E Se fosse verdade?
11 Uma bondosa senhora nos dá dinheiro
Notas iniciais
– Continuem correndo! – gritava Annabeth para a gente.
Passávamos por entre as pessoas correndo e empurrando.
– Ei! – protestou uma mulher.
– Cuidado seus moleques! – berrou um homem.
Quando já estávamos longe o suficiente do ônibus, decidimos parar um pouco. Estávamos em um lugar que não conhecíamos. À esquerda, viam-se duas pistas. Carros e ônibus iam e vinham. Pessoas passavam na faixa de pedestres.
Á direita, não havia nada, além de mato e árvores. Estávamos ofegantes. Não sabíamos mais para onde ir.
– E agora? – perguntou Grover. – o que nós fazemos?
– Ah, eu não sei. – eu disse. – Precisamos continuar a ir para o sul.
– Nossas coisas ficaram lá no ônibus. – lembrou Dandara. – nossas roupas, dinheiro, tudo.
– Calma gente. – disse Annabeth. – Nós vamos achar uma saída. Por enquanto, vamos continuar andando até achar... – ela se interrompeu. Como poderíamos achar um táxi ou ônibus sem dinheiro? Não tínhamos nada a não serem nossas armas e nossas roupas.
– O que era aquele monstro? – perguntei.
– Não sei. – disse Percy. – Mas eu já vi aquela pata laranja antes.
– Meus cascos estão doendo. – disse Grover no exato momento em que um senhor passava perto de nós.
– Hein? – disse o senhor arregalando os olhos.
– Hã... Ele quis dizer os pés. – eu disse imediatamente. – É que ele tem um porco em casa sabe? Aí... Às vezes ele se confunde com as patas do porco. – eu sorri.
– Isso. É isso mesmo. – afirmou Grover. O senhor revirou os olhos e seguiu em frente resmungando.
– Um porco? – perguntou Percy.
– Foi à única coisa que pude pensar.
– Tinha que ser irmão do Percy. – disse Annabeth.
– Ei! – protestou Percy.
– Hã, só pra confirmar... Vamos passar a noite aqui? – perguntou Dandara. Olhei, e percebi que estava anoitecendo.
– Não. – concluiu Annabeth. – Vamos indo até encontrarmos algum lugar para passarmos a noite.
***
Chegamos a uma clareira com muito espaço para armar três barracas. Annabeth nos dissera que era profissional em acampar ao ar livre. Logo nós tínhamos lenha para fazer fogo. Foi difícil acender o fogo, por causa do vento, mas logo criamos uma bela fogueira.
Decidimos ficar vigiando em turnos. Annabeth e Dandara foram as primeiras a dormir. Percy, Grover e eu ficamos sentados vigiando.
De vez em quando Grover tocava uma musica em sua flauta, e a grama pareceu ficar mais verde. Fiquei impressionado e perguntei como ele conseguia fazer aquilo.
– É magia da natureza. – disse ele. – Eu posso controlar, ou manipular qualquer coisa sobre a natureza. Quer ver só?
Ele tocou outra canção estranha, e de repente, varias pedras se ergueram do chão e começaram a flutuar em nossa volta. A grama começou a crescer até ficar da altura do meu joelho. E uma brisa fresca e agradável passou entre a gente.
– Nossa! – eu disse surpreso. – Isso é impressionante. – Grover parou de tocar. As pedras caíram de volta ao chão. Olhei para ele, e vi que ele estava com uma aparência de cansaço.
– O que houve?
– Não é que... A magia da natureza, se usada de mais, esgotam nossas energias.
– Ah.
Ficamos em silêncio. Ouvimos o piar de uma coruja. Meus olhos começaram a ficar pesados de sono.
– Vá, pode dormir. – disse Percy. – Acordo você se precisar de algo.
– Não, eu... – deitei na grama e comecei a roncar. E novamente sonhei. Mas esse sonho foi muito diferente.
Eu vi duas meninas andando sozinhas por uma rua mal iluminada. Elas estavam muito próximas uma da outra, parecendo que estavam com medo – E realmente estavam –. Elas cochichavam entre si. Quando andaram para uma parte mais iluminada, eu pude vê-las melhor. Ambas eram idênticas e muito bonitas. Elas tinham olhos castanhos claros e cabelos da mesma cor que os olhos. Não conseguia diferenciar as duas, exceto pelas roupas.
