E se Fosse Verdade?
5 Missão
Notas iniciais
Capítulo 5- Missão
Eu devo admitir que a coisa não foi tão complicada. Pra falar a verdade, aos poucos nós fomos nos acostumando e incorporando "o que esperavam que nós fizéssemos", e aí ficou mais fácil.
Mas isso não significa que era simples. Eu diria que nós nos acostumamos a fingir. E era isso. Parem-de-olhar-pro-meu-namorado se tivesse alguém por perto; vê-se-aprende-Cabeça-de-Alga e para-de-me-bater-Sabidinha quando não tinha ninguém olhando.
O lado bom: Matt não falava mais comigo quando eu estava com Percy.
O lado ruim: ele continuava com as cantadas se eu estivesse sozinha.
Ou seja, eu tentava não sair do chalé de Atena sem Percy. E não, isso não é exagero.
No primeiro dia em que nós não precisamos mais lavar a louça, eu passei no chalé depois do jantar e combinei de encontrar com ele na fogueira. É, eu sei, um pouco arriscado, mas... Quais eram as chances de eu encontrar Matt no caminho?
Mas parece que esse raciocínio não funciona muito bem. Como uma vez alguém disse1, "ultimamente, as probabilidades não andam muito confiáveis".
Só que eu confiei nas probabilidades, e claro que encontrei um certo filho de Apolo no caminho de volta.
– Srta. Google, que surpresa te encontrar aqui sozinha! Pena que eu não sou filho de Hefesto, mas eu tenho certeza de que posso consertar seu coração partido. – ele falou, erguendo as sobrancelhas.
Eu rolei os olhos e me segurei para não dar um soco na cara daquele idiota.
– Oi, Matt. Você sabe que eu não terminei com o Percy, não sabe?
– Você não pode culpar um cara por tentar...
– Então você resolveu simplesmente ignorar o fato de que eu tenho namorado? – eu perguntei, incrédula.
– Bem, não exatamente... Mas eu não pretendo desistir de você. – ele disse, antes de se virar e sair correndo ao encontro dos irmãos.
Quando ele já estava longe, olhei para o céu e sussurrei:
– Sério, o que eu fiz pra merecer isso? Porque, eu juro, o que quer que tenha sido, eu vou aí em cima me desculpar com qualquer um de vocês que tenha mandado esse garoto ao meu encontro! Mãe, por favor me ajude. Quem fez isso, pode me explicar porque, por favor? Hera, Afrodite? – suspirei quando não recebi nenhum tipo de resposta. – Valeu aí pela ajuda...
Quando cheguei ao anfiteatro, não achei o Percy em nenhuma cadeira. Enquanto eu procurava seu rosto em meio à multidão, ninguém mais, ninguém menos que o próprio Mr.M&M parou ao meu lado.
– Sabe Annabeth, se eu fosse você, eu me preocuparia um pouco mais com o paradeiro daquele filho de Poseidon.
Localizei o Cabeça de Alga conversando animadamente (um pouco animadamente demais pro meu gosto) com algumas filhas de Deméter. Como instinto, simplesmente olhei para o outro lado e fingi não me importar. Só que eu esqueci que agora eu tinha que fingir me importar. E muito.
– O que você quer dizer com isso? – perguntei, tentando manter a voz num tom indiferente.
– Quero dizer que eu achei que você se importasse mais com essa mania das meninas de darem em cima do seu namorado.
E então eu me dei conta. Todo mundo achava que Percy era meu namorado. Eu deveria me estressar se qualquer garota chegasse perto dele, nem que fosse inocentemente. E, acredite em mim, aquilo não era inocente. Aquilo tinha segundas, terceiras, e até mesmo quartas intenções.
Para recuperar o tempo perdido, saí andando furiosa em direção ao grupo, e fiz a primeira coisa que me veio à cabeça.
– PERCY! – gritei quando cheguei perto.
Ele me olhou, surpreso, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, eu o beijei. Um beijo de verdade. Forçado no começo, mas depois eu simplesmente não conseguia pensar em mais nada, e no meu mundo, só havia ele e eu. Não era como se estivéssemos fingindo que gostávamos um do outro, mas sim como se estivéssemos esperado por aquele momento durante todas as nossas vidas.
Quando finalmente nos separamos, no entanto, a realidade caiu sobre nós, e eu senti meu rosto esquentando.
Encarando o chão, falei:
– Ahn, eu acho melhor a gente ir sentar em outro lugar...
Tentei soar confiante, mas eu tenho certeza de que não fui muito bem sucedida.
