E Se fosse verdade?
12 Uma deusa vem nos visitar
Notas iniciais
No dia seguinte embarcamos em outro ônibus. Dessa vez bem mais seguro. Viajamos durante dez horas. Eu tentava dormir para passar o tempo, mas quanto mais eu dormia, mais sonhos vinham.
Em um momento, sonhei novamente com aquelas duas garotas que estavam sendo perseguidas pelo cão infernal. Elas estavam na escola, no horário de intervalo entre as aulas. Perguntei-me como elas conseguiram sobreviver ao monstro. Ambas estavam sentadas uma perto da outra em um banco. Falavam sobre algo que eu não conseguia ouvir por causa dos alunos que passavam gritando, correndo e rindo. Cheguei mais perto delas, e pude ouvir algumas coisas. A primeira falava:
– Eu não sei o que esta acontecendo. Desde ontem, com aquele cachorro horrível, que venho vendo coisas estranhas.
– Eu também. – disse a outra irmã. – Aquele bicho gigante quase que nos mata. Ainda bem que você o mandou ir embora, por que senão já éramos.
O mandou ir embora? Como assim? Não pude descobrir, por que bem na hora Grover soltou um balido e eu acordei.
Quando infelizmente adormeci outra vez, tive outro sonho.
Havia três garotos andando por uma rua que eu não conhecia. Com prédios, hotéis, e apartamento de luxo por toda a parte, e muitos carros nas ruas em um engarrafamento. Esses garotos conversavam e riam, mas pareciam tensos.
O primeiro garoto era moreno, não muito alto, e forte. Ele tinha o cabelo penteado para cima. Olhos castanhos escuros como o resto dos garotos. Usava short de náilon, com vários coqueiros estampados, e uma blusa branca. Ele tinha um olhar estranho, mais também familiar, como se eu já o tivesse visto em algum lugar.
O outro garoto que estava no meio tinha a pele morena também, o cabelo cortado em estilo militar. Os olhos dele davam a impressão de que ria muito. Usava uma blusa vermelha listrada de branco. Short jeans e chinelo. Enquanto que o outro garoto tinha a pele parda. Cabelo pra cima, e usava uma blusa verde também listrada. Short de náilon bege.
Eles estavam conversando, mais olhavam muito para os lados, como se algo estivesse para dar errado.
– Raphael! – gritou uma voz distante. – Vamos, o ônibus parou!
Acordei assustado.
– Hã... o quê? Parou aonde? – estava com a minha cabeça doendo. Acho que de tanto dormir na janela do ônibus.
Dandara veio em minha direção.
– Venha. – disse ela. – Chegamos á Virginia.
– Virginia?
– Sim. Precisamos ir. E rápido.
***
Andamos por Virginia por algum tempo antes de embarcarmos novamente em outra viagem. Fomos até a praia que ficava perto de onde estávamos. Quando chegamos lá, Grover disse:
– Uau!
A praia era muito linda, com águas claras e areia branca. Varias pessoas se divertiam pulando entre as ondas, outras fazendo castelinhos de areia, e até algumas brincando de jogar uns aos outros na praia. Ficamos admirando a paisagem durante uns minutos.
– Deve ser bom ser um mortal comum. – disse Annabeth.
Pensei nos meus anos anteriores como “mortal comum”. Eu e minha mãe nos divertíamos muito quando íamos à praia com nossos amigos. Certo, coisas estranhas aconteciam, como eu ser arremessado para cima de repente enquanto eu pulava pelas ondas, ou então quando eu e alguns amigos brincávamos de "quem consegue parar a onda." Nenhum deles conseguia. Mas todos ficaram de boca aberta quando eu, sem saber como, gritei para uma onda que vinha em minha direção para parar, e ela realmente parou.
Agora eu compreendia essas coisas. Eu era filho de Poseidon, um dos deuses gregos, e nem sabia.
–Vamos. – disse eu. – Precisamos encontrar um lugar para descansar.
Enquanto andávamos, víamos o quanto Virginia era bonita. Pelo menos eu achei. As casas eram coladas umas as outras, e com variadas cores.
Passamos por um lugar aonde vimos uma casa grande, sozinha, e toda branca. Com colunas gregas na frente. Havia janelas por toda a parte da casa. Pensei que ali deveria morar algum milionário famoso. Annabeth olhava maravilhada a tal casa.
– É o capitólio do Estado de Virginia. – disse Annabeth.
Olhei para ela.
