Notas iniciais
Reencontros...

A viagem e a chegada, tudo para Ema era bucólico, era saudade e reconhecimento. ​Ah... Aquele sim era seu lar!

Desembarcaram na casa de Julieta, enquanto um criado era mandado a Ouro Verde com a ordem de preparar tudo para hospedar o Barão e Ema. E ela não esperou muito, depois do almoço já saíra para explorar o seu tão amado Vale do Café. E por certo não sabia explicar como seus pés a levara até a cachoeira. ​

Sentou-se numa das pedras da margem... Deus! Parece que foi em outra vida! Sentiu-se num sonho. Pensava em tudo e em nada ao mesmo tempo. Tão dentro e tão fora de si, tão atenta e tão dispersa.

— Saudades?! — A voz grossa e intensa sussurrada em seu ouvido, arrepiou-lhe até a espinha e a fez saltar, se pondo imediatamente de pé. Virou-se, mesmo sem precisar fazer para saber quem estava com ela. Ele, porém, havia se sentado despreocupadamente na pedra e tinha um sorriso envaidecido na face.

Ela precisou de, talvez, um minuto para encontrar a voz, um minuto onde só pôde observá-lo.

— O-o que faz aqui? — a voz ainda vacilou.

— Aqui na cachoeira? Ou aqui no Vale? — Ernesto perguntou alçando uma das sobrancelhas, sorrindo, provavelmente do embaraço dela. E era fato que Ema se sentia uma jovenzinha novamente.

— No Vale. — respondeu, sem nem ao menos saber o que tinha falado.

— Negócios.

— Negócios?!

— Negócios! Você não sabia que agora eu sou praticamente um fazendeiro... mesmo que a distancia!

Sim, ela sabia; embora tenha esquecido ou talvez sua mente não lhe deixara lembrar para, simplesmente, atrapalhar seus planos de "fugir" dele.

Quando Ernesto partira, fora com destino à Itália, “entrão” como era logo já tinha um emprego, depois já tinha subido de cargo, com os anos tinha arrecadado um bom dinheiro, dinheiro esse que mandara para a família para que comprassem um grande pedaço de terra na região e passaram a produzir Café. Ernesto tinha seus contatos na Itália, e assim se dava o negócio: comercializava direto com compradores italianos; e então, Ema podia dizer que, se ele não tinha enriquecido estava as portas de fazê-lo.

— Não entendo porque continua na Itália, então... se o andamento de seus negócios estão aqui! “É o olho do dono que engorda o gado” – ela deu de ombros. – Pelo menos é o que dizem. — comentou o que seu cérebro se perguntava desde que tomara conhecimento das empreitadas dele.

— Lá é mais cômodo, mais confortável — viu o olhar dele perder por um momento a jovialidade. — Mais seguro!

O coração dela doeu, insistindo que a distância dele era por sua causa. Simplesmente tornou a sentar. Lado a lado eles miravam a cachoeira. Um silêncio por um momento confortável; confortável como Ema há muito não se sentia. Depois, como se dessem conta que seis anos estavam entre eles, inquietaram-se. ​

— E a senhora? — Ela percebeu que ele frisara impertinente o título. — O que a trás aqui?

— Meu avô está mais propenso a fazer as pazes com o meu pai, vim para garantir que assim o seja. Na realidade, — ela lembrou-se. — creio que devo agradecer ao senhor esse passo. Há anos a fio venho tentando, nem que seja uma insinuação de que meu avô pudesse rever o seu mal estar com papai e Julieta, e nada! Porém o senhor me aparece e em uma noite consegue tal mudança. Posso perguntar o que disse a ele?

Ernesto sorriu.

— Nada de muito esforço, porém extremamente valioso. — respondeu displicente. — E ouso dizer que o vinho ajudou um pouco a avivar antigos sentimentos na cabeça frenética do nobre Barão. Você bem sabe que tudo o que o separava de seu pai, não era por si magoa e sim orgulho.

Ele esqueceu-se de usar o “senhora” ela pensou e sorriu; depois tomou ao raciocínio dele que ela admirou pela perspicácia.

— Sim, de fato, acredito que sim.

— E com orgulho eu sei lidar. Tanto para o bem tanto para o mal. Sei à hora de fazer o orgulho ceder, assim como sei à hora de fazê-lo imperar.

Ema sempre admirara a maneira incisiva de ele pensar, sempre a achou imprudente era fato, porém, podia admitir, mesmo que apenas para ela mesma agora que tinha um pouco mais de maturidade, que sempre o considerou inteligente, ao contrário do que sempre dizia a ele. E ao que vira naquele minuto de conversa ele continuava assim, e podia dizer que ele amadurecera sua ferrenha personalidade.

— No caso de seu avô, orgulho lhe fazia extremo mal. — continuou ele. — Ele aparentemente se deu conta do que estava perdendo com isso. Não foi difícil, o Barão pode ser um homem egocêntrico, mas até ele sabe que precisa de sentimentos alheios para durar um pouco mais de tempo nessa maldita vida. E sem querer ofender, Baronesinha, parece que só os seus nobres sentimentos não estavam sendo suficiente para ele.

Ema estreitou os olhos. Ernesto não podia evitar cutucá-la, então ela sorriu em seguida, aquilo a deixou feliz e não irritada como parecera no principio; e mais ainda quando o coração deu um solavanco tardio pela percepção do apelido que ele usara.

— Mas, deixe-me refazer melhor minha pergunta: — a voz dele a tirou de seu estado de contentamento. — O que a trás aqui, a cachoeira? — ele alçou as sobrancelhas, malicioso para ela.

Ema engoliu a seco, fechando o sorriso, sentindo o constrangimento ao mesmo tempo em que a calor no peito.