Andamos em silêncio até um assento ao lado de Rachel e Quíron deu início ao discurso, mas pouco depois dele começar a falar, foi interrompido por uma luz rosa brilhante que deu origem a uma mulher impossivelmente linda no centro do anfiteatro. Afrodite. Ouviram-se murmúrios vindos de todo lado, e a maioria dos campistas olhava com admiração para a deusa.
– Boa noite, queridos! – ela começou a falar, os olhos e o cabelo mudando de cor e forma a cada palavra – Parece que vocês não têm tido muito trabalho ultimamente, não é mesmo?! Talvez não se importassem em me fazer um favor...
Lá vem. Aparição "justificada".
– Como vocês devem saber, um certo deus do fogo têm uma pequena, anh, obsessão em tentar, hum, estragar os meus encontros com Ares. Acontece que o local do nosso próximo encontro é supersecreto, e é preciso uma senha para entrar. O grande problema é que o papel que Ares me mandou com a senha foi roubado antes que eu pudesse ler. Eu ando um pouco ocupada, e imaginei que alguns de vocês não se importariam em recuperá-lo para mim. – ela tirou uma bússola (provavelmente mágica) do bolso e entregou a Matt — Por que não escolher o novo filho de Apolo como líder da missão? Vocês têm cinco dias.
Mais um clarão rosa, e ela desapareceu.
Quíron foi o primeiro a se recompor:
– Então, eu acredito que temos uma missão. Matt, levante-se.
O filho de Apolo foi até o centro do anfiteatro.
– Você pode escolher dois semideuses para te acompanharem.
Todos olhavam atentamente, na expectativa de serem escolhidos. Eu, pessoalmente, já havia vivido aventuras demais pro meu gosto.
– Certo, — disse Matt, pensativo – eu escolho... Will, hum, e... – ele parou para pensar. Ficou claro para todos que ele estava se referindo a Will Solace, líder do chalé de Apolo. Ele refletiu por um momento e então abriu um sorriso e olhou para mim. – Annabeth!
Eu fiquei chocada e olhando pra cara dele por algum tempo, e percebi que já devia ter previsto. Mas eu não tinha nem imaginado.
Só saí do transe quando Quíron começou a se pronunciar para explicar a missão, mas antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, Percy se levantou e começou a gritar, fingindo que estava revoltado. Bem, pelo menos eu acho que ele estava fingindo.
– Certo, — ele gritava, atraindo todas as atenções para ele, inclusive a minha. – QUEM VOCÊ PENSA QUE É?
Quíron pareceu contrariado, mas depois percebeu que ele se dirigia a Matt. E ninguém se atreveu a falar nada, o que lhe deu espaço para continuar:
– QUEM VOCÊ PENSA QUE É PRA SIMPLESMENTE RESOLVER LEVAR A MINHA NAMORADA PARA UMA MISSÃO COM VOCÊ? SE VOCÊS PENSAM QUE EU VOU FICAR AQUI SEM FAZER NADA ENQUANTO ANNABETH SE ARRISCA POR AÍ COM ESSE FILHO DE APOLO IDIOTA, ENTÃO VOCÊS NÃO ME CONHECEM!
– Percy, se acalme. – Quíron interferiu. Eu estava me segurando muito pra não rir, e não era a única. – O que você quer dizer com isso?
– Quíron, — ele falou, um pouco mais calmo, mas ainda revoltado. – se ela vai eu vou.
Foi aí que Matt não se aguentou e entrou na briga:
– AAHH, DE JEITO NENHUM! Quíron, ele não vai comigo. E eu pensei que tinha o direito de escolher meus acompanhantes.
– EU JÁ DISSE QUE ELA NÃO VAI COM VOCÊ SE EU NÃO FOR JUNTO!
Sinceramente, Percy era inacreditavelmente fantástico. Ele estava fazendo tudo isso só pra me poupar de alguns dias "sozinha" com o Matt. Bem, pelo menos eu acho que era isso que ele estava pensando... Por que a outra opção, que era ele estar verdadeiramente com ciúmes, não parecia tão plausível ou agradável assim.
Mas então eu percebi que Matt tinha uma certa vantagem na briga, e que a única forma de Percy vencer (e eu ser poupada da tortura de ir numa missão sozinha com o Matt e o Will) era se eu interferisse. E foi o que eu fiz:
– Eu não vou. – disse, e todos olharam par mim – EU NÃO VOU. – repeti, gritando, dessa vez – SE FOR PARA IR SEM PERCY, EU NÃO VOU.
Percy tinha uma expressão que misturava satisfação e "eu te avisei", e Matt estava pasmo. Quíron não pareceu muito surpreso:
– Como? – ele perguntou.
– Eu só vou se o Percy for junto.
