E se for amor?
3 Capítulo 3
Capítulo III
Acordei com algo grudento e frio no meu rosto.
Gemi e tentei me esconder embaixo do travesseiro, mas um latido alto me fez sentar assustado na cama.
Ao olhar para o lado, vi que era a Marilyn.
– Como você chegou aqui? – gemi exasperado. Ela latiu toda feliz e se preparou para pular na cama.
– Não, Marilyn... Não faça isso... NÃÃÃÃÃO! – ela me escuta? Não mesmo. Pulou em cima de mim e começou a me lamber inteiro.
Tentei expulsá-la, mas, caramba, a Marilyn pesa 80 kg! E eu tenho só 58 kg! Ela é praticamente um peso pesado. Mas o socorro não demorou a aparecer. Eduardo escancarou a porta do quarto, segurando um abajur – o que ele pensou? Que eu estava sendo atacado? Errr... De certa forma eu estava mesmo – e com a cara amassada de quem acabou de acordar.
– Socorro! – exclamei esticando a mão na direção dele. Eduardo girou os olhos e assobiou. Marilyn, toda graciosa, pulou para o chão e foi atrás do dono me deixando estatelado na cama, cheio de baba e pêlo.
Eles sumiram e, alguns segundos depois, Jô, a secretária que cuida da casa do Eduardo, apareceu e me encarou confusa.
– O que está fazendo aqui?
– Bom dia para você também – resmunguei enquanto sentava. Havia esquecido que estava completamente nu embaixo do lençol e a Jô lançou um olhar daqueles “Ah, já sei o que você está fazendo aqui!”. Bufei e olhei de um lado para o outro procurando as minhas roupas. – Não é nada disso que você está pensando, sua pervertida! O Eduardo nem gay é!
– Ah, mas você é tão fofinho! Se eu fosse homem eu te pegava! – ela disse toda animada.
Ainda bem que o Eduardo não estava ali para ouvir uma asneira dessas.
– Eu não sabia que você estava aqui, por isso soltei a Marilyn. Ela ‘tava toda jururu lá na casinha – Jô explicou.
– Ela seguiu o meu cheiro e resolveu me dar um bom dia bastante carinhoso... – resmunguei. – Um dia a Marilyn ainda me mata com todo esse amor.
Jô sorriu enquanto sentava na beira da cama.
– É fácil gostar de você, né? Não pode culpá-la.
– Hum! Todos gostam de mim, menos o nosso estimado chefe – dramatizei.
Jô suspirou e não disse nada. Ela ergueu a mão e tocou de leve o ferimento na minha testa, e eu mordi o lábio com força para me impedir de gemer de dor.
– O que foi isso? ‘Tá muito feio.
– Amor da Marilyn...
– Ela é um perigo ambulante para você! – Jô gargalhou. Ah, claro que ela ria. Desgraça dos outros é bobagem.
Mas ela parou de rir ao ver minha expressão travada em direção à porta. Ao olhar para trás e ver o Eduardo, Jô saltou da cama como se houvesse levado um choque elétrico e se afastou um monte de mim. Como se o Eduardo ligasse para quem está perto ou não de mim!
– Eu vou... Dar um jeito na sua roupa – ela disse antes de sair quase correndo do quarto.
Eu juro que não entendi por que a Jô saiu correndo, nem por que o Eduardo me olhava como se quisesse me matar. Será que ele gostava dela? A Jô é uma mulher simples. Não tinha uma beleza exuberante. Tinha uma beleza normal, como a grande maioria das pessoas. Com certeza produzida e maquiada ficaria bem diferente. Hum, se era isso eu poderia tentar dar um empurrãozinho.
Ou melhor não. Se o Eduardo descobre que eu andei metendo o bedelho nos relacionamentos dele, eu serei um andrógino morto.
Ficamos naquele silêncio constrangedor.
E eu nuzinho por baixo do lençol.
Aquele olhar do Eduardo sobre mim estava me fazendo corar e lembrar da música pervertida do fogo... E isso não é bom!
– A Marilyn vai ter filhotinhos! – exclamei sem pensar muito.
– Como assim? – Eduardo estava vindo na minha direção e estancou onde estava.
– Como assim o quê?
