E Se fosse verdade?
23 Visitamos um ferro-velho
Notas iniciais
Depois de termos ficado com fome por muito tempo, finalmente tivemos a chance de comer. Fomos a uma lanchonete perto de onde a gente estava. Fiquei perplexo ao ver que a lanchonete era a que eu vira em meu sonho. Pintado nas paredes haviam desenhos animados. Uma esponja amarela numa corda, um caranguejo vermelho e outros dois que não consegui identificar.
Depois de uns minutos já estávamos todos sentados à mesa. Havíamos pedido pizza, o que, sem duvida, era a melhor coisa do mundo.
– Ok. Agora, vocês vão nos explicar tudo isso. – pediu Stefferson. – Eu sei que eu não estou louco.
Annabeth suspirou. Era lógico que ela já estava cansada de explicar tudo à mesma coisa.
– Bem, como vocês acabaram de ver, aquilo era um monstro. Aquilo era o Minotauro.
– É... eu percebi. – murmurou Matheus baixinho. Ele estava com a cara toda suja. O cabelo cortado em estilo militar estava cheio de farelos de madeira.
– Mas... Isso não deveria ser real. O Minotauro? – ele riu nervoso. – Não pode ser.
– E não foi só isso. – retrucou Marcos. – Quando eu estava em um passeio de minha escola, vi uma criatura horrorosa. Com cara de cachorro e corpo de foca.
Ele estremeceu.
– Telquines. – murmurou Percy olhando para baixo.
– Ele tentou me atacar – continuou Marcos. – mas eu me desviei. Ele ficou falando algo sobre um acampamento que será invadido por monstros em poucos dias. Disse que se eu fosse junto com ele, ninguém se machucaria.
– Opa! Espere! Rebobine a fita, por favor. – disse Percy. – Acampamento invadido por monstros?
– Como assim? – perguntei.
– Quando foi isso? – Annabeth se debruçou sobre a mesa. Marcos recuou.
– Ah, eu não sei. Não lembro a data exata. Acho que uns... sete dias atrás.
– O quê? – retrucou Grover.
A garçonete veio trazendo a nossa pizza. Queria avançar em cima da comida, mas depois do que Marcos disse, a fome diminuiu.
– Mas... Os monstros não podem entrar no acampamento certo? – perguntou Dandara. – Quer dizer, aquele negócio da barreira mágica em volta da colina.
– Sim, eu sei. – murmurou Annabeth. – Mas eles podem ser convocados por alguém de dentro.
– Mas quem é o doido que vai querer convocar...
– Espera! – exclamou Igor. – Olha, eu não estou entendendo NADA! – ele olhou confuso para a gente. – Do que é que vocês tão falando? Que acampamento é esse?
– É o que eu quero saber. – resmungou Stefferson.
– É um acampamento para semideuses. – respondeu Percy. – Ele fica nos Estados Unidos.
– E vocês são desse acampamento? – perguntou Matheus.
– Sim.
– Ah. Quer dizer que... vocês são semideuses? – pelo o olhar dele, diria que estava zombando da gente.
– Bem, sim.
Matheus olhou para Marcos, que olhou para Stefferson. E num instante os três começaram a rir.
Olhei para os meus amigos.
– Legal. Eles acham que nós somos loucos.
– Eu não acho. Tenho certeza. – riu Marcos.
– Ah é? – resmungou Grover. – Se nós somos loucos, vocês também são. Vocês pediram nossa ajuda para lutar contra o Minotauro.
– E você – falei, apontando para Marcos. – é um lunático psicótico, por que viu uma criatura com cabeça de cachorro e corpo de foca.
– Isso. Vocês são um caso a parte a ser estudado pela ciência. – riu Annabeth.
Eles pararam de rir.
– Mas isso foi verdade. – resmungou Marcos.
– Ok. Tá legal. – interveio Igor. – Vamos parar de falar e comer.
– Tem toda razão. – disse Percy.
Depois de passarmos um bom tempo comendo, fomos andando á procura de alguma pista que nos levasse a Israel. Só de pensar nisso comecei a me sentir angustiado. Ah, e pra variar, lembrei que temos que encontrar duas filhas da deusa do amor.
Comecei a me perguntar por que os deuses não procuram seus filhos por conta própria, já que são deuses. Por que mandar um semideus procurar. Devia ser responsabilidade deles. Se eles se preocupam com os seus filhos, porque não os ajudam? Por que Zeus não livrou Israel daquele navio?
Comecei a ficar um pouco zangado com isso.
– Então... Esse acampamento serve para treinar pessoas como nós? – perguntou Igor.
– Sim. – respondeu Annabeth. – Você nunca esteve lá?
Ele olhou para baixo.
– Não. Nunca. Eu... era do lado inimigo antes. – ele falava fracamente. – Comecei a treinar com eles. Aprendi varias técnicas.
– Você era do lado inimigo? – perguntou Marcos. – Existe um lado inimigo? Como assim?
