E se for amor?
2 Capítulo 2
Capítulo II
Ao abrir os olhos, engoli em seco dar de cara com um peitoral largo. Ergui a cabeça e meus pesadelos se tornaram realidade ao ver a expressão fechada, carrancuda e irada do Eduardo.
– O que diabos você está fazendo aqui? – ele perguntou no tom ‘eu vou te matar, seu imprestável’.
– Como me encontrou? – acabei ‘respondendo’ com outra pergunta e, se tem uma coisa que ele odeia, é que o respondam com outra pergunta.
– Frederico, não me faça repetir a pergunta – ele disse por entre os dentes.
– E por que eu devo satisfações a você? – exclamei alterado. É, eu acho que bebi demais e fiquei louco. – Não estou no meu horário de trabalho! Você não manda em mim 24 horas.
Senti os dedos dele intensificando o aperto no meu braço e gemi de dor.
– Eduardo! – Alexandre veio em meu socorro, mas eu acho que ele só acabaria piorando a situação.
– Você não tinha cinco croquis para terminar? – Eduardo perguntou sem tirar os olhos de mim. Se olhares matassem, eu estaria a cinco palmos abaixo da terra. Cara, por que ele está tão bravo? Eu não estou no meu horário de trabalho e ia me agarrar com o Alexandre em uma boate GLS! E todo mundo sabe que eu sou gay. Quando Eduardo me contratou, a primeira coisa que eu disse foi a minha orientação sexual, para evitar qualquer tipo de piadinha ou descriminação.
Eu estava nervoso. Olhei para o prédio enorme localizado na Avenida Paulista. Já estava em São Paulo há mais de um ano fazendo alguns bicos e agora finalmente tinha conseguido, depois de muita insistência, que Eduardo Barelli me recebesse para uma entrevista. Ainda não era a entrevista para o emprego que eu queria, mas ser assistente dele iria me ajudar a alcançar os meus objetivos.
Ajeitei o meu blazer. As pessoas estavam me olhando. Geralmente eu gostava disso, mas naquele dia em especial não. Acho que deveria ter escolhido uma roupa menos chamativa. Na verdade, era um dos meus desenhos. Um blazer preto de mangas cumpridas, mas a frente era toda aberta, um lado ligado ao outro por uma fita de seda, deixando meu peito parcialmente à mostra até a altura do umbigo. A calça era bem justa, marcando o meu corpo esguio.
Ao chegar ao último andar, que era todo ocupado pela empresa do Eduardo, fiquei andando para lá e para cá. Não tenho ideia de quanto tempo fiquei esperando até que finalmente pediram para que eu entrasse na sala.
Eduardo estava sentado atrás de uma mesa enorme, mas eu não o vi de imediato, já que ele estava virado para a janela observando o movimento da rua.
Pigarreei e ele virou em minha direção. Eu já tinha visto fotos dele em várias revistas de moda, mas o cara era ainda mais bonito ao vivo. Aqueles olhos verdes me percorreram de cima até embaixo, mas eu me mantive indiferente. Não era atrás da beleza dele que eu estava. Eu queria que ele me ajudasse a alcançar o meu sonho de ser estilista e mostrar para todos aqueles hipócritas da minha cidade natal que eu não era um louco! Eu sempre fui motivo de piadas por causa do meu jeito de vestir e do meu cabelo vermelho.
– Então, você veio pela vaga de secretária... – ele disse com certa ironia na voz, deixando claro que não me achara apto para o cargo apenas com um olhar. Isso me fez torcer o nariz. Atravessei a sala em passos decididos e ocupei uma das cadeiras vagas à frente dele sem esperar por uma ordem para sentar.
– Sim, eu vim pela vaga de assistente – afirmei. – E antes que pergunte, eu sou sim andrógino e homossexual, então, se quiser me dispensar por isso, faça logo, porque eu não vou ficar aguentando olhares irônicos ou qualquer outro desaforo!
Não, eu não tenho o juízo perfeito. Com certeza Eduardo me expulsaria aos chutes! Mas eu não ligava. Se tinha uma coisa que eu não conseguia tolerar, era que só me analisassem pela aparência.
A expressão de Eduardo primeiro foi de perplexidade. Depois um sorriso mínimo que desapareceu quase que imediatamente surgiu em seus lábios.