A primeira vestia um short jeans de cor azul escuro, e uma blusa verde claro. Usava sapatilha vermelha, e andava lentamente segurando a mão da outra. Enquanto que a outra vestia short jeans claro, e uma blusa branca. Usava sapatilha vermelha também. Pelas expressões em seus rostos, dava para perceber que estavam com medo de que algo aparecesse.
Um grunhido ecoou pelas ruas, e as meninas andaram mais rapidamente. Eu queria ir até elas e leva-las a um lugar seguro, mas eu não me mexia. O grunhido ficava mais perto, e elas começaram a correr. Quando de repente, eu olhei para trás, e vi o meu pior pesadelo. Um cão infernal gigante correndo atrás das garotas. Elas gritaram e começaram a pedir socorro. Eu estava atônito olhando para o cachorro preto tentando pegá-las.
– Não! – eu acordei com um salto. Percy e Grover vieram para perto de mim.
– O que houve? – disse Percy.
– Eu... Tive um sonho. – falei, tremendo de medo.
– E o que aconteceu? Sonhou outra vez com o navio de Luke?
– Não. Dessa vez foi pior. – Contei-lhe o sonho. Percy se mexeu desconfortável.
– Bem... Eu não sei quem são elas. – disse ele. – Mas se elas forem...
Um barulho de galhos se quebrando veio a nossa frente. Percy sacou a espada.
– Ahn, o que foi isso? – perguntei.
– Não sei. – disse Percy olhando para as árvores. – Ficamos ouvindo esse barulho varias vezes.
– E pior, sinto cheiro de monstro. – disse Grover com medo.
– Ah, não. É brincadeira. – levantei-me e saquei minha espada. Crack... Outro barulho de galhos. Ficamos de costas um para o outro. Eu já estava pronto para correr em direção as árvores e fatiar tudo com a minha espada, quando de repente, saiu de dentro do bosque, uma senhora com uma bengala e um chapéu de renda.
– Hã? – fez Percy. – Espera ai...
– Oh. Olá! – disse a velha senhora. Então ela viu nossas armas. – Ah, por favor, não me matem, eu não tenho dinheiro! – Ela se ajoelhou. Ela usava um vestido rosa com varias flores bordadas. Calçava sandálias e tinha a cara enrugada.
– Não vamos machucá-la. – disse eu. – Pensávamos que era um... – Olhei para Percy. – Hã, algum animal selvagem.
– O que a senhora faz aqui no meio da noite? – Perguntou Grover desconfiado.
– Bom, meu carro enguiçou, e eu tentei consertá-lo, mas depois de uns minutos ele não funcionou mais.
– Hum... Entendo. – Grover coçava seu queixo.
– Venha para perto de nós. Estará mais seguro aqui. – convidei. Percy me olhou com urgência.
– Espere! – disse ele. – Por que você não chamou algum parente seu, ou algum resgate pra vir lhe buscar?
– Se eu tivesse telefone meu jovem, eu ligaria. – disse a senhora. Ela veio vagarosamente para perto de nós. Ela cheirava a rosas. Annabeth acordou assim que a nossa nova companheira se sentou conosco.
– Quem é ela? – perguntou Annabeth confusa.
– É uma senhora que teve o carro quebrado. – falei. – Qual seu nome?
– Sra. Elizabeth. – respondeu ela. – Mas pode me chamar de Beth.
– Legal. É parecido com o seu nome Annabeth. – eu sorri.
Annabeth ainda estava tentando entender o que uma senhora estava fazendo ali, quando Dandara, ainda dormindo, se debateu no chão dizendo:
– Não, essa não! Sim! Essa sim! Uhuuu! É assim... Ahã, vai, vai. – ela girava as mãos. Ficamos olhando de queixo caído enquanto ela se remexia e girava as mãos no ar. – É assim que se faz galera! Uhuuu! Aaahh... Acabou. Que chato! – Ela voltou a dormir. Ninguém deu um pio, a não ser pela a fogueira que crepitava.