Assim, Quíron se virou para Matt, dizendo:
– Matt, parece que eles estão bem determinados, e eu não posso forçar nenhum dos dois a ir. Bem, pelo menos eles não podem ser arrastados e, na verdade, Percy e Annabeth já passaram por muita coisa e existem muitas outras pessoas ansiosas para saírem do Acampamento. Mas é você que escolhe: Percy e Annabeth, ou Will e alguém mais.
Matt refletiu por um tempo, antes de nos encarar e sorrir sem humor. Sua expressão dizia tudo: "aceito o desafio".
– Certo então, — ele disse – os salvadores do Olimpo vêm comigo.
E, deixando o tom irônico no ar, se virou e saiu sem dizer mais nada.
– Então, — disse Quíron, como se nada tivesse acontecido – vocês saem amanhã de manhã.
Depois disso, fomos obrigados a voltar para os nossos chalés, e assim que eu fiquei sozinha com Percy, o silêncio se instalou. Muita coisa havia acontecido naquela noite, e eu queria acreditar que era só atuação.
Fomos andando para os chalés, sem falar nada. Quando estávamos chegando perto, resolvi dizer alguma coisa:
– Percy, eu só queria dizer que...
– Sério, não precisa dizer nada, Annabeth.
– Bem, é só que... Situações extremas pedem por medidas desesperadas, não é mesmo?
– Como assim situações extremas?
Nós tínhamos chegado na porta do chalé de Atena, mas havíamos parado para conversar:
– Ué, naquela hora, você tava lá falando com as meninas de Afrodite e...
Ele me olhou com uma cara estranha, como se dissesse que ele não via o problema, então eu resolvi me justificar:
– E eu nem teria feito nada, mas o Matt veio falar comigo e aí eu não podia ficar só parada olhando.
A expressão dele se atenuou.
– Ah, claro. – ele disse – Eu entendo. E foi mal, eu nem me toquei que...
– Você não fez nada de errado, Percy. – interrompi, calmamente – E muito obrigada por ter armado aquele barraco todo pela missão. – falei, corando e olhando para o chão.
– Ei, — ele disse, levantando meu queixo e me obrigando a encará-lo – nós trabalhamos melhor juntos, não é mesmo? E não é culpa nossa sermos tão bons atores!
Com isso, ele conseguiu me fazer rir.
– É mesmo, a gente devia ganhar um Oscar. – falei, me afastando um pouco. – Boa noite, Cabeça de Alga. – eu completei e lhe dei um beijo na bochecha, antes de ir em direção ao chalé, deixando um Percy Jackson perplexo e boquiaberto atrás de mim.
Não pude deixar de dormir com um sorriso no rosto.
Ainda estava escuro quando eu acordei. As cortinas estavam fechadas, e não permitiam a entrada de nenhum tipo de luminosidade. Com cuidado, tateei à procura do relógio na minha mesa de cabeceira. Quando finalmente o encontrei, aproximei o aparelho do rosto, tentando enxergar os números. Depois de algum esforço, identifiquei o que parecia ser 04:28.
COMO ASSIM? Que tipo de pessoa acorda às quatro e meia da manhã, completamente sem sono e achando que poderia comer algo como 10 panquecas?
Suspirando, coloquei o relógio de volta no lugar e me virei para o outro lado, sabendo que seria uma tentativa inútil de dormir de novo.
Então percebi o que estava me incomodando tanto a ponto de me fazer acordar sem sono às 04:28 da manhã: Percy.
Bem não exatamente Percy, mas o que tinha acontecido na noite anterior. Eu sei que ele disse que tudo não passou de atuação, e eu também só agi daquela forma devido às circunstâncias, mas... Tudo pareceu tão mágico e certo, como se finalmente as coisas estivessem em seu devido lugar. E também, era o máximo o que o Percy estava fazendo por mim, e ele era tão corajoso, e divertido, e, santa Atena, aqueles olhos...
AI MEUS DEUSES! ANNABETH CHASE, O QUE VOCÊ QUER DIZER COM ISSO? , gritou uma vozinha irritante na minha cabeça.
E foi aí que a realidade me atingiu em cheio.
Não, não, não, não! Isso não podia estar acontecendo. Por favor, não. Ah, Deuses. O pior é que era bem possível, considerando tudo o que nós já passamos e...
Depois disso eu entrei em um tipo de transe. Como nesses filmes em que o protagonista tem vários flashbacks dos momentos importantes da sua vida, numa linha do tempo. Foi exatamente assim.
Primeiro foi uma vez em que estávamos na nossa primeira missão, o ônibus tinha acabado de explodir.