– Ora! Ela não pode estar grávida. Os únicos momentos em que ela sai são para ir ao pet shop e dar algumas voltas pelo quarteirão no final da tarde!
– Pois é, mas algum jeitinho ela deu...
– É impossível! – Eduardo exclamou exasperado. – Marilyn é só um filhote.
Pais. Todos cegos quando o assunto são os seus “bebês”.
– Bem, foi o que a atendente do pet shop disse ontem. Se não acredita, vá lá conversar com o veterinário. E, convenhamos, se a Marilyn ainda é um bebê... Eu não quero estar perto quando ela se tornar adulta! – desatei a falar. – Só de pensar que ela vai ter umas cinco Marilyns, eu já sinto calafrios.
Eduardo suspirou e se aproximou em passos rápidos. Meio que inconscientemente, puxei o lençol com medo que ele percebesse que eu não estava usando nada.
Congelei completamente quando ele sentou na beira da cama e colocou uma mão sobre a minha coxa. E uma mãozinha boba, viu! Bem pertinho da virilha... Ai, isso é maldade! Eu na seca há meses e esse homem vem e coloca essa mão aí.
E nem preciso dizer que se a barraca armar, eu ‘tô ferrado, né? A última coisa que eu preciso é que ele me veja excitado por causa de um toque dele.
Mas... Que toque! Sabe aquela pegada? Eduardo tem! TOTALMENTE. E olha que ele ‘tá só com a mão em cima da minha coxa. Mas dá para sentir o calor da palma, os dedos longos deslizando lentamente... E é melhor eu parar de prestar atenção nisso, senão vou surtar e sair correndo (pelado) para o banheiro.
Ao erguer a cabeça, vi que ele estava bem próximo e engoli em seco quando ele começou a perigosamente aproximar seu rosto do meu.
O que ele pensa que estava fazendo?
– Isso ‘tá bem feio – ele disse e percebi que o Eduardo olhava fixamente para a minha testa. – Acho que é melhor você ir ao médico ver isso.
Balancei levemente a mão em um gesto de impaciência.
– Não tenho tempo para isso. Meu chefe me mata se eu chegar atrasado! – ousei brincar com isso bem embaixo das fuças dele. É como eu disse, não tenho o juízo perfeito. – Além disso, tenho de passar na casa do Alexandre para pegar os croquis que faltam.
– Vá ao médico – Eduardo levantou, afastando-se de mim, ao que eu suspirei aliviado. – Aviso ao seu chefe terrível que você irá se atrasar.
Meu queixo caiu quando ele também fez piada. Espera! Eu ainda estou dormindo? Ou foi a pancada na cabeça que me fez ficar surdo e eu entendi tudo errado?
– Eu vou até a casa do Alexandre. Preciso conversar com ele... – Eduardo disse em um tom completamente diferente, um nada amigável.
– O Alexandre não fez nada de errado ontem... – comecei a dizer, mas me calei diante do olhar frio dele.
Eduardo saiu do quarto sem dizer mais nada e, pouco tempo depois, a Jô voltou com algumas roupas velhas para me emprestar. Obviamente, as roupas do Eduardo ficaram gigantes, mas era isso ou ir nu para casa, já que as minhas roupas não secariam tão cedo.
Tive vontade de perguntar à Jô se ela já havia percebido o interesse do Eduardo nela, mas achei melhor deixar para lá. Meter minha colher naquela história só traria problemas para mim.
– Você quer comer alguma coisa antes de ir? – ela perguntou assim que eu saí do banheiro já devidamente banhado e cheiroso. E, só para garantir, eu ia passar bem longe da Marilyn para não correr o risco de levar um banho de baba outra vez.
– Não. Vou chamar um táxi e ir em casa trocar de roupa. Depois vou até o hospital para o médico dar uma olhada nesse calombo na minha testa.
– É bom mesmo. Está bem feio.
Soltei um muxoxo infeliz e a Jô me acompanhou até a porta. Tive vontade de perguntar onde o Eduardo estava, mas acho que ela me viu olhando para os lados e resolveu dizer sem que eu precisasse perguntar.
– Ele já saiu. Nem tomou café.
– Argh... Duvido que alguém lá da empresa vá se lembrar do sagrado café com chantilly dele – resmunguei. Não é querendo me gabar, mas a Seventh Heaven não funciona muito bem sem mim.