– Você não tem experiência... – ele comentou após pegar a pasta onde meu currículo estava.
– Não, mas aprendo rápido! – garanti.
– Eu não sou um chefe fácil – Eduardo avisou. – Gosto de tudo feito com perfeição, nos mínimos detalhes. Quando dou uma ordem, ela deve ser cumprida para ontem.
– Estou ciente disso.
Ele continuou fazendo perguntas, sem me avisar outra vez sobre o quanto era um chefe difícil. Algumas perguntas eram sobre moda, outras sobre meu relacionamento com as pessoas.
– Estou satisfeito – ele disse naquele tom de dispensa enquanto levantava. Entreabri os lábios ligeiramente. O cara era gigante! Rapidamente me recompus antes que ele percebesse a minha cara de pateta.
– O senhor não gostou por eu ser andrógino, não é?
– O problema é a sua falta de experiência. Não tenho paciência para estar ensinando ninguém.
– Eu posso aprender com a moça que está sendo sua secretária temporariamente. Eu vou me esforçar! – eu sei que soei meio desesperado, mas eu não podia perder aquela chance. Eu sabia que existiam outros produtores bons, porém os estilistas que trabalhavam com Eduardo sempre viam suas carreiras decolarem.
Ele me analisou atentamente por alguns instantes em que meu coração quis sair pela boca.
– Tudo bem. Você tem uma semana para me mostrar do que é capaz.
Abri um sorriso e só não pulei em cima dele para abraçá-lo porque sabia que, se fizesse isso, seria demitido antes mesmo de começar a trabalhar.
Ah se eu soubesse onde estava me metendo naquele momento. No começo eu até tolerava o modo ríspido como Eduardo falava comigo, mas depois de um tempo fui começando a perder a paciência. Eu só não o mandava para o inferno porque se fizesse isso todas as portas da moda se fechariam para mim. Só que eu não sou de ferro, então de vez em quando eu soltava umas verdades na cara dele – depois do expediente, claro.
No dia seguinte eu sempre voltava com o rabo entre as pernas, morrendo de medo de ser demitido, mas Eduardo agia da forma de sempre: me chamava de incompetente, era frio, me dava mil e uma tarefas e se trancava no escritório pelo resto do dia.
O engraçado é que o Eduardo não era tão terrível no começo. Ele era chato sim, mas parece que uns três meses depois de que ter começado a trabalhar na empresa, alguma coisa aconteceu e ele ficou trinta mil vezes pior!
– Você está machucando ele, Eduardo – acordei de meu devaneio ao ouvir Alexandre reclamar. Senti a mão dele segurando o meu outro braço.
Ah, ótimo, vou virar cabo de guerra. Imagina se tem algum paparazzo por aqui! Ia ser um prato cheio ter Eduardo Barelli disputando um andrógino com Alexandre Fontaine.
– Será que dá pra me largar? Os dois! – exclamei irritado. Alexandre obedeceu. Eduardo não. – Escuta aqui... Eu passei a tarde na casa do Alexandre ajudando com os croquis! Só faltam dois. Às seis horas meu expediente terminou e, como Alexandre estava muito tenso, eu o chamei para sair. Ele precisa relaxar para que a inspiração venha.
– Sei bem como você estava querendo relaxá-lo! – Eduardo disse com a voz carregada de ironia. Meu sangue ferveu e, por muito pouco, eu não acertei um soco bem no meio da cara dele.
– Edu... – Alexandre tentou mais uma vez acalmá-lo. Os dois eram amigos. Não me pergunte como alguém consegue ser amigo desse traste! E olha que o Eduardo estava ameaçando cancelar o desfile de Alexandre. E são amigos!!! – Fred é um ótimo funcionário. Ele me deu ideias magníficas. Você deveria valorizá-lo mais em vez de ficar depreciando ele dessa forma.
Vi Eduardo trincar os dentes e soltei uma exclamação de surpresa quando ele começou a me arrastar em direção à saída. Ele estava com uma expressão de dar medo, mas isso não me impediu de começar a soltar uns desaforos. As pessoas nos olhavam com expressões que mesclavam espanto e curiosidade, mas o Eduardo continuou me arrastando sem se importar com nada.
– Que merda! Me larga, seu idiota!
Ele não disse nada. Simplesmente abriu a porta do carro e me jogou lá dentro. Ainda tentei escapar, mas ele bateu a porta na minha cara.