– Como você sabe?
– Ela gosta de arquitetura – disse Percy. – E sempre ta lendo sobre vários monumentos e coisas deste tipo.
– Se tivéssemos celular eu tiraria uma foto. – murmurou Annabeth.
– Bem. Que tal irmos andando. – sugeriu Dandara. – Por que, sério, quero deitar em uma cama de verdade.
Nós rimos.
– Podemos primeiro comer? – pediu Percy. – Estou com uma fome.
– Vamos comer, e depois pensamos onde descansamos.
***
Depois de andar, fomos á uma lanchonete onde havia varias pessoas esperando em fila. Sentamos a mesa e acenamos para a garçonete. Ela veio nos olhando de cima a baixo.
– O que querem? – perguntou.
– Comer. – disse Grover.
– Não me diga. – disse a garçonete, e pegou o seu caderninho. – Peçam.
– Certo. Hã... Eu quero um sanduíche vegetariano delicioso. – Grover lambeu os lábios. – E... Tem latas de refrigerante?
– E eu vou saber? – disse ela com arrogância.
– Ei! – murmurei. – Vai com calma. Só queremos comer.
– Não me diga. – riu ela.
Annabeth estava com uma aparência de quem ia dar um chute naquela garçonete arrogante. Olhei para Percy, e tivemos uma ideia.
Ficamos em silêncio. A garçonete olhou para a gente.
– Então? O que vocês querem?
– Comer. – disse Percy.
– Não me diga. – riu ela novamente.
– Então por que pergunta? – respondi. Nós rimos. A garçonete ficou com uma expressão rígida.
– Por que eu quero saber o que vocês vão comer! – exclamou.
– Comida. – riu Percy.
– Peçam logo! – rosnou ela.
– Ta certo. – falou Percy ainda rindo. – Quero um X-Burger com tudo dentro.
– E eu quero um pastel de carne. – disse Dandara.
– E eu uma lasanha. – falei.
– Eu um X-Tudo. – falou Annabeth.
– Hã? X-Tudo? – Percy olhou pra ela.
– Sim. Por quê?
– Terminaram? – perguntou a garçonete abusada.
– Se você quiser trazer algo para a gente beber. – sugeriu Dandara.
– Pensa que sou sua escrava?
– Não. Escrava não. Uma garçonete. – eu ri.
Ela se foi, empurrando uma pessoa para o lado.
– Eu hein? – disse Dandara. – Não sei como eles aguentam essa arrogante.
Nesse momento, uma mulher entrou na lanchonete onde estávamos. Ela olhou diretamente para mim, sem erro. E quando eu a vi... Meu Deus! Ela era linda. Muito mais linda do que qualquer mulher que eu já tinha visto.
Estava usando um vestido vermelho que brilhava, como se pérolas tivesses sido coladas. Os cabelos suavemente caindo nos ombros. Os olhos eram perfeitos. E o sorriso quase que me faz voar até ela. Assim que a tal mulher chegou perto de mim, fiquei sem palavras. Mas Annabeth disse:
– Hã... quem é você?
– Não vai me convidar para sentar? – perguntou a mulher.
– Percy – disse Annabeth – Eu... – ela olhou pra ele. Percy estava babando. Eu não podia estar melhor. Meu queixo teria caído no chão se pudesse.
– Meninos! – chamou Annabeth.
– Hã... uuhhh. – nós respondemos.
A mulher riu.
– Que gentil. Estou aqui para conversar com Raphael.
– E-Eu? – gaguejei.
– Sim.
– Quem é você? – perguntou Dandara.
– Creio que logo descobrirão. – A mulher se sentou perto da gente. Percy e eu estávamos babando, quando Annabeth nos deu um beliscão tremendo.
– Aaaii! – gritamos.
– Pra ver se acordam. – disse ela. – Você com certeza deve ser Afrodite.
– Muito bem filha de Atena. – respondeu Afrodite.
– Você é... Afrodite? – falei surpreso.
– Por que a surpresa jovem meio-sangue?
– Não... Nada. – Eu não queria falar, mas estava surpreso por estar vendo uma deusa grega de verdade bem na minha frente. Eu não sabia se eu devia me ajoelhar ou fazer algum tipo de reverência.
– Vim aqui para pedir um pequeno favor ao Raphael. – disse ela.
– Peça o que quiser. – falei.
– Que cavalheiro. – ela sorriu. – Queria pedir que você salvasse minhas filhas. Vocês irão encontra-las.