Despedi-me da Jô e fui para casa. Estava com vontade de usar um look menina naquele dia. Estava me sentindo meio para baixo por causa do machucado no meu rosto, então queria me produzir um pouco.
Como estava anormalmente frio naquele dia, escolhi uma saia preta que ia até a altura do joelho e meia calça também preta, um cinto dourado para quebrar todo aquele preto, um casaco cinza de mangas cumpridas, botas com um salto médio e o cabelo solto. Como ia ao médico, optei por não passar maquiagem. Ia ser só o trabalho de colocar e o médico me mandar lavar o rosto para me examinar. Sem falar... Que o galo na minha testa estava doendo pra caramba e eu não queria lavar.
O médico passou um monte de exames. Acho que queria aproveitar que eu apareci por lá para fazer um check-up completo. Quanto ao galo... Ele disse que não havia muito que fazer a não ser colocar gelo e tomar paracetamol para aliviar a dor.
Fui chegar à empresa mais de onze da manhã. Já estava dentro do elevador quando vi o Alexandre chegar. Ele gritou um “segura o elevador!” e eu o atendi.
– O que aconteceu? – perguntei, percebendo que ele trazia um monte de croquis. – O Eduardo disse que ia até a tua casa.
– Ele foi... – Alexandre ergueu a mão e afastou o meu cabelo, que estava estrategicamente sobre o meu rosto para esconder o calombo. – O que foi isso? – perguntou preocupado.
– Ah... A cadelinha do Eduardo que me ama. Só que de ‘inha’ ela não tem nada. Pulou em cima de mim e eu caí de cara no chão – fiz um gesto de impaciência.
Arregalei os olhos quando o Alexandre se aproximou e beijou o machucado.
– Hey... – gaguejei. – O que você está fazendo?
Naquele momento, o elevador parou no último andar e tivemos que sair. Meus colegas de trabalho não se acostumavam em me ver no ‘look menina’, então todos olharam para nós.
– Será que há uma sala reservada para conversarmos? – Alexandre perguntou.
– Claro – o guiei até uma sala lateral onde ficavam alguns estagiários. Por sorte não havia ninguém (geralmente eles ficavam correndo de um lado para o outro, entrando em contato com fornecedores e verificando se tudo estava indo bem). – Então, o Eduardo disse que ia falar com você...
Minha voz morreu porque o Alexandre me virou e me agarrou. Simples assim. Ele me segurou pelos ombros e colou a boca dele na minha. Minha primeira reação foi pensar “O que raios você está fazendo?!” e tentar empurrá-lo, mas o Alexandre passou uma das mãos em torno da minha cintura e me puxou ainda mais para perto. Gemi com o contato.
Droga... Isso é injustiça! Eu estava há tanto tempo sem tocar ninguém, que me corpo reagiu de imediato ao contato, e entreabri os lábios para receber a língua quente e ousada que pedia passagem.
Eu parei de pensar por um instante. A língua do Alexandre buscava a minha de forma incansável e eu correspondia com empolgação sem me lembrar que eu estaria ferrado, fodido e encrencado caso o Eduardo aparecesse. Mas ele não costumava ir até a sala dos estagiários, então eu não tinha com o que me preocupar.
Não tenho ideia de quanto tempo o beijo durou. Quando o Alexandre se afastou, eu sentia o meu rosto quente e os lábios dormentes.
Ele encostou a testa na minha e sorriu.
– Eu estava sendo punido por algo que não fiz... Então quis fazer para ser punido com razão – ele disse e eu franzi a testa sem entender.
– Do que você está falando? – perguntei.
– O Eduardo disse que vai cancelar o desfile.
Meus lábios se entreabriram pela surpresa daquela informação. Eu fiquei olhando para o Alexandre, com as mãos espalmadas no peito dele, sem conseguir esboçar qualquer reação.
– Como assim vai cancelar? – esbravejei. – Depois de todo esse trabalho... Semanas de preparação! Ele não pode simplesmente jogar tudo pela janela. E como é que você fica calmo desse jeito?
– Eu trouxe os croquis que faltam. Vou tentar convencer o Eduardo a não cancelar... – ele suspirou pesadamente. – Mas você conhece o seu chefe.
