E Se fosse verdade?
9 Um Estranho vem me Visitar
– E então? – perguntou Quíron quando voltei ao pavilhão-refeitório. Todos já haviam se dirigido para os seus chalés. Ninguém estava lá, exceto Percy, eu, Annabeth e Quíron. Estava escuro sem a luz da fogueira ardendo no centro do pavilhão. Olhei para Quíron que estava esperando uma resposta.
– Bem, ela falou comigo. – eu disse. Lembrar-se do Oráculo me dava arrepios. Aquela voz na minha cabeça, e aquelas palavras que ela falou.
– Diga-nos exatamente o que o Oráculo lhe falou. – pressionou Quíron.
– Ahn, ela disse que cinco irão para o Sul, até o grande navio.
– Para o Sul? – perguntou Annabeth. – Por que?
– Ela não disse. E também disse que uma surpresa nos aguardaria, e que do navio nós fugiríamos.
– O navio de Luke. – falou Percy. – Só pode ser. Só não gostei da parte da surpresa.
– Mais alguma coisa? – pressionou Quíron.
– Ah... – Não queria contar a ele sobre essa linha. O raptado se revoltará. Tinha certeza de que o raptado era Israel, mas por que ele iria se revoltar? Ah, e eu seria tentado a destruir meus familiares. Como assim? Eu jamais faria isso.
– Ela disse que sem ajuda, eu iria falhar, e com meio-sangues desconhecidos eu irei voltar.
– Meio-sangues desconhecidos? – Annabeth perguntou surpresa. – Como assim?
– É só isso? – perguntou Quíron.
– Sim, isso é tudo. – falei me sentindo culpado por esconder uma parte da profecia. Quíron olhou nos meus olhos.
– Bem Raphael, digo pra você o que falei para Percy durante sua primeira missão. Não se fie demais nas palavras do Oráculo. Elas provavelmente têm duplo sentido.
– Certo. – falei. – E agora, o que nós fazemos?
– Descanse. – disse Quíron. – Vá dormir, por que amanha vamos dar inicio a sua primeira missão.
Despedimo-nos de Quíron. Annabeth chegou ao meu lado e me perguntou quem eu escolheria para a minha missão. Respondi que iria pensar. Dei tchau a ela e fui com Percy para o nosso chalé.
No chalé, a gente dormia em um beliche. Percy dormia embaixo e eu em cima. Quase não peguei no sono aquela noite. Só me lembrando das palavras do Oráculo. Mas por fim, o sono ganhou.
Naquela noite tive um sonho diferente. Eu estava na beira de um buraco muito grande e escuro. Ele era imenso. O lugar era totalmente escuro e frio. Não conseguia respirar direito. De repente uma voz falou:
– Você deve ser o novato filho de Poseidon. – Tremi de medo. A voz era grave e ancestral. Parecia uma lâmina raspando contra a pedra. – A caminho de uma missão para resgatar seu pobre amigo filho de Zeus. – a voz riu. – Não seja tolo menino. Seu amigo está do lado vencedor. Seu pai não se importa com você. Ele não liga para você. Junte-se a nós. Você irá ver o quanto os deuses são ignorantes. Mas se você quer ser mais um inimigo na minha lista, fique a vontade. – A voz começou a rir cruelmente.
Eu fiquei escutando, quando o sonho mudou. Eu estava novamente no grande navio. Vi Israel amarrado ainda na cadeira. Ele estava sozinho. Tentei andar até ele, mas eu não me mexia. De repente a porta se abriu, e Luke, o cara com a cicatriz, entrou com seus dois homens-peludos de cada lado.
– E então? – ele perguntou. – Você já escolheu?
– Não! – Berrou Israel. – Me tire daqui! Vocês são um bando de loucos mitológicos.
Luke suspirou.
