E Se fosse verdade?
33 Três velhas senhoras nos atacam
Notas iniciais
– Esse túnel não acaba nunca? – reclamou Stefferson.
Estávamos andando a mais de meia hora e nada daquele túnel chegar ao fim. O pequeno feixe de luz parecia estar cada vez mais longe.
Eu estava começando a me sentir fraco. Não comia nada desde a caverna daquelas garotas arqueiras. E estava um pouco trêmulo também, o que acontece comigo quando estou com muita fome.
– Calma. – falou Annabeth. – O caminho pelo o labirinto é muito confuso. Você pode andar por um caminho que parece longo, mas pode ser curto. Ou andar por um caminho curto, que pode ser longo.
– Ele faz você ficar louco. – contou Percy. – Confunde sua mente.
– Nossa! Pra variar. – murmurou Igor.
– Vocês sempre andam por aqui? – perguntou Barbara.
– Hã... claro que não. – Percy sorriu. – Se não já estaríamos loucos faz tempo.
– Então como vocês sabem tanto sobre esse lugar?
– Experiência própria.
– Ah.
Voltamos a caminhar em silêncio. Estava começando a ficar cansado de tanto andar. O cheiro de subterrâneo ali era muito forte.
– Ai, eu não aguento mais. – disse Dandara quebrando o silêncio. Ela pegou uma flecha, colocou em seu arco, e mirou no fim do túnel. – Vamos ver se a saída está longe.
E soltou a flecha. Uns quatro segundos depois, ouvimos o barulho da flecha se chocando contra algo.
– Hum... boa ideia. – elogiou Israel.
– A saída está próxima. – falei. – vamos.
Corremos a toda velocidade. Assim que chegamos ao fim do túnel, havia uma rocha bloqueando a porta. Nos cantos, pequenos buracos deixavam entrar uns feixes de luz e ar fresco.
Suspirei, aliviado.
– Ótimo, e agora? – resmungou Israel.
– Bem... Alguém aqui tem poder de super força? – perguntou Percy.
– Não. – murmurou Grover. – Talvez possamos derrubá-la com um empurrão.
– Ah, tá. – disse Marcos. – Acha mesmo que ela vai ceder ao nosso peso?
– Não custa tentar. – insistiu Grover.
Olhamos para Annabeth.
– Hã... bem, não olhem para mim. – disse ela.
– Você é a líder. – falei.
– Não. Só sou a guia.
– Mas você tem mais inteligência que nós. – replicou Igor.
– Ei, está chamando a gente de burro? – perguntou Matheus.
– Não!
– Ok! – interrompeu Annabeth. – Vamos à ideia de Grover. Empurrar essa pedra.
Nos preparamos.
– Quando eu der o sinal. – avisou ela. – Já!
Corremos em direção a pedra com toda a força. Na primeira tentativa não deu certo. Na segunda... ainda não. Mas na terceira, quando empurrávamos com toda a força... também não deu.
Sentamo-nos no chão, exaustos. A esperança dentro de mim estava quase se apagando.
– Ah, fala sério. – resmungou Igor. – Andamos isso tudo, enfrentamos monstros, lutamos contra uma mulher que pariu um touro, para ficarmos presos aqui?
Sem querer, dei uma risada alta.
– Pariu um touro. – comecei a rir.
Annabeth olhava em redor. Ela enxugou o suor da testa.
– Pensem positivo, temos uma chance de derrubar essa rocha.
– Como? – perguntou Marcos.
– Ah, não sei. Vamos tentar um de cada vez certo? Cada um usa suas habilidades para tentar tirar essa pedra do caminho.
A ideia pareceu boa. Todos nós concordamos.
– Ok. Quem vai primeiro? – perguntei.
– Barbara e Beatriz, se importariam de ir?
– Não... tudo bem. – disse Barbara.
– Bem, tentem usar o charme de vocês. – continuou Annabeth.
– Ok.
Elas ficaram em frente à rocha.
– Hã... olá? – disse Beatriz. – Dá para sair da nossa frente?
A rocha não respondeu, o que achei bom.
– Tente com mais firmeza. – insistiu Annabeth.
– Saia da frente, anda! – exclamou Barbara. – Role para o lado sua rocha estúpida.
Nada aconteceu.
– Tudo bem, voltem.
– Minha vez. – Dandara se levantou. – Vou ver se consigo...
– Atirar flechas nela? – sugeriu Igor.
Dandara olhou para ele.
– Não.
– Ah, tá certo.
– Quero ver se consigo...
– Já sei. – disse Grover. – Por que um de vocês, filhos de Poseidon, não provocam um terremoto?
