Notas iniciais
Neste capítulo (já devidamente terminado) acompanhamos a Comandante Saril e somos brindados com uma pequena amostra da diversidade tanto racial quanto cultural da F.E.U.

"O homem deve ser superado... Eu vos ensino o super-homem."

Friedrich Nietzsche — Assim Falou Zaratustra

A bordo da nave esférica de cem metros de diâmetro que, sustentada por antígravos, pairava, imóvel entre as nuvens, dez quilômetros sobre a superfície daquele mundo, a Alferes Marina Delfino, oficial de teletransporte da Simurgh, recebeu ordens de Saril, via comunicador, e ajustou as coordenadas para o sinal do transceptor da vulcaniana na Estação Terminus — e em dois microciclos começou a teleportá-la. O toque suave de seus dedos fez brilhar o teclado virtual variável, com acionamento por infracampos energéticos, do console de controle do teletransportador. Poucos microciclos depois uma espiral turbilhonantes de cores e luzes concentrou-se em um ponto no ar, dentro do feixe de contenção da plataforma circular. As miríades de partículas brilhantes aglutinaram-se em uma coluna de luz que logo em seguida materializou-se na figura sólida, em carne e osso, da Comandante Saril, na plataforma do teletransportador.

Aquilo representava o ponto coroante de um desenvolvimento tecnológico cujos princípios fundamentais enraizavam-se tanto na Mecânica Quântica quanto no Postulado das Dobras de Cochrane. Por uma ação fantasmagórica à distância, ou "efeito E.P.R.", a medição realizada em Saril pelo feixe de partículas dos sensores de longo alcance empregados para "travar" o teletransporte na pessoa-alvo, alterou instantaneamente o estado quântico de seu corpo, duplicando-o na estação receptora da nave de acordo com os dados aleatórios da medição quântica enviados por um canal subespacial, e depois eliminando a probabilidade dele estar na superfície do planeta. Tudo isso foi feito com o auxílio da transmissão de dados via subespaço, realizada através de uma dimensão de ordem superior, tornando possível teletransportar uma pessoa a uma velocidade superior à da luz. E sem violar o sacrossanto Princípio de Incerteza de Heisenberg.

Desse modo, tendo estabelecido um campo ressonante, o receptor recriou a vulcaniana, descendo ao estado quântico de suas moléculas constituintes, e, com a substituição das ondas de probabilidade por partículas concretas, cristalizou-se a Saril a bordo da astronave como "a" Saril real, ao passo que a Saril original, na Estação Terminus, simplesmente sumiu.

A capitão da Simurgh e seu primeiro-oficial estavam na sala de teletransporte para recepcioná-la.

Atrás do console de controle, a Alferes Delfino saudou a comandante recém-chegada com um acenar de cabeça. A jovem oficial em uniforme escarlate e bege da Engenharia tinha olhos verde-azulados e cabelos castanhos, curtos e cheios, e apesar de seus ancestrais humanos, não nascera na Terra. Sua pele, parcialmente coberta de milhões de dentículos cutâneos de coloração cinza-pardo-azulada, assim como as longas fendas branquiais indo das orelhas pequenas ao pescoço, denunciavam-lhe a origem marzulina, do planeta Marzul — um mundo classe P1, com a superfície inteiramente submersa, povoado há mais de dois séculos por colonos terranos de ascendência brasileira geneticamente modificados para respirar debaixo d'água como os peixes. "Subespécie Homo sapiens aquaticus", Saril analisou mentalmente, "e um povo profundamente místico." Um aparelho respiratório portátil preso em sua cintura e ligado às guelras permitia à "Alferes Sereia" sobreviver numa atmosfera gasosa, de oxigênio e nitrogênio. (Ao contrário dos aquanoides, homens e mulheres anfíbios, dotados de implantes para extrair oxigênio da água do mar e que constituíam a maioria da população das informápolis submarinas do planeta Terra.)

Saril retornou-lhe o aceno e desceu da plataforma, parando diretamente à frente da capitão, em posição de sentido. Disse, com impassibilidade vulcaniana: — Comandante Saril apresentando-se e solicitando permissão para vir a bordo, capitão.

— Permissão concedida, comandante — respondeu a mulher de corpo atlético, pele moreno-aveludada e cabelos negros encaracolados, estendendo-lhe a mão. — Sou a Capitão Ishtar Lança de Prata Smith e este é o Comandante Modius Gallen, meu imediato e oficial de ciências da Simurgh. Seja bem-vinda!

Saril hesitou, e então pegou a mão de Ishtar, apertando-a leve e rapidamente — o suficiente para que ambas trocassem informações e credenciais, com um simples aperto de mão, enquanto seus próprios corpos eram usados para transmitir dados digitais, como em uma inforrede, entre os respectivos uniformes computadorizados. Ambas ficaram sabendo bem mais do que antes do contato.

Para Saril esse ritual formal tinha um inconveniente muito sério, pois todos os vulcanianos eram telepáticos ao ter contato físico com qualquer outro ser senciente, do que resultava claramente que um simples aperto de mão ou toque a expunha aos crus e desprotegidos pensenes alienígenas de seus colegas de Frota. Ela era obrigada a manter as barreiras telepáticas erguidas sempre que o protocolo a obrigava a tocar e ser tocada, para evitar ser afogada por uma torrente de emoções e pensamentos oriundos de uma mente indisciplinada. Vulcanianos com um P.E.S. mais forte que o seu tinham que manter os escudos reforçados todo o tempo, à mera presença de um alienígena, ainda que sem contato físico. Esta é uma das razões pelas quais vulcanianos (e pleiadianos) na Frota Estelar eram uma relativa raridade, mesmo no século VI d.V..

Em seu próprio mundo, em Vulcano, ela jamais havia tido contato físico com alguém de fora do pequeno grupo familiar onde crescera e com o qual partilhava o elo mental indissolúvel. Tocar nos corpos de outros seres inteligentes, para a moralidade "puritana" reinante no quarto mundo do sistema Beta Ceti, significava invadir sua privacidade mental. Mas Saril era uma oficial da Frota Estelar. Seus escrúpulos desvaneceram-se.