– Acha que seu pai se importa com você? O que você irá fazer depois que sair daqui? – Ele andou pela sala. – Voltar aquele acampamento estúpido, e ficar treinando e treinando para que um dia eles o joguem numa missão idiota!
– Você parece que já esteve lá no acampamento. – disse Israel.
– Ó sim, eu já estive lá. Na verdade, eu já fui de lá. Eles treinam meio sangues como nós, só para sair em missões inúteis e fazer algum favor para os deuses. – Ele olhou para Israel. – Depois do favor que a gente faz, os deuses nos ignoram, e nos tratam como lixo.
– O quê? Mas como?
– Por isso que quero destruir o Olimpo. Nós iremos trazer de volta o Lorde Titã Cronos, e é ele quem vai governar em diante.
– Cronos? – perguntou Israel surpreso. – O pai dos deuses? Ele esta vivo? Mas ele não foi picado em pedacinhos por um machado e jogado no Tártaro?
– Ele está retornando. – Disse Luke. – Vou trazer ele de volta. Ele vai ensinar aqueles arrogantes um pouco de humildade. Destruirá os deuses para sempre! – Gritou Luke.
Saí correndo da sala em que Israel estava. Fui para a popa do navio, e observei o mar na escuridão da noite. O navio estava navegando velozmente. Queria saber onde eu estava no sonho.
Foi quando eu soube. Eu soube exatamente onde eu estava. Soube também a velocidade do navio, e em que direção devia seguir. Soube as coordenadas do local em que eu estava. As latitudes e longitudes. Tudo! Fiquei maravilhado. Como eu estava sabendo aquilo tudo? Quando infelizmente, uma mulher-serpente verde e asquerosa apareceu diante de mim, e sibilou furiosa.
Acordei assustado. Meu coração estava acelerado. Olhei pela janela do chalé. Ainda estava de noite. O barulho das ondas vinha a distancia. Ouvi uns grunhidos e ruídos lá fora. Olhei para Percy embaixo de mim. Achei estranho, pois ele estava babando. Franzi a testa. Não sei por que, mas tive vontade de sair do chalé. Tentei descer o beliche com o mínimo barulho possível, mas de nada adiantou, por que eu escorreguei no piso liso e larguei as costas no chão.
Tampei minha boca.
– Aaaaaiii! – Gritei por dentro da mão. Percy se mexeu, mas não acordou. Levantei tentando não berrar, e saí do chalé.
Eu sabia que sair depois do toque de recolher era contra as regras. Mas eu estava com vontade de fazer uma coisa desde que eu fora reclamado filho de Poseidon. Então, fui de fininho em direção à praia.
Chegando lá, observei o mar. As ondas se quebrando, vindo até os meus pés. Andei pela praia, me sentindo ótimo. Será mesmo que aquilo podia ser possível? Resolvi tentar. Andei para frente até os meus pés estarem submersos nas águas. Concentrei-me. Eu me imaginei levantando a água do mar. Senti uma dor nas minhas entranhas. Quando abri os olhos, mal pude acreditar no que via.
Eu estava controlando a água com as mãos. Uma parte dela se levantou e ficou pairando no ar, só com a força de minha vontade. Eu estava impressionado. Isso é incrível! Eu pensava. Quando de repente alguém disse:
– Espetacular!
Assustei-me tremendamente. A água voltou a cair no mar. Olhei para o lado, e vi um homem, usando shorts de náilon preto, e camisa branca sem manga. Ele era magro, e tinha a aparência sarcástica. O cabelo cacheado, e os olhos com um tom de brincalhão. Parecia familiar, não sabia por que.
– Eu sempre admirei as habilidades dos filhos de Poseidon. – disse o homem. Ele se aproximou. – Desculpe se lhe assustei.
– Tudo bem. – eu disse, receoso.
Como um homem comum podia entrar no acampamento? Annabeth dissera que não era possível. Será que ele era algum monstro? Mas monstros não podem entrar também. Resolvi perguntar.
