E se eu... gostar demais de você
6 A Difícil Decisão de Tennyson
Notas iniciais
Depois daqueles dois dias maravilhosos ao lado de Kevin, Ben volta para casa, pois tinha muitos afazeres e seus pais eram rígidos em relação ao filho, principalmente pelo fato de ser um herói e quase sempre tirar nota baixa, usando o salvamento do mundo como desculpa. Então nesse dia ele e seu companheiro acordam mais cedo, se arrumam, passam mais um tempo juntos e Kevin o deixa em casa. Durante o percurso eles conversaram sobre como seria dali para frente:
–Kevin... sabe eu tava pensando... -diz olhando sério para o parceiro.
–Em que? -pergunta dando uma olhadinha para Ben e voltando a prestar atenção na estrada.
–Em como vai ser daqui para frente? Em como vai ser tudo entende? Eu e você. -responde Tennyson ainda muito sério. E com um ar de preocupação.
–Vai continuar como estamos. Eu com você e você comigo. -continua Kevin, falava normalmente como se nada estivesse acontecendo.
–Ta legal. -apenas responde Ben, voltando a olhar a paisagem pela janela do carro mergulhando em seus pensamentos.
Ben tinha suas preocupações assim como todo mundo, embora fosse um herói e tivesse milhares de fãs e uma vida que qualquer pessoa julgava perfeita, a qual ele conquistava tudo o que queria e sempre vencia, se considerava um garoto de sorte. Essa era a imagem que passava ao vê-lo por fora: sorridente, determinado, bem humorado, irritante, mandão, bondoso e com grande auto estima. Porém por dentro ele sempre carregou seus conflitos, nunca deixou transparecer, sempre ficava calado em relação a problemas, embora não parecesse, Ben não era tão forte quanto aparentava.
–Ben, eu falei algo errado de novo? Eu posso ser um idiota mas não sou burro, aconteceu alguma coisa? -pergunta Kevin ao perceber que Ben estava em outro lugar, depois de ter dado aquela resposta curta, o que não fazia o perfil do herói, pois sempre tinha algo a argumentar. Então começa a passar a mão como se estivesse abanando na frente do rosto de Ben, que "acorda" e se vira rapidamente. -Tava viajando mesmo hein?!? Falei um monte com você e você nem tava me escutando. Depois eu que vivo desligado.
–Me desculpa Kevin, o que foi mesmo que você disse?
–Não era nada importante, tava falando que hoje temos que fazer a ronda, ontem não fizemos. Estavamos ocupados demais. -responde rindo e olhando para Ben, que sorria e respondia:
–As coisas tem estado tranquilas por aqui. E se tiver algum bandido tramando algo, vamos dar uma lição nele.
–É assim que se fala. To precisando mesmo bater em alguém, o último foi o Animal e o movimento ta fraco.
E a conversa se segue até chegar na casa de Ben, onde Kevin o deixa no quintal, o menino desce do carro, pegando sua mochila e dando um beijo na bocheca de seu companheiro, que fica vermelho e disse que tinha que tomar cuidado para que ninguém os visse. Ben concorda e dá adeus ao garoto, combinando de encontrar-se mais tarde para ter certeza que nenhum mal feitor tem planos para conquistar ou acabar com o mundo ou com o universo.
Assim que abre a porta de casa Ben escuta:
–Oi Ben, como foi na casa do Kevin?
–Foi legal mãe. Alguma novidade?
–Sua prima Gwen ligou. Perguntou de você e eu respondi que estava com o Kevin, ela pediu para que ligasse quando chegasse.
–Ta bem mãe, obrigado pelo recado. Vou subir, tomar um banho e descansar.
–Está bem, logo sirvo o almoço, não demore.
Ben sobe as escadas e liga o celular que havia desligado no dia anterior e percebe que tinham duas ligações de Gwen e uma mensagem de texto.
–Alô, Gwen?
–Oi Ben, já estava na hora, liguei para você e para o Kevin e nada dos dois. Estão bem?
–Sim estamos, só ficamos ocupados.
–Fiquei preocupada. E vocês estão se dando bem ou já começaram a se matar?
–Estamos nos dando bem.
–Fico feliz por saber isso Ben. Deixem para brigar e se bater quando eu voltar e puder apartar, ta me ouvindo?
–To sim Gwen. E o passeio como ta?
–Ta sendo muito legal, Los Angeles me impressionou pensei que não fosse nada mais do que Hollywood e você sabe como os familiares da minha mãe gostam de explorar até o que não tem para ser explorado, mas no geral ta sendo uma experiência diferente... até posso dizer divertida.