– Como você passou para o lado bom? – quis saber Dandara. Igor sorriu fracamente.
– Quando Israel chegou lá no navio, ele começou a tentar escapar. Convenceu-nos de que estávamos cometendo um erro ficando lá. Comecei a tentar fugir também. Um dia, Israel havia sumido, juntamente com alguns dos meus amigos. Eu não o vi mais.
Fiquei atordoado. Pra onde Israel tinha ido?
Nesse momento, Grover parou bruscamente. Esbarrei nele por trás.
– Ei cara, cuidado. – falei.
– Grover – disse Percy. – o que houve?
Ele estava com os olhos arregalados. Virou-se para mim e disse:
– Israel está aqui!
Eu quase não pude acreditar.
– O quê?
– Como assim ele está aqui? – perguntou Igor .
– Estou sentindo-o. – ele se virou. – Ele está por perto. Venham!
E correu. Só restou correr atrás dele.
Atravessamos pistas, dobramos esquinas e continuamos a correr. Começou a anoitecer. Eu estava me sentindo cansado ao extremo. Não dormia fazia 24 horas.
A escuridão aumentou quando entramos em uma rua sem luz. Não havia postes para iluminar, a não ser a fraca luz da lua que estava começando a subir no céu.
– Grover. – sussurrei nervoso. – Tem certeza de que é por aqui que ele está?
– Sim. – afirmou. – Não sei por que, mas eu estou sentindo o cheiro dele. E é por aqui.
– Esse lugar é esquisito. – murmurou Dandara olhando para os lados. Não podia culpa-la. Eu estava começando a sentir que algo estava errado.
Andamos mais alguns metros e paramos diante de uma grande oficina de carros. A construção estava muito velha. Pedaços de carros estavam jogados no chão perto da porta. Acho que se tratava de um ferro velho para carros.
Olhei para Grover.
– Hã... Me diga que você parou aqui para ver se a oficina estava funcionando.
– Não.
– Ah.
Ficamos ali, olhando para a construção. Nenhum de nós se movia.
– Bem... Vamos acampar aqui? – sussurrou Percy.
– Claro que não! – exclamou Matheus.
– Shiii! – fez Annabeth. – Não faça barulho.
Percy sacou contracorrente. A leve luz da espada serviu para clarear algo.
– Quem acha que devemos entrar? – falei.
– Eu acho que devemos dar o fora. – disse Stefferson.
– O cheiro está forte. – insistiu Grover. – Ele... deve estar ai dentro.
Ele estremeceu.
– Então é o jeito entrarmos. – avancei. Estava esperando alguém ir junto comigo, mas ninguém se atreveu a se mexer.
– Como é bom ter amigos corajosos. – murmurei.
De repente, ouvi um barulho lá dentro. Meu coração quase saltou pela boca. Saquei minha espada.
– Raphael, cuidado. – sussurrou Annabeth.
Fui em frente tremendo de medo. Minhas pernas estavam bambas. Nesse momento as luzes de dentro da oficina se ascenderam. Pude ver vários carros velhos empilhados e destroços no chão.
Annabeth veio ao meu lado.
– Quem fez isso?
– Não fui eu. – respondi. – Não tenho habilidade para ligar lâmpadas. Alguém deve ter instalado um acendimento automático.
Annabeth me olhou como se eu estivesse deixando escorrer catarro pelo nariz.
– Socorro! – gritou uma voz de mulher. – Alguém me ajude!
Assim que eu ouvi essa voz, meu coração se despedaçou completamente, se regenerou, e se partiu no meio. Essa voz... não podia ser... não podia ser...
– Mãe! – gritei o mais alto que pude.
– Raphael? – respondeu.
Corri para dentro da oficina. Os outros me seguiram. Eu estava a ponto de chorar. O que ela estava fazendo aqui? Como ela veio parar aqui?
– Onde está a senhora? – berrei.
– Aqui! – gritou ela.
– Raphael, espere! – gritou Annabeth, mas eu não dei atenção. Corri para o fundo da oficina e encontrei-a, amarrada pelas mãos com correntes. Avancei até ela, mas uma voz bradou:
– Ora, ora, olha quem está aqui.
Virei-me. Do meu lado direito havia vários monstros que já vira. Pelo menos dez dracaenae, meia dúzia de lestrigões e alguns telquines. No meio deles, Luke, o cara filho de Hermes que eu vira em meus sonhos, e do lado dele estava... Israel, com mais outros garotos. E amarradas pelas mãos, estavam às garotas que eu vira em meus sonhos, sendo perseguidas pelo cão infernal.
Eu fiquei atônito. Não consegui me mexer. Não consegui falar nada.
– Bem, um reencontro emocionante. – disse Luke abrindo os braços para Percy e Annabeth. – Obrigado por trazer os outros três meio-sangues para mim Raphael.
Ouvi-lo falar o meu nome me encheu de raiva.
– Entregue eles para mim. – falou ele com um sorriso. – Se não fizer isso... Bem, alguns de vocês não irão sobreviver essa noite.
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