– Hã... Bem... – Grover tentou falar.
– Vocês moram aqui? – perguntou a sra. Beth.
– Não... Nós... É... – Tentei falar, mas não sabia dizer a onde nós morávamos.
– Nós somos de um orfanato. – disse Annabeth. – Não gostávamos muito de lá, então fugimos.
– Minha nossa! – falou a sra. Beth. – Mais é melhor lá do que aqui, não?
– Não. – concluiu Annabeth.
– Bem, pois eu vou indo. – A sra. Beth Levantou-se. – Preciso pegar um ônibus para ir até Flórida.
– Flórida? – Perguntou Percy. – Você vai para Flórida também?
– Sim. Minha família vive lá.
– Mas... Tem ônibus a essa hora da noite? – perguntei.
– Claro que tem meu jovem. Vocês querem uma carona? Eu pago a passagem de vocês. – Ela ergueu uma sacola de couro cheia de dinheiro.
– Nossa, a senhora deve ser rica. – disse Grover. Ela riu.
– Esperem! – falou Annabeth. – Podemos continuar sem ajuda. Obrigado pela preocupação.
– O quê? – disse Percy. – Annabeth, ela esta nos oferecendo uma carona para a Flórida, e você diz que podemos continuar sem ajuda?
– Hã... O quê? Pra onde vocês vão sem mim? – berrou Dandara. Ela coçou os olhos e se levantou. – Quer dizer, a onde vão?
– Para a Flórida. – disse a sra. Beth. – Vamos Annabeth, minha querida, estou dando uma oportunidade.
– É. – disse Grover olhando para ela. – E precisamos chegar lá o quanto antes.
Não sei por que ela estava agindo daquele modo. Uma senhora estava nos dando à oportunidade de viajar sem pagar nada. Era ótimo.
– Ta bem. – resolveu Annabeth. Pegamos nossos poucos pertences, e seguimos a vovó.
***
Chegamos a uma parada de ônibus que ficava próximo de onde nós estávamos. Sentamos em um banco de espera que havia lá. A rua estava silenciosa. Nada fazia o menor barulho. Percy sacou sua espada, e a velha senhora se afastou um pouco dele com receio.
– Ei cara. – disse eu. – Guarde essa espada. Você a esta assustando.
– O quê? Ah, sim. Desculpe. – ele colocou a tampa da caneta na ponta da espada, e ela voltou à forma de uma caneta.
– Então, o ônibus vai demorar muito? – perguntei à sra. Beth.
– Não. Ele vai chegar a qualquer momento. – ela sorriu, mostrando as presas amareladas. Espere... Presas amareladas? Olhei para ela de novo para saber se aquilo foi real. Ela me deu outro sorriso, e eu vi novamente suas presas amarelas. Isso enviou um arrepio pelas minhas costas.
– Gente – falei. – Eu vou ali falar com Percy e volto já.
– Comigo? – perguntou Percy.
– Sim, com você. – olhei para ele, tentando avisá-lo.
– Certo. Vamos lá.
Saímos de perto deles.
– O que foi? – Perguntou Percy quando estávamos a uma boa distância.
– Acho que essa simpática vovó não é humana. – disse eu.
– Como você sabe?
– Ela tem presas amareladas. Quando ela sorriu, eu vi.
– Presas amareladas? – Percy arregalou os olhos.
– Está acontecendo algo? – a velha vovó apareceu do nosso lado de repente.
– Ah! – eu recuei. – Não, está tudo bem.
– Sim. – ajudou Percy. – Precisamos ir embora. É que... Eu lembrei que tem uma pousada aqui perto. – lancei um olhar pra ele do tipo "Hã?"
– Ah não! Vocês tem que ficar. – insistiu a assustadora sra. Beth. – Eu vou pagar as suas passagens.
– Não precisa. – eu caminhei até Annabeth. – Vamos embora.
De repente ouvi um barulho de asas.
– Hã... Raphael? – disse Percy. Eu me virei, e levei um baita susto.
– Fiquei magoada por vocês não aceitarem minha carona. – falou a velha senhora.
