E se... - Ernesto e Ema
4 Capítulo 4
Notas iniciais
No dia seguinte na mesa do café a única conversa era a entusiástica do Barão, que depois da milésima queixa de dor de cabeça, volta e meia, não ciente do que causara, mencionava Ernesto.
— O maldito Carcamano tem mesmo o poder de persuasão. — dizia ele. — Vou lhe contar algo que já me arrependi, mas que com certeza irá alegrá-la, minha queridinha. — Ema baixou a xícara de seu café e mirou o avô, tentando disfarçar a expectativa. — Irei ao Vale. — ele suspirou, antes de continuar, parecendo pesaroso. — Não devia isso contar como promessa por causa do alto teor de álcool em meu organismo quando a fiz... melhor, quando fui induzido covardemente a fazê-la, mas o maldito italiano tem lábia, me fez jurar a Aurélio que eu lhe faria uma visita, para rever a fazenda! — o Barão pareceu pensar, em seguida bateu o punho na mesa. — Eu deveria matar aquele comunista dos infernos!
Ema tentou segurar o riso, o coração tão alegre quanto podia pela circunstância.
— E quando pretende fazer a tal visita?
— O seu pai e a víbora voltam para o Vale amanhã. — ele ficou vermelho, como se aquilo fosse realmente algo horrível de se dizer. — Irei com eles. – suspirou novamente, resignado.
Ema alargou o sorriso.
— Será muito bom para o Senhor vovô, tenha certeza disso!
— Sei, sei... isso se eu não morrer envenenado por lá!
Um minuto de silencio, sucedeu.
— Por que Estilingue não veio com você, Tenória? — perguntou Jorge, finalmente baixando do rosto o jornal que fingia ler.
— Ele ficou no cortiço, entretido com... — ela pigarreou. — com um torneio de futebol que estavam organizando por lá!
Ema logo entendeu que Tenória também falava de Ernesto embora diferisse do barão e tinha ciência que aquele terreno era perigoso.
—Bom, pelo menos ele se distrai — foi o último comentário do advogado antes de sair para o trabalho.
~
O dia se arrastara pesarosamente calmo, e Ema tinha um medo e uma certeza de que a qualquer momento poderia cair na pasmaceira em que se encontrava antes do anúncio do casamento de Elisabeta. E outra certeza ela tinha de que o único que a impedia de já tê-lo feito era o seu interior agitado por causa da presença tão próxima, mesmo que ainda distante de Ernesto.
De braços cruzados desfilava pela sala para lá e para cá, pensara diversas vezes em ir ao cortiço, passar só pela frente, teria a desculpa de ter ido para ver Estilingue; mas obvio que era só pensamentos intrusos, ela sabia que jamais se atreveria a tanto. Talvez se sua coragem tivesse sido cultivada desde que fora plantada há sete anos, mas não, nos últimos seis não teve mais que usá-la com tanta impetuosidade e parecia ser confortável assim.
O almoço viera e trouxera Aurélio e Julieta, Ema se animou um pouco mais em ver a tão boa disposição da madrasta em ignorar as rabugices do avô, insistindo, quando o assunto era retomado que seria um enorme prazer hospedá-lo na Ouro Verde. Aurélio também tentava uma aproximação do pai, e apesar dos dramas e patadas recorrentes do Barão, Ema percebia que este estava menos arredio em direção ao filho. E inevitavelmente Ernesto voltara a sua mente, como ele havia conseguido? O que tinha dito a seu avô para levá-lo, mesmo que um pouco, a baixar a guarda? E Ema tinha certeza que a partir de então era só uma questão de tempo para tudo voltar à paz em sua família, o coração de súbito enchendo-se de uma esperança que ela creditava apenas a retomada da boa relação entre o pai e o avô.
Depois do almoço Jorge voltara ao escritório, e os convidados tomavam licor na sala quando o Barão saltou com uma ideia.
— Por que não vem conosco, minha querida? — perguntou a ela, com os olhos já suplicantes.
—E-eu?
— É uma ótima ideia! — emendou Julieta, sorrindo para ela, o Barão estalou a língua por certo creditando a aprovação de Julieta a sua ideia apenas com interesse de bajulá-lo, porém Ema conhecia suficiente a madrasta para saber que não fora aquela sua intenção, Julieta realmente prezava sua companhia. — Há quanto tempo não vê o Vale? E a Ouro Verde, que sei que lhe é muito querida?
O pai e Julieta não habitavam a fazenda, mas eles haviam recomprado a propriedade de Lorde Williamson na esperança de persuadir o Barão às boas relações com eles novamente, o imóvel estava no nome de Ema como num acordo entre as partes.
— E-eu não sei se devo me ausentar agora, além do mais nem tratei com Jorge a respeito.
— Ora, tenho certeza que ele não se oporá — disse Aurélio já um tanto entusiasmado em ter a presença tão sempre agradável da filha por perto, a saudade era dolorosa demais para ele. — Por que se oporia? Soube que você passara o mês em polvorosa com os preparativos do casamento, um descanso no campo é mais do que bem vindo!
Ema sentiu-se tentada a se animar com a ideia, amava o Vale, mais ainda a fazenda Ouro Verde, precisava de descanso e certa distancia do clima tenso que instalara-se em sua casa. Mas, ao mesmo tempo algo a refreava, e ela tinha a impressão que não era sobre o marido. Ernesto estava na cidade, se ela fosse para o Vale perderia a oportunidade de vê-lo novamente, e talvez exatamente por isso decidiu que iria sim com a família. Não podia, de forma alguma, continuar pensando em Ernesto daquela maneira.
À noite, depois do jantar consultou Jorge sobre a solicitação, este se mostrou um tanto incomodado com a ideia.
— Está querendo mesmo afasta-se de mim, não é? — perguntou ele, com um sorriso melancólico.
— Ora, Jorge, não é nada disso. — defendeu-se, afastando-se de seu olhar. — Apenas é uma ótima oportunidade para eu incentivar a reaproximação de meu pai e meu avô, agora que ele está mais propenso a ceder.
Ema viu o olhar astuto e contrariado de Jorge num momento, ambos estava cientes do responsável por tal mudança de pensamento do Barão, mas ignoraram mutuamente, pelo menos em palavras.
— Eu não poderei me ausentar de São Paulo agora. — comentou ele, Ema tentou manter-se impassível ante essa revelação que ela já conhecia. — E não me agrada a ideia de está longe de você.
Ela suspirou. Jorge não podia pensar o quanto a vida estava sendo pesada para ela e que ela precisava sim de descanso?
— Eu lamento, meu querido. Mas, eu ficaria, muito feliz... obviamente não com nosso afastamento, mas em poder ser um tanto de ajuda para que meu pai e meu avô voltem a se entender. Além do quê, realmente tenho saudades da fazenda.
— Eu sei disso.
Ele a olhou, viu os olhos dela suplicando e a vontade mais que presente de ir com a família. Pensou também que indo Ema se afastaria dele, mas também se afastaria da presença de Ernesto que ele não sabia por quanto tempo ficaria na cidade. Assim sendo, permitiu sem mais delongas a viagem da esposa.
O que Jorge não sabia e Ema esquecera no momento era que Ernesto tinha amigos em São Paulo, mas também os tinha no Vale e mais que isso, além de amigos tinha negócios lá.
(...)
Fale com o autor