E se eu quiser continuar?
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Domingo, final de tarde, Camus e Hyoga estavam em suas respectivas poltronas, uma do lado da outra. Uma coisa que o loiro percebeu era que seu chefe odiava usar roupas sociais. Ele sempre estava com jeans, alternando com camisetas polos ou camisas. Terno? Gravata? Nem para as reuniões mais importantes. Ele literalmente odiava isso. Então não foi surpresa nenhuma reparar que o mais velho estava usando calça jeans preta, com uma regata cinza, meio justa ao corpo. Esse ar relaxado que Camus demonstrava, deixava Hyoga cada vez mais admirado com a beleza de seu chefe. Já o loiro, para tentar conseguir os olhos de Camus sobre si, escolheu um jeans com uma regata azul, também estava com os cabelos molhados, ficando assim com um ar sexy e rebelde.
– Sabia que prefiro viajar à noite – escuta a voz grave de Camus interromper seus pensamentos, depois de alguns minutos do avião ter decolado.
– Por qual motivo Camus? – responde Hyoga animado, pois dificilmente o mais velho fala de sua vida e suas preferencias as pessoas.
– A vista é muito mais agradável – se limitou a responder.
Hyoga olha pela janela pensativo. Gostaria de fazer tantas perguntas a Camus, conhece-lo e se envolver mais em seu mundo, mas não sabe como, pois seu chefe é reservado, discreto e não muito chegado a conversas sobre sua vida pessoal.
– O que deseja saber Hyoga? – Camus pergunta como se previsse a curiosidade de seu gerente.
– A verdade é que você é um homem muito fechado – Hyoga começa a falar, sem dar tempo de pensar, para não se arrepender depois – É difícil manter dialogo contigo se não for de trabalho e bom, estamos em um avião, não quero pensar em trabalho agora!
– Não tenho tempo, menino, para manter conversas apenas para passar o tempo. Tenho diversas coisas para decidir e planos de ação a montar antes de chegarmos a refinaria. E quando chegarmos ao hotel, quero ter uma boa e tranquila noite de sono, em vez de perde-la trabalhando.
– Por que me chama de menino? Além do mais, porque só a mim que chama desse jeito? – Hyoga pergunta já irritado. Sentia raiva do mais velho por não dar uma brecha a ele.
– Porque você não passa de um menino e que escolhi para estar ao meu lado e lapidar sua personalidade da forma que quero.
Hyoga engoliu seco ao ouvir isso. Por mais que a frase de Camus era relacionada ao profissional, o loiro não deixou de achar isso sexy e imaginar outras coisas. Que droga era estar apaixonado!
Eles ficaram se encarando por alguns segundos.
– Aproveite o tempo da viagem para dormir – disse o mais velho, sem quebrar o contato visual – Amanhã terá um dia cheio e não posso ficar conversando com você agora.
– Camus, apenas mais uma pergunta. Por que me trouxe contigo? Essa é uma obra de grande complexidade e eu nem sei de nada a respeito.
– Porque quis. Acredito que essa é uma grande oportunidade de você observar e aprender. Você precisa, às vezes, ir a campo, conhecer as pessoas pessoalmente, sentir a obra e seus problemas. Nada como um projeto grande para te passar tal conhecimento. É necessário muita malicia em certas situações e isso você só vai aprender vivenciando. Não quero que ninguém se aproveite de sua inocência para te fazerem de idiota. É aqui Hyoga, onde passará esses dias comigo observando, começará a ter noção do mundo de aparências e ilusões que nós vivemos dentro da empresa. É na obra que as coisas ficam mais claras e onde se deve ter cuidado. E é por isso que na situação dos fornecedores, te dei razão em vez de te desmerecer. Uma coisa que deve aprender Hyoga é falar com segurança e certeza, mesmo que não a tenha. Tem que ser forte menino, pois se fraquejar, usarão isso contra você.
– Tenho medo de te decepcionar – Hyoga fala, meio envergonhado, mas também não conseguindo frear as palavras.