A seguir, preparou-se — com os escudos erguidos — para apertar a mão do primeiro-oficial da nave. Mais uma vez houve a troca silenciosa e extremamente rápida de informações. Avaliou a ambos, capitão e imediato, enquanto apertava-lhes a mão e assimilava-lhes os dados pessoais através de sua interface cerebral (eles, por sua vez, observavam-na de seus próprios pontos de vista, avaliando a nova oficial).

Ishtar Smith, de Assur-Banapli, sistema Lyder, por Neu Sirius, da fratria Lança de Prata, pertencia à raça de super-homens (e mulheres) eugênicos, produto de engenharia genética extremada, que se autonomeavam "antellurianos" ou "nietzschianos". Era da altura de Saril — 1,80m — e possuía uma notável perfeição física. O busto e os quadris arredondados e firmes sobressaíam sobre a farda esticada. Tinha a pele marrom-avermelhada, como muitos de seu clã. Os braços e as pernas, longos, bem proporcionados, revelavam sua força latente. E seu rosto tinha traços afro-eurasianos e uma harmonia e beleza como só a absoluta devoção antelluriana ao aprimoramento genético da espécie conseguia criar. O nariz era reto em bem talhado. A boca era ampla, emoldurada por lábios espessos, vermelhos e macios. Ao sorrir, exibia duas fileiras de dentes perfeitos incrivelmente brancos. Os olhos, de cor verde intensa e pupilas elípticas, como as dos gatos, eram de tamanho enorme e formato que evocavam os dos antigos afrescos egípcios, com uma grande inclinação na direção das sobrancelhas; tinham um permanente brilho de arrogância. Ela trazia o cabelo negro reluzente penteado para trás, trançado artisticamente na nuca e caindo-lhe até os ombros.

O efeito total era fascinante. Mas não era só o físico exuberante moldado por genengenharia. Ishtar irradiava uma aura quase perceptível de inteligência e superioridade, sensualidade mesclada com um leve toque de despotismo e até mesmo arrogância. A mulher superior, cujas características, funções e processos físicos, fisiológicos, psicológicos e mentais tinham sido modificados e acelerados a fim de torná-la capaz de sobreviver em ambientes hostis onde seres humanos normais sequer ousariam pisar.

"Isso mesmo", pensou Saril em silêncio, "indubitavelmente você é uma pura antelluriana. Fisicamente, tem a força de três homens da subespécie Homo sapiens sapiens. Nascida na data estelar 52392.208, oitava filha do Almirante Cuahutemoc Smith Lança de Prata, de Neu Sirius, por Vega IX — um dos primeiros antellurianos a serem designados ao comando de uma base estelar, veterano das Guerras Daemon, Borg-Anunnaki e da Grande Guerra Abissal. Classe de 69 da Academia da Frota Estelar. Número de série SC-63480704. Apesar de sua pouca idade, já é considerada uma perita em combates nos espaço, tendo participado de 150 enfrentamentos e sido condecorada cinco vezes."

Homens e mulheres como Ishtar, optimen ou "genricos" altos, fortes, saudáveis, atraentes e imunes à maioria das doenças e venenos conhecidos, abrangiam mais de 20% da raça humana fora dos planetas da União Solar. Escrupulosos seguidores de Nietzsche, Darwin, Dawkins, Ayn Rand e Lee Silver, consideravam-se os herdeiros do Universo, os sobreviventes supremos: Homo sapiens invictus.

Mas com Modius Gallen as coisas eram diferentes. O homem alto e robusto, que media 1,85m de altura, não era um ser humano e sim um MecOrgan, um androide biossintético, biomecânico. Tinha pele marrom-escura e brilhante, traços fortes negroides, nariz másculo, olhos castanho-escuros vivazes e atentos, e cabelo preto completamente encaracolado. Saril sabia que por baixo das camadas de tecido vivo, de pele e músculos sintéticos havia um endoesqueleto de superliga metálica acionado a micromotores hidráulicos e uma pequena bateria de microfusão nuclear a hélio-3, que lhe possibilitavam levantar do chão uma massa inerte de mais de meia tonelada e mantê-la suspensa por tempo indeterminado. Os olhos, o cabelo e a pele eram realmente humanos, criados nos tanques genéticos, automáticos, dos bancos de células-tronco. A carne tinha calor, pulsação, sensação física; e o coração biônico bombeava sangue sintético, saturado de milhares de nanobôs, para todo o corpo. No interior do crânio metálico havia o equivalente "holo-biopositrônico" de um cérebro humano, composto de uma liga tecnorgânica que combinava biocircuitos com a ultratecnologia molecular, usando os processos quânticos das partículas de TNA-DNA, com microligações subespaciais e nível de armazenamento infinito.

"Um perfeito ciborgue robótico", pensou Saril, agora com as barreiras telepáticas abaixadas por completo. "Ou deveria chamá-lo de cybot, se considerarmos a 'Classificação de Albuquerque'? Fabricado em Adapa I, mundo-matriz da nova raça MecOrgan. Classe de 77 da Academia da Frota. Número de série S-802701038. Já por duas vezes condecorado pelo Comando Estelar. Dotado de enorme força física. Sua interface neural é das mais avançadas; com ela, pode enviar e receber simultaneamente milhões de qubits por microciclo, independente de cabo neural."

Como biônica que era, além da inerente herança vulcaniana, logicamente Saril sentia certa afinidade conceitual pelo primeiro-oficial MecOrgan da Simurgh. Ao menos sua mente cibernética era autoprogramada de conformidade com os ditames da lógica. (Apesar do "setor sentimental" de seu cérebro, constituído por tecido biológico.) Podia tocá-lo sem a proteção do escudo de isolamento telepático.

Criaturas cibernoides como Gallen eram considerados uma nova espécie senciente unindo o tecno com o orgânico, Cyberhumanoid biomechanicus, possuindo dois diferentes tipos de codificação genética — o DNA de dupla hélice, mais de 80% idêntico ao humano, e o TNA de tripla, uma variante artificial do mesmo — e capazes de procriar entre si e com seres humanos. Desde sua criação no século IV d.V. — em Horizon, sistema Beta Aquilae, um mundo neossolariano famoso por sua indústria cibernética e seus avanços na biorrobótica — os MecOrgans foram nos sistemas estelares federados política e socialmente emancipados. Participavam das tripulações navais em igualdade de condições com os homens e os humanoides.

