E Se fosse verdade?
39 Uma surpresa me aguarda em meu chalé.
Notas iniciais
Naquela mesma noite, Quíron convocou todos para uma breve reunião no pavilhão-refeitório, ao mesmo tempo em que iam servir o jantar. Mas antes, tiramos todos os campistas mortos do chão. Aquilo não foi algo que eu gostaria de fazer de novo.
Os feridos (que eram quase todos.), foram para o quarto da Casa Grande para serem tratados, inclusive eu. O quarto estava cheio de semideuses gemendo e soltando gritos de dor em suas camas. Os filhos de Apolo trabalhavam a todo o instante, cantando musicas em grego antigo, colocando néctar sobre as feridas e etc...
Sentei-me em uma cama, sentindo-me completamente cansado e dolorido. Quíron chegou ao meu lado em sua cadeira de rodas.
— Como está se sentindo Raphael?
— Como se eu tivesse caído de um avião. — murmurei. — Só que sem paraquedas.
Quíron sorriu. Ele pegou uma maleta de médico e a abriu.
— Sabe, eu pensava que não seríamos capazes de resistir a essa invasão. — admitiu. — Quando aquele exército de monstros saiu de dentro do labirinto, eles começaram a destruir tudo.
— É. Para construir foi que eles não vieram.
— Havia poucos de nós comparados a eles. — continuou. — Mas graças aos deuses vocês conseguiram retornar para cá a tempo. Vocês nos ajudaram, e muito. Trouxeram esperança para nós.
Ele me deu um pedaço de ambrosia, e começou a cuidar do meu ombro ferido.
— Ai. — gemi. — Obrigado, Quíron. — Eu estava tão cansado que tive preguiça até de falar. — Quer dizer que o acampamento está seguro?
— O acampamento sempre foi um lugar seguro, criança.
— É... Percebi. — murmurei. Me perguntei por que Quíron me chamava de criança, já que eu não era nenhuma criança.
— O problema é que alguns monstros conseguem se infiltrar. Teve uma vez em que as defesas mágicas do acampamento ficaram enfraquecidas devido a um ataque inimigo. Ficamos vulneráveis aos ataques vindos de fora. Mas... O que importa é que você, Raphael, conseguiu salvar o acampamento.
— Eu não fiz tudo sozinho. — disse eu. — Igor me ajudou. Assim como Israel e Percy.
— É claro. — sorriu ele. — Ah, e mais uma coisa.
Quíron apontou para o fundo do quarto, e vi dois garotos deitados na cama, com aparência familiar.
— Hã... eu já os vi antes. — falei, tentando me lembrar. — Quem são eles?
— Eu não sei. — disse Quíron. — Eles apareceram do nada, saindo de dentro do labirinto. Silena os viu e os socorreu. Eles ficavam balbuciando coisas estranhas como: Temos que avisar. Temos que sair. Nós os colocamos aqui e ficamos cuidando. Todos os que vagam pelo o labirinto ficam loucos.
Eu fiquei atônito. Sentia que conhecia aqueles dois garotos.
— E eles disseram seus nomes? — perguntei.
— Quando eu perguntei quem eles eram, um deles disse: Jonathan.
Eu arquejei.
Não era possível. Agora compreendi o porquê de eu os achar tão familiar.
Nesse momento, Annabeth chegou ao meu lado.
— Iai, sr. Herói, está tudo bem com você?
Eu fingi sorrir.
— Sim. E você, Wikipédia, como está?
Ela franziu a testa.
— Wikipédia?
— Depois eu lhe explico.
— Bem. — Quíron suspirou, virando sua cadeira de rodas para a saída. — Vejo vocês no jantar.
— Ok. — disse eu.
Ele saiu. Eu olhava a agitação no quarto. Annabeth e eu ficamos ali em um silêncio constrangedor.
— Pois é. — murmurei. É isso o que você diz quando não tem nenhum assunto para conversar.
Annabeth sentou-se ao meu lado, colocando os cabelos loiros para trás. Eu me surpreendi.
Mesmo depois de toda aquela nossa missão, e daquela batalha, Annabeth continuava bonita. O rosto estava sujo e havia cortes na bochecha, mas mesmo assim a beleza dela não a deixava. E isso me deixou um pouco nervoso.