Mas ela não era mais uma velha senhora. Era uma criatura com asas de morcego, com garras e olhos incandescentes. A cara mais enrugada e murcha, e um chicote nas mãos. Uma Fúria.
– E agora, terão que morrer. – disse ela.
– Sra. Dodds? – disse Percy surpreso.
– Ah meus deuses! – gritou Grover.
– Sra. Quem? – perguntei.
Ela avançou em nossa direção. Eu rolei para o lado assim que a Fúria investiu em mim. Annabeth sacou sua faca de bronze, e correu em direção a ex-vovó.
– Annabeth cuidado! – Gritou Dandara. A Fúria voou rapidamente para cima no exato momento em que Annabeth foi cortá-la com a faca.
– Acho que você errou. – riu a Fúria. Dandara armou seu arco e atirou uma flecha. A Fúria desviou com seu chicote. Eu puxei a antena do meu mini celular, que se transformou em uma espada.
– Você não vai machucar nenhum dos meus amigos! – falei
A Fúria sibilou.
– É o que veremos. – e avançou em direção ao Grover.
– Não! – gritou Annabeth. Fiquei olhando enquanto ela pegou Grover pelo braço em um rápido movimento e o levantou.
– Aaahh! Me larga! – berrou Grover.
– Se quiserem vê-lo novamente, venham pegar! – a Fúria riu, e voou para longe com Grover em suas garras.
– Não! – gritei. – Venham, vamos atrás dela!
Corremos a toda velocidade para conseguirmos avistar Grover. A Fúria ria a distancia. Ela ficou pairando no alto.
– Seria uma pena se... Eu o deixasse cair. – Ela sibilou. Dandara atirava flechas, em vão, por que ela simplesmente desviava com o seu chicote. Uma das flechas de Dandara brilhou intensamente quando atingiu a Fúria.
– Me solta sua bruxa enrugada! – berrou Grover, e mordeu a perna dela.
– Aaarrgghh! – A Fúria gritou de dor e soltou Grover.
– Não! – gritou Percy. E investiu contra ela. – Dandara, ajude Grover!
Enquanto Dandara ia levantar Grover do chão, Percy brandia a espada, mas a Fúria saiu de perto dele. Ela tentou dar uma chicotada nas costas de Percy, mas ele desviou com a espada.
–Ei sua velha! – gritei.
Ela olhou pra mim.
– Quer aprender a voar de novo meu bem? – riu ela, e veio em minha direção. Tentei atingi-la com minha espada, mas ela era muito rápida. Me deu uma chicotada nas costelas e pegou-me pelo braço e me levantou para o alto junto com ela.
– Aaahh! De novo não! – berrei. Eu dava murros e chutes no ar enquanto ela me levava para longe dos meus amigos.
– Até nunca mais. – a Fúria sibilou. Mas de repente, ela deu um grito horrível e se desintegrou. Alguma coisa pontuda arranhou o meu braço, e eu caí. E teria me quebrado inteiro, se Annabeth não tivesse aliviado um pouco minha queda pondo-se debaixo de mim.
– Ai! – ela gemeu. – isso doeu.
Eu me virei. Por um segundo, ficamos cara a cara um com o outro. Eu corei.
– É... Obrigado. – saí de cima dela. Percy veio até nós.
– Tudo bem?
– Sim. – disse Annabeth massageando o ombro.
– Bela pontaria Dandara. – disse Percy.
– Bem... Eu sempre fui muito bom em atirar. – Dandara estava com Grover ajudando-o a se levantar. Ficamos em silêncio por alguns minutos. Eu estava me sentindo horrível. Em meu braço um corte causado pela flecha de Dandara, e meu corpo dolorido por causa da queda.
– E agora? – perguntou Annabeth. – Como vamos fazer para chegar até a Flórida?
– Eu acho que aquilo pode resolver. – murmurei, apontando para um objeto de couro no chão onde a Fúria havia sido morta.
– A sacola de dinheiro da vovó? – disse Grover ainda com dor.
– Sim.
Fui até lá e a peguei. Estava pesada pela quantidade de dinheiro.
– Ótimo! – disse Percy. – Agora podemos continuar a nossa viagem.
– Não hoje né? – murmurou Dandara.
– Não. Vamos esperar até amanhã.
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