– Como vou saber quem são elas?
– Você saberá quando chegar a hora. – disse ela calmamente. – Creio que elas ainda desconhecem a sua verdadeira identidade. Mesmo assim, tenho observado alguns monstros tentando matá-las.
– Pode deixar com a gente. – falou Grover.
– Quem sabe elas consigam partir o coração de vocês. Vai ser tão romântico. – ela pôs as mãos no peito. – Obrigada a todos!
Ela sorriu, o que me fez enrubescer.
– Também tenho outra coisa para dizer. – Ela olhou para Annabeth. – Você deve ser muito bonita e cativante para que dois homens estejam afins de você.
– O quê? – disse Annabeth.
– Hã... – eu disse. Percy olhou para baixo.
– Queria que uma das minhas filhas pudesse estar no alvo de dois homens ao mesmo tempo. – murmurou Afrodite.
– Mas... quem está afim de mim? – perguntou Annabeth.
– Oh, que fofo! Você ainda não sabe? – falou Afrodite pondo as mãos no queixo. – Eles têm uma paixão por você. Mas não tem coragem de admitir. Mas essa...
– Ah, está certo. – interrompeu Percy. – Nós iremos salvar suas filhas.
A garçonete veio com uma bandeja cheio de Hambúrgueres, Pastel e Lasanha.
– Aqui está. – disse ela. – Agora, se vocês não tiverem dinheiro, vou expulsar vocês daqui debaixo de peia.
– Mas nós temos dinheiro. – ergui a sacola da Fúria, e tirei de lá algumas notas de dez. – Isso serve?
Ela pegou o dinheiro, e nos olhou suspeitamente.
– Vocês roubaram algum banco?
– Não, não roubaram. – disse Afrodite. – Agora vá! E seja boazinha de hoje em diante.
A garçonete piscou.
– Sim. – disse ela, e saiu cantarolando.
– Nossa. Como fez isso? – perguntei.
– Algumas habilidades minhas. Bem, acho que vou indo. E não se esqueça do meu pedido Raphael. Vamos ver o quanto você é determinado.
Ela saiu da Lanchonete e simplesmente sumiu. Ficamos em silêncio durante algum tempo.
– Hum... Está uma delicia. – disse Grover comendo o papel encerado.
– Bem, mais um problema na nossa lista. – disse Dandara. – salvar as filhas de uma deusa.
– Enquanto isso, vamos comer. – Percy atacou sua comida.
– Ah. De repente perdi a fome. – falei. – Não sei, eu... Temos muitas coisas para fazer. E ainda mais essa agora. Temos que resgatar Israel. Ele está em perigo.
– Não se preocupe. – disse Grover de boca cheia. – Nós vamos conseguir. Nós sempre conseguimos.
– É. Além do mais... – disse Percy mastigando seu X-Burger. – Temos muito dinheiro. Vamos conseguir.
Senti-me grato por eles estarem me acalmando. Mas minha calma durou pouco tempo. Quando eu olhei pelo vidro da lanchonete, vi andando em nossa direção um homem com roupas esfarrapadas e com uma cara maligna. Engasguei-me com meu coração que foi parar na minha garganta.
Era o motorista do ônibus. Aquele motorista louco e monstruoso que quase nos sequestrara. Baixei minha cabeça.
– Gente. – sussurrei. – Precisamos ir embora.
– Nem a pau. – disse Dandara. – Esse pastel está uma delicia.
– Vocês já viram quem está vindo pra cá? – falei assustado.
– Não. Quem?
Apontei para o lado de fora. Dandara deixou cair seu pastel. Um pedaço de hambúrguer caiu da boca de Percy.
– Ah meus deuses! É o motorista louco. – sussurrou Grover.
– Vamos embora. – falou Dandara.
– Ah, é mesmo? – disse eu.
– Não. Vamos ficar aqui. Quem sabe ele não nos vê? – sugeriu Annabeth.
– E quem sabe ele nos vê? – respondi. – Temos que sair.
– Se sairmos, ai que ele vai nos ver mesmo.
– Se ficarmos, ai que ele vai nos matar mesmo.
– Chega! – disse Percy. – Annabeth, tem certeza de que ele não vai vê a gente?
– Bom... Pelo menos ele não vai me vê. – ela tirou seu boné dos Yankees do bolso e colocou na cabeça. Na mesma hora, ela ficou invisível.
– Ótimo. – reclamei. –Tem mais desses bonés?