– Isso, e soterra a gente aqui embaixo. – resmungou Matheus.
Grover fez uma careta para Matheus.
– É uma boa ideia Grover. – concluiu Annabeth. – Mas Matheus também tem razão. Pode ser muito perigoso.
– Não se eu fizer um bem leve. – retrucou Percy. Ele olhou para Annabeth. Dava para ver que ela confiava nele.
– Ok. Tudo bem. – suspirou ela. – Só não tente destruir todo o labirinto.
Percy sorriu. Ele encostou as mãos na pedra que estava impedindo a nossa saída, e fechou os olhos. Depois de uns segundos, o labirinto começou a tremer. Uma poeira fina começou a cair do teto.
– Hã... tem certeza de que nós não vamos ser soterrados? – perguntou Israel.
Percy estava começando a suar.
– Alguém tenta empurrar. – gemeu ele. Stefferson avançou á frente e começou a empurrar a grande pedra. Saquei minha espada e a finquei no canto, onde havia um buraco, e empurrei a espada para o lado, tentando fazer com que a pedra rolasse. Marcos, Matheus e Igor empurravam constantemente, quando finalmente, ela caiu para trás e se despedaçou quando caiu no chão.
– Ah, graças aos deuses! – exclamou Grover.
– Ufa! Pensei que íamos ficar presos. – disse Israel.
A luz do sol quase que me cega. Tive que abrir os olhos bem devagar para focar o que havia em redor.
Primeiro, notei que estávamos na encosta de uma montanha enorme. Achei aquilo muito estranho. A nossa frente havia areia com um pouco de capim. O ar era fresco e agradável. Respirei fundo, sentindo aquele cheiro de natureza. Parecia que não havia nada ali além de areia e capim.
A uns cinco metros á frente havia uma pista. Um carro passou de repente a toda velocidade. Olhei para os meus amigos.
– O que vocês acham?
Dandara deu de ombros.
– Acho melhor do que o labirinto.
– Ah, a natureza. – suspirou Grover. – O melhor lugar para se estar.
– E agora? – perguntou Igor.
– Vamos andando. – disse Annabeth. – Ver se há algum restaurante para comermos. Estou morrendo de fome.
– Sim! Concordo! – falei, imediatamente.
Andamos em direção à pista. De lá, dava para ver o quanto o caminho era longo. Havia uma ladeira de asfalto a nossa esquerda, e depois uma subida, como uma montanha-russa.
– Se um carro estava indo naquela direção, – disse Percy pensativo. – é melhor nós irmos também.
Assentimos, e fomos percorrer o longo caminho.
***
Depois de andarmos muito, muito e muito mesmo, chegamos à pequena cidade. Não havia muitas pessoas na rua. Eu não sabia onde estávamos. Tudo o que eu queria era comer.
Finalmente, achamos uma lanchonete. Havia poucos clientes, como dois casais, três senhoras, quatro jovens e duas garotas. Entramos e sentamos.
Igor gemeu.
– Que fome! Minha barriga parece que está comendo ela própria.
– Nossa! – disse Percy. – Uma barriga canibal.
Nós rimos. E continuamos a rir loucamente. Acho que a fome estava afetando os nossos cérebros. As três senhoras que estavam á nossa frente, nos olharam.
O garçom chegou para anotar os nossos pedidos. Tentamos falar com ele, mas ele não entendia. Acho que ainda estávamos no Brasil, ou em algum outro lugar que eu não sabia. Então Marcos falou com o garçom, que entendeu e anotou o nosso pedido.
Enquanto a pizza estava sendo feita, um pensamento horrível, terrível, monstruoso e catastrófico, chegou a minha mente.
– Hã... Galera. – murmurei. – Por acaso vocês não estão se esquecendo de nada?
Todos pensaram.
– Não. De quê? – perguntou Beatriz.
– Di-nhe-i-ro. – falei pausadamente.
Marcos arquejou.
– Não temos dinheiro?
– O quê? – exclamou Israel.
– Como assim? – Barbara juntou as sobrancelhas. – Sem dinheiro? Mas então por que vocês vieram pra cá?
– Não sei. – falei, tentando me desculpar. – A fome me guiou.
As três senhoras que estavam a nossa frente riram.
– Ingênuos. – murmurou uma delas. – Tão fácil atraí-los.
– Sim. – sibilou outra. – São fáceis de atrair, e fáceis...
Ela se levantou.
– DE MATAR! – grunhiu ela. Um chicote flamejante apareceu nas mãos dela, e em um golpe, partiu a nossa mesa em duas.