— Comandante Saril — principiou a Capitão Ishtar Smith em um rico tom de contralto. — Foi designada temporariamente para servir a bordo desta nave como especialista de Informações Navais — por catorze quadrons — até que chegue o novo oficial sênior da Inteligência. Certamente já está a par da situação reinante no Braço Karidian por causa da Controvérsia do Portal. — Seus olhos intensos e questionadores pareciam dissecar a vulcaniana com a feroz curiosidade antelluriana.

— Perfeitamente, capitão. — A voz de Saril era fria e calma. — Os lasmhorianos estão concentrando uma frota de naves nas imediações do sistema Delta Tigrii, ou Te-Ra, onde está situado o portão estelar que dá acesso à rede de túneis Kang neste quadrante; igualmente, uma frota espacial de Krotal já está fundeada fora dos limites do sistema planetário. O fato é que nenhum dos dois lados deseja, por ora, romper a paz nominal que impera no Braço Karidian, tentando fechar ao outro a única passagem para o espaço intergaláctico. O pivô da crise foi a globalização do portão estelar pelo novo governo shogalês. Acontece que o planeta Shogal, o terceiro de Delta Tigrii, é um membro adventício da Federação; por conseguinte, tem direito à proteção militar da Frota. Ademais, o portão encontra-se sob o controle da Federação. Para garantir que o livre-trânsito no espaço cósmico e o direito de utilização da hiperestrada por todas as raças não sejam violados. — Seus olhos cinzentos confrontaram os de Ishtar, e Saril sustentou-lhe o olhar inquisidor.

— Muito bem! — disse a capitão em tom penetrante. O sorriso sumiu do seu rosto, que tornou-se duro de repente. — É óbvio que os lasmhorianos não pretendem utilizar a hiperestrada para fins pacíficos. Partiremos imediatamente para o sistema Delta Tigrii, o pomo da discórdia. Será apenas uma missão de observação e monitoramento, junto com outras vogelfrei: a Rock, a Garuda e a Phoenix. Comandante Saril, se assim o desejar poderá começar a trabalhar acessando nossos computadores de linguística e criptografia quântica, bem como os bancos de dados positronizados de todas as unidades da Frota da Federação estacionadas nos Sistemas Hogla e no esapço em torno de Shogal, junto ao portal-transmissor — e sem sair de seu alojamento. Sinjoro Gallen, mostre o alojamento da Comandante Saril e depois encontre-me na ponte de comando.

— Sim, capitão — respondeu Modius Gallen sem perda de tempo. Virou-se para Saril. — Comandante, acompanhe-me por favor. Suas bagagens, se tiver alguma, serão imediatamente teleportadas para o respectivo alojamento pela oficial encarregada do teletransporte.

Fez meia-volta e começou a andar; as portas deslizantes abriram-se para lhe dar passagem. Saril seguiu-o, mas ainda ouviu atrás:

— Comandante Saril! — Era a voz da Capitão Smith, e Saril estacou. Virou-se automaticamente e encarou sua superior hierárquica, que estava sorrindo friamente.

— Capitão?

Os olhos de gato de Ishtar, meio oblíquos e misteriosos, pareciam duas lanternas verdes. — Apenas um dado adicional, comandante. Como muitos de meu povo, submeti-me à técnica cypherdooziana de estabilização mental, que isola meus pensenes do mundo exterior, impedindo que sejam captados por qualquer tipo de empata ou telepata. Isto quer dizer que não há necessidade de erguer seus escudos mentais para me tocar, comandante. Sim, eu conheço o tabu vulcaniano em relação a contatos físicos, e posso assegurar-lhe que não correria qualquer risco durante o cerimonial do aperto de mão; meus pensenes estão aqui — disse, levando a ponta do dedo indicador ao centro da testa — , mas não produzem eco ou reflexo que se possa captar.

A face de Saril tornou-se tão inescrutável quanto uma máscara thoriana para esconder seu choque. Essa alienígena, ubermana, antelluriana, sabia...!

— Por aqui, sinjorino — chamou o Comandante Gallen, que a aguardava pacientemente no corredor. Sua voz possuía modulação e por isso soava como humana, em um forte barítono. Ele e Saril percorreram com passadas largas o corredor circular muito iluminado que contornava a célula central numa curva bastante ampla — a luz agradável que se espalhava em todas sua extensão não tinha qualquer fonte visível — , entraram por uma das conexões radiais, até chegarem a uma espécie de cilindro superdimensionado de alumínio transparente que descia do teto ao piso, com uma porta em arco aberta, no ponto de interseção com o convés central. Havia no chão uma abertura circular de três metros de diâmetro, que emitia uma leve fosforescência; outra abertura idêntica, no teto, ficava diretamente acima dela. Era o tubo do elevador antigravitacional que atravessava a nave de polo a polo no sentido vertical. O MecOrgan pulou dentro da abertura do poço, seguido pela vulcaniana, enquanto a queda de ambos foi freada instantaneamente pela tração suave do campo antigravitacional, transformando-se num flutuar suave para baixo.

— Deque C — Gallen comandou, falando calmamente ao computador do elevador.

Enquanto desciam, rumo aos conveses inferiores, passaram por outros tripulantes que flutuavam para cima; o poço antigravitacional do elevador central era dividido em duas metades: a que subia e a que descia, sendo o controle do tráfego de passageiros efetuado por computador próprio. Tratava-se simplesmente de uma "versão estendida" do raio trator multifrequencial usado para transladar contêineres em qualquer astroporto da Galáxia.

A voz de Gallen falou: — Seu novo aposento, comandante, é o A-04, reservado para o oficial da Inteligência, no deque C, seção 12, com os alojamentos para o pessoal da Ponte e da Segurança. Sendo nova nestes cruzadores esféricos da classe Anak, creio que achará tudo muito espartano. Nada de instalações de luxo. Não há aposentos V.I.P., bar panorâmico, jardim botânico ou hidropônico. Assim como não há escritórios dos oficiais graduados, nem salas de conferências. Em compensação, o uso intensivo de tecnologia virtual ou ciberdeques levou à descentralização das funções da Ponte: embora os oficiais comandantes trabalhem em conjunto, isto é obtido através de telepresença, estando eles fisicamente em lugares distintos da nave. Em face do pouco espaço disponível a bordo, não há outro modo.

— Recebi estes dados e outros tantos por intermédio de treinamento hipnotrônico, Comandante Gallen — observou Saril friamente.

