E o jogo começa.
10 O ultimo adeus.
A enfermeira fechou a cortina do quarto e encaminhou o (era tão estranho dizer) corpo, da Kate, para o IML, aonde os pais viriam buscar para preparar um enterro, onde seria a despedida final. Parecia tudo um sonho ruim, em que eu acordaria e veria ela ali, do meu lado, me acalmando e dizendo que estava tudo bem, como ela sempre fazia. Eu estava sentada, com Abby do meu lado, ela não estava chorando, só estava parada. Estava quieta demais, muito diferente da Abby que eu conhecia, parecia um tipo de transe. Gibbs disse para que Abby fosse dormir na casa de Mcgee, que não seria bom ela dormir sozinha. Ela assentiu e ele a abraçou. Ele fez o mesmo com Jenny, ela foi pra casa sozinha. Então ele olhou pra mim.
– Jess, você vai pra casa do Tony agora, ok? Eu tenho que ir à casa da Caitlin, pegar uns papéis para os pais dela.
– Eu quero ir junto – eu disse, me levantando.
– Não acho que seja uma boa ideia.
– Eu quero, preciso pegar algumas coisas minhas que ficaram lá.
– Certo – ele disse.
Nós entramos no carro e ficamos em silencio a viagem inteira. Quando chegamos ele abriu a porta para mim, e perguntou se eu não queria esperar no carro. Eu disse que não, e entramos. Assim que ele abriu a porta, eu tive a impressão que a Kate ia descer correndo as escadas, dizendo que ele deveria ter ligado antes de ir, e provavelmente ela estaria com aqueles shorts desbotado e aquela blusinha rosa que ela amava usar em casa. Mas ela não viria. Então eu subi para o quarto dela com uma mochila, e comecei a colocar minhas coisas lá dentro, e apontei onde ficavam os documentos, para Gibbs. Enquanto abria o guarda roupa dela pra procurar minhas coisas, eu vi a câmera. Nós havíamos tirado milhões de fotos ali, mas nunca passado nenhuma para o computador. Eu a liguei, e a primeira foto que apareceu foi uma em que ela estava segurando o troféu que ganhamos no boliche, depois que nós quase caímos na pista. Ao me lembrar daquilo eu ri. Então, passei para a próxima foto, era uma que tiramos na praia, ela pediu para que eu fingisse que estava tirando uma foto, para que ela fizesse pose e impressionar dois surfistas bonitos que estavam passando, eu lembrei daquilo e não pude conter uma risada um pouco mais alta. Gibbs entrou no quarto e me viu rindo, e me perguntou o que havia acontecido.
– Nada não – eu disse, e ele sentou do meu lado – eu só estava .. Lembrando. Acho que ajuda a lidar com isso, né?
– Com certeza – ele disse, e então levantou um colar muito bonito, prata, com um pingente em forma de coração, bem simples, mas muito bonito.
– É lindo – eu disse, e abaixei para continuar olhando as fotos.
– É seu – ele disse, me entregando.
– Não tenho nada parecido com isso Gibbs, e não quero levar nada dela, sabe? Não me sentiria bem – eu empurrei a mão dele de volta.
Ele levantou e colocou o colar em mim, e depois me entregou um bilhete escrito em um papel rosa bem clarinho, e sussurrou “É seu”.
Eu desdobrei o bilhete, e nele estavam escritas, com a letra da Kate, as seguintes palavras: “Querida Jessy, eu sei que não é nenhuma data comemorativa nem nada, mas vi isso em uma loja e lembrei-me de você na hora! Achei que seria uma boa lembrança, uma coisa que te lembre de mim. Espero que goste, eu sei que é simples, mas é de coração, literalmente. Com amor, Kate”. Assim que acabei de ler, coloquei a mão sobre o coração e ri novamente, ela havia deixado um presente pra mim, uma lembrança.
– Ela ainda consegue por um sorriso no seu rosto – Gibbs disse, enquanto tentava ver as fotos.
– Lembranças, é isso! – eu disse, e peguei o notebook dela, e o cabo na gaveta, e então peguei a câmera da mão dele – acho que eu sei o que ela quis dizer, Gibbs!
– O que ela quis dizer com o quê? – ele perguntou, olhando o que eu estava fazendo.
– Você verá, agora, temos que ir pra casa. – eu peguei as coisas e as coloquei na mochila, e nós saímos.
