E se...
3 E Se... Eles me fizessem dormir?
Notas iniciais
Mamãe sempre disse que os meus problemas para dormir eram porque sou um 'menininho muito hiperativo', eram essas as palavras que ela usava, acompanhado de um belo e simpático sorriso. Sempre amei minha mamãe e irei sentir saudades dela e do papai.
Meu problema com o sono acabou há uma semana, não sei muito bem, afinal datas não são importantes para uma criança não é mesmo? Lembro-me da cara de surpresa de mamãe quando fui correndo para o quarto dela e contei para ela que havia dormido tranquilamente, ela sequer piscou os olhos, e não reparou no meu ursinho de pelúcia rosa e encardido – papai disse que não era algo bom um menino ter uma pelúcia rosa e que era coisa de menina, mas eu insisti tanto!
A pelúcia apareceu no carro de papai, sem ele entender o motivo de ter parado ali. A principio pensou que era a brincadeira de algum colega, mas todos juraram que não haviam chegado perto do veículo. Sem saber por que, papai, trouxe o boneco para casa. Eu estranhei, mas logo me acostumei com a pelúcia ali em cima da estante, com seu pequeno microfone. Achava incrível como era bem detalhada e parecia real.
Às vezes tinha impressão de que abria os olhos e que me seguia enquanto passava pela sala. Já havia comentado com mamãe sobre isso, mas ela disse que era coisa da minha cabeça e que a pelúcia tinha sido feita para ter os olhos bem fechados. Confiei nela, afinal as mães sabem de coisas que nós, crianças, não entendemos.
Papai sempre concordava com a mamãe em tudo, não importava a situação. Às vezes era porque ela estava zangada e ele não queria piorar a situação, mas em outras era apenas porque ele sabia que ela estava certa. Havia dito que estava ouvindo alguns passos de algo pequeno passando em frente ao meu quarto e também via a sombra pela fresta da minha porta. “Ratos!”, foi o que minha mãe gritou da cozinha, meu pai imediatamente desceu até o porão e pegou algo que parecia uma ‘gaiola de chão’, era uma ratoeira disse ele.
A ratoeira foi posta perto do meu quarto, com um pedaço de carne pendurado nela. Tinha certeza que não pegaria nada, afinal ratos gostam de queijo e não de carne, mas achei melhor não opinar já que mamãe havia dito que funcionaria e que essa história de queijo era coisa de desenho animado. Os dias se passaram e nada de a ratoeira funcionar; a carne sumia, mas o rato não aparecia. Foi então que decidiram mudar para a tradicional, aquela que mata assim que a isca é pega.
No dia seguinte havia sangue na ratoeira, mas nada de rato. Eu havia ouvido o som dela pegando algo, afinal estava tendo mais uma crise de insônia, mas achei melhor continuar na cama – não estava animado para ver um animal morto. Na noite, em que se viu que a ratoeira quase havia funcionado, eu estava tendo mais uma crise de sono quando ouvi passos. Vi de relance a sombra passar pela minha porta e seguir pelo corredor – parecia que a ratoeira não ia mais funcionar. Após ver o relance da sombra, lembro-me de ter uma canção, mas não sei ao certo, pois adormeci.
Acordei na madrugada, sentia aquela sensação de estar sendo observado. Levantei da minha cama para ter uma visão melhor do meu quarto e vi... em cima da minha cama a pelúcia rosa. Ele esfregava as mãos, que estavam sujas de sangue e sussurrou para mim: “Eles me machucaram...”. Depois disso ele cantou para mim e eu adormeci. Quando acordei fui correndo para o quarto dos meus pais, dizer que havia dormido super bem, com a pelúcia ao meu lado. Meus pais estavam na cama ainda e pareciam dormir. O estranho é que eu pensava que a camisola de mamãe era branca e não vermelha.
Agora eu durmo quase todo dia. Não vejo mais meus pais e um cheiro forte está empesteando a casa inteira. Ouço a voz de minha pelúcia sempre, não sei mais o que é sonho ou realidade. Parece que outras pelúcias iguais estão aparecendo aqui em casa e tive a impressão de ver mais crianças dormindo quando consigo ficar alguns segundos a mais na realidade... Gostaria que a insônia voltasse.
Fale com o autor