Notas iniciais
Olá, AnaBea e também outros corajosos. Essa é uma fic que eu idealizei há muito tempo e aproveitei do paneleiro secreto para criar vergonha na cara e escrever. Infelizmente, ela ficou muito maior do que eu esperava e assim, não consegui terminá-la do jeito que eu queria. Desculpa, Ana! Eu fiz meu melhor ~~~ Além dos avisos lá em cima, nesta fic, você vai encontrar: Palavrões em excesso Fluxos de consciência meio doidos Internetês Quantidades exorbitantes de linguagem informal, que fariam o Prof. Pasquale ter comichão por duas semanas Furos de roteiro, porque eu infelizmente não consegui betar a tempo :( Estejam avisados ♥

Você nunca sabe que certos acontecimentos vão mudar sua vida até que eles efetivamente façam isso.

Essa é a frase que está escrita no quadro da aula de artes quando eu chego, alguns minutos atrasado, para assisti-la na tarde de hoje. Meus braços estão doendo e consigo sentir que alguns roxos vão ter se instalado por aqui quando eu acordar amanhã, mas sou indiferente a esse fato. Essa é uma verdade a ser dita sobre mim: sou indiferente a muitas coisas, na verdade quase todas elas, incluindo o sorriso da professora e os escritos poéticos e motivadores do quadro negro.

A senhora Lourdes, como gosta de ser chamada, adora esse tipo de frase; todos os dias, quando eu chegar para a aula de desenho, haverá um ditado no quadro, e, nos últimos sete anos nos quais eu estudei neste maldito colégio, não me lembro de as frases terem se repetido uma única vez. Isso me faz pensar que ou a professora não tem muito o que fazer nas horas vagas — tendo assim que preenchê-las em incontáveis pesquisas cujos temas são “frases motivacionais” ou “letras de música” —, ou que ela realmente acredita que essas sentenças ajudem em alguma coisa. Gosto da senhora Lourdes, mas tenho que admitir que a segunda opção é a que tem mais chance de ser correta: para uma mulher nos seus sessenta anos, ela pode ser inocente como uma criança de oito.

A prova disso está no conteúdo da aula de hoje, onde a senhora Lourdes faz uma breve revisão de todas as escolas artísticas que estudamos nos últimos três anos. No retroprojetor, ela nos mostra retratos tão fieis à realidade que parecem fotografias, telas que encontram seu sentido na total desordem de conceitos e também quadros que beiram a psicodelia do sonho — e eu estou gostando da aula, estou mesmo, até que a professora desliga o data show, sorri para toda a turma e então, com um golpe rápido e limpo, dá a facada:

— Beira o final do último ano de vocês e nós já estudamos todas as escolas da história da arte. Agora, acredito que é a hora de permitir a vocês experimentarem um pouco da sensação de serem o instrumento a traduzir o mundo e produzirem suas próprias obras! — Os gestos são lentos, calculados; ela sorri por entre cada palavra como uma criança fofa e cruel. — Então, crianças, é isso mesmo: o trabalho final de vocês consistirá em uma obra de autoria própria sua que deve ser entregue a mim, realizada dentro dos moldes da escola e dos materiais que vocês sortearão agora. O prazo de trabalho de vocês é de três meses. Mamão com açúcar, não é mesmo?

E é aí que você sabe que a senhora Lourdes é realmente uma criança ingênua no corpo de uma velha. Ela continua falando, explicando que, com esse trabalho, espera que consigamos nos sentir como verdadeiros artistas do século passado e que isso nos aproxime do sentimento artístico, mas ninguém parece querer se aproximar de coisa nenhuma. A maior parte da sala está dormindo e/ou olhando pelas janelas, de forma que, quando a senhora Lourdes passa com uma mão cheia de papeizinhos para que sorteemos nossos materiais e escolas de trabalho, temos uma sequência de remexeres assustados e gesticulares confusos. Tudo é explicado de novo e mais uma vez, sem que a professora nunca se exalte, até que todos os alunos tenham em mãos seus respectivos papeizinhos. Espero algo como aquarela ou tinta a óleo em uma escola legal como o surrealismo, por exemplo, pois a senhora Lourdes adora exaltar e enaltecer o quanto quadros pintados a óleo possuem certo lirismo e Salvador Dalí é alguém com quem sempre me identifiquei muito nas aulas, mas, quando desdobro os papéis, não é isso que me espera.