– Olha – Camus diz colocando a mão no ombro do loiro – Nós vamos nos desentender muitas vezes ainda. Não vou concordar com decisões que tomar assim como a reciproca será verdadeira. Vamos discutir, você possivelmente irá me odiar, já que sou seu superior. Entretanto, decepcionar é uma palavra muito forte e, como um dos donos da empresa, aprendi que não existe decepção nos negócios. Não para alguém com um cargo como o meu. Nós estamos construindo uma relação de cumplicidade e estou satisfeito com seu trabalho. Não fique pensando essas bobagens, pois quando acontecer um problema, eu serei o primeiro a te comunicar. Agora durma Hyoga e me deixe trabalhar.
Hyoga sorri para Camus e decide obedece-lo. Não sabe entender o motivo de ter se sentido tão feliz com essas palavras de seu chefe. Essa dedicação que tem do mais velho em ensina-lo aquece seu coração. E por ter essa dedicação e tempo com Camus, o loiro se sente feliz e especial, mesmo que isso fosse muita pretensão de sua parte.
A semana foi passando e a rotina era sempre a mesma. Reuniões, acordos, problemas resolvidos e mais alguns criados. Hyoga apenas observava e quando voltavam de carro para o hotel ou quando estavam sozinhos, expressava sua opinião a Camus, que o ouvia atentamente.
Quinta-feira, final do dia e Camus estava mais quieto que o normal. Ele estava puto, mas muito puto depois da última reunião que participaram que Hyoga decidiu voltar em silêncio só para não aborrecer seu chefe. Quando chegaram ao hotel e o carro foi estacionado, o loiro coloca a mão no ombro do mais velho ganhando a atenção do mesmo.
– Quer conversar a respeito Camus? – pergunta delicadamente Hyoga.
Camus fixa o olhar em Hyoga e percebe que gosta da atenção e dedicação que o mais novo tem com ele. Principalmente por saber que tudo isso é sincero da parte de seu gerente. Apesar da personalidade fria e distante do diretor, ele sente que a Hyoga realmente aprecia sua companhia e não apenas profissional e sim por gostar de estar perto dele.
Ao constatar isso, Camus balança negativamente a cabeça antes de responder à pergunta do loiro:
– Não há nada para conversar! Você presenciou e ouviu o mesmo que eu!
– Ah, mesmo assim – disse Hyoga, tirando a mão do ombro de Camus e colocando agora na coxa de seu diretor, como um sinal de carinho – Falar é bom, para descarregar.
Camus não tira a mão que Hyoga colocou nele, apenas o olha e vê que o único olhar que recebe é de carinho. Eles ficam alguns segundos em silêncio e Camus leva a mão até o rosto de Hyoga, que ao sentir o toque em sua bochecha, fecha instintivamente os olhos. Ele sente a aproximação de seu chefe e de repente percebe que o celular dele não para de tocar, fazendo com que o mais velho se afaste abruptamente, quebrando totalmente o clima que havia sido criado.
Na empresa há três sócios: Camus que era o responsável pela área técnica, Saga que era o financeiro e Milo que era do comercial. Na linha estava o diretor comercial, querendo saber a respeito da reunião que deixará Camus bravo e eles ficaram alguns minutos conversando.
Hyoga por sua vez, estava perdido. Será que seria beijado por Camus se o maldito celular não estivesse tocado? O coração do mais novo está a mil e ele não presta atenção em nada na conversa dos dois sócios. Eles saem do carro e quando estão no indo para seus respectivos quartos, Camus desliga o celular.
– Hyoga, tire a sexta de folga. Vá sair, conhecer a cidade e fique com o carro.
– Mas Camus, eu quero ir à refinaria contigo, não preciso de folga.
– Não vou lá amanhã. Irei trabalhar aqui do hotel. Amanhã é nosso último dia aqui e não pude te levar para conhecer a cidade. Faça isso amanhã. Só quero ser incomodado na hora de irmos ao aeroporto.
Hyoga ao menos teve a chance de dizer não. E seja lá o que for que aconteceu no carro, Camus fez questão de empurrar isso para longe e evitar qualquer interação com o mais novo até ambos estarem na empresa.
Fale com o autor