E o jogo começa.
9 A despedida.
Eu acordei no hospital, tinha um curativo na minha cabeça e um em meu ombro. Havia vários arranhões, meu corpo estava todo dolorido, e eu estava muito confusa. Mas fora isso, estava bem. A enfermeira, quando me viu acordar, chamou um homem que estava de costas para a janela, com os braços cruzados, parecia estar pensando em algo muito sério. Dinozzo. Ele se virou imediatamente, e assim que ela saiu, ele sentou na beira da cama e pegou minha mão, e começou a dizer:
– Jess, me des... – eu o interrompi, colocando a mão na boca dele.
– Não foi sua culpa Tony, ela me deu uma escolha, eu poderia chamar por você, mas preferi terminar logo com isso, entende? Eu vou tirar a mão da sua boca, e você não vai se desculpar.
– Me desculpe Jess, eu deveria ter esperado, se não fosse por isso você nem teria entrado naquele banheiro, eu fui um idiota e eu sei que Gibbs diz que desculpa é sinal de fraqueza, mas não entre amigos – ele disse muito rápido, assim que eu tirei a minha mão.
– Ok, certo. Pode me atualizar, o que houve depois que eu desmaiei?
– Bem, a Ziva apareceu do nada e te derrubou no momento que o tiro ia te atingir, ninguém se feriu. – ele acrescentou, quando meu olhar pareceu preocupado – mas você bateu a cabeça. Ela te levou até a ambulância e disse rapidamente que ele pretendia atirar em você enquanto estivesse com a Kate, assim conseguiria as duas. Quando o Ari viu que ela tinha ajudado, ficou em pânico, entrou na casa com a Kate e disse alguma coisa naquela língua deles, que fez a Ziva estremecer, logo ouvimos um tiro lá dentro da casa, e entramos todo mundo – ele fez uma pausa – Ari esta morto.
– Ele está morto? Acabou? – eu não pude deixar de sorrir.
– Sim, está tudo acabado – ele me disse, mas por algum motivo ele não estava parecendo muito feliz.
– Onde ele está? Eu quero muito agradecer ele, por ter me achado e tudo mais!
– Gibbs?
– Isso! – disse e me sentei na cama
– Ele está lá na unidade de cima, na UTI – ele disse em um tom despreocupado.
UTI. Gibbs estava na UTI, por minha culpa? Sem pensar tirei aquele soro do meu braço e levantei, Dinozzo levantou, mas eu corri e passei pela sala de espera, a equipe inteira estava lá, inclusive Jenny, Ducky e todo mundo. Assim que Dinozzo passou por lá, correndo pra tentar me segurar, eu ouvi alguém dizer: “Cedo ou tarde ela vai saber” e se não me engano, Abby estava com olhos marejados. Eu subi e vi Gibbs, lá em cima, perfeitamente bem, de costas. Eu o chamei e ele virou, e então eu corri e o abracei, logo depois Tony tentou explicar que foi um mal entendido, e Gibbs me colocou sentada em uma cadeira para falar com ele. Assim que Tony desceu, ele se sentou do meu lado e me deu uma caneca de café. Eu a peguei e pedi pra ele me contar o que tinha acontecido lá dentro, detalhadamente.
– Bom – ele tirou um fio de cabelo que estava fora do lugar – eu entrei lá dentro, e os policiais foram direto pegar a Kate, eu corri para um alçapão que estava fechado, entrei lá dentro e o matei, simples assim.
– Estava fechado? O alçapão? Eu tive que contar para poder identificar! Como você viu?
Ele sorriu de lado, como fazia quando estava tentando mentir.
– Ziva o matou, não foi?
– Foi. Eu desci, estava aberto e ela estava com a arma apontada pra ele, ele estava morrendo aos poucos e ela deu outro tiro na cabeça, para que ele morresse logo. Então ela trocou de arma comigo – ele mostrou – a pra mim – e eu deixei que ela fugisse.
– Uau. Bom, eu vou descer e agradecer a todos, inclusive a Kate, tenho que ouvir a versão dela, com certeza a mais emocionante! – eu disse e me levantei.