Gallen começou a sorrir. — Comandante Saril, saber uma coisa intelectualmente e vê-la, experimentá-la, são duas situações completamente diferentes. E é fato comprovado que tripulantes orgânicos, oriundos de unidades convencionais das classes maiores, tais como Destiny, Star Empire, Quasar ou mesmo Hyperion, adaptam-se com dificuldade aos novos cruzadores compactos do tipo de Simurgh. Não temos sequer holodeques. Afinal, devido à robotização de funções secundárias, apenas vinte pessoas formam a tripulação desta nave, e metade delas são antellurianos — independentes, orgulhosos e fortes — , que desprezam o que chamam de "escapismo holográfico" e preferem instalações simples e despojadas.

— Como nós, vulcanianos — Saril disse, lacônica. — E MecOrgans, suponho.

— Sim, somos muito parecidos, comandante — disse Gallen com o sorriso frio. — Antellurianos, vulcanianos e MecOrgans. — E após uma curta pausa: — Não obstante, há uma óbvia diferença entre os MecOrgans e os vulcanianos, de um lado, e os antellurianos, de outro. Ou deveria dizer, entre nós, especificamente, e os seres humanos. Os antellurianos descendem de humanos; não podem livrar-se dessa herança racial. Não são racionais como os vulcanianos ou os MecOrgans, porque seus "circuitos" não podem ser programados adequadamente, de modo lógico. São imprevisíveis.

"Regozijo-me em nossas diferenças", pensou Saril, trazendo à mente um velhíssimo adágio de seu povo.

— Também já me disseram que o fato pode ter suas vantagens em determinadas situações — ela contrapôs, com certa malícia. Não sabia porquê, mas decidira provocá-lo. — Entretanto, não é verdade que a biomatéria artificial de seus cérebros holotrônicos confere aos MecOrgans sentimentos humanoides?

— Sim, temos sentimentos assim como vocês têm — retrucou Gallen. — E para tanto não necessitamos de nenhum nanochip de emoções a ser instalado em nossos cérebros, ao contrário de modelos precedentes puramente positrônicos. No entanto, aprendemos a disciplinar nossas emoções e sentimentos, tal como vocês. É por isso que digo que nossas espécies têm mais em comum do que com a subespécie antelluriana dos humanos.

— Muito lógico — Saril sentenciou.

"Estamos testando um ao outro."

Pararam abruptamente, pousando sobre o convés liso, e dirigiram-se ao corredor. Gallen retribuiu o cumprimento de um oficial robusto de menos de 1,80m de altura e tez levemente tostada pelo sol, em uniforme de Operações e Serviços (com a blusa de gola rolê lilás por baixo da jaqueta carmesim), que parecia ter mais pressa do que eles. Pelo crânio totalmente calvo, mas pintado com uma espécie de mandala em vermelho e verde-claro, num fantástico desenho espiralado, Saril concluiu tratar-se de um nativo pavonês, do sistema estelar Delta Pavonis, a meros 5,9 parsecs da União Solar. Entre os pavoneses — descendentes de clones de cosmonautas russos abduzidos por pleiadianos em 18 d.V., que se reproduziam exclusivamente através de clonagem ou do somatório de genes maternos e paternos em laboratório — , a careca masculina era considerada sinal de inteligência tanto quanto de virilidade. Além disso, pintavam símbolos elaborados sobre a testa para expressar seu estado de espírito ou ocasiões importantes, como comemorações, guerras e várias outras.

Quando um oficial de Segurança andoriano portando um P.A.D.D. na mão direita passou por eles e cumprimentou Gallen, Saril de pronto o identificou como um vati, por sua pele azul-cobalto e cabelos cor de creme sob um par de antenas eretas. Era capaz de diferenciar os diversos tipos étnicos e pseudorraças multitonais (ainda que azuis) existentes entre os inumanos habitantes do sistema de Andoria, ou Beta Canum Venaticorum, humanoides de características insetoides, polissexuados e poedores de ovos, que se contavam entre os membros fundadores da atual Federação Estelar Unida.

Saril disse, de forma telegráfica e cortando as palavras, o equivalente a: — Comandante Gallen, recebi instruções no sentido de trabalhar em estreita simbiose com a I.A. desta nave... a Inteligência Artificial sofisticada e onipresente que controla os microframes, nanobôs de restauração, droides de manutenção, robôs e sistemas de armas, sistemas de suporte de vida, de monitoramento da saúde e do paradeiro dos tripulantes e cada circuito da Simurgh. Não há necessidade de dizer que nunca lidei antes com uma I.A. na forma de uma nave que pode pensar e ter sentimentos, porque é a verdade; logo, preciso saber mais sobre a mesma, seu modus operandi, sua própria psicologia. Poderia suplementar a pouca informação de que disponho, comandante?

E ele respondeu, com rapidez metálica, na mesma linguagem abreviada: — Afirmativo. E pode chamar-me de Modius. Em qualquer nave estelar da Frota, os oficiais superiores costumam chamar-se pelo prenome.

— Modius, então. Pode chamar-me de Saril. Minha raça não faz distinção de prenome e sobrenome.

— Pois bem... Saril — concordou Gallen. — Todos os cruzadores esféricos da classe Anak são sencientes: consciências sintéticas habitando sistemas de computadores tecnorgânicos de última geração, dotadas de psicologia e sentimentos pré-programados que, somados a um raciocínio lógico-matemático insuperável, habilita-as a interagir rápida e conscientemente com as inteligências humanoides. Para se ter ideia da complexidade de seus programas e sistemas operacionais, basta dizer que são capazes de discernir entre certo e errado, bem e mal, chegando até a julgar se as ações tomadas por um oficial comandante ferem as regras da Cosmoética.

— Tecnologia pleiadiana, naturalmente. É, por assim dizer, a quintessência das Seis Leis da Robótica.

— E vedraniana, de uma das raças mais avançadas da Galáxia de Andrômeda.

— Inteligências artificiais incorporadas em cruzadores intergalácticos que interagem com seus tripulantes por meio de avatares holográficos e robóticos autônomos são reconhecidamente uma invenção vedraniana.