— Então, por que Wikipédia? — perguntou ela.
— Ah, sim. É que... — pensei em como explicar. — Bem, a Wikipédia sabe de tudo. Tipo, tem todas as informações de que você precisa. Se você quiser saber de alguma coisa, basta ir lá.
— E o que isso tem haver comigo?
— Você é filha de Atena. É esperta e inteligente. Se tivermos uma duvida, basta consultar você.
— Ah. — ela fingiu estar impressionada.
— Mas o objetivo central disso, é fazer hora com a sua cara.
Ela riu e me empurrou com o ombro.
— Aliás, você viu quem está ali naquela cama? — perguntei.
— Quem?
Apontei para a cama onde estava Jonathan.
— Lembra-se dele? O cara que estava preso na cela do navio com a gente. Ele estava sendo arrastado por uma mulher-serpente, mas Dandara o salvou.
— É ele? — Annabeth se levantou e foi até lá. Eu a segui, mas sem querer, bati o joelho na perna machucada de um garoto.
— Aaaiii! — berrou ele.
— Foi mal, cara. — tentei me desculpar. — Foi sem querer, eu...
— Ok. Tudo bem. — falou ele suavemente. — Agora... DÊ O FORA!
Não discuti.
Fiquei ao lado de Annabeth.
— É ele mesmo. — sussurrou ela.
— Pois é. E o cara do lado dele é o seu amigo, Lauan. Quíron disse que eles estavam loucos por vagarem pelo o labirinto.
Ela assentiu.
— Geralmente é assim para quem anda por lá sozinho.
— Isso explica por que eles desapareceram quando estávamos na nossa missão. Eles... Entraram no labirinto.
Um som abafado vindo de longe ecoou pelo o acampamento.
— Venha. — chamou Annabeth. — Vamos para o pavilhão.
***
Durante o jantar, Beatriz e Barbara foram reclamadas como filhas de Afrodite. As roupas delas mudaram sozinhas como num passe de mágica. Os cabelos se pentearam, ficando muito bonitos. Até maquiagem estava incluso. Acima de suas cabeças, apareceu um sinal. Uma pomba.
Eu fiquei de queixo caído, mas acho que o clima no acampamento estava tão desanimador, que os campistas nem se importaram com o fato. Só olharam de olhos arregalados, mas depois voltaram a comer.
Após o jantar, algumas mortalhas foram queimadas. Foi o momento mais triste que teve. Dentre os mortos estava: Katie Gardner, do chalé de Deméter. Elissa, do chalé de Hermes. Jake Mason, do chalé de Apolo, e outros.
O silêncio era absoluto. Alguns campistas choravam baixinho. Me senti muito triste por eles.
Depois das despedidas, Quíron disse:
— É lamentável que tenha havido tantas mortes. Eles foram Heróis valentes e destemidos, que lutaram para defender o nosso lar. Eles irão para o Elíseo com certeza.
Ele suspirou e olhou para as mortalhas queimadas.
— Por hoje é só. Tenham uma boa noite.
Todos se levantaram e foram em filas para os seus chalés. Menos os filhos de Deméter e os de Ares, cujos chalés haviam sido destruídos. Eles iam dormir por enquanto na Casa Grande.
Antes que eu também fosse, Quíron me chamou e disse que queria conversar comigo e com o resto dos meus amigos.
Quando todos estavam lá, sentados em volta da mesa, ele olhou para Israel e disse:
— Ora, então a missão foi um sucesso?
— Sim. — falei.
— É bom revê-lo Israel. — ele sorriu.
— Obrigado. — agradeceu Israel.
— Nossa! — murmurou Matheus olhando impressionado para Quíron — Você é um centauro?
— Não. — retrucou Marcos. — Ele é um rinoceronte.
— Sim, meu jovem, eu sou um centauro. Vejo que a missão de vocês trouxe novos amigos.
— Pois é. — disse Percy. — E amigos de outro país.
Quíron franziu a testa.
— Era o que eu queria saber. Como vocês conseguiram se comunicar sendo que são de outro país?
