E Se fosse verdade?
7 Pegamos uma Bandeira
Notas iniciais
Cheguei ao pavilhão quando todos os campistas estavam se armando para começarem. Todas as mesas estavam repletas de escudos e armaduras gregas.
Eu ainda não estava acreditando no que havia visto lá embaixo no chalé. Estava ofegante e com o coração acelerado. As mãos tremendo. Sentei a mesa de Hermes. Quíron veio galopando ao meu encontro.
– Raphael – disse ele. – Estive procurando por você. Onde esteve?
– Ahn... Em lugar algum – menti. Estava com medo de contar a alguém o que eu havia visto. Se eu contasse, certamente Israel e a garota do chalé iriam ser castigados.
– Bem, vamos indo – disse Quíron com um sorriso. – Escolhi uma espada e um escudo para você.
Quíron me levou pelo pavilhão. Percy veio correndo em minha direção.
– Ei – ele disse. – Você está na nossa equipe. Dessa vez somos aliados de Apolo, Hesfesto, Atena e Hermes.
– Ah. Tudo bem. – disse um pouco receoso olhando para as armaduras gregas, espadas e escudos. – Vou ter que usar isso mesmo? – falei apontando para as armaduras.
Percy me olhou.
– Vai. A não ser que queira ser espetado.
– Heróis.– disse Quíron no centro do pavilhão. – Vocês conhecem as regras. O riacho é o limite. Nada de matar, aleijar ou mutilar. Quem violar as regras vai ser punido. Vou ser médico e juiz de vocês. Armem-se!
Todos se prepararam. Colocando capacetes, armaduras, espadas e escudos. Percy me deu meu capacete. Tinha um grande penacho azul em cima. O time de Ares, e os demais, tinha penachos vermelhos.
Quando coloquei o capacete, quase tombei com a cabeça. Percy me disse que eu ia se acostumar com isso. Ele me deu minha espada e escudo que Quíron tinha escolhido. A espada era de bronze, era longa e pesada, com o cabo envolvido em couro. Meu escudo parecia uma tampa de tambor de roupa suja. Só que sendo mil vezes mais pesado, com um caduceu no meio e feito de bronze.
Fomos correndo para dentro dos bosques, onde o jogo seria. Vi Annabeth correndo. Fui até ela.
– Ei, é... O que eu faço nesse jogo? Temos algum objetivo?
Ela me olhou como se eu tivesse batido nela.
– O objetivo do jogo é capturar a bandeira. – falou ela ainda correndo.– Vamos capturar a bandeira do time adversário, ou seja, Ares.
Ela me disse que Ares havia feito aliança com os outros chalés. Deméter, Afrodite e Dioniso. Estremeci, lembrando-me do que Clarisse me dissera.
– Você pode ficar junto com o Percy. – disse ela. – Faça o que ele disser.
Entramos nos bosques. As árvores eram altas e largas. O ambiente escureceu ainda mais quando adentramos a floresta. Pude ver vaga-lumes piscando e sumindo, e o som de um riacho a minha direita. Estava me sentindo estranho usando uma armadura. Nunca tinha experimentado aquilo. Era pesado, e ficava difícil se movimentar. Com uma espada e um escudo nas mãos, me senti como naqueles filmes gregos de guerra.
Annabeth me direcionou a seguir Percy. Fui junto dele para um pequeno regato que tinha lá.
– Foi aqui. – disse ele.
– Foi aqui o quê? – perguntei.
– Que Poseidon me reclamou como filho. E onde eu quebrei a lança de Clarisse. – disse ele com um sorrisinho.
– Ah. Legal. É aqui que a gente vai ficar?
– Não. Vamos indo.
Enquanto andávamos até a nossa posição, não pude deixar de pensar no que havia acontecido naquele chalé. O que Israel estava fazendo agora? Com certeza terminado o belo “trabalho” dele com a menina. Não sei por que, mas estava me sentindo desconfortável quanto aquilo.
Assim que chegamos a nossa posição de combate, pude ouvir Quíron dando inicio ao jogo. Escutei gritos e metais se chocando. Espadas tilintando umas nas outras. Confesso, estava com um pouco de medo. Será mesmo que alguém poderia nos machucar de verdade? Era apenas um jogo, uma brincadeira, certo? Não poderia alguém nos ferir de verdade.