–Tem que me contar tudo quando chegar.
–Conto sim, agora vou ali ver onde o meu pai se meteu, minha mãe ta gritando por ele no meio da rua. Beijo e se cuida Ben e não faz mais essa de me deixar preocupada.
–Ta bem eu prometo não fazer mais. Beijo. Tchau.
Assim que desliga o telefone Ben sente uma sensação horrivel, estava se mortificando, sabia o quanto era errado o que fez com sua prima que tando preza. Não queria continuar daquela maneira, mas como contar sem machucá-la que esta ficando com seu namorado? Como magoar a menina que é uma irmã para ele? Como contar para ela que sempre gostou de Kevin?
Não seria tarefa fácil, por mais compreensiva que Gwen fosse ele sabia o quão sensível ela era e o quanto era cuidadosa, sempre prestativa e dando o melhor de si para cumprir suas tarefas em casa, na escola, no time e no amor.
"E se eu contar? O que pode acontecer?"
Pensava sentindo uma grande angústia em seu peito, era algo preso em sua garganta que o incomodava, ele tinha vontade de fugir e não voltar mais, mas o menino não poderia abandonar seus amigos e família, o que sentia era remorso.
"Poxa eu me sinto tão sujo... ter beijado o Kevin... ter transado com ele... dizer que amo ele... quando ele pertence a minha prima, eu deveria ter medido as consequências, mas não pude me conter, eu tinha que tocar ele, precisava sentir ele... só uma vez... eu não posso de modo algum machucar Gwen, ela representa muito para mim... mas não sou bom mentiroso, falar com ela como se nada estivesse acontecendo é muita crueldade... Eu trai meus príncipios, e agora que já está feito... eu sinto que dessa vez eu não vou escapar."
Ben encontrava-se sentado na cadeira de seu quarto, tinha costume de bagunçar o cabelo enquanto pensava e a essa altura seu cabelo estava todo desarrumado.
Estava nervoso e queria encontrar uma solução para essa questão, e não exitava em esquecer Kevin para que ele fosse feliz com Gwen. Odiava esse peso em cima dele e se odiava por gostar tanto de uma pessoa que é o amor de outra, sempre soube o quanto sua prima amava seu parceiro.
Quanto a Julie estava mais tranquilo, ele e a garota viviam entre tapas e beijos, e ele nem gostava dela como namorada mesmo, o que sempre ficou evidenciado pelas suas atitudes com ela, de sair correndo quando ela estava em campeonatos, e ficar jogando com Kevin ao invés de sair com ela. E na verdade Ben sempre soube que não era de meninas que gostava, desde os seus 10 anos quando passou as férias na lata velha com o avô Max e Gwen, já sentia atração por meninos, principalmente os da sua escola, mas sempre negou, não por não se aceitar, pelo contrário Ben sempre foi muito decidido quanto a sua sexualidade, mas com medo da rejeição e a não aceitação de sua família, que era bem tradicional.
E para não dizer que nunca passou por uma fase de negação, aos 12 anos decidiu que namoraria a primeira menina que visse, e para sua surpresa não sentiu vontade alguma de beijar e ficar com ela, pelo contrário, tornaram-se amigos de escola. E desde de então ele se decidiu quanto a sua opção sexual.
E agora sua principal preocupação era: abrir mão de Kevin, o garoto que sempre amou em segredo e agora teve sua chance ou Gwen sua prima que ele ama tanto. Não podendo resolver isso sozinho, pois ele não seria o único afetado, decide ligar para Kevin.
–Fala Ben, aconteceu alguma coisa? -pergunta o menino intrigado, pois acabará de deixar Tennyson em casa.
–Acho que nem tudo. Precisamos terminar aquela nossa conversa do carro Kevin. Me encontra em 15 minutos no Senhor Sorvete? -responde Ben agora mostrando seu tom de preocupação.
O amigo concorda, Ben desce as escadas e sua mãe pergunta:
–Ben querido, já está de saída? Não comeu nada ainda.
–To sem fome mãe, vou resolver um assunto e logo volto.
Dá um beijo em sua mãe e se despede, pegando seu carro e indo em direção ao Senhor Sorvete, chegando lá avista Kevin sentado sobre uma das mesas.
–O que aconteceu? Me deixo preocupado. -fala Kevin ao ver Ben se aproximando.
–Precisamos conversar.
–Precisamos conversar? Isso no namoro não é um bom sinal. -fala em tom mais irônico balançando a cabeça, apenas para disfarçar a preocupação.