– Gente, silêncio. Ele esta chegando! – avisou Dandara.
Abaixamos nossas cabeças.
O motorista entrou na lanchonete. Ele olhou em volta, e foi até a fila de pedidos.
– Vamos! – sussurrei. – enquanto ele está ali.
– É seguro? – perguntou Grover com medo.
– Sim é. – respondeu Annabeth invisível. Ela empurrou Percy e eu para fora do banco. – Vão!
–Está bem. – disse Percy bruscamente.
Percy e eu andamos de fininho em direção ao lado de fora. O monstro-motorista estava falando alguma coisa com a nossa garçonete abusada.
– Venham! – chamei.
– Já estou aqui. – disse Annabeth ao meu lado. Levei um susto tão grande que gritei. Todos olharam para a gente. Até o motorista maluco. Ele rosnou e deu um sorriso maldoso.
– Essa não! Corram! – gritei para Grover e Dandara. Eles se levantaram da mesa e correram até nós. Grover pegou um copo de vidro de uma mesa e jogou na cabeça do monstro. Ele rugiu.
– Meu Deus! – falaram algumas pessoas da lanchonete. – Como ousam fazer isso com este senhor?
O monstro avançou em nossa direção. Nós corremos para longe dele.
– Vou despedaçar todos vocês! – berrou ele. Corríamos e desviávamos de carros, pedestres, e carrinhos de pipoca.
– Por aqui! – apontou Annabeth a nossa direita. Entramos numa rua larga, com casas grandes e luxuosas.
De repente, o monstro arrancou suas roupas, e se transformou em um monstro feio e gigante. Corpo de leão com a pele alaranjada. Garras afiadas e uma cauda espinhosa e longa. Mas a cara ainda era humana.
– Uma manticore! – gritou Annabeth.
– Sabia que tinha visto aquela pata laranja em algum lugar. – disse Percy.
Várias pessoas na rua gritavam e se afastavam da gente. A manticore atirou um espinho de sua cauda, que passou perto de minha cabeça. Sacamos nossas armas. Dandara pegou uma flecha de sua aljava, mirou e atirou no monstro. Quando a flecha o atingiu, soltou um gás amarelo. A manticore começou a tossir.
– O que você fez? – perguntei.
– Atirei uma flecha de peido. – sorriu Dandara. Se eu não tivesse correndo tanto, e apavorado, teria me acabado de rir. Mas pelo menos deu-nos tempo de achar um lugar para nos esconder.
Viramos em uma esquina, e sem querer, nos esbarramos com uns adolescentes.
– Ai! Olhem para onde anda! – disse uma menina massageando a cabeça.
– Vocês estão fugindo da policia é? – disse outra garota irritada.
– Ai minhas costelas. – gemeu um garoto.
– Desculpem! – eu disse.
– Podem nos ajudar? – pediu Dandara. – Há um...
– Dandara, eles não podem nos ajudar. – falou Annabeth. – Vamos, temos que ir.
– Por que não podemos ajudar? – Perguntou à garota que bateu a cabeça. Ela era loira, com os olhos escuros e pele branca. Vestia um short curto jeans, e uma camisa regata laranja.
A outra menina era mais alta. Cabelos pretos em um rabo de cavalo, e pele parda. Olhos escuros. Vestia uma calça Jeans, blusa branca e sapatilha rosa. Enquanto que o garoto era magro, olhos claros e cabelos também claros. Pele parda e estava vestido de forma casual.
Dandara implorou.
– Quando virem algum sujeito estranho, por favor, o despistem.
– Um sujeito estranho como? – perguntou a garota.
A outra menina arregalou os olhos e apontou para trás de nós.
– Como aquilo?
Viramo-nos, e vimos o monstro vindo em nossa direção.
– É, como aquilo! – murmurou Percy.
Todos nós gritamos e corremos juntamente com nossos novos companheiros mortais.
– O que um leão está fazendo solto por aqui? – perguntou assustado o garoto.
– Eu não sei. – disse Grover.
– Eu acho que escapou de algum zoológico. – disse a outra garota loira.
A manticore lançou espinhos em nossa direção. Percy desviou alguns no ar. Dandara atirava flechas, mas ele as desviava. Então Annabeth teve uma ideia genial.
– Separem-se!
– O quê? – eu disse.
– É o único jeito.
Chegamos a uma rua com varias saídas. Quando o monstro investiu na gente, nos separamos.
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