Avistei três campistas da nossa equipe correndo para o lado inimigo. Perguntei a Percy se não era para a gente correr junto com eles. Ele pensou por um momento, e depois assentiu. Corremos, tentando fazer o mínimo barulho possível, e nos escondemos atrás de uma moita.
– Se você ver alguma oportunidade de pegar a bandeira, vá. – sussurrou Percy. – Senão, deixe comigo.
– Beleza. – respondi. Estava me sentindo bem naquela hora. Eu podia pegar a bandeira da equipe de Ares e ganhar o jogo. Seria muito legal. Andamos mais alguns metros. Barulhos de espadas e escudos estavam vindos de todos os lados. De repente, vi a bandeira. Estava lá, sem ninguém para guardá-la.
– Ali! – disse eu baixinho. – Estou vendo a bandeira.
– Consegue chegar até ela? – perguntou Percy.
– Acho que sim.
Estava pronto para correr, quando um garoto do time de Ares apareceu do nada atrás de nós. Ele desferiu um golpe com a espada na minha direção, e teria me feito em pedaços, mas eu ergui meu escudo e consegui me defender. Ele tentou me espetar na costela, mas Percy o chutou na canela. O cara bateu o escudo no rosto de Percy, que cambaleou e caiu de costas. Peguei minha espada e tentei lhe dar um golpe, mas ele era bem treinado. Abaixou-se e fez um corte na minha coxa com a espada. Minha perna inteira ardeu de dor. Caí de joelhos e tentei acertá-lo na coxa também, mas ele chutou minha espada.
Pensei que eu estaria morto, quando Percy chegou e deu um empurrão nele derrubando-o.
– Vai! – disse Percy. – Pegue a bandeira!
Peguei minha espada e corri. O garoto de Ares tentou correr atrás de mim, mas Percy estava deixando ele muito ocupado lutando. Estava correndo e mancando por causa do corte na coxa. Corri muito, olhando para os lados, e tentando não cair com o peso da armadura. Estava quase me aproximando da bandeira quando quatro guerreiros de Ares surgiram de repente. Reconheci imediatamente Clarisse no meio dos três.
– Olhe quem está aqui. – disse ela fingindo surpresa. – Indo a algum lugar?
– Sim. – eu disse. – Indo pegar uma bandeira. – e parti pra cima. Estava me sentindo mais corajoso do que antes. Meus sentidos estavam aguçados. Tentei derruba-la com o escudo, mais Clarisse saiu do meio. Talvez ela pensasse que eu passaria direto por ela e caísse, mas eu peguei a bandeira e saí em disparada.
Por azar, deixei cair o escudo.
– Peguem ele! – gritou Clarisse.
Não estava correndo muito rápido por causa do corte, mas estava fazendo o máximo que podia. Um guerreiro de Ares me alcançou e tentou me derrubar, mas cortei o penacho do capacete dele. Ele recuou. Continuei correndo, mas Clarisse era rápida. Ela jogou o escudo dela em mim. O escudo me atingiu com tanta força que eu caí.
Tentei levantar, mas Clarisse pegou a bandeira das minhas mãos.
– Querendo dar uma de Herói? – perguntou ela. – Você não vai conseguir levar essa bandeira.
– É o que veremos. – murmurei. Pus-me de pé para lutar, mas um deles fez um corte no meu braço com a espada. Gani e recuei segurando o local do ferimento. Estava ficando fraco.
– Não vale machucar. – gemi. Eles riram estupidamente.
Sabia que não poderia lutar contra quatro de uma vez. Então, fiz uma coisa bastante genial: Eu corri. Esqueci completamente a bandeira. Tudo que eu queria era sair desse jogo maluco. Ouvi-os me perseguindo. Estava em desvantagem, só tinha minha espada e ainda era mal equilibrada. Estava sangrando na coxa e no braço, quando tropecei em alguma pedra e caí. Os guerreiros de Ares me cercaram.
– Acabem com ele! – berrou Clarisse.
Pensei, bem é o fim, quando finalmente alguém da minha equipe veio ajudar. Um guerreiro do time aliado chegou e empurrou um dos guerreiros de Ares. Não sei quem era, mas me salvou de eu ter sido fatiado. Levantei-me e fiquei em guarda. Clarisse veio na minha direção com sua lança, mas eu desviei com um golpe de minha espada. O garoto aliado estava lutando contra os outros irmãos de Clarisse.
