E se...

2 E se... eles não forem amigáveis


Notas iniciais
A inspiração para fazer o segundo capitulo veio mais cedo do que eu pensava. E o cap. ficou grande o bastante para eu pensar em dividir em duas partes. A principio havia divido, mas como pessoas são propicias a esquecerem das continuações as vezes, resolvi deixar tudo unificado pra vocês ♥ Ah e há um link com a imagem do Pokémon em questão no final da história (que eu recomendo você ver só quando chegar no final da história)

Lembro-me da primeira e também da ultima vez que eu o vi, um garoto feliz e entusiasmado que corria pelo grande quintal de sua casa. Casa que era, desagradavelmente e infelizmente, perto de minha toca. Todos os dias, meu bando e eu, acordávamos com um terrível aroma impregnado em nossas narinas. Aquele cheiro doce irritava a todos meus irmãos de jornada.

Todas as manhãs, assim que a família de humanos acordava, era acordado pelo horrível odor e, então, saía para observá-los. Eram um grupo pequeno, apenas quatro integrantes, sem contar o cão, sendo que dois ainda não estavam perto de atingir o estado de amadurecimento, ainda não tinham evoluído totalmente. As crianças, eram assim que eram chamadas, sempre estavam a correr no quintal, pelo menos enquanto eu as observava, escondido nos arbustos. Mas dentre as duas, o que me chamava maior atenção, era o que gritava mais alto e perturbava a paz de meu bando.

Aquele grupo de Humanos tinha feito morada em nossas terras, há pouco tempo. Mas sua estadia já começava a incomodar. Como se não bastassem aqueles aromas doces e enjoativos, eles eram barulhentos. Os pequenos gritavam no quintal, o cachorro latia e, dentro da casa, objetos emitiam sons agonizantes para meus ouvidos e de do resto do bando. Nós havíamos chegados naquelas terras antes, mas os humanos pareciam se importar com esse fato. Isso me irritava.

Sempre os observei, até que resolvi me aproximar deles, o escolhido pra meu primeiro contato fora o filho mais velho. Era noite. Uma noite sem luar e estrelas para iluminar o céu, nenhum rastro do brilho celeste, uma noite perfeita para fantasmas. O quarto do rapaz estava completamente engolido na escuridão, a pequena luz, que servia como única fonte de iluminação, dera um "repentino" curto e queimara.

Eu me mantinha ali, parado, sem fazer nenhum barulho ou som, apenas olhando. Meu grandes olhos fitavam o rapaz e ali fiquei, perto da cabeceira da cama, com os pés apoiados no chão, era um local perfeito. Por algum motivo não conseguia controlar meu sorriso, parecia que nem mesmo o zíper dourado seria capaz de contê-lo; mas fora, sempre era. Mas em um momento o garoto tinha que acordar e isso acontecera mais cedo do que previa.

Os latidos do cachorro podiam ter sido uma das razões que levou a criança a acordar. Aquela criatura quadrupede parecia saber que eu estava ali, latia desde o momento que eu chegara, mas os humanos eram tolos demais para se importarem com o motivo que o cão não parava de latir, apenas queriam dormir. O rapaz, que já estava acordado e olhando pra mim com grande espanto, ficou espantado e assustado, mas não entendi o porque daquilo. Estava com um sorriso tão "amigável" em minha face. Não havia necessidade de agir como ele. Correr até os pais, chorando e gritando “monstro”, não era uma das melhores maneiras de receber um visitante.

Quanto voltou para seu quarto, segurando a mãe de sua mãe, o ambiente era de total calmaria, se não fosse pelos malditos latidos do cão. A mãe apenas sorriu e mostrou para o garoto que nada havia ali, parecia pensar que aquilo tudo era uma desculpa, para voltar a dormir com os pais. Todavia ela não checara onde realmente importava, debaixo da cama. Aquele canto escuro e que, por algum motivo, ela nunca olhava.