Seu material é: carvão.

Sua escola é a: naturalista.

Suspiro; essa não é nem de longe a melhor das alternativas, mas poderia ser bem pior, também. Nunca desenhei usando carvão antes. Será difícil? Lourdes dá algumas recomendações, as quais preciso pedir que ela repita, pois não prestei atenção na primeira vez, e então nos dispensa. A luz vermelha pisca, avisando o fim da última aula e assim, nossa breve liberdade; todos, como um rebanho, levantam-se de suas cadeiras e vão embora, inclusive eu, papeizinhos em mãos e nenhuma idéia do que devo desenhar.

Ventos é uma cidade cujos índices de violência são alarmantes, comparáveis aos de uma metrópole como São Paulo; ou pelo menos é isso que o closed caption horrível do nosso jornal do local me permite deduzir enquanto espero na fila da papelaria. Todas as salas da escola parecem ter vindo para cá ao mesmo tempo, provavelmente por causa do trabalho da Senhora Lourdes, e a quantidade de pessoas no cômodo me traz uma sensação claustrofóbica. Qualé, Ventos não é uma nenhuma cidade grande, mas com certeza tem outras papelarias que não sejam esta, estrategicamente posicionada em frente ao nosso colégio. Seriam todos os alunos tão preguiçosos como eu, com meu desânimo de ter que andar mais alguns quarteirões para encontrar uma papelaria vazia? Parece que sim. A moça do jornal continua falando e o closed caption se engasga para acompanhá-la, algo que seria realmente engraçado se não fosse tão trágico.

Onda de assaltos em Ventos: ... ... suspeitos agem em plena luz do dia ... ... já foram notificados mais de trinta ... ... tentativa de estupro ... ... não houve vítimas ... ...”

Não estou prestando atenção quando minha finalmente chega minha vez na fila, e a moça do balcão precisa me cutucar para que eu perceba. Dou um sorriso apologético para ela enquanto estendo o papel com a lista de materiais que vou precisar, e ela corre para os fundos da loja, voltando em pouco tempo com uma caixa de carvões para desenho e um bloco de folhas especiais. Ela diz o preço, mas eu não entendo, e preciso sinalizar para que ela o diga novamente, olhando diretamente para mim. Trinta reais. Ai. Choro um pouco na hora de pagar, me consolando com o fato de que não tenho escolha, e saio da papelaria.

Está começando a anoitecer e eu faço meu caminho para o ponto de ônibus, olhando em volta, pensando no trabalho de artes e no que exatamente eu vou escolher desenhar; sendo um trabalho naturalista, é esperado que eu entregue algo com precisão de detalhes e profundidade, e Senhorita Lourdes aconselhou que fizéssemos a arte baseado em algo que nos inspirasse. Não tenho nada que me inspire, e aí mora um grande problema, porque esse trabalho vale a nota do bimestre inteiro e, graças ao sistema de pontuação injusto do meu colégio, se eu reprovar em apenas uma matéria, também levarei bomba. E eu, que já não agüento mais esses últimos meses que me separam da minha formatura, teria que fazer todo o último ano de novo.

Não, obrigado.

Algo que me inspire, algo que me inspire...

Estou divagando, o que é bastante perigoso, mas a sorte está do meu lado e nada me acontece. Quando faço a curva no último quarteirão que me separa do ponto de ônibus, vejo que as aulas do IVENTEC já terminaram, também, na medida em que as pessoas não param de sair pelo portão, e, ao contrário de passar direto por todos e ir para o meu ponto — que está no fim da rua — paro para notar o prédio do Instituto Ventanense de Tecnologia pela primeira vez. É talvez a construção mais bonita da cidade: parecida com um castelo medieval, com intricados vitrais nas janelas e rodeada por grandes jardins de flores cujo cheiro se torna insuportável na primavera. Passo por esse mesmo lugar todos os dias há um ano, desde que a prefeitura decidiu que era uma ótima idéia redistribuir todos os pontos de ônibus da cidade, e nunca tinha parado para reparar neste prédio uma única vez; assim, o fato de que sinto vontade de fazê-lo justo hoje, no dia em que a Senhora Lourdes colocou a corda no pescoço de todos, soa para mim como um sinal divino. Dou um sorriso.