— E-eu.. Eu... — odiou gaguejar, odiou a desordem de seus pensamentos, odiou ter ido ali.

Ele sorriu.

— Saudades? — repetiu a primeira pergunta que havia a feito.

Ema agitou-se e levantou novamente.

— O senhor continua o mesmo inconveniente de sempre! — ralhou ela, corada.

— Sim, continuo a exata mesma pessoa, pode acreditar!

— Não duvidaria nem por um segundo. — ela bateu a saia do vestido com as mãos. Essa era a deixa para virar-se ir, afastar-se dele em direção a segurança da casa de Julieta, porém, não conseguiu dar um passo sequer. Ela o encarou, talvez esperando outra resposta atrevida.

— Não vejo porque tanto espasmo! — ele disse por fim. — Não tem saudades da cachoeira? Da paz que esse lugar trás automaticamente? Pois, meu Deus... Eu sinto muita falta disso! — ele fechou os olhos e aspirou fundo o ar. ​

​Ela queria fazer o mesmo que ele, mas sabia que ele estava a provocando. Estreitou os olhos novamente e bufou. ​

Ernesto sorriu, abriu os olhos e levantou-se.

— Está bem, perdoe-me então pela minha... — ele pareceu pensar — antecipação de seus sentimentos. Mas, realmente estou curioso, o que...?

— Eu estava apenas revendo o Vale! – grunhiu ela, por fim. — Faz tempo que não venho e quis...

— Matar as saudades! – ele sorriu, vitorioso.

— Arre! — ela agitou-se ainda mais, dessa fez virou-se para ir, porém sentiu seu cotovelo ser agarrado, e o choque que a pele dele sempre causara nela fora intenso e a fizera paralisar, o coração arremeteu no peito... Deus! Era realmente essa a palavra: saudades!

Continuava de costas para ele, porém sentia a respiração pesada em sua nuca, arrepiando-a. Estremeceu quando a voz alcançou sussurrada e rouca em seus ouvidos.

— Continua uma fujona, não é? — ela fechou os olhos, os lábios secaram. — Parece que não mudou tanto também.

Ema não tinha condições de nada, estava estatelada. Ele a contornou parando em sua frente, e ela odiou que ele tivesse feito, pois todos os seus sentidos estavam concentrados em controlar suas emoções e perdiam miseravelmente; por certo não era uma visão que seu orgulho gostaria que ele presenciasse.

— Olhe para você... — ele disse, a voz no mesmo tom.

E ela, inevitavelmente, imaginou como estava naquele momento: Olhos fechados, respiração descompassada, corada, tremendo. Deus, que seu orgulho realmente a perdoasse! Um silêncio se seguiu, e fora tão longo que Ema sentiu a necessidade de abrir os olhos para entender o que estava acontecendo. Ernesto a mirava, e ela não gostou do que vira em seus olhos, não era ódio, não era mágoa, era... pena! Nunca se sentira tão miserável que naquele momento, sob aquele olhar dele. Os dela marejaram.

— Minha Baronesinha! — ele sussurrou, e ela teve a impressão que ele não falava com ela e sim com ele mesmo. Ele afagou-lhe o rosto, enxugando a lágrima solitária que descia por sua bochecha. — Ah, Ema o que você fez? — Ela simplesmente deu de ombros, não tinha resposta. Ele ainda a mirou por mais um tempo, a torturando com aquele olhar que ela não conseguia desprender-se, pois apesar de tudo eram os olhos dele. Depois, no outro momento ele agitou a cabeça como se espantando os próprios pensamentos — Eu tenho que ir. — Ema assustou-se quando ele se afastou. — Tenho que ir. — repetiu.

— Ernesto...

— Agora é hora do orgulho imperar, Baronesinha! — ele afastou-se ainda mais, como se ela realmente fosse um perigo eminente. — Adeus!

Ele virou-se e partiu. Ela o acompanhou com os olhos, até ele sumir na mata.

Ema só ficou ali até recuperar seus sentidos, e em seguida voltou apressada para casa, não querendo pensar em absolutamente nada. Apenas preso em frente de sua mente o olhar de piedade dele.

Julieta apressara o jantar aquela noite, para que Ema e o Barão pudesse seguir logo para a Ouro Verde para enfim descansar da viagem. E ela notara que a enteada realmente precisava de repouso. Ema parecia mais que exausta, Julieta era perspicaz para entender, que ela estava abalada. Tentou puxar a conversa minutos antes de sentarem-se a mesa, mas Ema parecia cansada até para falar, então não insistiu. E por fim depois do jantar a carruagem os levara até a fazenda.

Ema sentiu o coração aquecer quando entrou na casa, e pular quando adentrou seu antigo quarto, pois a primeira coisa que viu foi o seu primeiro beijo. Afugentou o pensamento. Percorreu cada milímetro quadrado do aposento, cada um contendo uma lembrança doce de sua infância e de sua juventude, parou de frente a cama, e ele assaltara sua mente novamente. Dessa vez ela sorriu, Ernesto foi o primeiro e único homem que compartilhara aquela cama com ela, estremeceu ao pensamento. Deitou-se, agarrando-se aos travesseiros. Naquela noite ele dissera que mandaria lavar e bem quarar os lençóis para tirar seu cheiro deles, e naquele momento ela só conseguia pensar que daria tudo para senti-lo ali. Adormeceu então, assim mesmo, de roupa de viagem e grampos no cabelo, sem força para levantar novamente, o choro do arrependimento era bem mais forte que ela.

(...)

Notas finais
Ai, ai meu Erma... Anos se passaram e parece que quase nada mudou!! O que acharam?? Sedenta por saber... ;) Xero e até o próximo! PS: Sem afobação, gente! Levem em conta a situação, please! Se puderem, curtam cada pedacinho de momento desse reencontro de seis anos.