Ben achou bonitinho o que disse, ele pensou consigo: Namoro? Mas logo volta a si, porque esse era assunto para outra hora e queria ajeitar coisas mais importantes por agora. Senta-se no banco ao lado do companheiro e fala:
–Tive pensando, como fica a Gwen em toda essa história?
–Eu queria mesmo falar isso com você, mas não sabia a hora certa. Eu acho que devemos contar para ela na boa, a Gwen entende, ela é um amor de menina e nós sabemos disso.
–Kevin estamos falando dos sentimentos dela, ela pode se machucar, você tem noção do quanto ela gosta de você? E do que ela representa para mim?
–Não fala como se eu fosse um cachorro e não me importasse com ela, só não sei como agir e também tenho medo da reação dela.
–Eu não quero esconder isso, não quero enganar ela.
–Eu te entendo Ben, mas e se assim for melhor?
–Até ela descobrir e nos odiar? Eu tenho certeza que se contarmos para ela, a maneira que ela vai reagir não vai ser tão impactante.
–Falando difícil hein! Aprendeu com quem?
Ben encara Kevin sério que tenta remendar a brincadeira feita quando estavam falando sobre um assunto sério.
–Ta bem desculpa, não precisa me olhar assim. Só quis cortar o clima tenso. Eu acho devemos falar com ela.
–Como?
–Ir direto ao ponto... falar o quanto gostamos um do outro... que não tem nada a ver com ela... que tinhamos medo e por isso nunca falamos sobre isso um com o outro.
–Quando você diz isso são os nossos sentimentos né?
–É isso ai.
–Vamos falar sim com ela, eu não sei qual vai ser a reação... mas ela chega no domingo, e hoje já é sexta... temos que nos preparar.
Os dois pensam e decidem que o melhor mesmo é falar com Gwen, estariam completamente errados se enganassem a garota, e mentira sempre tem perna curta, se continuassem as escuras, poderia ser muito pior para os três, com o risco de se machucarem, sobre tudo a menina mais ainda. Após a conversa os dois retornam para suas casas, mas Ben ainda carregava a culpa, e queria resolver isso logo, ele sempre foi muito ansioso e essa situação estava o matando. Não poderia esperar até domingo, mas era necessário, assuntos assim não se tratam pelo telefone, é como pensa.
Tomou alguns calmantes e dormiu o resto do dia para parar de pensar sobre isso. A noite chega e ele vai fazer a ronda ao lado de Kevin, Ben ainda se sentia sujo, pois tinha falado com a prima pela manhã como se nada tivesse acontecido, seria um feito muito duro revelar para ela o amor dos dois, passava mil ideias da reação dela pela cabeça do garoto dos olhos verdes, reações como ela chorar e se despedaçar, de ficar ferida a ponto de ir embora com Verdona, se sentir humilhada por ser trocada assim de uma hora para outra. Mas Ben nem tocou mais no assunto com Kevin, não queria parecer um disco arranhado, nem ficar batendo na mesma tecla.
Fazendo a ronda, encontram pequenos aliens que a princípio pareciam muito engraçadinhos, mas tinham uma fome enorme e estavam comendo tudo que encontravam pela frente. No início Kevin ainda zombou:
–É por isso que o distintivo apitou, por essas coisinhas?
–Coisinhas que fazem um grande estrago. -aponta Ben para os pequeninos que devoravam a ponte, onde trafegavam vários carros.
Ben se torna Enormossauro, e começa a correr atrás das coisinhas, elas eram rápidas e sabiam se defender, cuspiam ácido e tinham dentes afiados. Kevin absorve o material do asfalto e sai correndo atrás deles, enquanto Enormossauro retira os que estavam comendo a ponte.
Mas os bixinhos eram muito rápidos e conseguiam escapar com facilidade, dando jogos de corpo em Kevin que ficou todo cheio de terra, resultado de vários tombos que tomou, enquanto Enormossauro é atacado por muitos daqueles estranhos ETs, que apareciam mais e mais. Era inacreditável, mas os meninos estavam tomando uma surra dos baixinhos, embora os mesmo também apanhassem bastante quando eram pegos. E assim a situação continuou, Ben e Kevin brigando com os aliens, uma luta que quase não surti efeito. Até ouvirem um grito:
–Imobilis.
E todos param, não conseguiam se mexer, e com tudo sob controle Enormossauro volta a ser Ben, procurando quem tinha os ajudado, e para surpresa dos dois era Gwen, que caminhava em sua direção.
–E então meninos... precisando de ajuda?-fala sorrindo.
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