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A rotina se estabelece sem que eu precise fazer nenhum esforço. Saio da escola, faço meu caminho normalmente até o ponto, mas, ao invés de esperar o ônibus, sento-me apoiado em uma das árvores da pracinha que está de frente para o portão do IVENTEC e me dedico ao meu desenho por aproximadamente meia hora. Nos dias em que não tenho aula de artes marciais mistas, me arrisco até a ficar um pouco mais, e, um mês após a senhora Lourdes ter nos passado o trabalho, concluo que as coisas poderiam estar correndo de forma bem melhor.

Desenhar com carvão é um trabalho enjoado e já me acostumei a estar com as mãos sempre manchadas. No começo, desperdicei um terço da minha caixa de carvões ao manuseá-los com força demais e isso talvez tenha me atrasado um pouco, mas tudo bem. Já tenho o esqueleto rascunhado; todas as linhas que mais tarde sumirão debaixo dos detalhes que acrescentarei já estão em seus devidos lugares, e meu desenho atualmente pode ser confundido sem susto com o de uma criança pequena em processo de aprendizagem.

É um desempenho lento. Lourdes quer detalhes e profundidade e eu tenho apenas mais dois meses para entregá-los — ela faz questão de lembrar-nos na aula de hoje, seus gestos um pouco mais enérgicos que o normal —, mas a preguiça me leva a gastar o tempo onde eu poderia estar desenhando com outras coisas, mais especificamente, outras pessoas, mais especificamente ainda, Camilla, Fábio, Amanda e Marcos.

Camilla, Fábio, Marcos e Amanda não me conhecem; acho que se surpreenderiam com o fato de que sei seus nomes e também outras coisas, pescadas em pequenas partes nos trechos das conversas que consegui ler do outro lado da rua. Quando os vi pela primeira vez, na minha segunda semana de observação ao IVENTEC, com meu caderno e o pedaço de carvão na mão, poderia perfeitamente tê-los tomado por um pedaço de multidão e os ignorado, mas por algum motivo desconhecido, não consegui. Não sei dizer se foi a beleza — os quatro são como modelos de um ensaio fotográfico —, se foram as roupas descoladas — será que eles têm um estilista particular? — ou se foi o jeito como eles interagem entre si — tão grudadinhos quanto a papa que vira o meu arroz quando eu cismo de cozinhar —, mas a verdade é que tenho os observado todos os dias desde então. Às vezes, sinto como se eles fossem meus amigos, mas à distância. Meus colegas de Tumblr chamam isso de amizade platônica.

Sim, eu tenho um tumblr.

E não, eu não concordo com eles. O nome correto que dou pra isso é carência, e das boas.

As luzes vermelhas se acendem e eu me desfaço da linha de pensamento, levantando-me da carteira e juntando todos os materiais na mochila. Não poderei desenhar hoje; meu mestre de MMA teve que adiantar o horário da minha aula por causa de um compromisso pessoal e meu tempo está contado. Me apresso pelos corredores, costurando meu caminho por entre os grupinhos de amigos que também fazem seu caminho até a saída, quase tropeçando na bengala de um menino do segundo ano no percurso — os males de não prestar atenção — e tudo está com cara de que vai dar certo, está mesmo, até que alguém puxa meu braço e me sinto sendo arrastado, e ninguém reage, porque é sempre assim. Ninguém faz nada; inclusive eu.

Curiosidade: o apelido de Ventos é “cidade dos becos”. Eles se espalham pela cidade toda e são sempre sujos e escuros; é ali que a violência da cidade acontece e a prefeitura não faz muito para pará-la, mesmo em frente aos inúmeros abaixo-assinados e iniciativas populares para que os malditos becos sejam interditados. A mão que segura meu braço me arrasta pra dentro de um e o grupinho de alunos do primeiro ano ri quando sou empurrado contra a parede, soltando um arfar.

— Achou que não fosse apanhar hoje, bichinha? — vejo o líder da trupe dizer, rindo da minha cara. — Eu ainda não consertei você, sua aberração. Esqueceu disso?