– Aaaahh! – berrou Dandara. Todos na lanchonete saíram correndo aos gritos. Todos os meus amigos caíram no chão. Agora, as três senhoras não eram mais três senhoras, eram velhas e enrugadas com asas de morcego e cara maligna.
– As Fúrias! – gritei.
– Ah, meu Deus! – gritou Beatriz tentando se levantar.
– Idiota! – rosnou a primeira Fúria para a outra. – Não era para atacar agora!
– Eu disse a ela. – murmurou a terceira.
– Eu não consegui aguentar. – resmungou a segunda. – Eles estavam no papo.
Enquanto elas conversavam, todos nós nos levantávamos.
– Se você tivesse me escutado, eles estariam mortos agora. – sibilou a primeira.
– Corram! – gritou Matheus.
Corremos para fora da lanchonete o mais rápido que podíamos.
– Eles estão fugindo! – rosnou a terceira Fúria.
– Não adianta correr. – disse Annabeth. – Elas vão nos alcançar. Temos que lutar.
Sacamos nossas armas.
– Fiquem juntos. – avisou Percy. – Não deixem que elas nos separem.
Elas vinham em nossa direção, gargalhando.
– Não fujam queridos. – a primeira Fúria deu o bote. Dandara atirou sua flecha, mas ela se desviou. A outra veio para cima de mim. Me agachei e rolei para o lado.
– Parem! – gritou Beatriz.
– Seu charme é inútil. – riu a segunda Fúria, que avançou com seu chicote em direção a ela.
– Não! – gritou Barbara, mas foi tarde demais. Beatriz tentou correr, mas a Fúria deu uma chicotada nas costas dela.
– Beatriz! – gritou Dandara. Israel ergueu sua espada e invocou um raio, que em vez de atingir a sua espada, atingiu a Fúria em cheio na cabeça. Ela evaporou instantaneamente.
– Você vai pagar por isso! – rosnou a primeira, e lançou o chicote em Israel, que se prendeu a suas pernas.
– Aaaii! – gemeu Israel. – Quente!
Comecei a ficar furioso. Dandara estava com Beatriz em seu colo, enquanto Grover tentava tirar o chicote das pernas de Israel.
– Vou mata-las! – Stefferson gritou. A terceira Fúria mergulhou em um ataque a Stefferson, mas ele pegou uma pedra e a jogou no rosto da bruxa velha.
– Aarrgh! – ela despencou no chão. Igor aproveitou e fincou suas duas espadas no corpo dela, que explodiu em poeira. Só restava uma.
– Venha! – Gritou Percy. – desça aqui sua covarde.
– Acho que não. – cacarejou ela. – Mas vai haver uma próxima vez. Aguardem!
Ela bateu suas asas e estava indo embora, quando Barbara rosnou:
– Você não vai á lugar algum! Pare!
A Fúria obedeceu. Ela rangeu os dentes.
– Não pode me controlar.
– Venha até aqui!
– Não! – gritou ela, mas estava vindo mesmo assim.
– Você vai pagar pelo o que fez a minha irmã. – os olhos dela estavam com um ar selvagem. Eu nunca a havia visto assim, e deu medo.
– Me deixe ir! – berrava a Fúria.
– Vá para o Tártaro! – Barbara tomou a espada das minhas mãos, se virou para a ex-senhora e a partiu ao meio. Ela se desintegrou em um grito estridente.
Estávamos ofegantes e suados. Fomos em direção a Beatriz.
– Como ela está? – perguntou Annabeth se ajoelhando perto.
– Mal. – respondeu Dandara trêmula.
Beatriz gemia de dor.
– Está... doendo... muito. – ela estava respirando dificultosamente.
– Ambrosia! – gritei. – Alguém tem?
Percy verificou seu saquinho de emergência. Havia somente metade de uma. Mesmo assim ele deu a ela.
– Acho que metade não vai fazer muito efeito. – murmurou Annabeth.
– Eu posso ajudar. – Grover pegou sua flauta de bambu e começou a tocar. A cor do rosto de Beatriz ficou mais forte. Dandara a virou, e a sua camisa estava com um rasgo grande nas costas. Pude ver uma longa cicatriz de queimadura.
– Consegue andar? – perguntou Igor a ela.
– Não. – gemeu Israel atrás de nós. – Mas obrigado por se preocuparem comigo.
– Israel, é verdade. – eu nem me lembrei de que ele também estava ferido nas pernas com uma queimadura. Ajudei-o a se levantar.
– Vamos voltar para a lanchonete. – disse eu.
– Vamos. – assentiu Annabeth. – Depois, nós teremos que achar um jeito de voltar para o labirinto. Gostando ou não.
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