– Sinceramente, eu não entendo o porquê disso tudo! – exclamei assim que ele entrou no carro. – Eu estava cometendo algum crime? Não estou no meu horário de trabalho e estava apenas ajudando o Alexandre a relaxar um pouco. Só porque você é um robô, quer que os outros sejam também! Eu não vivo para a Seventh Heaven como você!
Acho que não comentei que o nome da empresa é Seventh Heaven. Tá mais para sétimo inferno do que sétimo céu! Por que eu fui me enfiar lá? Ah sim, por causa do meu sonho. Era bem difícil lembrar disso em momentos como esse. Agora eu só queria acertar um soco bem dado no Eduardo e mandá-lo para o quinto dos infernos!
Eduardo ignorou completamente o meu surto e eu continuei soltando os cachorros. Em certo momento, ele ligou o som e o colocou em um volume bem alto. Levei as mãos às orelhas tentando abafar o barulho. Eduardo tinha um gosto um tanto peculiar para música. Ele gostava de rock e pop rock. Em qualquer língua. Desde que fosse rock ou pop rock. Não que eu não goste também, mas naquela altura era pra deixar qualquer um surdo.
– DIMINUIU O VOLUME! – gritei exasperado na tentativa de fazê-lo me ouvir em meio ao barulho.
Ele continuou fingindo que eu não existia.
Bufei e afundei ainda mais no banco do carona. Até entender a letra da música...
A Love Addict
Um viciado no amor,
Come light my fire
Venha acender meu fogo¹
Mas que porra de música pervertida é essa? Lancei um olhar exasperado para ele, mas o Eduardo continuou me ignorando solenemente.
E é melhor eu não pensar que isso é uma mensagem subliminar para que eu vá acender o fogo dele!
Ah... Porcaria. Estou ficando excitado. E é só uma música! Música que está me fazendo pensar em coisas que eu não deveria.
Mas é que eu não acendo o fogo de ninguém há tanto tempo! Nem consigo lembrar direito quando foi a última vez que tive uma transa decente. Por culpa de quem? DELE! Que não me dá sossego nem paz! Vou processá-lo por me fazer trabalhar até desmaiar.
Se ele me fizesse desmaiar por outro motivo... Do tipo me jogar na cama com aquela cara de ‘sou seu dono’ e... EPA! EPA! EPA! ‘Tá que esse desgraçado é bonito até não poder mais, e deve ser gostoso pra caramba também, mas EU NÃO QUERO SABER DO FOGO DELE! E tenho dito! É essa joça de música me fazendo ter pensamentos pervertidos.
É só lembrar, Fred Valentin: Eduardo Barelli é um monstro em forma de gente. Lembre das noites em claro que você passou por culpa dele, das refeições mal engolidas que você almoçou ou jantou porque não podia chegar nem um segundo atrasado, das vezes em que a Marylin tentou te matar sufocado ou quase te arrastou para o meio da rua correndo sem que você conseguisse segurá-la pela coleira, da forma como ele adora te chamar de incompetente...
É, está dando certo, excitação passando e raiva voltando.
Pelo menos a música terminou e outra menos barulhenta começou. Suspirei e encostei a cabeça no vidro do carro. Ainda bem que eu havia deixado meu carro na empresa e ido até a casa do Alexandre de táxi. Pelo menos não tinha que me preocupar com o meu carro largado no meio da rua. Eu ainda tinha sei lá quantas mil prestações daquele carro para pagar. Acho que vou pedir um aumento.
Arrisquei olhar para o Eduardo e vi que ele apertava o volante com força. Hum, má hora para sugerir um aumento.
Percebi que estávamos a caminho da casa dele. Ainda bem que não era a música pervertida tocando, senão eu começaria a pensar besteira de novo.
Procurei manter a mente em branco durante o resto do caminho, mas volta e meia um ou outro pensamento assassino surgia. Eu era uma pessoa pacífica antes de conhecer o Eduardo.
Desci do carro assim que ele estacionou. Minha intenção era ir direto até o telefone e pedir um táxi, mas Marilyn, que dormia bonitinha em sua casinha do outro lado do jardim, acordou. Eu pensei que ela ainda estava cansadinha por causa da gravidez e não dei muita bola. Erro grave. Quando estava perto da porta da varanda, senti um tranco por trás e caí para frente com todo aquele peso da Marilyn nas minhas costas.