O mesmo evento se repetiu durante uma semana, com apenas uma única diferença: não havia mais latidos a noite e muito menos o causador destes, o cachorro. Quem diria que, um animal tão "inteligente" fosse capaz de cair do desfiladeiro ali perto. Pobre animal... pelo menos era menos um ser vivo para me atrapalhar.

A cada noite que eu ficava ali, perto da cabeceira da cama, observando o rapaz, ele escolhia e se escondia nas cobertas. Talvez, fosse por medo dos alfinetes que perfuravam meu corpo, mas eles me serviam como recordação, não podia me livrar deles. Além do mais quem os tinha cravados em sua pela era eu e não ele. Quem sentia a dor era eu e não ele. Não havia motivos para se incomodar com aquilo.

Talvez, fosse medo se meus remendos, que eram numerosos e existentes em todo o meu corpo, mas infelizmente não tinha habilidade de cicatrização como os humanos, os remendos eram minha salvação. Sou apenas um boneco de pano o qual a dona não ama mais e por obra do "destino" ganhou vida. Um boneco sem boca, apenas com um zíper no local, mas que ainda conseguia esboçar meus sorrisos de alegria por ver a criança ali.

Não importava o clima, toda a noite eu estava ali naquele quarto. Meus olhos vermelhos brilhavam na escuridão e atraiam a atenção do garoto, mesmo ele não se agradando com isso e sempre choramingando, para alguma divindade qualquer. A mãe não atendia mais os pedidos do filho, ela dizia que ele já estava "grandinho" demais para ainda acreditar em monstros, uma completa tola. Até mesmo removera a pequena luminária que irritava tanto meus olhos, para a minha felicidade.

Enquanto eu mantinha meus olhos focados na criança, ela mantinha os delas no meus. Parecia, depois de uma longa e turbulenta semana, ter criado coragem para, finalmente, me enfrentar. Se eu tivesse um coração pulsando dentro de mim, certamente estaria batendo mais forte, após ver aquilo. Naquela bela noite, também sem luz do luar, não houve fugas para debaixo dos lençóis, gritos ou corridas desesperadas atrás de seus pais. Ele simplesmente nada fez, apenas ficou ali me olhando. Mesmo enquanto eu apoiava minhas mãos na cama, para subir na mesma, ele apenas me olhava.

Naquela noite ele dividiu seus melhores sonhos comigo e eu os degustei com grande prazer e satisfação. Fazer aquilo renovava minhas energias. Após a apreciação dos sonhos do rapaz parti em direção da saída, ele estava dormindo, parecia estar sem energias. Todavia, antes de sair completamente do quarto, lembrei de algo. Retirei um alfinete de meu corpo e espetei em seu corpo, apenas para obter um pouco de seu sangue e em seguida voltei a colocá-lo em meu corpo. Vi o garoto mexer a cabeça em agonia, mas aquilo não era nada demais. Me retirei do quarto de meu garoto.

Na manhã do dia seguinte, eu e meu bando, acordamos com o mesmo aroma enjoativa de daquela comida matinal que a mãe humana sempre fazia. No entanto... havia som de uma criança a menos no quintal, o caçula estava sozinho. Meu garoto não estava ali, parecia não estar bem para brincar com seu irmão, só de pensar nisso... um grande sorriso se abria em meu rosto. Ele não precisava de mais ninguém, além de mim. Eu poderia brincar com ele e fazê-lo feliz.

A noite não foi diferente. Visitei ele, como fazia sempre. Estava da mesma maneira que o tinha deixado na noite anterior, com apenas algumas exceções. Seus olhos, agora estavam abertos e ele piscava raramente, parecia temer algo quando fechasse os olhos, e ao tocar sua pele podia notar como ela era fria. Também tinha constantes espasmos de dor . Fora isso, estava bem. Quando parei perto de sua cabeceira, sua cabeça se deslocou, lentamente, até que seus olhos se encontrassem os meus.