Ele arma o soco e eu suspiro em desânimo quando a pancada vem. Não dói tanto quanto eu gostaria de dizer, mas os socos incomodam. Eles trouxeram um garoto do segundo ano, dessa vez, que soca o ar várias vezes antes de conseguir acertar meu rosto, e eu até riria da sua falta de jeito, mas no fim, concluo que não é engraçado. A surra dura o tempo usual — eles nunca têm disposição para levá-la muito longe, ou eu não estarei aqui para apanhar amanhã — e, quando eles me largam no chão do beco, rindo ao irem embora, já estou em cima da hora para minha aula de MMA. Droga. Faço um rápido cálculo, concluindo que, correndo como um condenado, conseguirei chegar a tempo, e boto minhas pernas pra funcionar.

Venço o primeiro quarteirão com rapidez, conferindo a hora no meu celular de segundo em segundo, e estou prestes a vencer o segundo quando um pequeno brilho vermelho na outra calçada, algo trivial, mas fora de contexto, me chama atenção. O que seria? Interrompo a corrida para atravessar a rua e franzo os olhos quando tomo o smartphone quebrado nas mãos, a luz vermelha sinalizando que alguém chamado “pudim” está ligando insistentemente — quando ele desiste, o resumo das notificações acusa dez chamadas perdidas. As pessoas não saem perdendo celulares aleatoriamente na rua assim, saem? Eu, a quem o celular é quase como um anexo da mão, não consigo imaginar nenhuma outra pessoa sendo tão negligente. Aperto o botão lateral para enviar uma mensagem ao tal “pudim” avisando que o celular tinha sido perdido, mas a tela de desbloqueio se abre e então eu sinto como se um balde de gelo tivesse sido derramado por minhas veias.

O plano de fundo da tela de bloqueio é uma foto de Camilla, a menina do IVENTEC, sorrindo de lado para a câmera.

Mil coisas se passam por minha mente — o celular está perdido, a rua está vazia, um pouco escura, e o silêncio, este que me acompanha há tanto tempo, parece adquirir um novo peso ante as conclusões que eu evito tomar. O celular vibra novamente, anunciando a décima primeira chamada perdida da noite, e eu o guardo em minha mochila, seguro no bolso da frente, enquanto adentro um dos milhares de becos que trouxeram para Ventos seu apelido tão infame. Abandono a mochila no chão, com delicadeza, e avanço pelo beco de mãos vazias, torcendo para estar errado, realmente torcendo, porque sim, a gente vê as estatísticas no closed caption desgraçado do jornal, mas não sente a realidade delas até que aconteça com alguém que conhecemos.

Estou certo, porém, e isso me faz praguejar mentalmente: no fim do beco, Camilla resiste contra dois homens, o rosto cheio de roxos e começando a inchar, a blusa rasgada na barriga, mas ainda de pé, o olhar meio ensandecido adquirindo tons de pânico quando ela me vê chegar. Os homens que tentam violá-la estão de costas para mim, muito ocupados em tentar derrubá-la para notar a mudança de sua postura corporal, e, olhando bem nos olhos da menina, levo meu indicador direito à boca.

Ela entende o recado. E a partir daí, não me dou muito tempo para pensar.

O jiu-jitsu é uma luta de um para um; com minha estatura, sei que é impossível conseguir dominar os dois, então vou para cima do maior, contando que conseguirei acertar uma guilhotina ou um mata-leão. Se eu falhar, as coisas podem se tornar um pouco mais complicadas, mas não estou considerando a hipótese do erro; vou com tudo para ganhar, quase me esquecendo que estou num beco fedido ao invés de em um tatame, aproveitando do elemento surpresa para ganhar alguma vantagem.

Quando ele me nota, já é tarde demais. Ele se debate, com muita força, mas não tem a menor técnica; tenta me socar por cima do ombro, me acertar uma cotovelada e então uma cabeçada, todos sem o menor sucesso, enquanto me preocupo em acertar a imobilização, sabendo que as minhas chances de sucesso são altas. No fim, em pânico, ele começa a rodar o corpo comigo em suas costas, talvez com a esperança de me prensar contra a parede, o que acaba se revertendo contra ele; em seu esforço de girar o corpo, sua defesa se abre, e eu consigo levá-lo ao chão.