Ele se levantou junto comigo, e colocou as duas mãos em meus ombros, e me virou com delicadeza para uma parede.
– Kate foi baleada.
– Mas em que quarto ela esta? Provavelmente lá embaixo, do lado do meu, afinal não foi muito grave, não é?
Ele ficou em silêncio, me segurou com um pouco de força e me virou para um vidro. La dentro, uma moça com tubos e fios pelo corpo todo, estava respirando muito pouco, desacordada, cheia de aparelhos. O barulho das maquinas fazia um ruído de leve. Ela era Kate. Ela havia ficado daquele jeito por minha culpa. Eu perdi o equilíbrio ao ver aquela cena. Ele me segurou com força e me levou até a mesma cadeira de antes, mas eu não consegui dar as costas para o vidro, e então uma médica se aproximou. Eu já estava chorando.
– Senhor Gibbs, pode vir comigo para que eu te dê detalhes sobre a condição de sua agente?
– Pode falar – ele disse, e colocou um dos braços em volta de mim – ela também tem que saber.
– Ela vai ficar bem? – eu disse, com a voz embargada.
– Sinto muito, mas ela esta sobrevivendo apenas por causa dos aparelhos, e se os tirarmos ela não resistirá. Porem há outras pessoas esperando aparelhos, e ainda há esperança no caso deles, mas se ela sobreviver sem aparelhos, ficará vegetativa, ou seja, ficará assim pra sempre, dormindo. Então eu preciso da sua permissão – ela deu um papel e uma caneta para Gibbs – para desligar tudo, e deixar que ela simplesmente morra em paz.
– NÃO! Como assim não há mais jeito? Não podem, sei lá, esperar pra ver se ela acorda? Ela pode muito bem acordar, não é? Tem que ter um jeito! – eu disse isso e comecei a chorar, enquanto Gibbs assinava o papel e me abraçava. Ele disse que ele iria avisar a todos o que havia acontecido, e que eu deveria entrar lá para dizer umas ultimas palavras. Assim que eu entrei no quarto, e vi o seu rosto, me arrependi de ter entrado. Ela estava, aos meus olhos, dormindo. Ela estava em paz. Eu coloquei a mão em cima da mão dela, e no mesmo momento vieram tantas lembranças, tantas coisas. Eu arrumei o cabelo dela, eu achava o cabelo dela tão lindo, mas nunca havia dito. Tantas coisas que eu não havia dito, e nunca mais iria dizer... Esse pensamento me fez chorar mais.
– Kate, você prometeu que não iria morrer, lembra? Você disse que tudo ficaria bem, que sempre ficaria ao meu lado e olhe só! Você esta aqui, numa cama de hospital, e eles me disseram que não vai sair daí, e eu queria poder estar no seu lugar. Eu queria poder ter morrido ao invés de te ver assim, você que sempre foi tão alegre e animada, está aqui. Você foi a primeira pessoa aqui que me fez sentir segura, você sempre foi a minha favorita, a minha melhor amiga. E eu realmente não sei o que dizer, nem sei se você está me ouvindo, mas quero que saiba de duas coisas: Ari está morto, Ziva o matou, está acabado. E a segunda, é que eu amo você, e sempre vou amar. Nunca vou me esquecer de você, está bem? – Eu dei um beijo na testa dela, e junto com o beijo desceu uma lagrima, e outra, e mais outra.
Gibbs entrou no quarto e quando eu me virei, toda a equipe estava com lagrimas nos olhos, eu acho que eles ouviram a minha despedida. Ele entrou lá dentro e ficamos do outro lado do vidro, ele me abraçou e disse para que eu não olhasse. Eu estava com o rosto encostado no peito dele, ele com os braços firmes em volta de mim, então, aquele pequeno ruído que antes a maquina que a fazia respirar produzia, cessou. Todos se calaram, e então ele soltou um pouco o braço para abraçar Jenny, que estava com os braços cruzados e com os olhos totalmente vermelhos. As enfermeiras a cobriram, lá no quarto. Ela se fora, e não havia nada que nenhum de nós pudesse fazer.
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