Gemi de dor já que capotei de cara no chão. Marilyn me lambia todo. Ótimo! Final perfeito de noite: cheio de baba de cachorro.
– Marilyn! – ouvi Eduardo chamá-la, mas Marilyn estava mais interessada em continuar me lambendo. – Vamos, sua teimosa! – ele a puxou e conseguiu tirá-la de cima de mim.
Sentei meio desorientado e vi o Eduardo fechando o portão que deixava isolada a casinha da Marilyn. Ela latiu e ficou pulando, mas o dono não deu atenção.
Achei que ele fosse passar reto por mim, mas, para meu total assombro, ele se ajoelhou à minha frente e analisou o ferimento em minha testa.
– Você está bem? – perguntou... Preocupado?
– Eu pareço estar bem? – resmunguei. Eu não estava com humor para analisar as mudanças bruscas de atitude do meu chefe maluco.
– Vamos – ele me segurou pelo braço e me ajudou a levantar. – Vou fazer um curativo.
Cara, eu acho que bati minha cabeça com força mesmo! Eduardo me ajudando. Das duas, uma: ou eu desmaiei na queda, ou o mundo vai acabar mesmo no final de 2012!
Ele me guiou até o sofá e saiu dizendo que ia pegar o kit de primeiros socorros. Agora no silêncio eu sentia o sono começar a chegar. Estava quase me encostando para tirar uma soneca ali mesmo quando Eduardo voltou.
– Não vá dormir! – exclamou exasperado, me dando um susto daqueles. – Levou uma pancada muito forte!
– Você é um chato... – resmunguei meio grogue.
Ele me ignorou. Como já era de costume. Volta e meia eu ameaçava fechar os olhos, mas Eduardo brigava comigo e eu grunhia um ‘estou acordado!’.
Quando ele terminou e eu achei que finalmente poderia me encostar no sofá e dormir, soltei uma exclamação de surpresa ao ser erguido no colo.
– Ei! O que você ‘tá fazendo? – exclamei subitamente BEM acordado.
– Te levando até o quarto de hóspedes. É uma suíte. Você vai poder tomar banho lá.
– Foi só um tombo! Não estou inválido! – reclamei ao ser carregado como se fosse uma princesa de filme da Disney. O pior... Pior mesmo... Era sentir os músculos durinhos do Eduardo. O desgraçado tinha um peitoral daqueles. De dar inveja em qualquer um. Aposto que é viciado em malhação. Só assim pra manter esse corpo.
Eu já sou o contrário. Do tipo sedentário. Adoro dormir até mais tarde e passar o dia me entupindo de besteiras. Como diz a minha mãe: sou magro de ruim.
Eduardo me deixou sentado no colchão e falou que ia pegar algumas roupas. Fiquei observando o quarto. Sem quadros, ou portarretratos. Um quarto frio e impessoal. Assim como era o restante da casa.
Levantei e fui até o banheiro. Vi que havia uma toalha limpa e resolvi começar o banho sem esperar a roupa. De qualquer forma eu não ia vestir nada mesmo...
E espera aí! Quem disse que eu vou dormir aqui? Não mesmo!
Ia voltar para o quarto, mas a minha imagem no espelho chamou minha atenção. Eu estava um trapo. Com um galo enorme na testa, cheio de baba, suado e sujo. Ai, sério, tudo o que o que eu mais queria era cair na cama e dormir!
Dei uma espiada no quarto e vi que o Eduardo ainda não havia voltado. Comecei a tirar a roupa. Ia dormir lá mesmo. Era o jeito. Bem cedo eu escapuliria.
Deixei a porta entreaberta para ouvir quando o Eduardo deixasse a roupa no quarto.
Mas quando entrei embaixo do chuveiro, me desliguei completamente dos sons ao redor. Eu estava precisando relaxar um pouco depois do estresse que foi aquele dia. E aquela água morna estava servindo muito bem para isso.
Quando finalmente tomei coragem para sair do banho e voltar para o quarto, vi que o Eduardo tinha largado a roupa em cima da cama e não estava em canto nenhum. Menos mal. E ele nem precisava ter se preocupado com roupa. Confesso que adoro é dormir pelado mesmo.
Larguei-me na cama e adormeci quase que instantaneamente.
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