– E que história é essa de que está sendo punido por algo que não fez? Aí vai e me agarra desse jeito! No meu local de trabalho!!!
– O Eduardo está furioso por nos ter encontrado juntos ontem...
– Isso não justifica! O que eu faço fora do meu horário de trabalho não é da conta dele. Além disso, arruinar tanto trabalho por uma bobagem como essa é totalmente insano! – exclamei furioso.
Eu não sei por que o idiota do Alexandre sorria do que eu falava e, antes que eu pudesse continuar esbravejando, ele voltou a me beijar. Gemi e tentei afastá-lo. Será que ele não havia escutado quando eu disse que era loucura me beijar no meu local de trabalho? ‘Tá, eu não disse bem com essas palavras.
Entreabri os lábios, incapaz de resistir, e o Alexandre aproveitou para iniciar uma dança lenta e sensual em busca da minha língua. Quando dei por mim, já estava em cima de uma das mesas com as mãos do Alexandre subindo lentamente pelas minhas pernas.
Segurei a mão dele antes que avançasse ainda mais e afastei o rosto interrompendo o beijo.
– Você enlouqueceu... – sussurrei completamente sem fôlego.
– Eu passei a noite inteira pensando no que teria acontecido se o Eduardo não tivesse nos interrompido. Estava disposto a só conversar com você e falar desse tesão que estou sentindo por você, mas aí você apareceu vestido desse jeito... Você tem ideia do quanto é sexy, Fred?
Passei a língua pelos lábios que haviam ficado ressacados e engoli em seco. O Alexandre com certeza estava exagerando.
Eu pensava no que dizer quando a porta foi aberta de repente e meu pior pesadelo se tornou realidade: Era o Eduardo.
Eu disse que ele quase nunca vinha até a sala dos estagiários, não é? Geralmente era eu quem fazia esse tipo de contato, mas como ele pensava que eu não havia ido trabalhar... Ai, céus, eu sou realmente a criatura mais sem sorte da face da Terra!
Eduardo entrou e fechou a porta. Eu nunca o tinha visto com um olhar tão furioso. Parecia que ele queria esfolar alguém vivo.
– E... Eduardo – murmurei enquanto empurrava o Alexandre e pulava para o chão. Não tinha nem como tentar negar o que estar acontecendo ali.
– O que você veio fazer aqui, Alexandre? Pensei que já havíamos deixado tudo em pratos limpos mais cedo – Eduardo perguntou friamente, mas não desviou os olhos de mim enquanto falava.
– Eu trouxe os croquis que faltavam. Restam quinze dias para o desfile. Se você quebrar o nosso contrato agora, eu irei à Justiça para cobrar o dobro da multa rescisória – Alexandre ameaçou.
Fechei os olhos. Com ameaças ele não conseguiria convencer o Eduardo. Ele era do tipo que pouco se importava com quanto iria gastar, contanto que se livrasse do problema que o irritava. E tê-lo como inimigo poderia detonar a carreira do Alexandre, que ainda estava no início. Agora que ele começava a ter reconhecimento internacional.
– Eduardo, nós podemos conversar em particular? – perguntei com a voz firme. Ele lançou um olhar gélido para o Alexandre e deu-nos as costas, deixando a sala em seguida.
– Eu vou convencê-lo – falei para o Alexandre e já ia sair correndo atrás do Eduardo, mas o Alexandre me deteve ao me segurar pelo braço.
– Você não precisa fazer isso, Fred...
– Não estou fazendo apenas por você – respondi. – É pela equipe inteira. Nós trabalhamos muito para que o Eduardo simplesmente jogue o desfile pela janela.
Antes que ele tentasse me deter outra vez, deixei a sala.
Fui até a sala do Eduardo e todo mundo fixou o olhar em mim. Eu conseguia ouvir os cochichos. Nós seriamos o assunto pelo resto do ano se as coisas continuassem daquele jeito.
Bati levemente na porta e ouvi um “entre” dito de forma fria. Respirei fundo antes de entrar.
Eduardo estava sentado na mesma posição de quando o vi pela primeira vez, ou seja, virado para a grande janela de vidro observando o movimento da avenida.
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