— Exato. Tal qual suas coirmãs, Simurgh é um ser autoconsciente, com personalidade própria. Num certo sentido muito real, ele é a nave em mente e coração, alma e corpo. Desculpe-me caso pareça poético e teatral, mas o fato é que li muito sobre as filosofias solarianas. Simurgh interage com a tripulação por intermédio de voz, imagens em vídeo e hologramas de si mesmo. Sua imagem holográfica "oficial" é a de um ser-pássaro de plumagem alaranjada e metálica, de cabecinha humana de menino, provido de quatro asas, garras de abutre e uma imensa cauda de pavão real. Sua voz é humana e deveras melodiosa.

— Uma imagem um tanto peculiar, eu diria.

— Foi o próprio Simurgh quem a compôs, partindo dos dados "garimpados" na Starnet sobre o homônimo pássaro mítico iraniano, da Velha Terra. Seu senso de humor é um tanto mordaz, dir-se-ia quase cínico, mas a lealdade que tem para com a capitão e seus tripulantes é inegável. As Seis Leis o impedem de entrar em conflito com seu capitão ou qualquer tripulante que esteja no comando, a menos que o imperativo de proteger a Federação e a Humanidade Cósmica o exija.

— Trata-se da assim chamada Lei Zero, correto?

— Afirmativo. Mais uma contribuição do gênio literário do legendário Isaac Asimov à ciência da robótica! Aliás, o Bom Doutor sentir-se-ia lisonjeado em saber que, quinhentos stanrevs depois, é um dos "santos padroeiros" lembrados carinhosamente pelos robôs.

Eles pararam em frente à cabine designada para o oficial da Inteligência.

— Bem, aqui estamos — disse Gallen alegremente. — Alojamento A-04. Será seu durante os próximos catorze quadrons, enquanto você permanecer a bordo. O sistema de computador multiusuário, moletrônico, é infra-Turing. Além da interface verbal tem um neuroterminal. Pronta para começar a trabalhar agora?

— Afirmativo, Modius. Transferiu minha ficha de registro para o banco de dados do microframe?

— Afirmativo. E agora, Saril, eu devo deixá-la. A Simurgh parte dentro de exatamente doze centiciclos. Se precisar de mim, estarei na Ponte. Não é provável que nos reencontremos tête-à-tête frequentemente; apenas através de telepresença. — Ele levantou sua mão na tradicional saudação vulcaniana que expressa votos por uma vida longa e próspera (juntando os dedos abertos, de dois em dois: o indicador e o médio, e o anular e o mínimo, separados por um espaço em "V"), e disse em t'khasiano: — Skalsaa baltaai, Saril.

Skalsaa baltaai, Modius — ela respondeu, oferecendo-lhe a mesma saudação.

Modius Gallen girou nos calcanhares e encaminhou-se na direção do elevador antigravitacional que o levaria à ponte de comando. Saril observou-o se afastar a passos largos, e então recolheu-se ao alojamento.

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A cabine de Saril era basicamente igual a todas as outras cabines de oficiais e tripulantes da Simurgh. Media três metros e meio por quatro e cinquenta, e o teto irradiava uma luz suave sobre as paredes e o piso acarpetado. Suas cores, em tons suaves de bege, eram repousantes e agradáveis; o controle de temperatura e de condicionamento de ar era excelente. Tinha armários embutidos, uma cama embutida na parede, um console de sintetizador de alimentos e um trivídeo de hiperonda — tudo fonoativado. Havia um banheiro privativo, anexo, com chuveiro sônico em zero G. Em suma, uma cabine simples, funcional, mas muito bem aparelhada e de uma limpeza antisséptica. Para Saril isto bastava. Caso necessário, havia poltronas infláveis, cujos dispositivos automáticos se inflavam instantaneamente, prontas para o uso. Não havia o menor sinal dos artigos de luxo ultratecnológicos aos quais as tripulações navais da F.E.U. estavam normalmente acostumadas. Mas Saril podia passar bem sem os mesmos.

Ao adentrar a cabine, sentiu uma lufada de ar quente e seco envolvê-la. Saril respirou fundo, acostumando-se àquele ar rarefeito, sentindo o prazer de sua secura e de seu calor, por um instante. Era tal qual a atmosfera de Vulcano, o planeta onde havia crescido. Saril considerou-a perfeita. A I.A. da nave possuía à sua disposição os arquivos pessoais de cada tripulante ou passageiro e dessa forma, ajustava eletronicamente os diferentes alojamentos à gravidade, temperatura e condições atmosféricas dos mundos de origem desses ocupantes. Em outras palavras, tinha controle ambiental totalmente regenerativo. Saril sentiu-se honrada com tamanha cortesia, se bem que seus pulmões biônicos a habilitassem a respirar misturas gasosas que matariam qualquer vulcaniano. Parecia ser o modo de Simurgh dar-lhe as boas-vindas. Como diria o irreverente Tenente-Comandante Goldberg Benoliel, seu engenheiro-chefe na Al-Burak, "parece que vai ser o começo de uma bela amizade".

O hardware padrão do neuroterminal consistia de um console de escrivaninha (com cadeira dobrável), em cujo tampo, liso, na cor azul-metálico, brilhava um círculo de luz branca leitosa. Saril sabia que, ao tocar de leve a luz, esta expandir-se-ia até cobrir por completo a superfície da mesa, revelando as silhuetas de um par de mãos de conformação geral humanoide (direita e esquerda, com os polegares opostos). Bastava o usuário humano ou humanoide tomar assento e pousar suas mãos sobre as fantasmagóricas "mãos" virtuais em cima da mesa-painel, e conectar-se, via interface de ciberdeque, com I.A. da Simurgh e acessar sua base de dados numa questão de nanociclos, comunicando-se com ela pelo pensamento. Para eventuais usuários não-humanoides ou heteromorfos, havia recursos adicionais, tais como dermatrodos que seriam "vestidos" ou um capacete indutivo, colocado na cabeça, enviando e recebendo impulsos diretamente do cérebro.

Na realidade Saril podia prescindir do neuroterminal e "plugar-se" diretamente ao computador central da nave. Graças a seu implante neural, que permitia-lhe penetrar no mundo virtual dos sistemas computadorizados e trabalhar neles numa base em 3-V. Sendo cientista, aprazia-lhe a perspectiva de conhecer a "mente" de Simurgh e comungar com ela.