— Bem, eu consegui por que eu aprendi a falar inglês. — explicou Stefferson.
— E eu também. — disse Marcos.
— E o restante de vocês?
Igor ergueu a mão.
— Eu não sou de outro país senhor centauro.
— É Quíron. — corrigiu Annabeth.
— Eu nem sei como eu vim falar inglês. — murmurou Matheus. — Pensava que vocês eram de Fortaleza mesmo.
— Fortaleza? — perguntou Quíron.
— É a capital do Ceará. — explicou Marcos. — Sabe o que é Ceará?
— A capital de Fortaleza? — sorriu Grover. Ninguém riu. Ele resmungou. — Povo sem graça.
— Ceará é um estado do Brasil. — respondeu Annabeth. — É situado bem no nordeste, de acordo com a profecia.
— Tá explicado por que Wikipédia? — sorri para Annabeth. Ela me deu língua.
— Bem, continuando. — Matheus pigarreou. — Então... Depois da luta contra aquele... qual o nome daquele bicho mesmo?
— Minotauro? — perguntou Dandara. Ela estava com uma faixa branca ao redor do ombro.
— Sim, isso mesmo. Depois disso, eu falei normalmente, mas me disseram que eu estava falando inglês, por que conseguiam me entender.
— Eu não estou entendendo mais nada. – resmungou Israel.
Quíron alisou a barba.
— Bem, discutiremos isso depois. O importante é que vocês conseguiram. Parabéns a todos. Agora, todos para a cama!
Saímos do pavilhão. Stefferson, Marcos e Matheus foram para o chalé de Hermes. Barbara e Beatriz também, mas amanhã Quíron ia muda-las para o chalé de Afrodite.
Percy ficou conversando com Annabeth em frente ao chalé de Atena. Israel foi para o chalé de Zeus. E Igor ainda falava algo com Quíron.
Eu estava tão cansado que fui sozinho para o meu chalé. Abri a porta e entrei. Mas quando eu me sentei em minha cama, uma coisa pontuda e fria encostou-se a minha garganta. Meu coração deu um pulo de susto.
— Era a hora que eu esperava. — sussurrou uma voz.
Eu fiquei morrendo de medo por que não sabia quem era. Ele me pegou pelo o pescoço e me prendeu contra a parede. A espada estava em minha garganta.
— Derrotou vários monstros, lutou bravamente, salvou o seu acampamento, mas morreu no final de tudo. — a voz riu. A claridade da lua iluminou o rosto da pessoa misteriosa, e com um susto eu o reconheci.
Era Luke.
A primeira coisa que veio a minha mente foi: Como ele entrou aqui?
Meu coração ficou disparado de medo. Luke podia me matar ali mesmo. Era só enfiar aquela espada em meu corpo. Se ele conseguisse escapar, ninguém jamais ia saber o que aconteceu.
— Você e seus amigos idiotas, sempre arruinando os meus planos. — rosnou ele, apertando o meu pescoço contra a parede.
— Sempre? — perguntei. Minha voz parecendo com a do pato Donald.
— Não vai me impedir de destruir esse seu acampamento, e depois, o Olimpo. Posso ter perdido essa batalha, mas da próxima vez...
Ele tirou a espada de minha garganta, e enfiou em meu lado.
— Você não estará lá para atrapalhar.
A dor foi extremamente forte. Eu gritei o mais alto que pude, esperando que alguém ouvisse. Meus músculos pareciam que estavam sendo triturados. A dor sufocou meu coração.
Luke me soltou, e eu caí no chão, sem forças para gritar, gemendo e me encolhendo totalmente.
— Tenha uma boa morte. — sorriu ele, e virou-se para sair, mas a porta se abriu de repente, e Percy estava lá.
Ele arquejou.
— Luke?
— Olá, velho amigo. — disse Luke erguendo a espada.
— Cuidado! — tentei alertar.
Percy pulou para trás no exato momento em que Luke abaixou a espada.
— Como veio parar aqui? — perguntou Percy irritado. — Achei que estivesse morto. Já ia soltar os fogos e abrir o champanhe para comemorar.