Levei minha mão até sua boca, quando este tentou articular algumas palavras. Não havia necessidade de fazer tal esforço. Apenas ficaríamos ali, quietos. Eu parecia ter sido entendido, logo após isso, ele voltou seus olhos para contemplar o teto de seu quarto e eu continuei a examina-lo. De relance vi, no canto do quarto, uma tigela com sopa, não havia nem sequer sido tocada. Ele dividiu seus sonhos comigo e então parti.

Nas três noites seguintes, a maldi... quer dizer, a “doença” de meu garoto piorava. Pela manhã vários humanos, trajados de branco e carregando malas, iam até a casa ver o estado de saúde de meu garoto. Todos, um por um, saiam de cabeça baixa e diziam palavras nada agradáveis para a mãe humana, que se desatava em choro. Pelo menos o cheiro doce e insuportável não era mais sentido por mim e meu bando. O pai humano também demonstrava tristeza. Parecia que o único que não entendia, o que acontecia ali, era o filho mais novo.

Tudo não passava de coincidência. A cada visita que fazia para o meu garoto e a cada sonho que ele compartilhava comigo, ele ficava mais debilitado. Seus pequenos braços estavam magros e finos, sua respiração acelerada e fatigada, além de seus olhos vazios e quase sem vida. Seus olhos sempre estavam a fitar o teto e sua boca estava acinzentada. Os sonhos que ele “dividia” comigo não eram mais os mesmos. Aquela era a a penúltima noite que visitaria ele. Fiz um leve afago em seus cabelos, ele não reagiu, e então sai, saltitante e feliz, para minha toca.

A manhã do novo dia havia sido demasiadamente tranquila. Eu e meus irmãos de viagem conseguimos dormir até mais tarde. Nenhum som nos perturbava, nem sequer a criança mais nova estava a correr e gritar no grande quintal. A frequência dos homens vestidos de branco também diminuíra, apenas um visitara a casa naquele dia. Na noite, visitei minha criança pela ultima vez. O garoto se encontrava em sua cama, o mesmo local que havia nos conhecido pela primeira vez. Seu olhar era cansado e aparentava não dormir há muito tempo. Mas quando notou minha presença, sentou em sua cama e ficou a me olhar, com aqueles olhos que antes transbordavam em alegria.

Estendi minha mão para ele, ele correspondeu e segurou no pedaço de pano esfarrapado que eu era. Dando um passo de cada vez, saímos da cada; do quintal; da estrada e da densa floresta. O dia já estava prestes a amanhecer, mas isso não importava. Continuamos a marchar até chegarmos ao nosso destino, o cemitério, minha criança sempre segurando minha mão. Quando finalmente chegamos senti ele apertar minha mão com mais força... após isso meu garoto, o jovem Léo, nunca mais voltara para sua casa. A única lembrança que tinha dele era o alfinete espetado em meu corpo e, um dia, também espetado no dele. Agora ele descansava, finalmente conseguira dormir.

Agora, três meses depois do ocorrido, aqui estou eu, escondido e me lembrando dessa história. Me encontro dentro da mesma casa, porém em um cômodo diferente, o quarto do único filho do casal. Quando entre ele estava dormindo com uma serenidade no rosto tão meiga e terna, mas quando acordou, o terror dominou suas expressões. A reação fora a mesma de seu irmão: saíra correndo e chamara sua mãe. A humana, nesse exato momento, conversa algo com seu filho, lhe da um beijo de despedida e volta para seu quarto, vagarosamente. Me pergunto o motivo dela nunca procurar debaixo da cama...

Pokémon (imagem)

Notas finais
Você terminou! (ou então pulou até o final) Parece que chegamos ao fim de mais um capitulo. O Pokémon da vez poderia ter sido outro, como um Hypno, mas o coitado já ficou com fama de pegar crianças então... achei melhor passar essa pra outro. Espero que tenha gostado!