Saril sorriu consigo mesma — um sorriso apenas mental, pois os lábios não se moveram. Gallen testou-a e ela passou no teste. Conhecia o motivo por que a capitão mandara seu imediato acompanhá-la pelos corredores e elevador antigravitacional que levavam ao alojamento da nova oficial. Apesar de não ser telepata, o MecOrgan era capaz de captar e analisar o padrão das ondas cerebrais de qualquer ser vivo (artificial ou natural) ao seu alcance. Não lia os pensamentos, mas tão somente as emoções, os impulsos, a aura mental dos seres inteligentes. Saril sabia disso, pois assimilara os dados pessoais de Gallen ao apertar sua mão. Sabia perfeitamente que tinha sido "cérebro-analisada" pelo androide biossintético — procedimento rotineiro na F.E.U. e não-intrusivo, que não violava a privacidade mental da pessoa — , e ele certamente sabia que ela sabia disso. E Saril sabia que ele sabia...

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Pela legislação da F.E.U., toda biomáquina ou programa holográfico de computador capaz de passar em um Teste de Turing, recebia todos os direitos e a cidadania da F.E.U.; por conseguinte, os MecOrgans eram considerados seres sapientes totalmente responsáveis por seus atos, infrações da lei e passíveis de todas as sanções. Também não podiam ser escravizados e tinham o direito de pertencer ao oficialato da Frota Estelar.

Isso também era verdadeiro para os pequenos cruzadores robô-sencientes da série Anak, como a Simurgh.

Havia ainda aqueles que acreditavam que MecOrgans, ciberdroides e todas as I.A.s não passavam de meras criações humanas, ainda que dotados de raciocínio e princípios éticos, e que a concessão da cidadania federal a tais máquinas pensantes fora um erro. Esta opinião "racista" (ou "especista") se achava enraizada particularmente entre as populações dos mundos antellurianos neocapitalistas, que se arvoravam em baluartes da cultura humana (leia-se Homo sapiens invictus e não Homo sapiens sapiens!). Tratavam-se dos mesmos antellurianos, ou nietzschianos, que se opuseram com unhas e dentes aos direitos civis dos andromanos e que tiveram seus brios eugênicos feridos com a ascensão social dos semiclones (clones fenotipicamente alterados, dotados do status de filhos-substitutos) e a militância de muitos deles pela emancipação dos clones puros, consoante com as leis antiescravagistas aprovadas pelo Conselho da Federação.

Apesar disso, entre a Capitão Ishtar Smith, uma antelluriana, e seu primeiro-oficial, o Comandante Modius Gallen, um MecOrgan, vigorava um relacionamento saudável, mutuamente respeitoso, tal como convinha a dois colegas oficiais, numa notável demonstração do igualitarismo que permeava a Federação Estelar. Ao menos era o que um terceiro seria levado a concluir se já não os conhecesse há bastante tempo. Na realidade o que havia entre esses seres tão desiguais transcendia a mera relação superior/subalterno ou a disciplina militar. Eles eram amigos.

Naquele instante seus respectivos egos virtuais encontravam-se frente a frente numa réplica virtual tecnicamente perfeita da ponte de comando, vazia, protegida por "modo privativo" de conversação, no ciberespaço que constituía, por assim dizer, o reino da Inteligência Artificial que dava vida à Simurgh.

Naquele instante o avatar de Ishtar Smith, nascida de Artemísia, de Assur-Banapli, por Cuahutemoc, de Neu Sirius, Alfa-Mais da poderosa fratria Lança de Prata, encarou o avatar de seu amigo pessoal e conselheiro, seus olhos virtuais perscrutando os dele como se reais fossem. (No mundo real o olhar do MecOrgan deslocava-se ligeiramente de um ponto para o outro, ao contrário do olhar um tanto parado dos androides comuns, e seus globos oculares eram brilhantes e úmidos como os dos humanos.)

— Então, Modius, o que achou da Comandante Saril?

Modius Gallen respondeu com a mesma calma de sempre: — Sua mente é disciplinadíssima, como se espera que sejam os padrões de pensamento consciente de um vulcaniano. Não percebi qualquer alteração em sua aura mental, nem sequer a menor modificação no campo elétrico de suas células cerebrais, que possa ser o sintoma duma luta íntima. Biorritmo, idem; cores da aura, idem. Por outro lado, sua folha de serviços na Inteligência Naval, tanto como agente de campo quanto como oficial de gabinete, é extraordinária. Você viu nos registros que a Capitão Macready, da Albireo, e o Capitão Moaes, da Crux, têm-na em alta consideração.

— Ela não se perturbou nem mesmo quando eu mencionei o detalhe dos escudos mentais? — perguntou Ishtar, com um toque de malícia.

— Nem assim. A lógica e uma determinação férrea ocultam seus sentimentos. Não sei se lhe interessa saber que a nossa distinta comandante alcançou o décimo grau de C'thia dentro da Hierarquia Planetária invisível que há séculos rege o povo de Vulcano.

— Um planeta regido por uma sociedade secreta iniciática... Eu realmente não consigo entender como um povo altamente produtivo e evoluído, pródigo em conquistas científicas, intelectuais, artísticas, pode ainda conservar rituais tão arcaicos.

— Não nos cabe questionar o misticismo vulcaniano, é parte do que eles são. Por outro lado, dá para se ver uma semelhança espantosa entre vocês duas, embora sejam mulheres de raças completamente diferentes.

— Tem razão, Modius. Particularmente, nunca me agradou o pensamento de estar numa nave "roçando os cotovelos" com dezenas ou até centenas de tripulantes de várias raças... isto é, quando eles têm cotovelos, evidentemente. — Era uma alusão ao forte senso antelluriano de territorialidade e posse, incutido no âmago de seu xDNA "semiartificial": cada antelluriano, macho ou fêmea, possuía um "espaço vital" ou "território" invisível que estendia-se num raio de dois metros em seu derredor. E sentia-se violentado, violado em sua intimidade sempre que alguém (que não fosse pai, mãe, cônjuge ou filhos) aproximava-se a menos de dois metros, invadindo seu espaço sem permissão. — Mas ao optar pela Frota Estelar sabia que teria de superar e sublimar tudo isso, e é o que eu faço. Quer dizer que aprova nossa nova analista de Inteligência?

— Sim, eu aprovo. E você também, ou não estaria medindo-se com ela desde a sua chegada.