– Todo o nosso dinheiro ficou lá atrás. – Percy lembrou – Nossa comida, nossas roupas. Tudo.
– Bem, quem sabe se você não tivesse decidido entrar na briga...- falei.
– O que queria que eu fizesse? Deixasse vocês serem mortos?
– Você não precisava me proteger, Percy. Eu ia ficar bem.
– Fatiada como pão de forma – interveio Grover -, mas bem.
– Cale a boca, garoto-bode. – falei, encerrando a discussão.
Grover baliu, triste.
– As latas... Uma sacola de latas perfeitamente boas...
Depois de alguns minutos de silêncio, fui para o lado de Percy.
– Olhe, eu... – minha voz vacilou enquanto eu pensava no que estava prestes a admitir – Eu gostei de você ter voltado para me defender, o.k.? Aquilo foi realmente corajoso.
– Somos uma equipe, certo?
Também teve aquela discussão logo depois que derrotamos a Medusa...
– Ah, então a culpa de termos encontrado a Medusa é minha? – ele falou, revoltado.
Em uma imitação que sabia ser péssima da voz dele, mas que com certeza o deixaria irritado, eu disse:
– " É só uma foto, Annabeth. Qual é o problema?"
– Deixa para lá. – ele respondeu – Você é impossível.
– Você é insuportável.
– Você é...
– Ei! – interrompeu Grover – Vocês dois estão me dando enxaqueca. E sátiros nem têm enxaqueca. O que vamos fazer com a cabeça?
Lembrei daquela noite no caminhão do zoológico...
– Então, se os deuses brigarem – ele falou -, as coisas vão ficar como na Guerra de Troia? Será Atena contra Poseidon?
Encostei a cabeça na mochila que Ares nos dera e fechei os olhos. Eu entendia a curiosidade dele, mas eu mesma já havia pensado muito nisso e não havia chegado a uma conclusão.
– Não sei o que minha mãe vai fazer. – respondi, enfim – Só sei que vou lutar junto com você.
– Por que? – ele perguntou. Deuses, como esse garoto era lerdo.
– Porque você é meu amigo, Cabeça de Alga. Mais alguma pergunta boba?
Depois disso teve aquele dia que nós fomos parar na ilha de Circe, e ela o transformou em um porquinho-da-índia...
Circe saiu correndo da sala, perseguida pelos piratas.
Eu embainhei minha faca e olhei para o Percy, graças aos deuses em sua forma humana. Ele pareceu constrangido e começou a balbuciar alguma coisa:
–Obrigado... Realmente, sinto muito...
Eu o interrompi com um abraço, me afastando com a mesma rapidez.
– Estou feliz por você não ser um porquinho-da-índia.
– Eu também.
Ri internamente da vermelhidão no rosto dele, mas deixou de ser engraçado quando percebi que eu não estava muito melhor.
– Venha, Cabeça de Alga. Precisamos dar o fora enquanto Circe está ocupada.
E também lembrei daquele dia na Westover Hall, quando encontramos Nico e Bianca...
– Ei! – chamou Thalia – Dancem, vocês também! Parecem idiotas aí parados sem fazer nada.
Eu esperei que ele me "convidasse" para dançar, mas ele só ficou olhando para mim e para as outras garotas no ginásio.
– E então? – perguntei, impaciente.
– Hã, quem eu devo tirar para dançar?
Pelos deuses, como alguém conseguia ser tão lerdo assim? Típico Cabeça de Alga. Dei um soco em sua barriga:
– Eu, Cabeça de Alga.
– Ah. Ah, está bem.
Claro que a minha mente não podia deixar de lado o dia em que eu havia conhecido Rachel... Graças aos deuses ela tinha se tornado mais legal, com o tempo...
Eu estava chegando na Goode High School para me encontrar com o Percy. Nós iríamos ao cinema, e era a primeira vez que eu o via em muito tempo. Eu mal podia esperar.
Paguei ao motorista e saí do táxi, indo até a viela ao lado do colégio. Estava tão envolta em meus pensamentos que nem percebi o prédio pegando fogo ao meu lado.
De repente, Percy pulou pela janela na minha frente, e teria caído de cara no chão se eu não o segurasse pelos ombros:
– Ei, você saiu cedo! – falei, ainda de bom humor – Olhe para onde está indo, Cabeça de Alga.
Por um segundo, tudo parecia bem. Até que uma garota ruiva vestindo jeans desbotados e rabiscados de caneta veio correndo pela rua, coberta de poeira de monstro e gritando:
– Percy, espere!
Só então eu olhei para a escola e percebi que estava em chamas, alarmes de incêndio tocando desesperadamente. Mas, por algum motivo, o que mais me incomodou foi aquela garota correndo na direção de Percy como se eles fossem melhores amigos.