Pensei que eu tinha uma chance de derrota-la, mas estava enganado. Clarisse era uma incrível combatente. Ela empunhou sua lança e me atingiu no ombro. Se eu não tivesse usando uma armadura, a lança teria se cravado no meu corpo. Mesmo assim, quando a lança me atingiu, senti um choque doloroso percorrer o meu corpo. Meus braços ficaram dormentes, minhas pernas fraquejaram.
Eletricidade. Aquela lança idiota era elétrica.
Recuei assustado, e novamente corri, mas não por muito tempo. Ouvi o som de um riacho a minha esquerda, o pequeno regato que Percy me mostrara. Fui em direção a ele. Meus braços estavam cansados, a espada pesava um milhão de quilos em minhas mãos. Olhei para a água do regato. Poderia pelo menos passar um pouco nos meus ferimentos. Andei até lá respirando dificultosamente.
– Yaaaah! – berrou Clarisse correndo até a mim.
Ela não se cansa? Perguntei-me.
Levantei a espada para atacar, mas ela me chutou no peito e me mandou direto para dentro do regato. Caí espalhando água. Estava bastante surrado, quando de repente, me senti muito mais forte. Meu corpo se encheu de uma nova energia. Fiquei de pé. Meus sentidos ficaram mais aguçados. Sabia o que fazer.
– Isso é o que acontece quando alguém faz piadinhas com os guerreiros do chalé de Ares. – disse ela com um sorriso malvado.
Ela entrou no regato. Me preparei para recebê-la. Assim que ela tentou me atingir novamente com a lança, saltei para o lado e dei um golpe com a espada na parte de trás da armadura dela. Clarisse rosnou e avançou novamente. Com o escudo, ela me empurrou e tentou me eletrocutar novamente, mas eu chutei a lança para longe.
– Ah, seu idiota! – ela correu para recuperar a arma, mas com um golpe eu a derrubei na água.
Nesse momento, escutei uns gritos animados de vários campistas. Olhei para o lado, e vi quatro guerreiros do nosso time correndo e erguendo a bandeira de Ares no alto.
– Não! De novo não! – berrou Clarisse.
Mas já era tarde. Nossa equipe explodiu em vivas e assobios quando a bandeira de Ares chegou à nossa área. A bandeira tremulou e se transformou no símbolo do chalé 11, que era um caduceu. Quando o garoto que estava levantando a bandeira tirou seu capacete, percebi que não se tratava de um garoto, e sim de uma garota. Era Dandara. Fiquei impressionado, pois ela era o guerreiro que me livrou de ser fatiado.
Percy veio correndo até a mim.
– Ei! – disse ele ofegante. – Tudo bem? Como se saiu?
– Bem... eu acho.
– Tentei lhe seguir, mas tinha inimigos demais para eu enfrentar. Você se machucou?
– Não muito. – apontei para o meu braço ferido. Percy arregalou os olhos.
– Hã... – ele ficou sem fala.
– O que foi? – perguntei. Olhei para o meu braço. Não havia corte nenhum. O sangue se fora, e havia uma cicatriz branca, e ela estava sumindo. Não pude acreditar. Olhei para o corte na coxa. Não havia nada.
– Mas... como... – estava ficando muito confuso com aquilo. – Eu tinha um corte na coxa. Sério, e um no braço. Eu não sei como...
– Não pode ser. – sussurrou Percy.
– Não pode ser o quê?
– Ah meus deuses! – gritou um campista apontando para mim.
Todos me olharam e ficaram perplexos. Percy se afastou de mim bruscamente. Olhavam acima de minha cabeça. Olhei também, e não compreendi o que vi. Uma imagem holográfica de um tridente verde, brilhando e cintilando acima de minha cabeça. Todos os campistas começaram a se ajoelhar, assim como fizeram quando Israel foi reclamado. Fiquei olhando de boca aberta enquanto ele desaparecia.
– Está determinado! – anunciou Quíron. – Poseidon. Pai dos cavalos, portador das tempestades e senhor dos terremotos. Salve Raphael Victor, filho do deus do mar.
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