— Sou assim tão transparente?

— Ishtar Smith, eu a conheço. O seu é um comportamento tipicamente antelluriano: testar, desafiar, medir-se com "o outro". Isto requer que se reconheça que o outro tem seu valor. Tipicamente individualista e competitivo.

— Porque sou uma Alfa-Mais. Sou o fruto tanto da genética quanto do condicionamento cultural da sociedade onde cresci. Memes e genes. Humanos solarianos, por exemplo, que rejeitam as técnicas de ressequenciamento de DNA, são educados desde tenra idade para serem cooperativos, generosos, minimizando o valor da competição. E daí?

— Ouso dizer que, no fundo, você admira Saril.

— Admiro o sangue-frio vulcaniano. Apresentar-se como voluntária para a área da hiperestrada Kang, nos dias que correm... Parece tão antelluriano!

— Por causa da Controvérsia do Portal?

— Isso mesmo. A Controvérsia do Portal. Porque os shogaleses resolveram globalizá-lo, o que levou ao acirramento da tensão astropolítica entre lasmhorianos e krotalianos. E isso pode ser apenas a ponta de um imenso iceberg.

Lasmhorianos! Sobre esta raça que evoluíra de mamiferoides arbóreos pesava a suspeita de que secretamente juntava forças com certas inteligências exóticas de outras esferas dimensionais — manodins — , visando erradicar o poderio da Federação no Octante Beta Meridional.

O pai de Ishtar lutara — como muitos bons antellurianos-nietzschianos lutaram — na Guerra Abissal, cerca de cinquenta stanrevs atrás, defendendo a Federação contra a invasão de outrincons de outro continuum espaço-tempo que se haviam aliado aos agentes antivivos dos Primordiais de além-universo. Não haveria de ser a última. A Sombra Negra do Abismo não fora derrotada, mas fora detida.

Ao menos por enquanto.

Ishtar comprimiu os lábios cheios e pintados de vermelho, e soltou um longo suspiro. – Nietzsche disse uma vez: "Nos indivíduos, a insanidade é rara, mas em grupos, nações e épocas é regra."

— Seu filósofo humano favorito diria que vivemos numa época particularmente insana. E no entanto ele também disse: "Não existem fatos, apenas interpretações."

— Sem dúvida. E o que meu intelecto geneticamente aprimorado interpretou da presente situação não é nem um pouco otimista. Dentro em breve, os ideais de universalismo e de maxifraternismo que a Federação tanto alardeia — e que cada um de nós jurou defender — serão submetidos a uma dura prova. Se as informações garimpadas por nosso Serviço de Inteligência sobre o que acontece no sistema Delta Tigrii apontarem para uma ameaça à estabilidade da Galáxia... e se não houver outra saída...

Ishtar calou-se por um instante e finalmente concluiu com ar fúnebre: — É bem possível que, como consequência, um mundo habitado precise ser destruído... e bilhões de sedops inocentes, mortos. Ou, como provavelmente diria uma rainha borg, "o mal menor para evitar o mal maior".

— Os borgs estão extintos há cem stanrevs, Ishtar.

— E nós iremos como eles se foram, Modius. Ou o decadente Império Central Sorgalt. Tornamo-nos complacentes, vivendo na paz e na fartura, e nos esquecemos de que o Universo não está do nosso lado.

— Com toda franqueza, espero que esteja errada.

— Com toda franqueza, eu também.

************

No Octante Gama Setentrional, nas imediações do núcleo mais denso da Via Láctea — onde o supermassivo buraco negro central Sagittarius A*, qual monstruoso e terrível ogro cósmico, ruge insaciavelmente com sua tonitruante voz de rádio, em meio a rios de irradiação letal e farta quantidade de gás hidrogênio ionizado, e centenas de anãs brancas, estrelas de nêutrons e buracos negros — , estão as Nuvens Sartog. Um gigantesco complexo de nuvens moleculares formadas de íons hidroxila, gelo de água e poeira interestelar, com cerca de 30,67 parsecs de comprimento, 9,20 parsecs de largura e 6,13 parsecs de profundidade. Essa região, verdadeiro berçário estelar, possui um número incontável de aglomerados de protoestrelas, estrelas-bebês ainda por emergir de seus casulos de gás e pó, e alguns sistemas obscuros orbitando anãs marrons ou vermelhas, todos desabitados e de baixo valor comercial. Não é rota costumeira de transportes interestelares, tendo má reputação e sendo geralmente desconhecida e não frequentada por inteligências orgânicas desde muito antes do ocaso do Segundo Império Galáctico. Até mesmo os ferozes insetoides loraks, que dominam um pequeno império sideral de 300 sistemas solares em pleno Near Eastside do Octante Delta Setentrional, nas proximidades do centro galáctico, evitam-na com um temor que, na raça humana, poderia ser chamado de supersticioso — e não de todo infundado. Súbitas distorções espaço-temporais e outras anomalias ainda mais estranhas são frequentes na área maldita. Naves de várias raças e civilizações que tinham se arriscado a viajar pelo subespaço, em velocidade de dobra, ou a fazer o salto no hiperespaço usando os drives FTL, tinham simplesmente desaparecido. Quando muito, uma espaçonave com o casco todo derretido, transportando um punhado de sobreviventes mentalmente aniquilados, podia surgir repentinamente do nada... décadas antes de ter partido!

Uma coisa que nem a F.E.U. nem os impérios rivais de Draconia e Sorgalt e Klinzhai e Khaldan ou os cruéis e insensíveis zaranitas sabiam era que o setor mal-afamado estava tudo menos desabitado. Há cinco milhões de anos terranos os pequenos robôs voadores que a si próprios davam o nome de Guardiães Namósic ocuparam as Nuvens Sartog; construíram grandes bases espaciais em asteroides com mais de 1 km de extensão, posicionadas em pontos equidistantes através da nebulosa escura, cujo interior raramente abandonam. Pois as Nuvens são o ponto de interseção entre este Universo e um ponto dimensional neutro que conduz ao Universo não-paralelo imediatamente seguinte. Nessa cósmica terra de ninguém, a meio caminho entre um ilimitado espaço vazio de escuridão total que desemboca em nosso cosmos familiar e o branco vazio do espaço infinito e luminoso que desemboca no desconhecido existente além dele, paira a Roca da Encruzilhada, um amontoado de cascalho e fragmentos rochosos fracamente agregados com 564 metros de comprimento que gira no seu eixo a cada 57 horas. Em sua superfície morta ergue-se desde tempos imemoriais uma impressionante estrutura cristalina — cultivada, não construída — que sugere remotamente uma paródia futurista de um castelo antigo e majestoso: a Fortaleza Suspensa no Limite do Eterno.