– Ahn, quem é você?
Ele me olhou.
– Você não sabe?
– É... por isso que perguntei. – falei, tentando não soar como um ignorante.
Ele se aproximou mais e sentou na areia. Deu um suspiro, e fez aparecer do nada uma garrafa de água. Meu queixo caiu.
– Ah, até que enfim. Um pouco de paz. – ele olhou para mim. – sente-se também.
Sentei, e fiquei observando-o. Ele não podia ser um homem comum. Homens normais não fazem aparecer do nada, garrafas de água. Pelo o que eu sabia.
– Sabe, algum tempo atrás – ele falou. – Eu visitei nesse mesmo lugar, o garoto Percy. Que, a propósito, é seu irmão agora não é?
– Sim.
– Bem, eu o ajudei em sua missão, dando a ele alguns presentinhos.
– Ah. – falei, ainda querendo saber como ele veio parar aqui.
– Na verdade, quis que ele salvasse um dos meus filhos, que infelizmente, foi para o lado inimigo. – disse ele com tristeza.
– Ah. Sinto muito. – eu disse. – Mas, quem é seu filho?
– Você irá conhecê-lo. Estou aqui para aproveitar esta outra oportunidade.
– Outra oportunidade? – perguntei.
De repente, ouvi um celular tocando. O homem tirou-o do bolso. Era um telefone-celular. Ele puxou a antena, e duas coisinhas minúsculas estavam se enroscando e se mexendo. Ele atendeu.
– Alô? Sim sou eu. Mas agora não dá, estou numa conversa importante. – ele revirou os olhos. – Diga a Atena que pare de me encher com tolices. Agora preciso desligar.
Ele se voltou pra mim.
– Desculpe Raphael, problemas em toda a parte. Sim... Onde estávamos mesmo? – Foi quando uma vozinha masculina estridente falou em minha cabeça.
Você é o novo irmão de Percy? Nossa, como é feio!
George! – disse outra voz, agora feminina. – Deixe-o em paz! Estamos muito contentes em lhe ver. Prazer querido, meu nome é Marta.
E o meu você já sabe. Você tem algum rato? Sabe, seu irmão ainda não trouxe nenhum pra mim.
Eu estava ficando totalmente confuso.
– Ahn, essas cobras estão falando comigo? – perguntei.
– Quem? Ah, sim. Estes são George e Marta. Eles são meus ajudantes.
– As cobras são seus ajudantes?
Sim. disse George. Por quê? Você não gosta?
– Não. Eu... – tentei falar.
– Não ligue pra ele Raphael. – disse o homem. – Agora, indo direto ao ponto. Você irá a sua missão amanhã de manhã não é mesmo?
– Sim. Estou um pouco nervoso.
– Você irá se acostumar. – ele deu um sorrisinho. – É... Eu gostaria que nessa missão, você não apenas salvasse seu amigo Israel.
– Você quer que eu salve também o seu filho. – eu disse.
– Você é esperto. – ele se levantou, e limpou seu short. – Bem, espero que eu o ajude, assim como ajudei ao seu irmão. E espero que goste do meu presente.
– Que presente? – Olhei para o lado, e vi uma garrafa térmica.
Boa sorte. disse George. E não se esqueça de trazer um rato pra mim ok?
Boa sorte querido. disse Marta. Cuidado com os monstros.
Com isso, o homem pôs seu telefone no bolso, e simplesmente... desapareceu. Conclui com toda a certeza que ele não era um homem comum.
De volta ao chalé 3, eu subi e me deitei na cama. Eu estava com a garrafa térmica nas mãos, e estava pensando: Aquele homem veio me visitar, falou uma porção de coisas, e no fim, me dá de presente uma garrafa térmica. Pra que eu iria querer aquilo? Será que era para tomar café durante a viajem? Pensava. Meus olhos começaram a se fechar. Guardei a garrafa e resolvi dormir.
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