinha.
Quando eu estou trabalhando, o tempo até passa rápido. Mas quando estou em casa... Só penso no Eduardo. Eu até arrumei uma cachorrinha para me fazer companhia e desviar os meus pensamentos do meu ex-chefe. Deu resultado em parte. Eu continuo me sentindo solitário. Tenho um monte de conhecidos nessa cidade, mas amigo, amigo mesmo só o Adrien.
Adrien era loiro, magrinho, olhos azuis. Parecia uma bonequinha. Ele fica louco quando eu o chamo assim: “bonequinha”. Mas, sério, ele solta o cabelo e vira a Barbie! Ele também ficou super famoso com a história de modelos andróginos e nós nos tornamos amigos já que as revistas adoram nos colocar para fazer ensaios juntos. As revistas fofoqueiras ficam espalhando notícias de que nós somos inimigos mortais, mas a gente faz é rir dessa idiotice.
O negócio é que nós viajamos um monte, aí raramente temos tempo para sentar e conversar. Agora mesmo estávamos no camarim nos preparando para mais uma sessão de fotos. Norma Jean, a minha shit-zu, estava sentadinha no meu colo na maior mordomia. Melhor a Marilyn nunca sonhar que eu arrumei “outra”. Eu seria esmagado mil vezes por essa ousadia.
Um sorriso triste surgiu nos meus lábios quando eu pensei na Marilyn. Não era como se eu fosse reencontrá-la. E nem diga que eu estou sendo melodramático. Eu não tenho intenção nenhuma de voltar para o Brasil e muito menos de procurar o Eduardo, então como iria ver a Marilyn?
– Pensando no ex? – Adrien perguntou de repente.
– Você sabe que eu tento não pensar... – respondi após um suspiro.
– E você sabe que se eu fosse você iria até o Brasil e pegava esse cara de jeito!
Mordi o lábio com força. Não era como se eu não pensasse nisso noite e dia, mas eu não tinha coragem. Não depois de todas as coisas que nós dissemos um ao outro quando brigamos e rompemos. Ou melhor, que o Eduardo disse, já que eu fiquei perplexo demais para soltar os cachorros em cima dele.
Se me amasse de verdade, seria o Eduardo a vir atrás de mim e pedir desculpas, não o contrário. Ele quem havia me enxotado da vida dele.
– Não é fácil... – sussurrei.
– Eu sei que não, mas qualquer coisa é melhor do que você ficar nessa fossa! – Adrien disse enquanto colocava a mão sobre o meu ombro. – Já que você não vai atrás dele, então acho que nós deveríamos ir à “caça” amanhã à noite, depois do desfile.
– Não sei... Não estou muito animado para...
– Não termine essa frase! Não vou aceitar desculpas! – Adrien exclamou em um tom definitivo. Girei os olhos. Ele nunca, nunca, nunca me escutava. Ô guri teimoso! Depois eu daria um jeito de fugir da festa e pronto.
– Está na hora, meninos! – Katherine, a auxiliar do Julian, o fotógrafo daquela seção, entrou no camarim toda animada e já foi segurando a Jean no colo. Tá pra nascer cadela mais preguiçosa que a Norma Jean. Ele não deu um piu por ser puxada tão bruscamente do meu colo.
Eu e Adrien íamos fotografar para a Vogue. Eu estava usando um casaco de couro preto, uma blusa preta bem cumprida e calça jeans azul. Estava com o cabelo preso em um rabo de cavalo e com uma maquiagem básica. Aquele era o look mais simples que eu já fui obrigado a vestir. O Adrien estava com um vestinho preto básico. A ideia do editorial era mostrar roupas simples para o dia a dia. Eu como um rapaz e o Adrien como garota.
Começamos a tirar as fotos juntos. Era engraçado ver como todo mundo ficava suspirando enquanto nós dois praticamente nos agarrávamos. E era estranho também. Eu não imaginava que as pessoas pudessem ficar tão excitadas com dois andróginos se pegando.
– Só o Adrien agora, Fred – o fotógrafo orientou. Eu assenti e me afastei.
Larguei-me na cadeira que haviam separado para mim e apoiei a cabeça em uma das mãos. Tirar aquelas fotos era mais difícil do que parecia.
– Senhor Fred – fiz uma careta enorme quando uma garota se aproximou de mim me chamando de ‘senhor’.
– Se quer falar comigo, me chame só de Fred – alertei logo.
– Desculpe – ela pediu rapidamente. – É que... Bem...
– Respire e pare de gaguejar – falei em um tom paciente.
– Eu sou uma grande fã sua... É uma honra conhecê-lo – ela disse toda emocionada. – Será que você poderia me dar um autógrafo.
– Ora, eu não faço nada demais. Não é difícil ficar a frente de uma maquina fotográfica tirando fotos, não é mesmo? – balancei levemente a mão em um gesto de impaciência e autografei a revista que ela estendia. Era uma das muitas capas em que eu apareci. – Como é seu nome?