Tudo isso acontece num espaço de poucos segundos. Quando acordo para a realidade, o outro homem está caído no chão com as mãos entre as pernas, e Camilla parece quase presunçosa no espaço de tempo que seu olhar leva para encontrar o meu. No instante seguinte, ela está séria novamente, porque conseguiu ler o recado em minha expressão. Corra, eu digo. E nós corremos.

Voamos pelo beco, minha mochila batendo em todas as latas de lixo com o único propósito de me atrasar, e vencemos os próximos quarteirões em questão de segundos, sem olharmos um pro outro. Quando passamos em frente a um ponto onde o ônibus acaba de estacionar, Camilla nem sequer hesita antes de embarcar, e fico feliz ao vê-la desaparecer dentro do veículo cidade adentro. Se os homens me pegarem, o máximo que farão será me espancar até a morte, o que não considero particularmente ruim; contudo, quando olho para trás, ninguém me segue.

Acalmo o passo, sentindo minha respiração ofegante fazer meu corpo todo tremular, e trabalho para estabilizar meu corpo, inspirando e expirando do jeito que sempre faço antes e depois de uma sessão especialmente violenta no tatame. A adrenalina esfria e, enfim, sou capaz de racionalizar o que acabou de acontecer.

Acabei de agir por impulso.

Uau.

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Meu mestre não condena nem aplaude o que eu fiz, porque, em resumo, não tem nada que ele aprove ou condene. Ele apenas me pergunta se eu penso que fiz certo e, quando digo que sim, ele só assente. Gosto dessa quietude — ela acrescenta um pouco de paz ao silêncio turbulento que sempre me acompanha. Assim, sem mais nenhuma palavra trocada entre nós, termino o treino um pouco mais dolorido do que antes, mas me sentindo bem mais tranqüilo.

Quando chego em casa, não há ninguém e as luzes estão apagadas, como sempre. Uma fina camada de poeira cobre os móveis e faço um lembrete para limpá-la enquanto coloco todas as coisas comestíveis da casa numa panela e faço um maravilhoso mexidão gourmet para meu jantar. Não é muito gostoso — minha gororoba nunca tem gosto de comida e sim de gororoba, mesmo — mas dá sustância, e é isso que importa, porque já é hora de dormir. Arrasto minha mochila comigo para o quarto e estranho senti-la vibrar. Meu celular está tocando? Ninguém nunca me liga. Tateio os bolsos e encontro meu aparelho, quieto como sempre, e preciso de um longo segundo para lembrar que o telefone de Camilla ainda está comigo; na pressa da corrida, não me lembrei de devolvê-lo.

Encontro o aparelho no bolso da frente quase no mesmo momento que o remetente da ligação desiste, o que completa, de acordo com o resumo das notificações, a vigésima quinta chamada perdida da noite. Encaro o telefone como se dele emanasse algum tipo de veneno e quase o deixo cair quando ele começa a vibrar novamente, alguém cujo nome é “amorinha” tentando algum contato.

Essas pessoas devem estar preocupadas com Camilla, subitamente desaparecida das redes sociais por um período tão longo, e eu adoraria atender o celular e tranqüiliza-la, mas tenho ciência de que não posso fazer isso. Ao invés, encaro o celular com apatia até que a vigésima sexta chamada perdida se acumule no visor, junto com uma centena de mensagens, das quais o resumo das notificações me permite captar pequenos trechos:

Milla, cadê você?”, “Milla, estamos ficando preocupados”, “Se você ama seus amigos, atende a droga desse telefone. Milla!”

Meu coração dói um pouquinho. Se eu sumisse assim, demorariam horas e horas pra notar meu desaparecimento, porque meus pais são basicamente as únicas pessoas que se importam e eles estão ocupados demais trabalhando para prestar atenção. Não sou ingrato — se meus pais trabalham como condenados, sei que é para manter o estilo de vida que me permite pelo menos uma nesga de independência —, mas isso não muda o fato de que quase nunca os vejo e que às vezes, só às vezes, isso tem uma importância estrondosa.

É um pensamento ruim, mas é o que eu tenho.

Notas finais
Está me dando certa agonia postar isso sem betagem, porque eu sei que isso necessita desesperadamente de uma betagem Mas tudo bem, ignoremos '-'