Meu sorriso se desfez na hora, e eu olhei mal-humorada para o filho de Poseidon:
– O que você fez dessa vez? E quem é essa?
Em seguida pensei no dia em que ele havia voltado para o Acampamento depois de explodir o Monte Santa Helena...
Eu simplesmente não conseguia parar de chorar. Não podia acreditar que estávamos queimando a mortalha de Percy. Eu não queria acreditar que ele estava morto. Mas já havia duas semanas que ele tinha desaparecido.
Tentei conter as lágrimas por um minuto e subi no palco do anfiteatro para ver se conseguia falar alguma coisa.
– Ele provavelmente foi o amigo mais corajoso que já tive. Ele... – eu comecei a dizer, mas então o vi. Ele simplesmente apareceu ali no meio da plateia. Uma felicidade indescritível tomou conta de mim, até que eu corei por perceber que ele havia ouvido o que eu disse. Mas eu não conseguia conter a alegria – Ele está ali!
Todos se viraram para ver o filho de Poseidon parado ali, e começaram a se amontoar ao redor dele.
Desci correndo e atravessei a multidão o mais rápido possível.
Fui chegando perto e pude ouvir Quíron dizendo:
– Bem. Não creio que já tenha me sentido tão feliz com a volta de um campista. Mas você precisa me dizer...
E então eu interrompi, raiva, felicidade e alívio se misturando dentro de mim:
– ONDE VOCÊ ESTAVA?
No fim, a alegria por vê-lo venceu, e eu o abracei com toda a força. Todos fizeram silêncio, e eu me afastei, percebendo que estava meio que fazendo uma cena.
– Eu... nós pensamos que estivesse morto, Cabeça de Alga!
– Desculpem-me. – ele respondeu – Estava perdido.
– PERDIDO? – gritei novamente – Por duas semanas, Percy? Em que raios...
– Annabeth – Quíron me interrompeu – Talvez devêssemos discutir isso em um lugar mais discreto, não?
A última coisa que eu lembrei foi do dia em que eu levei aquela facada por ele. Mas não do momento em que eu me machuquei, e sim do que aconteceu depois disso...
Meu corpo todo doía. A dor irradiava do meu braço e se espalhava. Minha visão estava embaçada e eu não conseguia distinguir tudo o que estava acontecendo. De alguma forma eu sabia que Percy e Silena estavam discutindo sobre ela tentar convencer Clarisse a lutar, mas as palavras se misturavam na minha cabeça.
Com o braço saudável, peguei o copo de néctar da banquinha ao meu lado e tomei alguns goles. Quase instantaneamente minha visão e audição melhoraram e eu pude entender o que eles diziam, mas meu corpo continuava queimando de dor.
Pude ouvir Silena implorar para ir ao Acampamento falar com Clarisse enquanto a dor melhorava um pouco e eu comecei a raciocinar melhor.
Percy olhou para mim, em busca de uma confirmação de que ela poderia ir, e eu assenti.
– Muito bem. – ele disse – Não consigo pensar em ninguém melhor para tentar isso.
Silena o abraçou. Depois, afastou-se, constrangida, olhando para mim, e disse:
– Hã, desculpe. Obrigada, Percy! Não vou decepcioná-lo!
Por que Hades ela estava se desculpando? Esses filhos de Afrodite...
Assim que ela saiu ele se abaixou e colocou a mão na minha testa, checando minha temperatura.
Ele não disse nada, como se não quisesse que eu percebesse que ele estava preocupado. Mas é claro que eu notei, então não pude deixar de provocá-lo:
– Você fica uma gracinha quando está preocupado. – minha voz saiu fraca – Suas sobrancelhas ficam juntas e franzidas.
– Você não vai morrer e me deixar lhe devendo um favor. – ele respondeu – Por que levou aquela facada?
– Você teria feito o mesmo por mim.
Não sei como meu cérebro desesperado pelo fato de eu gostar de Percy Jackson conseguiu dormir, mas o fato é que em algum momento, ele conseguiu; e a última coisa que eu me lembro é de ter percebido o quanto aquelas lembranças eram especiais.
"What if we were made for each other?
Born to become best friends and lovers?"
What if?- Colbie Caillet
1 Não sei se algum de vocês percebeu, mas isso é uma referência a uma parte de Jogos Vorazes, depois que Prim é sorteada para a colheita, em que Katniss pensa "Mas é claro que, ultimamente, as probabilidades não andavam muito confiáveis." Se perceberam, me digam =) (hehe yaaaay tributoooss)!
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