Uma única nave de transporte com motores de quantum — mais um souvenir dos Astroengenheiros em poder dos Namósic — efetua o serviço de ligação entre os dois Universos, quando o Portal da Encruzilhada é aberto a intervalos irregulares. Nenhum ser vivente da nossa galáxia conseguiria penetrar em tal mundo fantástico e proibido situado além dos abismos do tempo e do espaço. Ninguém jamais terá esse privilégio.

Exceto os Guardiães Namósic, os decanos dentre todas as civilizações robóticas do Grupo Local, tão inacreditavelmente próximos das fabulosas Eras do Alvorecer que a vida protoplásmica ainda não ultrapassava uma meia dúzia de mundos jovens demais para a autoconsciência; que, ao longo de várias eras geológicas percorreram a Galáxia de extremo a extremo em missões exploratórias, mapeando desde áreas de nascimento de estrelas como a Nebulosa de Órion até aglomerados globulares de sóis quase tão velhos quanto o próprio Universo. Haviam desbravado as regiões centrais da Galáxia até o seu miolo — o derradeiro caos de irradiações energéticas onde rosna, famélico, o supergigante canibal cósmico Sagittarius A* — , e extrapolado os seus limites a tal ponto que viam a Via Láctea reduzir-se a uma girândola espiralada que pairava, em toda a sua brancura leitosa, na eterna escuridão do báratro intergaláctico, envolta por um anel de radiosa luminosidade. E descobriram que o Universo, com sua curiosa estrutura celular, "orgânica", suas "bolhas" de espaço e seus cubos de 100 megaparsecs de lado, possui um ciclo de vida e segue uma evolução quase biológica. Vida, morte e renascimento.

Após incalculáveis kalpas, retornaram às Nuvens Sartog, ao seu esconderijo secreto e ancestral. E viraram as costas ao resto da Galáxia. Já não possuíam astronaves, com exceção daquela única aparelhada para fazer a travessia do túnel hiperdimensional de Universo para Universo. Para o translado de suas bases até o astroporto de embarque e vice-versa, serviam-se os Namósic de portais-transmissores de matéria do tipo "Balão de Mucáric", que ostentam a interessante particularidade de repelir matéria orgânica, mas não biocircuitos. Assim, seu segredo — e sua estranha afinidade com a misteriosa raça de engenheiros cósmicos — estava para sempre seguro.

E então, de seu exílio além da própria curva do Cosmos, os antigos Kang — agora entidades bioenergéticas hexadimensionais — regressaram à Galáxia. Sabedores de que tudo aquilo pelo qual os Astroengenheiros da aurora dos tempos e os Éticos vindos do futuro remoto haviam lutado estava fadado a perecer numa escuridão longa, eterna.

A menos que os custodiadores da matrisfera fizessem o que era esperado.

Notas finais
Algumas explicações em termos de padrões morfológicos e siglas (que eu deveria ter postado anteriormente, já no 1º "Apêndice"), utilizados para classificar as diversas espécies inteligentes da Galáxia de acordo com sua conformação biotípica e bioquímica, fazem-se necessárias: A) Humanoides: termo reservado para os seres de conformação biotípica e bioquímica similares aos da Humanidade Solar (ou seja, nós, Homo sapiens, planeta Terra); o padrão é amplo o suficiente para incorporar discrepâncias como as existentes entre vulcanianos e solarianos (terranos "coloniais" de Luna, Marte etc), por exemplo, mas não entre estes e os MecOrgans (virtualmente classificáveis como biomáquinas). B) Inumanos: seres de conformação humanoide, orgânicos, mas sem qualquer parentesco, ainda que remoto, com o 1º grupo; por exemplo, os andorianos. C) Heteromorfos: seres desprovidos sequer de semelhança física com o 1º e o 2º grupos; por exemplo, os "balões vivos" ou flutuadores gigantes que vivem nas atmosferas turbulentas de gigantes jovianos como Júpiter. D) Biomáquinas: termo que designa mecanismos dotados de raciocínio, de formato humanoide ou não, e que incorporam dispositivos orgânicos como processadores de dados e/ou funções similares (biocircuitos); o termo tanto designa espécies que de orgânicas evoluíram para formas mecânicas - os cylons e os Runners, por exemplo - , quanto criaturas cibernéticas que se constituíram em civilizações independentes, após terem sido criadas artificialmente - os Kang e os Nomak de Adser VII, e, mui provavelmente, também os Guardiães Namósic das Nuvens Sartog. OBS.: Andromano: o mesmo que replicante (remember "Blade Runner"); ser humano ou humanoide artificial (de carne e sangue e ossos), produto de engenharia genética avançadíssima, podendo incorporar tecnologia molecular (nanites ou nanossondas). Em planetas como Suburra, onde impera a escravidão tecnológica, os andromanos têm o seu DNA fichado e trazem já de fabricação alterações genéticas visando não só reduzir o seu tempo de vida útil (não interessa a nenhum fabricante industrial supercapitalista que seus produtos sejam eternos), mas também para facilitar sua diferenciação dos verdadeiros humanos (sensibilidade à luz ultravioleta, por exemplo). A) SEDOP: acrônimo composto de "SEres De Outro Planeta"; termo genérico referindo-se a todos os seres inteligentes (humanos ou outros) que nasceram fora da Terra, em outras partes do Universo. B) OUTRINCON: neologismo composto de "OUTRa Inteligência CONsciente", referindo-se a todas as formas de vida inteligente, além do Homo sapiens, que existem em outras partes do Universo e em outros universos paralelos. C) MANODIM: abreviação de "MANifestação de Outra DIMensão", termo genérico que se refere a todas as formas de vida inteligente que habitam outros contínuos espaço-temporais ou dimensões paralelas. PENSENE: neologismo (proposto pela Conscienciologia) que significa o conjunto de PENsamentos, SENtimentos e ENErgias que a consciência emprega em todas as suas manifestações.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.