— Não se esqueça da faixa. — gemi. — Que diz: Luke morreu! Vamos festejar!
— É verdade. — riu Percy.
A dor estava me consumindo. Minhas mãos estavam manchadas de sangue, inclusive minha blusa.
— Seu irmão já era. — disse Luke. — O próximo é você.
Percy se desviou de uma estocada.
— Vamos ver estraga-festas.
Luke tentou cortar a cabeça de Percy, mas ele se agachou e contra-atacou, o empurrando de volta para dentro do chalé. Eu estava no chão, no canto da parede e perto da porta, sem forças para me levantar.
Percy tentou dar uma estocada, mas Luke foi rápido. Fez um corte no peito de Percy, o chutou em sua barriga, e o prendeu contra a parede do mesmo jeito que fizera comigo, com a espada em sua garganta.
— Ora, Percy. — Luke riu. — Pensei que tivesse melhorado suas habilidades.
— Deixe-o em paz! — rosnei.
— Hã... acho que não.
Ele tirou a espada da garganta do Percy e a colocou em seu lado. Eu sabia que ele iria fazer a mesma coisa.
— É assim que vou matar todos os seus amiguinhos. Que estragaram a chance de eu invadir o Olimpo.
— Você nem tinha chance de invadir o Olimpo, seu doente. — rosnou Percy.
— Dessa vez eu vou. — disse Luke pressionando a ponta da espada no lado dele.
Eu não podia deixar que Luke o matasse. Ele iria matar todos os meus amigos se eu não fizesse nada. A raiva logo tomou conta de mim.
Esse canalha não vai matar ninguém. Dizia eu.
Uma ideia surgiu em minha mente. Dei um sorriso maligno e me arrastei para trás de Luke.
Há um ponto fraco em todo o homem. Por mais forte e cruel que ele seja, se alguém o acertar nesse ponto, o homem forte e cruel irá desaparecer em um instante.
— Você não vai poder me parar Percy. — Luke sorriu. — Como eu disse para o seu irmão: Você não estará lá para me deter.
Peguei minha espada e a virei ao contrario, de modo que eu estava segurando a parte da lâmina.
— Você não vai escapar! — gritou Percy. Luke o sufocou contra a parede e disse:
— Adeus, Perseu!
Na hora em que ele ia apunhala-lo, eu coloquei o cabo da minha espada embaixo das pernas de Luke, e com toda a força, subi o cabo.
O grito que Luke deu provavelmente teria provocado um debate em questão sobre a sua masculinidade.
Ele se encolheu totalmente, gemendo feito uma cadela no cio. Percy lhe deu um soco no rosto, e eu pus minha perna atrás, e Luke desabou no chão.
— Eu bem que desconfiava Luke. — riu Percy.
— De agora em diante vai ser: Luka. — murmurei.
Nesse momento, Igor chegou à porta do chalé.
Ele olhou para nós.
— O que é isso? Luke? Ele está aqui? Mas... como?
— Malditos... Sejam! — Luke estava com a voz engraçada.
— O que aconteceu com ele? — perguntou Igor. — Vocês o fizeram sugar ar Hélio?
— Bem que gostaríamos. — respondi.
De repente, ouvimos um barulho a distancia. Guinchos e vozes resmungonas estavam se aproximando.
— São Harpias. — Igor tremeu. — Elas tentaram me devorar, mas consegui escapar.
— É por que você estava fora do chalé! — exclamou Percy. — Elas vão nos devorar. Temos que fechar a porta!
Nós olhamos para Luke, que ainda estava no chão.
— Fechar a porta, né? — Igor fez cara de garoto travesso. Luke arregalou os olhos.
— Não! Isso não! — gritou ele.
O pegamos pelas pernas e o jogamos para fora do chalé.
Fechamos a porta.
— Olhem, um semideus desobediente fora do chalé. — disse uma voz. — Hora do lanche!
— Não! — gritou Luke.
Eu tapei os ouvidos.
Tinha ouvido que as Harpias, quando devoram alguém, são extremamente selvagens.
Sangue respingou no vidro da janela.
— Meu Deus! — Igor recuou.
—Temos que dormir! — sussurrei. — Agora.
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