– Aimé Abancourt – ela disse sorrindo. – Eu queria ter te conhecido antes, mas sempre estava viajando para cobrir algum desfile, mas finalmente consegui estar aqui para assistir a um ensaio seu.
– Ah! Eu também sou um grande fã do seu trabalho! – falei rapidamente. O sorriso dela se alargou ainda mais. Aimé era uma das repórteres da Vougue e sempre fazia resenhas incríveis sobre os desfiles e as novas tendências que os estilistas traziam.
– Eu gostaria de entrevistá-lo...
– A mim? – franzi a testa. – Não acho que eu tenha nada de interessante para dizer.
– Com certeza tem, Fred! As pessoas vivem me mandando e-mails querendo saber mais sobre você, mas você é tão recluso... Só é visto nos desfiles. Nem nos coquetéis que acontecem após os desfiles você vai.
– Bem, pergunte o quiser, mas minha vida é bem monótona – garanti, mas ela não pareceu ligar para a minha afirmação.
Eu achei que realmente não fosse ter nenhum problema com a entrevista. Já havia dado outras e as perguntas eram sempre bem repetitivas. Mas mudei de ideia e me arrependi de aceitar ser entrevistado já na primeira pergunta.
– Por que você se tornou modelo?
Ninguém nunca tinha me perguntado o motivo. Me perguntavam como eu tinha ido parar nesse mundo da moda, mas o motivo... Eu já estava suspeitando se a Aimé era minha fã mesmo ou se aproximou com a ideia de arrancar umas confissões de mim.
Eu poderia mentir ou me recusar a responder, mas eu nunca fui de me esconder.
– Porque eu me apaixonei pelo meu chefe... – falei em um tom tão baixo que nem sei se ela ouviu.
– Seu chefe? – Aimé repetiu sem entender.
– Ex-chefe, na verdade – expliquei. – Nós... Tivemos um romance e estava difícil ficar perto dele depois que terminamos. Já haviam me convidado diversas vezes para me tornar modelo e eu acabei aceitando após o rompimento.
– Então, você nunca havia pensado em ter esse tipo de profissão antes?
– Não. Eu queria ser estilista – um sorriso triste brincou nos meus lábios. – Mas nada deu certo e eu não podia continuar no Brasil, não como as coisas estavam...
Era doloroso demais estar no Brasil, tão perto, mas ao mesmo tempo tão longe do Eduardo. Obviamente eu não ia dizer isso. Eu já estava me expondo demais.
Eu agradeci mentalmente por Aimé não insistir em assuntos pessoais. Acho que ela percebeu que, apesar de eu tentar aparentar indiferença, tocar no assunto “ex” me deixava meio deprimido.
Tirei as fotos meio que no automático. Eu apenas seguia as instruções que o fotógrafo me passava e dei graças aos céus por ele não ter reclamado pela minha falta de expressão.
Três dias seguiram normalmente, como haviam sido durante todo aquele ano em que estive longe do Brasil. Eu sempre fugia quando o Adrien tentava me arrastar para alguma saída noturna. Um dia nós fomos para um desfile organizado para algumas dondocas francesas escolherem vestidos para um evento chique que aconteceria naquele final de semana. Mas o local estava lotado porque havia muitos modelos famosos desfilando. A imprensa e os fãs caíam em cima. Eu estava tão cansado de tudo aquilo que nem prestei muita atenção em quem estava na plateia.
Quando terminou, como sempre eu fugi para casa antes que o Adrien pudesse me arrastar para a tal festa que queria que eu fosse. Se as pessoas soubessem que o famoso Fred Valentim gostava de passar seus finais de noite enfiado em um pijama do Bob Esponja, se entupindo de sorvete de chocolate enquanto assistia a algum filme – bem meloso ou dramático – na TV a cabo, não iriam acreditar.
E era bem assim que eu estava agora. Só pra completar o quadro “fossa total” eu estava assistindo “Um amor para recordar”. A Jane que é feliz no mundo canino dela... Estava esparramada no tapete, no décimo quinto sono.
Algum tempo depois e três potinhos vazios de sorvete, eu estava meio adormecido. O filme já tinha terminado e eu estava com preguiça de me arrastar até o quarto.
Aí a campainha tocou. Franzi a testa enquanto esfregava os olhos. Só faltava ser o Adrien querendo me arrastar sei lá para onde!
Meio trôpego e aborrecido, fui atender a porta.
– Adrien, eu já disse que... – comecei a exclamar assim que abri a porta, mas minha voz morreu em algum lugar e eu fiquei completamente travado ao ver quem era.
Com certeza eu já estava dormindo!
– Oi, Frederico – estremeci da cabeça aos pés quando o Eduardo sussurrou o meu nome.
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