Assim que chegamos a casa dele, eu comecei a trabalhar, enquanto ele estava dando uns retoques no barco, lá embaixo. Eu achei melhor deixa–lo sozinho, para que ele pudesse reorganizar um pouco os pensamentos. Gibbs subiu do porão para a sala, sentou do meu lado e ligou a TV. Depois de alguns minutos, ele dormiu com a cabeça no meu ombro, e eu fiquei com dó de acorda-lo para que eu saísse, então dormimos ali. Naquela noite eu sonhei, mas não havia nenhuma palavra. Eu sonhei que estava andando em um lugar muito bonito, Kate passou por mim, acenou e sorriu, em aprovação. Ela não usava tubos ou parecia cansada. Ela parecia feliz, saudável, linda e em paz. Eu acordei deitada no meu quarto, então supus que Gibbs me levou até lá durante a noite. Levantei-me e comecei a me arrumar, o funeral dela seria naquela tarde, portanto arrumei meu cabelo do melhor jeito que pude, e coloquei um vestido que ela mesma tinha me dado, e que não era preto, era branco com um laço cinza na cintura, e Gibbs usou um terno com um lenço no bolso, muito diferente do que ele costumava usar no dia a dia. Nós chegamos lá, e estavam todos com os olhos um pouco vermelhos. Eles se sentaram, e eu subi até a frente do telão que providenciei para as fotos, estava na hora de realizar o ultimo desejo dela. Eu agarrei meu presente, o coração, que ela havia me dado, e subi, de modo que fiquei de frente para todos eles e de costas para o telão. “Sorriam” eu sussurrei. E então, eu cliquei com o controle no telão para liga-lo, e apareceu uma foto dela, de terno, linda. Me veio uma vontade de chorar, mas eu segurei.
– Todos vocês conheciam este lado dela – eu apontei para a foto do telão – séria, educada, comportada, responsável e atraente. Muito bem. Mas eu digo que ela tinha muitos outros lados, que só alguns de nós tivemos oportunidade de conhecer, por exemplo: — eu dei um clique com o botão, e uma foto dela pequenininha, com um bolo na mão e o rosto totalmente melecado de chocolate – Dona Regina, o que aconteceu aqui?
A mãe dela estava chorando baixinho, quando olhou para a foto e deu um risinho sem graça.
– Eu estava fazendo bolo em casa, ela estava na escola, e ela adorava raspar a panela, sabe? Os irmãos rasparam e não deixaram nada pra ela, e quando ela chegou, comeu o bolo inteiro sozinha e deixou um pedaço só, que era pra mim – assim que ela terminou, soltou uma risada e colocou a mão na perna, como se sentisse mais a vontade.
– Ok, e esta aqui – a foto seguinte era ela, sentada no banco de um dos carros da empresa, com um bigode desenhado de caneta, dormindo – Tony?
– Nós estávamos de tocaia, e eu disse que ela não poderia dormir, então ela dormiu, e eu fiz isso pra ela aprender que não se deve dormir durante algo assim – ele disse, e soltou uma gargalhada, que foi acompanhada por um primo dela, lá atrás.
– Ótimo – eu disse, e assim, um a um, eu ia mostrando fotos que o faziam lembrar-se de momentos engraçados, fofos ou somente momentos que traziam boas lembranças e sorrisos. Então, depois que eu mostrei uma foto dela vestida para sair na festa de Halloween com Abby, metade anjo metade diabinha, porque algo deu errado, todos estavam rindo muito e alguns até bateram palmas.
– Agora, eu queria falar sobre o meu momento, pessoal – eu cliquei e apareceu uma foto de nós duas deitadas na grama, de frente pra câmera, e dois balanços atrás, e ambas estavam cheias de grama no cabelo e na roupa, e rindo muito – este dia, ela me levou para passear e esquecer um pouco o stress que eu estava passando. Nós estávamos tirando fotos e então ela teve a ideia de pular do balanço, pra sairmos no ar, como se estivéssemos voando, mas ela queria pular de mão dada comigo, caso caíssemos, cairíamos juntas. E nós caímos – todos riram – e nos machucamos feio. Mas estávamos juntas. Sabem, quando ela morreu – eles ficaram mais sérios – eu fiquei realmente brava, pois ela disse que nunca iria me abandonar, mas agora eu vejo, ela não me abandonou. Ela não abandonou nenhum de nós, porque ela esta aqui neste momento, sorrindo, por ver o sorriso nos rostos de vocês. Este era o ultimo pedido dela – eu agarrei o colar que ela havia me dado – ela tinha um recado para todos vocês. Quando se lembrarem dela, por favor, não chorem, sorriam! Não chorem por lembrar que ela morreu, sorriam porque nós tivemos o prazer de conhecer essa pessoa maravilhosa, de conviver com ela, de desfrutar do amor dela, do carinho, de quem ela era. Ou melhor, de quem ela é. Então, vamos brindar pela sua vida, neste momento – todos levantaram as taças para cima, e me olharam – para a nossa Kate!
“Missão cumprida”, eu disse, olhando pra cima.
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